Caminho o mais depressa que posso mas a vergonha está no meu encalço. Entro no carro rumo a casa, para junto daquela a quem jurei fidelidade e respeito.
Votos desfeitos numa troca de olhares, outros braços prontos a me acolher. A dizerem que eu sou bom, que sou maravilhoso. A pedirem mais.
Sou um cabrão traidor, que anda há meses metido com uma sirigaita de trazer por casa enquanto a boa esposa, mulher porreira e excelente mãe está lá no lar doce lar, estranhando a minha demora.
Os candeeiros da rua encadeiam-me. Será que ela já sabe? Será que ela imagina a outra como uma deusa sexual, bela e lasciva, impossível de competir? Se ela soubesse como a outra é, ficaria surpreendida. Sim, é bonita e fogosa, mas não muito mais bonita que ela, nem sequer melhor na cama.
Mas não é por isso que vou regressando à outra. É pela maneira como ela me faz sentir. Venerado, adorado, ouvido, importante, especial. Mas também não é muito difícil ela conseguir isso de mim. Nas horas em que me acolhe, não se queixa do trabalho dela, não demonstra o cansaço da sua rotina, não reclama sobre dinheiro nem sobre o ex-marido, não me conta os problemas do filho. Ela põe tudo isso para trás das costas por umas breves horas só para se dedicar a mim. Só tem que sorrir para mim, vestir uma lingerie sexy, dizer-me palavras meigas, tocar-me como sabe que eu gosto. E sinto-me logo o máximo, o macho dos machos. Emocionado com tal dedicação, acredito, acolho, iludo-me.
Até acredito que ela goste de mim, que tenha muito prazer comigo, que a sua devoção não é totalmente encenada. Se não fosse casado, até poderia querer algo mais com ela. Mas esta noite, veio-me uma estranha lucidez. A outra não vale tanto assim, e a esposa não vale assim tão pouco. Tudo o que eu queria encontrar por fora já tinha no sítio de onde parti. Eu é que não passo de um canalha ingrato, que se julgava com uma grande crise existencial. Tudo não passou de uma ilusão. Pode ter tido bonitos momentos, mas não deixou de ser ilusão. Por isso acabei tudo com a outra.
Vou regressar a casa, vou ser um marido decente. Espero que as saudades que possa sentir da outra sejam menos fortes que esta minha nova determinação. Espero que a esposa nunca venha a saber, e se souber, que se dê por satisfeita pelo meu regresso definitivo e não me confronte. Espero que, caso ela me confrontar, eu saiba as palavras certas e os actos correctos. Para que ela me perdoe e não me deixe. Embora não a censurasse se ela o fizesse.
Vou rodar a fechadura e tentar trancar a ilusão para sempre.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Preservar o calor
Ricardo:
Já deves saber que eu e a Ju nos encontramos bem de saúde, pois nem sequer estávamos próximos do local da explosão. Mas claro que esta tragédia também nos afectou, afinal de contas, este país é a nossa casa e não há memória de um semelhante murro no estômago colectivo.
Lembras-te de eu dizer amiúde que eu era uma alma nórdica aprisionada num corpo português? Pois bem, foi preciso eu ir viver para a Noruega, para me aperceber que sou portuguesíssimo. Aprecio este povo solícito, bem educado, civilizado. Admiro como assumem a sua responsabilidade, e sabem conjugar bem o trabalho e o lazer. Não perdem tempo nem dinheiro com ninharias nem gostam de fazer alarde daquilo que têm e deixam de ter. Apesar da elevada carga fiscal, os dinheiros são bem aplicadas pois os políticos aqui sabem que estão para servir e não para serem servidos e há uma real preocupação com o bem-estar das populações. Mas a verdade é que por muito que admire os noruegueses e por muitos anos que viva cá, nunca serei senão português. Não consigo adquirir as doses cavalares de paciência que eles têm; exaspera-me que mesmo no pino do Verão rara seja a semana em que não chove; chateia-me estar semanas sem ver o Sol no Inverno e o frio ainda me faz impressão embora seja geralmente um frio seco que faz com que se suporte melhor cinco graus negativos cá do que cinco positivos aí.
No entanto, embora saibam acolher e sejam um povo simpático e cordial, eles possuem uma frieza que acho que ninguém no Sul da Europa terá. Imagina tu que volta e meio dizem-me que acham graça eu ser muito expansivo e irrequieto. Vê lá, logo eu, que sempre fui tão introvertido e sempre me orgulhei de ser tão calmo e ponderado. E com a Juliana, passa-se o mesmo, dizem-lhe "és mesmo brasileira" embora ela esteja longe de ser a típica brasileira que o mundo inteiro idealiza. Mas no meio de tanta escandinava, ela era suficientemente brasileira para me aquecer...
Eu até cheguei a engatar algumas norueguesas. Aparentemente agradavam-lhes os meus olhos e cabelos castanhos, tal como eu apreciava os seus olhos claros e cabelos louros. Uma vez quando disse a uma que tinha uns lindos olhos azuis, ela respondeu que ter olhos azuis é aborrecido, que toda a gente na Noruega tem olhos azuis, que ela gostaria de ter olhos castanhos como eu. Deve ser a velha história da galinha da vizinha. Seja como for, aproveitando o meu aparente exotismo de homem latino e como em termos de engate, o português pode ser pacóvio mas é eficiente, lá fui namoriscando uma ou outra local. Mas teve que vir uma brasileira para me deixar completamente apanhadinho e querer mais que um caso fugaz. Ela não é a típica brasuca boazona mas é encantadora que só ela, como tu bem sabes. A nossa compatibilidade de feitios e gostos, aliado à invulgar situação algures entre sermos peixes fora de água e estar num lar longe do nosso lar, ajudou à nossa cumplicidade. E apesar de tudo, estamos muito felizes por viver aqui.
Por isso, esta tragédia veio-nos relembrar que até nos sítios mais aprazíveis podem surgir os piores monstros. Como aquele que esteve por detrás disto tudo, que fez explodir o prédio do gabinete do primeiro ministro e matou indiscriminadamente tantos jovens em Utoya. Muitos deles, tão noruegueses e caucasianos como ele, embora apregoasse que a sua causa era contra os forasteiros imigrantes, sobretudo muçulmanos. Para uma sociedade onde coabitavam de forma relativamente harmoniosa e pacífica gente de várias nações, raças, culturas e religiões e que se orgulhava disso, foi um duro golpe. Saber que as vozes que se erguiam contra isso poderiam ir aos limites extremos de terror para tal foi um alarmante abrir dos olhos. Lembrou-nos a todos que o terrorismo, tal como todos os males do mundo, pode ter vários rostos.
No entanto, e apesar do duro murro no estômago, existe calma, respeito e ordem. Espero que me engane, mas algo me diz que se o mesmo tivesse acontecido em Portugal, haveria uma histeria colectiva colossal. Mas aqui mesmo os que mais sofreram, recusam o vitimismo. As vozes que se levantam são para reafirmar o orgulho na sociedade multicultural e tolerante. Mais do que nunca, tenho ouvido os nossos amigos e até desconhecidos a dizerem para não termos medo, que não têm nada contra os imigrantes bem pelo contrário, que só uma quantidade muito residual dos noruegueses é que pensa como aquele doido. Se ele queria com isto lançar uma semente de ódio, só se foi de ódio contra ele e contra aquilo que ele defende.
Por muito rapidamente que ordem e a calma tenham sido restabelecida, sei que a Noruega vai demorar muito tempo a recuperar de todas as mazelas. Foi uma espécie de inocência perdida, um brusco rasgo numa tela de cores, um abrupto risco na harmonia. Só espero que o frio do medo não se junte à frieza cordata dos noruegueses. Mas pelo que eu sei deles, tal não deve acontecer. É que aqui se aplica literalmente a expressão "trabalhar para aquecer" e num clima frio como este, viver é preservar o calor.
Não é à toa que em Portugal, toda a gente adora o Sol. Parece que em Portugal, apesar de tudo, não há nada como o sentir o Sol na cara para sentir um gosto da vida.
O teu mano,
Nelson
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Cama quente e sapatos arranjados
Tu vê só as voltas que a vida dá, Almerindo. Nem faz dois anos que foste para outro mundo e eis-me recasada, ainda por cima com um homem quinze anos mais novo. Como as coisas mudam!...
Lembras-te de quando eu era nova, a quantidade de moças que havia cá na aldeia? Eram tantas que muitas ou ficavam para tias ou iam para freiras. Houve até quem achasse um "último recurso" eu casar-me contigo, tendo eu dezanove anos e tu mais de trinta. Mas nunca dei muita importância à nossa diferença de idades. Era de ti que eu gostava, e só queria fosses bom marido e não desses em bêbado, e felizmente foste um bom marido e sempre tiveste muito tino com o vinho. Claro que por vezes, mais do que eu desejaria, eras rabugento e ralhavas comigo mas pelo menos nunca me bateste nem me chamaste nomes.
E tu tão-pouco tiveste razões de queixa de mim. Estive sempre ao teu lado nas boas e más horas, criei o nosso Zé Pedro o melhor que pude, encarreguei-me sempre de haver comida à mesa e roupa lavada quando tu e eles queriam. E nos quatro anos em que essa malfadada doença te prendeu à cama até a morte te levar, nunca me poupei nos teus cuidados, esperando reduzir o teu sofrimento como pudesse. Tu não penses que haveria assim muitas como eu, dispostas a isso nesta situação. Seja como for, fui tudo o que uma boa esposa devia ser até ao último dia da tua vida.
Mas agora na aldeia está tudo ao contrário. Mulheres há poucas, só dos cinquenta anos para cima, e quase todas casadas. Rapazes novos por casar é que são aos magotes. Vê só os três da Deolinda, ainda todos solteiros e a viverem com ela e o marido. Muitos abandonaram a cidade em busca de melhor vida e de uma esposa. Como o nosso filho, que depois da tropa, lá ficou por Lisboa, onde fez a sua vida, casou e teve as nossas netas. Os que ficam, quando acabam o trabalho, andam por aí aos bandos; juntam-se no café da Alzira, jogam às cartas, falam da bola e do mulherio que não há meio de arranjarem. De vez em quando, vão ao putedo nas cidades mais próximas. E alguns ainda se armam em esquisitos, a dizerem que só querem mulher airosa e bem-cheirosa. Mas no fim, acabam por contentar-se com menos. E se uma mulher enviuva, tem logo candidatos para novo homem. E foi isso que me aconteceu, depois de eu deixar o luto e ter de novo a vida orientada.
Se em nova era bonita, os anos não me foram muito generosos. Já tenho sessenta e um anos, só me restam metade dos dentes, os meus cabelos estão já muito brancos e quebradiços e cheiro a bedum de velha. Mas não estou morta e lá vou aproveitando a saúde e a energia que me restam. E quando me surgiu um pretendente, após o choque inicial, não demorei assim muito tempo a decidir aceitar a companhia dele. E vê lá tu, foi o Juvenal, o filho do Alberto sapateiro. Lembras-te dele em cachopo quando ele começou a ajudar o pai? Ele agora tem quarenta e seis anos e, como sabias, herdou o negócio do pai.
Claro que não posso gostar dele como gostei de ti. Mas tenho que admitir que estou muito bem e gosto muito deste novo conchegozinho. Lá por ser velha, não tenho direito a ter alguém que ainda me aqueça a cama? O Juvenal é trabalhador, sadio e, ao contrário de mim, até parece mais jeitoso agora do que em moço. Tenho a cama quente, os sapatos arranjados e alguém para cuidar de mim quando a saúde me faltar. E quantas mulheres como eu tiveram a chance de serem desposadas por dois homens, o segundo ainda com bastante vigor?
A vida dá muitas voltas e nunca se sabe onde isto vai dar. Mas espero que a coisa se mantenha para o resto da minha vida. Tu bem sabes que mereço passar os anos que me faltam de forma tranquila, de quem trabalhou arduamente uma vida inteira e está no merecido descanso. Por isso, deixa-me ser agora mulher de outro. Até Deus Nosso Senhor me levar para daqui, para junto Dele, e espero que também para junto de ti.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Algo
- Olá!
- Olá! Tudo bem contigo?
- Tudo. E tu?
- Também está tudo bem.
- Óptimo...Então, adeus.
- Adeus.
Tinha dito a si próprio que a tinha esquecido. Mas claro que nunca a esquecera. Nem ela tão-pouco o esquecera, bastou vê-la para perceber. Encontrou-a no meio da rua, naquelas situações onde não dá para se fazer de distraído. Cada qual estava acompanhado, ele com uma loura esfuziante, ela com um tipo engravatado. Ele reparou que ela usava a mesma blusa azul de quando a viu pela primeira vez. Tanto tempo passou e ela parecia que mal tinha mudado. Que aquele rosto terno e tímido era o mesmo de quando a conheceu. Ou ainda antes...
ANTES...
- Puta do caralho, foste para a cama com esse cabrão!
- E tu fodeste com aquela vaca putalhona!
- Mas eu deixei-a por ti, tu é que queres trocar-me por ele.
- Deixaste-a por mim! Ai, que generoso. Lá estás tu a fazeres-te passar por santo e eu pela má da fita.
- Deixa-te de merdas.
- Já não posso mais. Estou sufocada.
- Sufocada, tu? Essa é boa. Fazes o que queres e te apetece...
- Faço o que quero? Eu fiz sempre tudo o que TU querias. Porque tem de ser sempre como tu queres senão ninguém te atura.
- Ai é? Então faz como queiras. Vai-te embora, se tu quiseres. Mas, por favor, cala-te.
ANTES...
ANTES...
Ele entra no quarto. São quatro da manhã. Ela finge que dorme. Ele despe-se e deita-se à pressa. Ela, como quem não quer a coisa, chega-se para junto dele. Ele vira as costas e coloca uma barreira de roupa da cama entre eles. Ela repara num cheiro a perfume que ela nunca usou e que ele nem se deu ao trabalho de ocultar.
- Olá! Tudo bem contigo?
- Tudo. E tu?
- Também está tudo bem.
- Óptimo...Então, adeus.
- Adeus.
Tinha dito a si próprio que a tinha esquecido. Mas claro que nunca a esquecera. Nem ela tão-pouco o esquecera, bastou vê-la para perceber. Encontrou-a no meio da rua, naquelas situações onde não dá para se fazer de distraído. Cada qual estava acompanhado, ele com uma loura esfuziante, ela com um tipo engravatado. Ele reparou que ela usava a mesma blusa azul de quando a viu pela primeira vez. Tanto tempo passou e ela parecia que mal tinha mudado. Que aquele rosto terno e tímido era o mesmo de quando a conheceu. Ou ainda antes...
ANTES...
- Puta do caralho, foste para a cama com esse cabrão!
- E tu fodeste com aquela vaca putalhona!
- Mas eu deixei-a por ti, tu é que queres trocar-me por ele.
- Deixaste-a por mim! Ai, que generoso. Lá estás tu a fazeres-te passar por santo e eu pela má da fita.
- Deixa-te de merdas.
- Já não posso mais. Estou sufocada.
- Sufocada, tu? Essa é boa. Fazes o que queres e te apetece...
- Faço o que quero? Eu fiz sempre tudo o que TU querias. Porque tem de ser sempre como tu queres senão ninguém te atura.
- Ai é? Então faz como queiras. Vai-te embora, se tu quiseres. Mas, por favor, cala-te.
Depois dos gritos, o silêncio. O que mais havia para dizer, para gritar? De que valia andarem aos berros e a atirar coisas? Perceberam que tinha chegado o fim. Era como se um já não
tivesse lugar para o outro. Olhando para trás, se não tivessem cometido tantos erros, se tivessem lutado mais por eles, se resistido mais às tentações, não estariam aqui neste ponto sem retorno. Mas agora já é tarde demais.
ANTES...
Ele parece vê-la lá ao longe. Aproxima-se e confirma que é mesmo ela. Está bonita e radiosa como há muito não a via. Ela olha sempre em frente, procurando alguém. Talvez uma amiga. Ele não quer fazer de espião, mas a curiosidade é mais forte. Quando vê o Gonçalo, um colega do trabalho dele. O tipo de pessoa que está sempre de aspecto impecável e que parece nunca pôr uma pata na poça. O sorriso de espião infiltrado desvanece-se quando eles se abraçam e ele lhe dá um beijo na face. Podia não ser nada demais, mesmo assim. Excepto que o rosto dela ilumina-se. Como quando ela o via, há uma eternidade atrás. Ela gostava de ouvir Sheryl Crow.
ANTES...
Ele entra no quarto. São quatro da manhã. Ela finge que dorme. Ele despe-se e deita-se à pressa. Ela, como quem não quer a coisa, chega-se para junto dele. Ele vira as costas e coloca uma barreira de roupa da cama entre eles. Ela repara num cheiro a perfume que ela nunca usou e que ele nem se deu ao trabalho de ocultar.
ANTES...
O que se passou para ela o achar diferente? Aqueles defeitos, aqueles nadas que ela de início mal reparava, agora irritam-na para além da razão. É o tampo da sanita que ele deixa levantado. É a banheira cheia de pêlos no ralo. É o ruído canídeo que ele faz quando se espreguiça. São aquelas boxers pavorosas com estampado de cãezinhos que ele insiste em usar e em tê-las lavadas e passadas. É ele que come sempre depressa como se fosse apagar um fogo. São os imbecis dos amigos dele sempre com piadolas boçais e nojentas. O homem que ela julgava perfeito é afinal um grande chato. Ainda há pouco, não via nada para além do seu sorriso e do seu olhar. Só pensava em como ele a fazia sentir quando a apertava contra si. Só ouvia a sua voz sensual a dizer baixinho o seu nome. E ela mal acreditava que alguém como ele pudesse amá-la tanto. Será que ainda acredita?
ANTES...
O que está feito, feito está, repete ele. Que estúpido que foi. Por que raio foi ele para a cama com a Joana? Se é ela que ele ama, é com ela que eu partilha o tecto e a vida, é com ela que ele quer casar... Se tivesse que ser ao menos que fosse com uma desconhecida, não com uma gaja que apesar de não ser amiga dela, ela sabe bem quem é.
Ele gostava de saber como é que ele chegou até ali. Terá gostado de ter chamado a atenção de outra mulher? Teria resolvido responder aos avanços dela, apenas de forma inocente? Terá tudo se desencadeado depressa demais? Terá tido saudades dos jogos de sedução, da emoção da caça?
Não importa. Ele traiu aquela que ama. Aconteceu. O que está feito, feito está. É inútil afastar a culpa que o persegue. Resta-lhe a frágil protecção de um segredo. Ela nunca poderá saber...
ANTES...
Mas por que raio é que as mulheres embirram tanto com a porra do tampo da sanita? Ela tinha que fazer uma cena por causa disso? Passou-se, só pode. Mas pronto, acontece a qualquer um. Mas ultimamente, anda a embirrar por tudo e por nada. Ela nunca fora de dar aquela estúpida importância àqueles pormenorzinhos insignificantes. Bem pelo contrário, ela sempre lhe pareceu tão descontraída e descomplexada. Algo nela deixa-o apreensivo. Que é feito daquela tipa bestial que o cativou assim que a viu? Ele não quer acreditar que está perante um caso de metamorfose quase kafkiana. Ele ainda a ama.
Só que...
ANTES...
Seis meses de paixão. Que bela é a vida. Que bela esta manhã de sábado, com a chuva a cair lá fora e eles bem quentes, abraçados debaixo dos cobertores. Como se bastasse isso para serem felizes. Ela deita a sua cabeça no ombro dele e afaga-lhe o torso. Ele passa as mãos pela cabeleira arruivada dela. E como se nada fosse, de repente a coragem para fazer aquela pergunta que há muito tempo ele lhe quer fazer.
- Sabes, detesto termos de andar de um lado para o outro. Mal consigo estar longe de ti. Talvez seja melhor...
- Tens a certeza? - ela percebe logo o subentendido.
- Nunca tive tanta certeza.
- Então quando é que tu pensas mudar-te para cá?
- Mudar para cá? Eu estava a pedir-te para que viesses morar comigo.
- Mas a tua casa é muito longe do meu trabalho, e aqui até nem ficas longe do teu...
- Não, até fico bastante longe do meu emprego.
- Eu sei...mas não podes fazer isso por mim?
Ele hesita. Mas acede.
- Está bem.
Eles beijam-se e voltam a fazer amor. Eles não cabem em si de contentes. Tanta paixão até lhes causa medo. Mas medo de quê?
ANTES...
Ainda bem que ela o desafiou para aquele passeio de bicicleta na serra. Está um belo dia. O ar não podia parecer mais puro a fluír-lhe pelos pulmões. A serra não podia estar mais verdejante e gloriosa. Credo, até os passarinhos a pipilarem é mais doce música para os seus ouvidos. Ele está mesmo apanhado.
Os dois sentaram-se sobre uma manta e lançaram-se avidamente à merenda. Quando estão saciados de comida, ela aproxima-se dele e beija-o ao de leve. Eles olhem em volta, ninguém por perto, não estão numa zona muito visível. Entreolham-se.
- Queres?
- Quero?
Agora há mais algo por saciar.
ANTES...
- Só te conheço há duas semanas, mas começo a ficar completamente louco por ti. Ainda me acabo por apaixonar, se é que já não estou.
A frase está lançada. Ele espera pela resposta. Ele fixa-se nos olhos dela que, à luz das velas, parecem faíscar. Ela não consegue dizer nada, mas o olhar dela diz tudo. Ele continua:
- Eu não sei que sensação é esta, mas seja como for estou a adorar sentir.
- Também sinto o mesmo. Também adoro, nunca senti nada assim.
- Eu também não. - uma pausa. - Amo-te.
- Também te amo.
Ele faz deslizar o vinho branco pelos copos. Os dois brindam e bebem, entreolhando-se. Com que então isto é que é o amor. Os olhos dele brilham como as chamas das velas. Ela mal pode acreditar que alguém como ele a ama. Mas acredita.
ANTES...
Ela entra na loja, detém-se um pouco a ver os CD até pegar naquele que ela quer. Ele observa-a de soslaio. É alta, de cabelo arruivado e a blusa azul que traz vestida fá-la parecer casualmente elegante. Ela só se apercebe dele quando se dirije para ir pagar à caixa. Ele repara no CD que ela traz na mão.
- Gosta de Sheryl Crow?
- Sim, soube que ela tem um novo álbum. Mas o "Strong enough", do primeiro álbum dela, é a minha canção preferida de sempre.
- Não me recordo como é.
Ela não resiste em cantar, mas baixinho.
- Are you strong enough to be my man?
- Maybe.
Ela ri. Ainda que não seja o tipo de homem que ela costuma mais apreciar, ele é bastante atraente. É da altura dela, moreno, de olhos pretos. Fica-lhe bem a barba de dois dias.
- Eu chamo-me H. - diz ele.
- Eu chamo-me M. - diz ela.
A conversa continua até chegar a vez de ela pagar. À saída da loja, ele pede-lhe o número de telefone. Algo lhe diz a ela para o dar. Algo lhe diz a ele que vão se voltar a ver. Algo lhes diz que algo vai acontecer.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Pontos de vista
O amor é uma merda. Uma pessoa só sofre. Por que raio fui me apaixonar por aquele vadio? Ele fez de mim o que quis e no fim deitou-me fora, que nem um preservativo. Mas por que é que tenho esta sina com os homens? Por que é que só me apaixono por tipos que não prestam? Tantos rapazes impecáveis por aí que eu conheço - se calhar alguns até gostam de mim - e eu só me interesso por aqueles de quem devia fugir. Sou mesmo uma estúpida. Basta ver um palminho de cara e de corpo a dizer "Nunca vi uma mulher tão linda como tu" para caír na teia de aranha. Depois quando quero mais, ou fogem a sete pés ou apanho-os a dar a mesma cantiga a outras. E acabo aqui num bar como este, a chorar sobre um copo de whisky.
Agora reparo. Aquele rapaz ali naquela mesa é muito giro. Tem cara de miúdo mas deve ser mais velho do que parece. Ai, controla-te, Catarina! Lá estás tu a deixares-te embeiçar por uma cara bonita. Já te esqueceste que ainda agora estavas a chorar por causa do cabrão do Diogo? Deixa lá esse rapaz, às tantas é igualzinho ao Diogo e aos outros sacanas por quem caíste feita parva.
Ele olhou para mim. O que será que ele está a pensar? Como saber o que os homens pensam. A Guida diz que os homens são do mais previsível que há. Eu não acho. O que fazer? Saír? Ignorá-lo? Talvez. Vou fazer de conta que não reparo nele.
Será que ele vem para o pé de mim? Ele já deve ter reparado que eu reparei nele. Se ele vier, o que fazer? E o que ele vai dizer?
Se ele vier para a minha mesa, o que é irá dizer? Perguntará o que se passa comigo e eu direi que não é nada. Mas é claro que é alguma coisa, e por isso, se ele insistir, digo a verdade. Que sofri um desgosto de amor.
Não quero nada fugaz. Quero estabilidade. Ou tudo ou nada.
Quero alguém que seja honesto comigo. É só isso.
Espero que ele venha aqui para a minha mesa.
Só sexo. Nada de envolvimentos. Umas quecas e umas noites bem passadas. É o que eu digo quando me interesso por alguém. Os meus amigos depois aplaudem-me e dizem que sou o maior. Algumas das minhas conquistas mais indiscretas louvam as minhas proezas na cama às amigas. Como diz a Teresa, uma dos meus primeiros casos, dizia que tinha cara de menino e corpo de homem feito e pelos vistos, devo ser por isso que o mulherio me acha piada. Apesar de ter vinte e seis anos, há quem me dê vinte anos ou até menos pela minha cara ainda de chavaleco.
Houve algumas mulheres com que eu poderia eventualmente ter algo mais sério. Mas por preguiça, hábito ou até receio, nunca ousei dar esse passo. Quem sabe se agora não tinha uma namorada porreira e deixava esta sensação de que eu não vou a lado nenhum? Em vez disso, sinto-me um gigolô de trazer por casa. Depois do efémero prazer, dou comigo a fitar o tecto enquanto alguém ao meu lado, vira-me as costas e adormece, satisfeita ou nem por isso. Tudo isto para quê? Está decidido. Acabou-se o "só sexo".
Agora reparo. Aquele rapaz ali naquela mesa é muito giro. Tem cara de miúdo mas deve ser mais velho do que parece. Ai, controla-te, Catarina! Lá estás tu a deixares-te embeiçar por uma cara bonita. Já te esqueceste que ainda agora estavas a chorar por causa do cabrão do Diogo? Deixa lá esse rapaz, às tantas é igualzinho ao Diogo e aos outros sacanas por quem caíste feita parva.
Aquela ali já vai no terceiro whisky. Deve estar a sofrer um desgosto de amor. Algum tipo pôs-lhe os cornos, ou raspou-se mal lhe saltou em cima. Eu ao menos sou sincero, não há cá tretas nem frases feitas. Aposto que o tipo disse-lhe "Nunca vi uma mulher tão linda como tu". Ao menos podiam ser originais e não irem nos mesmos clichés. Mas é pena, ela é mesmo bonita. Se calhar era alguém assim que eu devia procurar. Não é o tipo de mulher que queira só umas voltas. Ela, com o tipo certo, deve dar uma excelente companheira. E se eu fosse o tipo certo? Não. Logo eu. E mesmo que fosse, ela deve estar naquela fase em que odeia todos os homens e se meter conversa ainda fica piúrsa.
Ele olhou para mim. O que será que ele está a pensar? Como saber o que os homens pensam. A Guida diz que os homens são do mais previsível que há. Eu não acho. O que fazer? Saír? Ignorá-lo? Talvez. Vou fazer de conta que não reparo nele.
Bolas, ela é mesmo gira. Será que já reparou em mim? Mas como adivinhar o que vai na cabeça de uma mulher...Depois os homens é que andam imprevisíveis. O que fazer? Ir ter com ela? Ignorá-la? Sair? Sei lá! Eu ia jurar que ela tinha reparado em mim, mas agora já não sei dizer.
Será que ele vem para o pé de mim? Ele já deve ter reparado que eu reparei nele. Se ele vier, o que fazer? E o que ele vai dizer?
Será que eu devo ir para a mesa dela? E se eu for, o que é que digo? Talvez...Olá, chamo-me Ricardo. Não sei se quer companhia, se não quiser, não a incomodo mais. É que reparei que tem um ar triste. Posso fazer alguma coisa para a ajudar?
Se ele vier para a minha mesa, o que é irá dizer? Perguntará o que se passa comigo e eu direi que não é nada. Mas é claro que é alguma coisa, e por isso, se ele insistir, digo a verdade. Que sofri um desgosto de amor.
Se ela disser que sofreu um desgosto de amor, digo-lhe que eu também ando mal de amores. E até nem é mentira. Assim, comungo da dor dela e não se põe na defensiva. Talvez eu lhe explique o que se passa comigo. A verdade é a melhor política. Ando a procura de relacionamento sério.
Não quero nada fugaz. Quero estabilidade. Ou tudo ou nada.
Quero estar á vontade com alguém à vontade, sem ter que pôr sempre este ar de galã. É só isso.
Quero alguém que seja honesto comigo. É só isso.
Acho que vou para a mesa dela.
Espero que ele venha aqui para a minha mesa.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
De peito aberto
Para o Johnny
Ora bolas para o orgulho de macho e para o stiff upper lip. Ora bolas para as ladainhas que nos martelaram na cabeça desde tenra idade: "um homem não chora, não sejas mariquinhas, sê um homenzinho". Ora bolas para os fados choradinhos, de como os homens são todos iguais, uns insensíveis, uns mentirosos, que só sabem se aproveitar das mulheres. Ora bolas para aqueles e aquelas que confundem vulnerabilidade com fraqueza, sensibilidade com pieguice, violência com virilidade.
Pois se até o Abrunhosa cantou que "um homem também chora quando assim tem de ser". Por muito que se faça para negar, dentro dos homens também bate um coração. Os homens também amam intensamente, também se entregam de corpo e alma, também sofrem quando o amor termina ou não é correspondido. O mal é que tanto sofrem que não sabem o que fazer com tanta dor. Não é à toa que a maioria dos crimes passionais são cometidos por homens, quando uma mistura de dor, orgulho e ciúme explode num trajecto de uma bala. Outros há que se vão anestesiando com sexo, bebida, jogo ou drogas, tentando enganar os momentos em que a dor é impossível de conter. Dir-se-ia que lhes falta o estoicismo das mulheres. Mas a maioria dos homens, mesmo nas brumas mais profundas, consegue ver uma réstia de azul, lambe as feridas e segue em frente.
Na tua idade, é fácil amar de peito aberto, não colocar rédeas á entrega, manter as emoções à flor da pele. Só que aos poucos, começas a racionalizar e a relativizar. A cada ano que passa, olhas para o teu eu do ano anterior e ris-te desse totó armado em bom quando no fundo não sabia nada da vida, ainda estava para levar umas boas cabeçadas e uns abre-olhos, ao contrário do teu eu actual, infinitamente mais sábio, mais experiente e esclarecido. Para no ano seguinte voltares-te a rir com desprezo dessas tuas convicções entretanto ultrapassadas. E quando te deres por ti, tens a minha idade e verificas que sabes tanto e no entanto sabes tão pouco. Que ser-se adulto não é como entrar num clube onde se adquire toda a maturidade e sabedoria, mas sim que de repente, tornaste-te adulto e que apenas fazes o melhor que podes com o que sabes e o que virás a saber.
Dizia eu, na tua idade é fácil amar intensamente. Mas já aí, os sedimentos da luta entre perdas e ganhos já se instalam. Haverá alguns que se cansam de amar, que decidem que não estão para chatices e fecham o coração a cadeado, preferindo os relacionamentos mais inconsequentes. Outros passam a crer que a confiança é como a virgindade e só se perde uma vez, e olham sempre em volta com desconfiança, dissecam e analisam, esperando encontrar fórmulas para os sentimentos. E ainda outros para quem as linhas entre amor e ódio, paixão e ciúme, entrega e possessão, deixam de existir.
Mas tu e eu somos daqueles que acreditamos que mais vale cair do que nunca sequer ter voado. Sabemos que por muito profundos sejam os momentos baixos, a suprema glória dos momentos altos fazem tudo valer a pena. E que esta sucessão entre altos e baixos é o que nos faz sentir vivos. Por isso, eu sei que com o passar dos anos, continuarás a colocar a tua paixão em tudo o que fazes, na vida, no amor, no trabalho, nos hobbies. Não recearás as lágrimas porque saberás rir por entre elas. Saberás filtrar cada vez melhor o que vale a pena o teu empenho daquilo que não merece a tua energia, e arriscarás no amor com riscos calculados. E se a vida te trocar as contas, só terás que seguir em frente e continuar a viver. E o orgulho que se lixe.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Derreter o gelo
Ela não sabe que é linda. Desconhece o poderoso encanto de mulheres como ela. Discretas, sensíveis, de beleza serena. Que o corpo, que ela crê não ser nada de especial, é cheio de segredos. Intrigantes, deliciosos.
Já lhe partiram o coração, já sofreu por amor. Tinha baixado as defesas e padeceu de um duro golpe. Por isso, ela mantém-se em guarda, cerra os punhos à vida, faz-se de forte.
Ela gosta de pensar que me aceita de forma desprendida e lúdica. Que não se entrega completamente e que anda a servir-se de mim para satisfazer uma necessidade básica, de forma conveniente e casual. Que sou apenas uma relação de transição, e que fora da cama, pouco mais temos.
Mas ela mente a si própria, e eu minto-lhe também. Faço de conta que sou amante esclarecido e eficiente. Digo que estou pelo desafio do jogo, que ando a ver se subo a parada, como numa partida de poker.
Só que já não é mentira. Nunca foi. É tudo sentido, é tudo verdadeiro mesmo que fingimos parecer que não. Para obter a sensação sem a entrega, só é preciso um e não nos negamos a ser dois.
Se ela soubesse como ela pode ser fascinante e a facilidade com que pode cativar qualquer homem como o fez comigo, talvez ela deixasse de se questionar. Mas por outro lado, o facto de não o saber também tem o seu encanto.
Apenas gostaria de derreter mais o gelo à volta do seu coração, fazê-la admitir que somos um pouco mais que amantes casuais. Que não é só uma comichão difícil de coçar. Então eu dir-lhe-ia tudo o que penso quando a vejo, como a doçura dela invade o meu coração e me deixa cada vez mais apaixonado por ela. Em vez disso, aproveito para comunicar com o meu corpo tudo aquilo que ainda não lhe consigo dizer a voz alta. E aos poucos, vou sentindo que ela ouve e compreende. As suas feridas vão deixar de doer tanto e vai perceber que o amor não tem que doer para ser verdadeiro. Então ela vai olhar para mim e vai perceber que tudo aquilo que ela secretamente deseja, eu serei capaz de lhe dar. E até muito mais.
Já lhe partiram o coração, já sofreu por amor. Tinha baixado as defesas e padeceu de um duro golpe. Por isso, ela mantém-se em guarda, cerra os punhos à vida, faz-se de forte.
Ela gosta de pensar que me aceita de forma desprendida e lúdica. Que não se entrega completamente e que anda a servir-se de mim para satisfazer uma necessidade básica, de forma conveniente e casual. Que sou apenas uma relação de transição, e que fora da cama, pouco mais temos.
Mas ela mente a si própria, e eu minto-lhe também. Faço de conta que sou amante esclarecido e eficiente. Digo que estou pelo desafio do jogo, que ando a ver se subo a parada, como numa partida de poker.
Só que já não é mentira. Nunca foi. É tudo sentido, é tudo verdadeiro mesmo que fingimos parecer que não. Para obter a sensação sem a entrega, só é preciso um e não nos negamos a ser dois.
Se ela soubesse como ela pode ser fascinante e a facilidade com que pode cativar qualquer homem como o fez comigo, talvez ela deixasse de se questionar. Mas por outro lado, o facto de não o saber também tem o seu encanto.
Apenas gostaria de derreter mais o gelo à volta do seu coração, fazê-la admitir que somos um pouco mais que amantes casuais. Que não é só uma comichão difícil de coçar. Então eu dir-lhe-ia tudo o que penso quando a vejo, como a doçura dela invade o meu coração e me deixa cada vez mais apaixonado por ela. Em vez disso, aproveito para comunicar com o meu corpo tudo aquilo que ainda não lhe consigo dizer a voz alta. E aos poucos, vou sentindo que ela ouve e compreende. As suas feridas vão deixar de doer tanto e vai perceber que o amor não tem que doer para ser verdadeiro. Então ela vai olhar para mim e vai perceber que tudo aquilo que ela secretamente deseja, eu serei capaz de lhe dar. E até muito mais.
Subscrever:
Mensagens (Atom)