terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cama quente e sapatos arranjados

Tu vê só as voltas que a vida dá, Almerindo. Nem faz dois anos que foste para outro mundo e eis-me recasada, ainda por cima com um homem quinze anos mais novo. Como as coisas mudam!...
Lembras-te de quando eu era nova, a quantidade de moças que havia cá na aldeia? Eram tantas que muitas ou ficavam para tias ou iam para freiras. Houve até quem achasse um "último recurso" eu casar-me contigo, tendo eu dezanove anos e tu mais de trinta. Mas nunca dei muita importância à nossa diferença de idades. Era de ti que eu gostava, e só queria fosses bom marido e não desses em bêbado, e felizmente foste um bom marido e sempre tiveste muito tino com o vinho. Claro que por vezes, mais do que eu desejaria, eras rabugento e ralhavas comigo mas pelo menos nunca me bateste nem me chamaste nomes.
E tu tão-pouco tiveste razões de queixa de mim. Estive sempre ao teu lado nas boas e más horas, criei o nosso Zé Pedro o melhor que pude, encarreguei-me sempre de haver comida à mesa e roupa lavada quando tu e eles queriam. E nos quatro anos em que essa malfadada doença te prendeu à cama até a morte te levar, nunca me poupei nos teus cuidados, esperando reduzir o teu sofrimento como pudesse. Tu não penses que haveria assim muitas como eu, dispostas a isso nesta situação. Seja como for, fui tudo o que uma boa esposa devia ser até ao último dia da tua vida.
Mas agora na aldeia está tudo ao contrário. Mulheres há poucas, só dos cinquenta anos para cima, e quase todas casadas. Rapazes novos por casar é que são aos magotes. Vê só os três da Deolinda, ainda todos solteiros e a viverem com ela e o marido. Muitos abandonaram a cidade em busca de melhor vida e de uma esposa. Como o nosso filho, que depois da tropa, lá ficou por Lisboa, onde fez a sua vida, casou e teve as nossas netas. Os que ficam, quando acabam o trabalho, andam por aí aos bandos; juntam-se no café da Alzira, jogam às cartas, falam da bola e do mulherio que não há meio de arranjarem. De vez em quando, vão ao putedo nas cidades mais próximas. E alguns ainda se armam em esquisitos, a dizerem que só querem mulher airosa e bem-cheirosa. Mas no fim, acabam por contentar-se com menos. E se uma mulher enviuva, tem logo candidatos para novo homem. E foi isso que me aconteceu, depois de eu deixar o luto e ter de novo a vida orientada.
Se em nova era bonita, os anos não me foram muito generosos. Já tenho sessenta e um anos, só me restam metade dos dentes, os meus cabelos estão já muito brancos e quebradiços e cheiro a bedum de velha. Mas não estou morta e lá vou aproveitando a saúde e a energia que me restam. E quando me surgiu um pretendente, após o choque inicial, não demorei assim muito tempo a decidir aceitar a companhia dele. E vê lá tu, foi o Juvenal, o filho do Alberto sapateiro. Lembras-te dele em cachopo quando ele começou a ajudar o pai? Ele agora tem quarenta e seis anos e, como sabias, herdou o negócio do pai.
Claro que não posso gostar dele como gostei de ti. Mas tenho que admitir que estou muito bem e gosto muito deste novo conchegozinho. Lá por ser velha, não tenho direito a ter alguém que ainda me aqueça a cama? O Juvenal é trabalhador, sadio e, ao contrário de mim, até parece mais jeitoso agora do que em moço. Tenho a cama quente, os sapatos arranjados e alguém para cuidar de mim quando a saúde me faltar. E quantas mulheres como eu tiveram a chance de serem desposadas por dois homens, o segundo ainda com bastante vigor?
A vida dá muitas voltas e nunca se sabe onde isto vai dar. Mas espero que a coisa se mantenha para o resto da minha vida. Tu bem sabes que mereço passar os anos que me faltam de forma tranquila, de quem trabalhou arduamente uma vida inteira e está no merecido descanso. Por isso, deixa-me ser agora mulher de outro. Até Deus Nosso Senhor me levar para daqui, para junto Dele, e espero que também para junto de ti.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Algo

- Olá!
- Olá! Tudo bem contigo?
- Tudo. E tu?
- Também está tudo bem.
- Óptimo...Então, adeus.
- Adeus.
Tinha dito a si próprio que a tinha esquecido. Mas claro que nunca a esquecera. Nem ela tão-pouco o esquecera, bastou vê-la para perceber. Encontrou-a no meio da rua, naquelas situações onde não dá para se fazer de distraído. Cada qual estava acompanhado, ele com uma loura esfuziante, ela com um tipo engravatado. Ele reparou que ela usava a mesma blusa azul de quando a viu pela primeira vez. Tanto tempo passou e ela parecia que mal tinha mudado. Que aquele rosto terno e tímido era o mesmo de quando a conheceu. Ou ainda antes...


ANTES...
- Puta do caralho, foste para a cama com esse cabrão!
- E tu fodeste com aquela vaca putalhona!
- Mas eu deixei-a por ti, tu é que queres trocar-me por ele.
- Deixaste-a por mim! Ai, que generoso. Lá estás tu a fazeres-te passar por santo e eu pela má da fita.
- Deixa-te de merdas.
- Já não posso mais. Estou sufocada.
- Sufocada, tu? Essa é boa. Fazes o que queres e te apetece...
- Faço o que quero? Eu fiz sempre tudo o que TU querias. Porque tem de ser sempre como tu queres senão ninguém te atura.
- Ai é? Então faz como queiras. Vai-te embora, se tu quiseres. Mas, por favor, cala-te.
Depois dos gritos, o silêncio. O que mais havia para dizer, para gritar? De que valia andarem aos berros e a atirar coisas? Perceberam que tinha chegado o fim. Era como se um já não 
tivesse lugar para o outro. Olhando para trás, se não tivessem cometido tantos erros, se tivessem lutado mais por eles, se resistido mais às tentações, não estariam aqui neste ponto sem retorno. Mas agora já é tarde demais.


ANTES...
Ele parece vê-la lá ao longe. Aproxima-se e confirma que é mesmo ela. Está bonita e radiosa como há muito não a via. Ela olha sempre em frente, procurando alguém. Talvez uma amiga. Ele não quer fazer de espião, mas a curiosidade é mais forte. Quando vê o Gonçalo, um colega do trabalho dele. O tipo de pessoa que está sempre de aspecto impecável e que parece nunca pôr uma pata na poça. O sorriso de espião infiltrado desvanece-se quando eles se abraçam e ele lhe dá um beijo na face. Podia não ser nada demais, mesmo assim. Excepto que o rosto dela ilumina-se. Como quando ela o via, há uma eternidade atrás. Ela gostava de ouvir Sheryl Crow.   


ANTES...
Ele entra no quarto. São quatro da manhã. Ela finge que dorme. Ele despe-se e deita-se à pressa. Ela, como quem não quer a coisa, chega-se para junto dele. Ele vira as costas e coloca uma barreira de roupa da cama entre eles. Ela repara num cheiro a perfume que ela nunca usou e que ele nem se deu ao trabalho de ocultar.


ANTES...
O que se passou para ela o achar diferente? Aqueles defeitos, aqueles nadas que ela de início mal reparava, agora irritam-na para além da razão. É o tampo da sanita que ele deixa levantado. É a banheira cheia de pêlos no ralo. É o ruído canídeo que ele faz quando se espreguiça. São aquelas boxers pavorosas com estampado de cãezinhos que ele insiste em usar e em tê-las lavadas e passadas. É ele que come sempre depressa como se fosse apagar um fogo. São os imbecis dos amigos dele sempre com piadolas boçais e nojentas. O homem que ela julgava perfeito é afinal um grande chato. Ainda há pouco, não via nada para além do seu sorriso e do seu olhar. Só pensava em como ele a fazia sentir quando a apertava contra si. Só ouvia a sua voz sensual a dizer baixinho o seu nome. E ela mal acreditava que alguém como ele pudesse amá-la tanto. Será que ainda acredita?

ANTES...
O que está feito, feito está, repete ele. Que estúpido que foi. Por que raio foi ele para a cama com a Joana? Se é ela que ele ama, é com ela que eu partilha o tecto e a vida, é com ela que ele quer casar... Se tivesse que ser ao menos que fosse com uma desconhecida, não com uma gaja que apesar de não ser amiga dela, ela sabe bem quem é.
Ele gostava de saber como é que ele chegou até ali. Terá gostado de ter chamado a atenção de outra mulher? Teria resolvido responder aos avanços dela, apenas de forma inocente? Terá tudo se desencadeado depressa demais? Terá tido saudades dos jogos de sedução, da emoção da caça?
Não importa. Ele traiu aquela que ama. Aconteceu. O que está feito, feito está. É inútil afastar a culpa que o persegue. Resta-lhe a frágil protecção de um segredo. Ela nunca poderá saber...

ANTES...
Mas por que raio é que as mulheres embirram tanto com a porra do tampo da sanita? Ela tinha que fazer uma cena por causa disso? Passou-se, só pode. Mas pronto, acontece a qualquer um. Mas ultimamente, anda a embirrar por tudo e por nada. Ela nunca fora de dar aquela estúpida importância àqueles pormenorzinhos insignificantes. Bem pelo contrário, ela sempre lhe pareceu tão descontraída e descomplexada. Algo nela deixa-o apreensivo. Que é feito daquela tipa bestial que o cativou assim que a viu? Ele não quer acreditar que está perante um caso de metamorfose quase kafkiana. Ele ainda a ama.
Só que...

ANTES...
Seis meses de paixão. Que bela é a vida. Que bela esta manhã de sábado, com a chuva a cair lá fora e eles bem quentes, abraçados debaixo dos cobertores. Como se bastasse isso para serem felizes. Ela deita a sua cabeça no ombro dele e afaga-lhe o torso. Ele passa as mãos pela cabeleira arruivada dela. E como se nada fosse, de repente a coragem para fazer aquela pergunta que há muito tempo ele lhe quer fazer.
- Sabes, detesto termos de andar de um lado para o outro. Mal consigo estar longe de ti. Talvez seja melhor...
- Tens a certeza? - ela percebe logo o subentendido.
- Nunca tive tanta certeza.
- Então quando é que tu pensas mudar-te para cá?
- Mudar para cá? Eu estava a pedir-te para que viesses morar comigo.
- Mas a tua casa é muito longe do meu trabalho, e aqui até nem ficas longe do teu...
- Não, até fico bastante longe do meu emprego.
- Eu sei...mas não podes fazer isso por mim?
Ele hesita. Mas acede.
- Está bem.
Eles beijam-se e voltam a fazer amor. Eles não cabem em si de contentes. Tanta paixão até lhes causa medo. Mas medo de quê?

ANTES...
Ainda bem que ela o desafiou para aquele passeio de bicicleta na serra. Está um belo dia. O ar não podia parecer mais puro a fluír-lhe pelos pulmões. A serra não podia estar mais verdejante e gloriosa. Credo, até os passarinhos a pipilarem é mais doce música para os seus ouvidos. Ele está mesmo apanhado.
Os dois sentaram-se sobre uma manta e lançaram-se avidamente à merenda. Quando estão saciados de comida, ela aproxima-se dele e beija-o ao de leve. Eles olhem em volta, ninguém por perto, não estão numa zona muito visível. Entreolham-se.
- Queres?
- Quero?
Agora há mais algo por saciar.

ANTES...
- Só te conheço há duas semanas, mas começo a ficar completamente louco por ti. Ainda me acabo por apaixonar, se é que já não estou.
A frase está lançada. Ele espera pela resposta. Ele fixa-se nos olhos dela que, à luz das velas, parecem faíscar. Ela não consegue dizer nada, mas o olhar dela diz tudo. Ele continua:
- Eu não sei que sensação é esta, mas seja como for estou a adorar sentir.
- Também sinto o mesmo. Também adoro, nunca senti nada assim.
- Eu também não. - uma pausa. - Amo-te.
- Também te amo.
Ele faz deslizar o vinho branco pelos copos. Os dois brindam e bebem, entreolhando-se. Com que então isto é que é o amor. Os olhos dele brilham como as chamas das velas. Ela mal pode acreditar que alguém como ele a ama. Mas acredita.

ANTES...
Ela entra na loja, detém-se um pouco a ver os CD até pegar naquele que ela quer. Ele observa-a de soslaio. É alta, de cabelo arruivado e a blusa azul que traz vestida fá-la parecer casualmente elegante. Ela só se apercebe dele quando se dirije para ir pagar à caixa. Ele repara no CD que ela traz na mão.
- Gosta de Sheryl Crow?
- Sim, soube que ela tem um novo álbum. Mas o "Strong enough", do primeiro álbum dela, é a minha canção preferida de sempre.
- Não me recordo como é.
Ela não resiste em cantar, mas baixinho.
- Are you strong enough to be my man?
- Maybe.
Ela ri. Ainda que não seja o tipo de homem que ela costuma mais apreciar, ele é bastante atraente. É da altura dela, moreno, de olhos pretos. Fica-lhe bem a barba de dois dias.
- Eu chamo-me H. - diz ele.
- Eu chamo-me M. - diz ela.
A conversa continua até chegar a vez de ela pagar. À saída da loja, ele pede-lhe o número de telefone. Algo lhe diz a ela para o dar. Algo lhe diz a ele que vão se voltar a ver. Algo lhes diz que algo vai acontecer. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pontos de vista

O amor é uma merda. Uma pessoa só sofre. Por que raio fui me apaixonar por aquele vadio? Ele fez de mim o que quis e no fim deitou-me fora, que nem um preservativo. Mas por que é que tenho esta sina com os homens? Por que é que só me apaixono por tipos que não prestam? Tantos rapazes impecáveis por aí  que eu conheço - se calhar alguns até gostam de mim - e eu só me interesso por aqueles de quem devia fugir. Sou mesmo uma estúpida. Basta ver um palminho de cara e de corpo a dizer "Nunca vi uma mulher tão linda como tu" para caír na teia de aranha. Depois quando quero mais, ou fogem a sete pés ou apanho-os a dar a mesma cantiga a outras. E acabo aqui num bar como este, a chorar sobre um copo de whisky.

Só sexo. Nada de envolvimentos. Umas quecas e umas noites bem passadas. É o que eu digo quando me interesso por alguém. Os meus amigos depois aplaudem-me e dizem que sou o maior. Algumas das minhas conquistas mais indiscretas louvam as minhas proezas na cama às amigas. Como diz a Teresa, uma dos meus primeiros casos, dizia que tinha cara de menino e corpo de homem feito e pelos vistos, devo ser por isso que o mulherio me acha piada. Apesar de ter vinte e seis anos, há quem me dê vinte anos ou até menos pela minha cara ainda de chavaleco.
Houve algumas mulheres com que eu poderia eventualmente ter algo mais sério. Mas por preguiça, hábito ou até receio, nunca ousei dar esse passo. Quem sabe se agora não tinha uma namorada porreira e deixava esta sensação de que eu não vou a lado nenhum? Em vez disso, sinto-me um gigolô de trazer por casa. Depois do efémero prazer, dou comigo a fitar o tecto enquanto alguém ao meu lado, vira-me as costas e adormece, satisfeita ou nem por isso. Tudo isto para quê? Está decidido. Acabou-se o "só sexo".

Agora reparo. Aquele rapaz ali naquela mesa é muito giro. Tem cara de miúdo mas deve ser mais velho do que parece. Ai, controla-te, Catarina! Lá estás tu a deixares-te embeiçar por uma cara bonita. Já te esqueceste que ainda agora estavas a chorar por causa do cabrão do Diogo? Deixa lá esse rapaz, às tantas é igualzinho ao Diogo e aos outros sacanas por quem caíste feita parva.

Aquela ali já vai no terceiro whisky. Deve estar a sofrer um desgosto de amor. Algum tipo pôs-lhe os cornos, ou raspou-se mal lhe saltou em cima. Eu ao menos sou sincero, não há cá tretas nem frases feitas. Aposto que o tipo disse-lhe "Nunca vi uma mulher tão linda como tu". Ao menos podiam ser originais e não irem nos mesmos clichés. Mas é pena, ela é mesmo bonita. Se calhar era alguém assim que eu devia procurar. Não é o tipo de mulher que queira só umas voltas. Ela, com o tipo certo, deve dar uma excelente companheira. E se eu fosse o tipo certo? Não. Logo eu. E mesmo que fosse, ela deve estar naquela fase em que odeia todos os homens e se meter conversa ainda fica piúrsa.

Ele olhou para mim. O que será que ele está a pensar? Como saber o que os homens pensam. A Guida diz que os homens são do mais previsível que há. Eu não acho. O que fazer? Saír? Ignorá-lo? Talvez. Vou fazer de conta que não reparo nele.

Bolas, ela é mesmo gira. Será que já reparou em mim? Mas como adivinhar o que vai na cabeça de uma mulher...Depois os homens é que andam imprevisíveis. O que fazer? Ir ter com ela? Ignorá-la? Sair? Sei lá! Eu ia jurar que ela tinha reparado em mim, mas agora já não sei dizer.

Será que ele vem para o pé de mim? Ele já deve ter reparado que eu reparei nele. Se ele vier, o que fazer? E o que ele vai dizer?

Será que eu devo ir para a mesa dela? E se eu for, o que é que digo? Talvez...Olá, chamo-me Ricardo. Não sei se quer companhia, se não quiser, não a incomodo mais. É que reparei que tem um ar triste. Posso fazer alguma coisa para a ajudar?

Se ele vier para a minha mesa, o que é irá dizer? Perguntará o que se passa comigo e eu direi que não é nada. Mas é claro que é alguma coisa, e por isso, se ele insistir, digo a verdade. Que sofri um desgosto de amor.

Se ela disser que sofreu um desgosto de amor, digo-lhe que eu também ando mal de amores. E até nem é mentira. Assim, comungo da dor dela e não se põe na defensiva. Talvez eu lhe explique o que se passa comigo.  A verdade é a melhor política. Ando a procura de relacionamento sério.

Não quero nada fugaz. Quero estabilidade. Ou tudo ou nada.

Quero estar á vontade com alguém à vontade, sem ter que pôr sempre este ar de galã. É só isso.

Quero alguém que seja honesto comigo. É só isso.

Acho que vou para a mesa dela.

Espero que ele venha aqui para a minha mesa. 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

De peito aberto

Para o Johnny

Ora bolas para o orgulho de macho e para o stiff upper lip. Ora bolas para as ladainhas que nos martelaram na cabeça desde tenra idade: "um homem não chora, não sejas mariquinhas, sê um homenzinho". Ora bolas para os fados choradinhos, de como os homens são todos iguais, uns insensíveis, uns mentirosos, que só sabem se aproveitar das mulheres. Ora bolas para aqueles e aquelas que confundem vulnerabilidade com fraqueza, sensibilidade com pieguice, violência com virilidade. 

Pois se até o Abrunhosa cantou que "um homem também chora quando assim tem de ser". Por muito que se faça para negar, dentro dos homens também bate um coração. Os homens também amam intensamente, também se entregam de corpo e alma, também sofrem quando o amor termina ou não é correspondido. O mal é que tanto sofrem que não sabem o que fazer com tanta dor. Não é à toa que a maioria dos crimes passionais são cometidos por homens, quando uma mistura de dor, orgulho e ciúme explode num trajecto de uma bala. Outros há que se vão anestesiando com sexo, bebida, jogo ou drogas, tentando enganar os momentos em que a dor é impossível de conter. Dir-se-ia que lhes falta o estoicismo das mulheres. Mas a maioria dos homens, mesmo nas brumas mais profundas, consegue ver uma réstia de azul, lambe as feridas e segue em frente.

Na tua idade, é fácil amar de peito aberto, não colocar rédeas á entrega, manter as emoções à flor da pele. Só que aos poucos, começas a racionalizar e a relativizar. A cada ano que passa, olhas para o teu eu do ano anterior e ris-te desse totó armado em bom quando no fundo não sabia nada da vida, ainda estava para levar umas boas cabeçadas e uns abre-olhos, ao contrário do teu eu actual, infinitamente mais sábio, mais experiente e esclarecido. Para no ano seguinte voltares-te a rir com desprezo dessas tuas convicções entretanto ultrapassadas. E quando te deres por ti, tens a minha idade e verificas que sabes tanto e no entanto sabes tão pouco. Que ser-se adulto não é como entrar num clube onde se adquire toda a maturidade e sabedoria, mas sim que de repente, tornaste-te adulto e que apenas fazes o melhor que podes com o que sabes e o que virás a saber.

Dizia eu, na tua idade é fácil amar intensamente. Mas já aí, os sedimentos da luta entre perdas e ganhos já se instalam. Haverá alguns que se cansam de amar, que decidem que não estão para chatices e fecham o coração a cadeado, preferindo os relacionamentos mais inconsequentes. Outros passam a crer que a confiança é como a virgindade e só se perde uma vez, e olham sempre em volta com desconfiança, dissecam e analisam, esperando encontrar fórmulas para os sentimentos. E ainda outros para quem as linhas entre amor e ódio, paixão e ciúme, entrega e possessão, deixam de existir. 

Mas tu e eu somos daqueles que acreditamos que mais vale cair do que nunca sequer ter voado. Sabemos que por muito profundos sejam os momentos baixos, a suprema glória dos momentos altos fazem tudo valer a pena. E que esta sucessão entre altos e baixos é o que nos faz sentir vivos. Por isso, eu sei que com o passar dos anos, continuarás a colocar a tua paixão em tudo o que fazes, na vida, no amor, no trabalho, nos hobbies. Não recearás as lágrimas porque saberás rir por entre elas. Saberás filtrar cada vez melhor o que vale a pena o teu empenho daquilo que não merece a tua energia, e arriscarás no amor com riscos calculados. E se a vida te trocar as contas, só terás que seguir em frente e continuar a viver. E o orgulho que se lixe.      

    

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Derreter o gelo

Ela não sabe que é linda. Desconhece o poderoso encanto de mulheres como ela. Discretas, sensíveis, de beleza serena. Que o corpo, que ela crê não ser nada de especial, é cheio de segredos. Intrigantes, deliciosos.
Já lhe partiram o coração, já sofreu por amor. Tinha baixado as defesas e padeceu de um duro golpe. Por isso, ela mantém-se em guarda, cerra os punhos à vida, faz-se de forte.
Ela gosta de pensar que me aceita de forma desprendida e lúdica. Que não se entrega completamente e que anda a servir-se de mim para satisfazer uma necessidade básica, de forma conveniente e casual. Que sou apenas uma relação de transição, e que fora da cama, pouco mais temos.
Mas ela mente a si própria, e eu minto-lhe também. Faço de conta que sou amante esclarecido e eficiente. Digo que estou pelo desafio do jogo, que ando a ver se subo a parada, como numa partida de poker.
Só que já não é mentira. Nunca foi. É tudo sentido, é tudo verdadeiro mesmo que fingimos parecer que não. Para obter a sensação sem a entrega, só é preciso um e não nos negamos a ser dois.
Se ela soubesse como ela pode ser fascinante e a facilidade com que pode cativar qualquer homem como o fez comigo, talvez ela deixasse de se questionar. Mas por outro lado, o facto de não o saber também tem o seu encanto.
Apenas gostaria de derreter mais o gelo à volta do seu coração, fazê-la admitir que somos um pouco mais que amantes casuais. Que não é só uma comichão difícil de coçar. Então eu dir-lhe-ia tudo o que penso quando a vejo, como a doçura dela invade o meu coração e me deixa cada vez mais apaixonado por ela. Em vez disso, aproveito para comunicar com o meu corpo tudo aquilo que ainda não lhe consigo dizer a voz alta. E aos poucos, vou sentindo que ela ouve e compreende. As suas feridas vão deixar de doer tanto e vai perceber que o amor não tem que doer para ser verdadeiro. Então ela vai olhar para mim e vai perceber que tudo aquilo que ela secretamente deseja, eu serei capaz de lhe dar. E até muito mais.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Corda bamba

"Porque é que os sacanas têm tanta sorte?", diz volta e meia o meu pai.
E tu, Carlos, és um grande sacana. És daquelas pessoas que tanto repele e se despreza como atrai e cativa. Por um lado, abusas da generosidade das mulheres e abalas a confiança dos homens. Por outro, nenhuma mulher te resiste e todo o homem deseja ser como tu, ainda que secreta ou esporadicamente.
Não leves a mal este meu desabafo. És meu amigo e sou o primeiro a defender-te à mínima ofensa. Podes ter muitos defeitos, mas tens ainda mais qualidades. A maior delas é seres amigo do teu amigo, algo que me tens sempre demonstrado. Ainda assim, não é justo, Carlos.
Não é justo que tenhas as mulheres que queres e as uses só para satisfazer o teu ego e depois larga-las sem mais. Enquanto eu, que não faço mal a ninguém, sou constantemente ignorado pelo sexo oposto. Nem vale a pena aproveitar as tuas sobras: depois de ti, elas tornam-se gatas escaldadas com medo que eu seja mais água fria.
Não é justo que a sorte típica dos sacanas te acompanhe a cada passo, e o azar me persiga assim que me atrevo a pisar o risco. Não é justo que gajos como tu se safem airosamente de tudo e outros como eu sejam acusados de cabrãozice e punidos como tal.
Claro que por vezes tenho vontade de comprar o que desdenho. Tu sabes bem que toda a minha crítica tem sempre uma pontinha de inveja. Também eu gostava de saber como é seres tu. Ter um coração cego a rogos femininos e esvair-me em corpos apetecidos num momento e obsoletos no momento seguinte. Acreditar que se pode passar por cima de todas as regras e leis, nunca temendo o possível castigo ou nunca duvidando que tudo não correrá pelo melhor.
Tu és um equilibrista na corda bamba, como aqueles do circo. E eu sou daqueles que te vêem lá debaixo, espantados por ver alguém caminhar no fino fio como quem tem os pés assentes no chão. Mesmo se o mínimo deslize signifique um queda fatal. Já que tu não tens medo de nada, temo eu por ti. Que um dia caias da corda e te estateles no chão sem apelo nem agravo.
Ou que uma noite, quando estiveres sozinho e ninguém te vê, uma solidão profunda e uma lança de culpa te dilacere o corpo e a alma e sofras por seres que és.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Outra chance

Eu sou daqueles acredita no amor para toda a vida. E acreditei ainda mais assim que te conheci. Parecia tudo um conto de fadas: a minha mão na tua, as alianças a deslizarem pelos nossos dedos, os nossos corpos que não pareciam saciar-se um do outro, o nascimento da nossa filha. Acreditei que por entre contratempos, espinhos e precalços, o nosso caminho seria longo. Estaríamos lado a lado, ver a Vanessa crescer, fazer-se mulher, ver nascer netos, ver os nossos rostos enrugados e nossos cabelos grisalhos com a serenidade que preencheu toda uma vida.
Mas o nosso amor estava destinado a ser breve. Um cancro silencioso e cruel comeu-te a vida aos trinta e sete anos, deixando-me sozinho e apunhalado pelo destino e uma doce menina dez anos sem mãe.
Se de dia, me mostrava forte e seguia a vida, entre trabalho e cuidar da Vanessa, à noite desesperava-me o vazio que deixaste na nossa cama. A menina, que em muitas coisas sai a mim, também parecia lidar bem com tudo à luz do diz e via-a a brincar e a rir. Mas muitas noites, era atormentada por pesadelos em que eu também morria ou ela estava sozinha no mundo. E acabava por se enfiar na minha cama para que eu a acalmasse.
Estes quatro anos foram muito solitários para nós, sem ti meu amor. Mas mesmo se a dor não diminui, o tempo foi passando. A Vanessa tem agora catorze anos, já começou a ganhar as primeiras formas de mulher. Onde quer que estejas, deves saber que ela está uma jovenzinha bonita, esperta e muito, muito corajosa. Não tem problemas nenhum em dizer o que pensa, por muito que isso não agrade a quem ouve.
Eu ainda te amo muito, Clara, e nunca deixarei de te amar. Mas o meu amor por ti está onde tu estás, além das estrelas e das coisas visíveis. Cá na terra, estou a amar de novo. Não é um amor absoluto e idílico como o nosso. É cheio de espinhos e obstáculos, lágrimas e inseguranças, e apesar de tudo, sorrisos. Porque ambos já sofremos por amor, ela ainda mais que eu, ao experimentar o abandono e a rejeição do marido.
Como é óbvio, quer a Vanessa, quer os filhos dela, torceram o nariz ao início. À Vanessa, custou-lhe ver outra mulher lentamente a ocupar alguns lugares que ela sempre teve como teus, e o facto da Isabel ser mãe do rapaz da turma por quem ela tem um fraquinho não ajudou. E os filhos dela alimentavam, apesar das evidências, uma ténue e legítima esperança de que os pais voltassem a ficar juntos. Mas tanto ela como eles, vão aos poucos aceitando, vêm que nos sentimos muito bem um com o outro, que recuperámos alguns risos e expressões felizes que há muito eles não viam e vão percebendo que a vida vai traçando outros rumos que seguem por outros meandros.
Esta noite, a Isabel voltou a sentir-se a mulher que é uma mulher atraente e digna de ser amada. Eu voltei a descobrir como é inventar o amor num corpo de mulher. Que para além de pai e viúvo, sou homem e humano. A vida deu-me esta chance e não posso deixar de aproveitá-la.