A música que explodia das colunas deu lugar à calmaria exterior e ao tímido chilreio das aves madrugadoras. As luzes intermitentes e o lasers coloridos perderam-se na retina, e o escuro da noite começa a ter os primeiros rasgos de um sol por nascer. A hora do lobo, onde não há fronteira entre o dia e a noite.
Mal abriram os portões da estação de Metro, nós, como os outros animais temporariamente noctívagos, deslizámos cartões e descemos as escadas rolantes, onde já esperavam as carruagens. Tal como lá fora, um relativo silêncio embalava o desfiar dos minutos. Como se o encanto fosse quebrado, caso alguém falasse alto.
Lá estávamos nós, os mesmos de sempre. Exaustos mas mantendo o sorriso da noite. Assim que nos sentámos na carruagem e o Metro iniciou a primeira viagem do dia, quase todos cederam ao apelo pesado das pálpebras e seguiu viagem de olhos fechados. Só eu mantive os olhos abertos, fitando absortamente a sucessão de túneis escuros e luzes difusas das estações. Cada um de nós foi saindo na estação mais conveniente. Quando chegou à minha vez, a madrugada já se anunciava lentamente num rastilho de sol.
Ao fechar as persianas e apagar todas as luzes do meu quarto, tive a sensação que tinha trocado as voltas ao tempo. Como se vivesse num universo paralelo, onde o acordar da noite vem num sopro de vida e a luz do dia indica o caminho para encostar a cabeça e procurar a euforia do sono.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
Cena de caça
Deitámos fora o passado e fechámos a porta ao futuro. Esquecemos as discussões, esqueci o teu feitio insuportável, esqueceste os meus pecados.
Somos dois heroinómanos na posse de uma nova dose, duas bestas animalescas excitadas pelas feromonas. Acreditamos que somos um vício que não podemos curar e já não há escrúpulos nem misericórdia.
Vejo um sorriso macabro nos teus olhos quando ouves o tecido da minha camisa a rasgar-se e os botões a caírem no chão. Meus braços são tentáculos que te invadem e te violam, desejando que tu percas o ténue fio de controlo que te suspende.
Os beijos são garras e ventosas, e tu és a hera a cirandar os muros que eu ergui e que caem a teus pés.
Ouço o teu doce suspiro quando te esmago com o meu peso e os meus pêlos roçam na tua carne macia. Os nossos cheiros de macho e fêmea são uma solução corrosiva pronta a efervescer. As nossas peles são pegajosas e acres.
Entre visões de ti, o meu cérbero projecta fotogramas em alta velocidade. Longas fileiras de candeeiros ao longo de avenidas. Paredes tatuadas de graffitis. Luzes acesas nos andares intermédios de arranha-céus. Pedras a afundarem-se na água. Chamas azuis em bicos de fogão. Semáforos que passam de mãos vermelhas para bonecos verdes. Pedras nas calçadas como puzzles incompletos. Enxames de insectos rasando sobre a relva. Faróis de um carro a aproximarem-se cada vez mais perto. Uma luz branca que ilumina o escuro e cega-me a retina.
Aquele momento em que tudo se ganha e tudo se perde. O grito. O escuro.
Nos corpos onde havia energia, vida, desejo, fome, agora só há o mais completo silêncio. Ficamos imóveis, desprovidos de água e de consciência. Até que venha de novo a lucidez e recordarmos os motivos que nos levaram a nos afastarmos um do outro. O maior deles é que sempre que cedemos à tentação do reencontro, o que fazemos já não é aquela cerimónia de amor. É apenas uma cena de caça filmada em alta definição.
Somos dois heroinómanos na posse de uma nova dose, duas bestas animalescas excitadas pelas feromonas. Acreditamos que somos um vício que não podemos curar e já não há escrúpulos nem misericórdia.
Vejo um sorriso macabro nos teus olhos quando ouves o tecido da minha camisa a rasgar-se e os botões a caírem no chão. Meus braços são tentáculos que te invadem e te violam, desejando que tu percas o ténue fio de controlo que te suspende.
Os beijos são garras e ventosas, e tu és a hera a cirandar os muros que eu ergui e que caem a teus pés.
Ouço o teu doce suspiro quando te esmago com o meu peso e os meus pêlos roçam na tua carne macia. Os nossos cheiros de macho e fêmea são uma solução corrosiva pronta a efervescer. As nossas peles são pegajosas e acres.
Entre visões de ti, o meu cérbero projecta fotogramas em alta velocidade. Longas fileiras de candeeiros ao longo de avenidas. Paredes tatuadas de graffitis. Luzes acesas nos andares intermédios de arranha-céus. Pedras a afundarem-se na água. Chamas azuis em bicos de fogão. Semáforos que passam de mãos vermelhas para bonecos verdes. Pedras nas calçadas como puzzles incompletos. Enxames de insectos rasando sobre a relva. Faróis de um carro a aproximarem-se cada vez mais perto. Uma luz branca que ilumina o escuro e cega-me a retina.
Aquele momento em que tudo se ganha e tudo se perde. O grito. O escuro.
Nos corpos onde havia energia, vida, desejo, fome, agora só há o mais completo silêncio. Ficamos imóveis, desprovidos de água e de consciência. Até que venha de novo a lucidez e recordarmos os motivos que nos levaram a nos afastarmos um do outro. O maior deles é que sempre que cedemos à tentação do reencontro, o que fazemos já não é aquela cerimónia de amor. É apenas uma cena de caça filmada em alta definição.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Sortes e desgraças
A sorte nunca foi minha vizinha, mas a desgraça costumava bater à porta. Era a minha mãe a levar do meu pai, sobrando muitas vezes para mim. Era o meu irmão no Casal Ventoso, a dar na veia até morrer. Era o meu pai a cair morto na taberna. Era a minha mãe a sucumbir de maluca de tantos anos de porrada e tormento. E sabia que a desgraça viria ter comigo.
Veio no dia em que me disseram que o meu Chico tinha caído do andaime e morreu mal aterrou no chão. Fiquei sozinha com o nosso filho de dois anos, e o único dinheiro que ganhava de meu era a fazer pastéis de bacalhau para fora. O Chico até nem ganhava mal nas obras, sempre dava pôr sempre comida na mesa e vestir o Nelson com boas roupinhas.
Mas o pior de tudo é que eu amei muito o meu homem. Às vezes ralhava comigo como um cão a rosnar, mas nunca me encostou um dedo. Tratava-me bem, ajudava-me de vez em quando a cuidar do cachopo e até lavava a loiça. E amava o amor que fazíamos na cama. Era algo que eu desde moça sempre tive curiosidade em descobrir o sexo, mas diziam é pecado, dói muito, se fizeres antes de casar és uma puta. Mas quando o Chico me fez mulher pouco depois de começarmos a namorar, foi tão grandioso que não percebi porque é que faziam do sexo um bicho de sete cabeças.
Só senti isso quando cedi aos avanços do empreiteiro do Chico. Conheci o Álvaro (só me sinto â vontade por tratá-lo por nome próprio na intimidade) no funeral do Chico. Cumprimentei-o em lágrimas e ele foi muito atencioso. Mal os nossos olhares se encontraram , não só ele ficou fascinado comigo como não me impedi de me sentir atraída. Era um homem bem garboso, apesar de já ir bem nos quarentas.
A partir daí, vinha visitar-me muitas vezes, dava prendas a mim e ao Nelson, arranjou-me emprego na perfumaria e foi-me conquistado aos poucos. O Senhor Engenheiro (como lhe trato fora do quarto) é casado e tem duas filhas. Encontramo-nos sem frequência certa, tanto pode ser mais que uma vez por semana, como uma só vez por mês. Continuo com a minha vida, nunca lhe peço nada nem ando sempre à sua espera. Vivo só para mim e para o meu filho, que já anda na escola.
É uma situação estranha estar na cama com o Álvaro. Recebo do seu corpo macio, cheiroso e delgado o mesmo prazer que sentia do corpo peludo, áspero e musculado do Chico. Por breves instantes, sinto-me doida de prazer, bela, viva. Mas mal ele vai-se embora, sinto-me nojenta por andar a fazer isto com um homem casado e que ainda me vou tramar por causa disso.
Entre azares e sortes, lá vou vivendo. Tenho um filho querido, um emprego que dá para me governar e um homem que faz as vezes de marido. Só espero e rezo que ainda esteja muito longe o momento em que a desgraça volte a bater à porta.
Veio no dia em que me disseram que o meu Chico tinha caído do andaime e morreu mal aterrou no chão. Fiquei sozinha com o nosso filho de dois anos, e o único dinheiro que ganhava de meu era a fazer pastéis de bacalhau para fora. O Chico até nem ganhava mal nas obras, sempre dava pôr sempre comida na mesa e vestir o Nelson com boas roupinhas.
Mas o pior de tudo é que eu amei muito o meu homem. Às vezes ralhava comigo como um cão a rosnar, mas nunca me encostou um dedo. Tratava-me bem, ajudava-me de vez em quando a cuidar do cachopo e até lavava a loiça. E amava o amor que fazíamos na cama. Era algo que eu desde moça sempre tive curiosidade em descobrir o sexo, mas diziam é pecado, dói muito, se fizeres antes de casar és uma puta. Mas quando o Chico me fez mulher pouco depois de começarmos a namorar, foi tão grandioso que não percebi porque é que faziam do sexo um bicho de sete cabeças.
Só senti isso quando cedi aos avanços do empreiteiro do Chico. Conheci o Álvaro (só me sinto â vontade por tratá-lo por nome próprio na intimidade) no funeral do Chico. Cumprimentei-o em lágrimas e ele foi muito atencioso. Mal os nossos olhares se encontraram , não só ele ficou fascinado comigo como não me impedi de me sentir atraída. Era um homem bem garboso, apesar de já ir bem nos quarentas.
A partir daí, vinha visitar-me muitas vezes, dava prendas a mim e ao Nelson, arranjou-me emprego na perfumaria e foi-me conquistado aos poucos. O Senhor Engenheiro (como lhe trato fora do quarto) é casado e tem duas filhas. Encontramo-nos sem frequência certa, tanto pode ser mais que uma vez por semana, como uma só vez por mês. Continuo com a minha vida, nunca lhe peço nada nem ando sempre à sua espera. Vivo só para mim e para o meu filho, que já anda na escola.
É uma situação estranha estar na cama com o Álvaro. Recebo do seu corpo macio, cheiroso e delgado o mesmo prazer que sentia do corpo peludo, áspero e musculado do Chico. Por breves instantes, sinto-me doida de prazer, bela, viva. Mas mal ele vai-se embora, sinto-me nojenta por andar a fazer isto com um homem casado e que ainda me vou tramar por causa disso.
Entre azares e sortes, lá vou vivendo. Tenho um filho querido, um emprego que dá para me governar e um homem que faz as vezes de marido. Só espero e rezo que ainda esteja muito longe o momento em que a desgraça volte a bater à porta.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Strawberry Blonde
Ao Rui e à Ola
Encaras-me com os teus atentos olhos cinzentos. Sinto que a minha língua vai dar três voltas antes que as cordas vocais dêem os acordes e eu despeje cá para fora as palavras.
- Która godzina? To dwa i pół godziny.
Que horas são? São duas horas e meia. Uma vez que sabes falar correcta e aceitavelmente a minha língua, tenho que me esforçar para saber minimamente a tua. Faço um esforço mas ainda esbarro nos zês que dizem-se como jotas, nos vês que são dáblius, nos éles que são traçados no meio. Não raras vezes, acabo num misto de sopa de letras com sopinha de massa.
Mas, compreensiva, sorris amavelmente diante do meu discurso afásico e elogias-me ao menor progresso.
Em todo o caso, quando o embate verbal luso-polaco termina empatado zero a zero, sempre podemos recorrer ao inglês e ao francês para manter a bola em jogo.
O melhor de saber falar várias línguas é a sensação que podemos pertencer a qulaquer mundo. Mesmo sem sair de um país, sentimo-nos a viajar, como se o mundo (e em particular a Europa) fosse a nossa ostra. Gosto da sensação que se de repente fosse teleportado para um país qualquer, eu recorria ao meu arsenal de idiomas adquiridos e safava-me airosamente por lá. Como por exemplo, aterrava no meio da Polónia mais profunda, arranhava uma meia dúzia de frases de entre aquelas que me ensinaste, talvez até um simples Cześć! e logo aí, os teus compatriotas elevavam-me de forasteiro vagabundo a velho amigo.
Tal como tenho esta ideia romântica de que estávamos de lados diferentes de um muro mais impassível do que aquele de Berlim. Tu de um lado onde o comunismo queimava os últimos cartuchos, e eu aqui num canto ainda a ressacar da ditadura e da revolução. E quando um e outro muro foram abaixo, foi só sincronizar os códigos e passámos de almas estranhas a espíritos em harmonia.
Ou talvez, o que nos juntou foi uma outra língua. Aquela que não tem fonética, gramática ou síntaxe. Mas onde se diz sempre tanto...
Por vezes essa língua assobia por entre as palavras que dizemos. Quando eu te digo que a tua cor do cabelo é aquilo que em inglês se designa como strawberry blonde. Quando acrescentas o sufixo ek ao meu nome. Ou então, num simples Olá! ou Cześć!, conforme o caso.
Encaras-me com os teus atentos olhos cinzentos. Sinto que a minha língua vai dar três voltas antes que as cordas vocais dêem os acordes e eu despeje cá para fora as palavras.
- Która godzina? To dwa i pół godziny.
Que horas são? São duas horas e meia. Uma vez que sabes falar correcta e aceitavelmente a minha língua, tenho que me esforçar para saber minimamente a tua. Faço um esforço mas ainda esbarro nos zês que dizem-se como jotas, nos vês que são dáblius, nos éles que são traçados no meio. Não raras vezes, acabo num misto de sopa de letras com sopinha de massa.
Mas, compreensiva, sorris amavelmente diante do meu discurso afásico e elogias-me ao menor progresso.
Em todo o caso, quando o embate verbal luso-polaco termina empatado zero a zero, sempre podemos recorrer ao inglês e ao francês para manter a bola em jogo.
O melhor de saber falar várias línguas é a sensação que podemos pertencer a qulaquer mundo. Mesmo sem sair de um país, sentimo-nos a viajar, como se o mundo (e em particular a Europa) fosse a nossa ostra. Gosto da sensação que se de repente fosse teleportado para um país qualquer, eu recorria ao meu arsenal de idiomas adquiridos e safava-me airosamente por lá. Como por exemplo, aterrava no meio da Polónia mais profunda, arranhava uma meia dúzia de frases de entre aquelas que me ensinaste, talvez até um simples Cześć! e logo aí, os teus compatriotas elevavam-me de forasteiro vagabundo a velho amigo.
Tal como tenho esta ideia romântica de que estávamos de lados diferentes de um muro mais impassível do que aquele de Berlim. Tu de um lado onde o comunismo queimava os últimos cartuchos, e eu aqui num canto ainda a ressacar da ditadura e da revolução. E quando um e outro muro foram abaixo, foi só sincronizar os códigos e passámos de almas estranhas a espíritos em harmonia.
Ou talvez, o que nos juntou foi uma outra língua. Aquela que não tem fonética, gramática ou síntaxe. Mas onde se diz sempre tanto...
Por vezes essa língua assobia por entre as palavras que dizemos. Quando eu te digo que a tua cor do cabelo é aquilo que em inglês se designa como strawberry blonde. Quando acrescentas o sufixo ek ao meu nome. Ou então, num simples Olá! ou Cześć!, conforme o caso.
quinta-feira, 24 de março de 2011
1984
O meu nome é Paulo e tenho quatro anos. Toda a gente diz que 25 de Abril, o dia dos meus anos, é muito importante para Portugal, por que foi quando veio a Liberdade. Mas apesar da Liberdade, dizem que há crise no país, e que o Governo não presta. Eu ainda não sei bem o que é que isso quer dizer, vejo só senhores a falar na TV. Acho graça às bochechas do Mário Soares e acho que o senhor Ramalho Eanes é um homem muito sério.
Vivo em Torres Novas com o meu Pai e a minha Mãe. O meu pai arranja carros numa oficina e quando ele chega a casa e eu vou abraçá-lo, a camisola dele cheira a óleo. A minha mãe trabalha numa lavandaria e quando eu vou lá ter, há um cheiro que dizem ser de benzina. De vez em quando, eu pergunto aos meus pais quando é que eu vou ter um mano para brincar comigo.
Como ainda não tenho idade para ir à escola, passo os dias em casa de uma senhora madeirense muito velhinha a quem eu chamo de Titi e que é como uma terceira avó para mim. Ela tem muitos passarinhos numa grande gaiola, e eu vejo-a a dar-lhes alpista. Ao lanche, ela traz-me café com leite e pão com manteiga enquanto vejo o Dartacão.
Apesar de não ir à escola, já sei juntar letras e fazer números. Quando eu vou com o meu padrinho à sede do Clube Desportivo de Torres Novas, às vezes eu mexo na máquina de escrever e vejo aquelas coisas compridas a fazerem letras no papel e isso ainda é mais giro do que fazê-las com caneta.
Gosto muito de ver televisão. Imagino que voo com a Abelha Maia, que luto de capa e espada com o Dartacão, que faço corridas com os Wacky Races e rio como aquele cão, e até imagino que um dia vou ter uma namorada muito bonita e loura como a boneca Candy Candy. Também a Mónica, o Cebolinha, o Tio Patinhas e o Rato Mickey são todos meus amigos e com eles brinco durante horas.
Na rádio ou nos telediscos, ouço músicas muito engraçadas, como aquela do teledisco que tem um desenho animado de um bichinho que ri como o Pica-Pau ou aquelas de uma rapariga loura com um nome estranho: Madonna. Muitas destas músicas são em outra língua, que não é a que eu falo: quando for grande hei de perceber tudo o que essas palavras querem dizer.
Mas na televisão há um senhor que também tem um nome estranho, Herman, mas que tem muita graça e rio muito das caras que ele faz. Há um senhor que deve ter a idade do meu avô que fala com os agricultores. Há senhoras muito bonitas que aparecem para dizer quais são os programas que vão dar a seguir. Há telenovelas em que se fala brasileiro, que é como falar em português mas um bocadinho diferente.
E há um Festival de música com muitos países: Portugal levou uma senhora de preto a tocar piano, mas ganharam três rapazes loiros da Suécia. Eu preferia que tivesse ganho a menina da Holanda que tinha um vestido com um laçarote que cantou uma canção de amor.
Fico muito contente quando o Benfica ganha e o Sporting perde. Também fiquei muito contente quando vi o Carlos Lopes a ganhar a corrida e a fazer com que a bandeira de Portugal subisse lá no alto. Aliás, gostei de ver tantos desportos naquilo a que chamam Jogos Olímpicos: os homens a correr, a nadar e a andar de cavalo, as meninas a dançar na água e a fazer ginástica com arcos e fitas.
Quando for grande, hei de saber falar como eles nos filmes e nos telediscos. Falarei em telefones pequeninos sem fios. Terei um computador em que eu posso escrever muitas coisas e enviar a muitas pessoas como se fossem cartas. Poderei ouvir música em todo o lado sem comprar aqueles discos pretos que vejo a girar enquanto tocam. Enfim, tanta coisa que eu vou fazer um dia, quando for tão grande como o meu Pai.
Mas por agora sou feliz a passear com os meus pais, a brincar com os meus primos, a andar nos baloiços, a fazer castelos de areia na praia, a ver os bonecos da TV, a comer os gelados da Olá.
O meu nome é Paulo e ontem sonhei que tinha quatro anos.
terça-feira, 22 de março de 2011
Ainda é cedo, amor
Não ligues aos primeiros raios de sol que entram no quarto, não ligues às horas que piscam no relógio. Sustém a respiração e não desfaças a muralha.
Deixa-me ainda ser pequenina e frágil, enrolar-me como o bicho-da-conta, perder-me no teu abraço. Mantém-te aí como o meu repouso de guerreira até eu ganhar a força para enfrentar a luz.
Porque não posso permanentemente manter a minha pose de mulher destemida, corajosa, temerária. Porque como todos nós, os desgostos e os medos assaltam-me à noite e remexem-me a alma, deixando-me numa angústia inquietante.
Ao menos contigo, essa angústia não se funde com o peso da solidão e só estares a meu lado, qualquer obstáculo da vida não me parece tão intransponível. Sem palavras, dizes-me tudo o que preciso ouvir.
Dou-me de corpo e alma ao meu refúgio inventado em ti, e tu entregas-me com a doçura que tu não admites ter, mas que se dirige lentamente ao meu coração. E transformo-me numa luz que te ilumina o olhar, num sonho que realizas, num ataque de desejo que sacias. E é então que sei que eu sou o teu refúgio também.
Ainda é cedo, amor. As últimas estrelas da noite ainda não gastaram o último brilho, os ruídos da rua ainda são confusos e distantes. Ainda há tempo para sermos um só, para me pegares na mão, para dizeres que isto é amor. Para que eu acredite em mim, em ti, em nós e acorde guiada pela força de duas almas destinadas a se encontrar.
Prolonga-te no meu corpo até que o dia se anuncie claro e real. Não te iludas com este rasto de luz no quarto. Ainda temos tempo para não termos reservas nem segredos, para sermos o que somos e não aquilo que mostramos ser. Quando o novo dia chegar, podes vestir a tua pele e ser aquele homem que o mundo conhece.
Mas mesmo à luz do dia, cada um de nós, trará em si o cheiro e o gosto do outro. A recordação da pele, o calor da alma. E a vontade de regressar ao conforto do nosso refúgio.
Mas ainda é cedo, amor.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Mágicos Cansaços
Subir as escadas, rodar a fechadura, pendurar o casaco.
Se Fevereiro é o mês mais curto do ano, porque é custa tanto a passar?
Ligar o micro-ondas, aquecer a lasanha comprada em take-away, sentar-me no sofá, ver letargicamente o telejornal. Estou cansado e não sei porquê.
Esconder umas fotos, sair para a rua, esperar que ela faças as malas e vá embora.
Lavar a loiça, arrumá-la, pôr a camisa no cesto da roupa suja, lavar os dentes, vestir o pijama, deitar-me na cama, marcar o despertador.
Já nada resta.
Hoje é um daqueles dias em que vivo sem estar vivo. Todos nós temos dias assim. Somos a rotina a arrastar o corpo, a pintar sorrisos de amarelo e a encher o cérebro de trivialidades prontas a serem despejadas.
Esta foto foi de quando fomos a Óbidos. Estava um belo dia e tinhas o cabelo ao vento, percorrendo a muralha a passo de donzela.
Também tu terás dias em que te arrastas por uma lista mental de tarefas e dás contigo na cama num cansaço inexplicável, sem saber o que fizeste de tão extenuante. Quando me dá para a lamechice, dou por mim a desejar que estejas infeliz e a almadiçoar o dia em que decidiste que eras mais feliz sem mim. Como canta a loura dos ABBA em "One of us".
Sorry for herself, feeling stupid, feeling small, wishing she had never left at all.
Mas não, já não desejo isso. Por mais que sinta a tua falta, aceitei que tu já não voltas e que ao fim de muitas vírgulas, finalmente surgiu entre nós o ponto final. Para alguns, o fim do amor é o fim da vida. Para outros, a oportunidade para novas caças. Para mim, é como as fotografias que não levaste. Pedaços de momentos perfeitos condenados a uma memória agridoce.
Dançámos sob o céu do fim da tarde, quando a noite prometia um refúgio e um deslizar de beijos.
O que vale é que sei que após dias letárgicos, há de haver dias para preencher a alma. Para ser mais forte do que qualquer estranho cansaço.
Se Fevereiro é o mês mais curto do ano, porque é custa tanto a passar?
Ligar o micro-ondas, aquecer a lasanha comprada em take-away, sentar-me no sofá, ver letargicamente o telejornal. Estou cansado e não sei porquê.
Esconder umas fotos, sair para a rua, esperar que ela faças as malas e vá embora.
Lavar a loiça, arrumá-la, pôr a camisa no cesto da roupa suja, lavar os dentes, vestir o pijama, deitar-me na cama, marcar o despertador.
Já nada resta.
Hoje é um daqueles dias em que vivo sem estar vivo. Todos nós temos dias assim. Somos a rotina a arrastar o corpo, a pintar sorrisos de amarelo e a encher o cérebro de trivialidades prontas a serem despejadas.
Esta foto foi de quando fomos a Óbidos. Estava um belo dia e tinhas o cabelo ao vento, percorrendo a muralha a passo de donzela.
Também tu terás dias em que te arrastas por uma lista mental de tarefas e dás contigo na cama num cansaço inexplicável, sem saber o que fizeste de tão extenuante. Quando me dá para a lamechice, dou por mim a desejar que estejas infeliz e a almadiçoar o dia em que decidiste que eras mais feliz sem mim. Como canta a loura dos ABBA em "One of us".
Sorry for herself, feeling stupid, feeling small, wishing she had never left at all.
Mas não, já não desejo isso. Por mais que sinta a tua falta, aceitei que tu já não voltas e que ao fim de muitas vírgulas, finalmente surgiu entre nós o ponto final. Para alguns, o fim do amor é o fim da vida. Para outros, a oportunidade para novas caças. Para mim, é como as fotografias que não levaste. Pedaços de momentos perfeitos condenados a uma memória agridoce.
Dançámos sob o céu do fim da tarde, quando a noite prometia um refúgio e um deslizar de beijos.
O que vale é que sei que após dias letárgicos, há de haver dias para preencher a alma. Para ser mais forte do que qualquer estranho cansaço.
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