terça-feira, 6 de setembro de 2011

Frasco de Geleia

Não concordo com o que diz a personagem do Billy Crystal em "Um Amor Inevitável", que uma amizade entre homens e mulheres é impossível porque o sexo, ou pelo menos o desejo sexual, está sempre presente e acaba por estragar tudo. Acredito que é perfeitamente possível uma amizade entre homem e mulher, numa relação de puro bom entendimento e companheirismo, sem que uma eventual atracção, mútua ou unilateral, seja motivo para pôr as coisas em cheque. E nós sabemos bem disso, porque sempre tivemos mais tendência para travar amizade com o sexo oposto. Uma vez até me disseste que as tuas amizades masculinas têm sido geralmente mais verdadeiras e compensadoras que as femininas. E para mim sempre foi um pouco mais fácil criar amizade com elas do que com eles. E sim, já me senti atraído por algumas das minhas amigas e já formulei muitas questões começadas por "e se...?" Porém, como ambos sabemos apreciar o valor precioso de uma boa amizade e já sofremos com a desilusão daqueles que se revelaram serem amigos e amigas da onça, sabemos o quanto custa quando uma amizade se estraga pelos mais variados motivos. E que por vezes, não vale a pena pôr mais incógnitas na equação.

Claro que a atracção é um assunto que poderá complicar, e bem, as coisas. Mas nesse caso, das duas uma: ou se arrisca e tenta-se conquistar o outro, avança-se para saber se vale a pena enveredar por uma relação amorosa ou sexual; ou então não se arrisca, ou porque o outro deixou bem claro que não sente o mesmo e não vale a pena, ou porque não se está para chatices, ou então porque as coisas estão bem como estão e se algo não está partido, não é preciso arranjo. Sou tentado a dizer que a primeira hipótese seja mais tipicamente masculina e a segunda mais tipicamente feminina.
Atrever-me-ia até a dizer que se um homem diz "eu não quero algo mais porque pode estragar a nossa amizade", regra geral quer dizer "não estou assim tão interessado em ti, não há hipóteses de sermos mais que amigos, desculpa lá." Se algum já te disso isso e se ficaste com a pulga atrás da orelha, tiveste certamente razão. Geralmente, se um gajo está mesmo interessado, seja em termos de amor ou de simples tusa, quer lá saber se a amizade pode-se estragar ou não. Quem não arrisca, não petisca e lá vai disto.

Mas eu devo ser uma excepção que confirma a regra. Primeiro porque sempre fui um solitário e sempre que sentia o menor sinal de afecto e empatia da parte de alguém, é como se tivesse achado algo inestimável e precioso. Depois porque muitos, senão a maioria, não conseguem ou não querem conhecer o meu verdadeiro eu, para além da minha superfície peculiar, por isso sempre que alguém tem a coragem e a inteligência para o fazer, eu sei que essa pessoa vale a pena. Se há coisa que me arrependo na minha adolescência, foi a de me preocupar com gente que não me valorizava e de quem não valia a pena perder o meu tempo. Por isso, uma amizade para mim vale mais que ouro e tenho pena que quase todas as minhas amizades tenham grandes interregnos pelas mais diversas circunstâncias da vida. O que vale é que eu sei que quando reencontro amigos de verdade, é como se o tempo não tivesse passado e os sentimentos tivessem estado arrumados só para melhor se conservarem, como o vinho na pipa. É ai que eu me lembro que entre amigos pode haver muitas vírgulas mas nunca um ponto final.

Daí que o teu namorado pode ficar descansado em relação a mim, embora eu duvide que ele tivesse visto em mim o mais mísero motivo para desconfiança. Sim, sou gajo, tenho olhos na cara, sei que és linda. É preciso ser-se cego e atrasado para não te achar atraente. Ele é um grande sortudo em ter-te como namorada e quem me dera um dia encontrar alguém como tu. Mas tudo isso é de importância irrisória, diante do que a tua amizade vale para mim. Aliás, fico muito feliz por teres encontrado finalmente um príncipe depois de tantos sapos que tiveste que beijar. A bem-dizer, só o conheço pelo que me contaste dele, a única e muita breve ocasião em que o encontrei pessoalmente não deu para tirar mais conclusões. Mas para mim, basta-me reparar que ele te faz feliz, e que ele tem estado lá, à altura da situação, quando precisas dele.

Uma das minhas frases feitas preferidas é uma de Vinícius de Moraes: os amigos não se fazem, reconhecem-se. Nem sempre é verdade, às vezes leva tempo, mas já houve algumas pessoas que mal as conheci, soube logo que estava ali um amigo ou uma amiga. E foi o que se passou connosco. Pode ter sido o destino, o acaso, a astrologia (somos ambos nativos de Touro), ou sei lá mais o quê, mas não interessa. Sob uma luz mais analítica, poder-se-ia dizer que não temos assim muitos gostos em comum, que temos mais pontos de discordância que de confluência. Até pode ser verdade, mas isso não impediu que nos soubéssemos adaptar ao ritmo um ao outro. E talvez seja por isso que, para cada um de nós, a companhia do outro fosse especialmente interessante e enriquecedora.

Após um ano de convivência frequente, chegou a altura de seguirmos rumos diferentes. É possível que passe muito tempo sem nos vermos e que as voltas da vida coloquem uma grande distância entre nós. Se assim for, só me resta arrumar-te no espaço do meu coração onde guardo os amigos que fiz ao longo da vida e de quem tive de dizer adeus. Onde há sempre espaço para mais um, onde os sentimentos ficam conservados para não perderem o sabor. Espero que também faças o mesmo.
Pensa que será como aquele frasco de geleia na prateleira mais alta da dispensa. E que um dia, havemos de pegar num escadote, subir até lá, trazer o frasco cá abaixo e barrar a geleia no pão, para descobrir que continua saborosa como sempre.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E é Isto

- A nossa história de amor é horrível.
- Terrível!
- Pior que telenovela mexicana.
- Pior que um telefilme melodramático.
- Quer dizer, não é bem melodramática. Mais estilo comédia romântica.
- Sim, comédia romântica mas muito fraquinha.
- Fraquinha, mas é a nossa história.
- Pode não ser grande coisa, mas é nossa e de mais ninguém.
- Mas a bem dizer, ainda agora a história começou a sério. Só estamos juntos há cinco meses.
- Mas no fim de contas tudo começou há catorze anos.
- O amor é que foi há cinco meses.
- Então não te lembras que me disseste que estavas apaixonado por mim desde os teus dezassete anos?
- Mas não era amor a sério. Quero dizer, era, mas era uma coisa platónica, como quem quer um Ferrari e sabe que nunca vai ter.
- Genial, comparares-me a um carro.
- Desculpa lá, mas era mais ou menos assim.
- Além de que tu me tiveste. Perdi a minha virgindade contigo.
- E eu a minha contigo. Sim, tens razão. Já gostava de ti desde os meus dezassete anos. Tu é que não gostavas de mim.
- Claro que gostava, senão tinha dormido contigo.
- Mas tu gostavas era do Diogo. Foi ver-te voltares para ele logo a seguir àquela noite.
- Não foi bem logo a seguir.
- Mas acabaste por voltar para ele na mesa. Mesmo sabendo que ele te tinha enganado.
- Pronto, o que é queres? Era uma miúda, uma autêntica totó. Valha-me Deus, eu era tão parvinha. Eu hoje olho para trás no tempo, e só me apetece dar um valente par de chapadas ao meu eu de 18 anos. Era tão queque, tão presunçosa, tão imatura…
- Tu eras a rainha do liceu. Todas as raparigas queriam ser como tu. E todos os rapazes desejavam secretamente estar contigo, namorar contigo.
- Como tu.
- Como eu. Mas tu eras do Diogo e mais ninguém. Ai de quem se atrevesse a aproximar de ti. Eras propriedade do Diogo, e contigo ninguém se metia. Ele deixava isso sempre muito bem claro.
- E enquanto isso, ele metia-se com a bimba da Catarina. E provavelmente com outras.
- Se não fosse aquela noite, eu também gostaria de voltar atrás no tempo e dar uma valente chapada no meu eu de 18 anos, por alimentar uma estúpida fantasia de que tu te poderias interessar-te um bocadinho que seja por mim e mandar o Diogo à viola.
- Isso acabou por acontecer. Naquela noite.
- Pois foi. Mas tão depressa voltaste para ele, que por vezes até imaginava que fui apenas um capricho. Que o fizeste só por ressabiamento, porque apanhaste o Diogo aos beijos com a Catarina.
- Mas não foi. Agora tenho a certeza que não foi. Aliás, no fundo sempre sabia. Mas no dia seguinte, estava tão confusa. Nem queria acreditar que o tinha feito. Que tinha perdido a minha virgindade contigo, quando eu nunca imaginei que acontecesse com mais ninguém a não ser o Diogo. Estupidamente, pensei que o melhor seria pensar que o melhor era fazer de conta que nunca tinha acontecido. Ainda por cima, uns dias depois, o Diogo veio ter comigo, disse-me que estava muito arrependido, que ia mudar, que curtir com a Catarina foi a maior estupidez da sua vida, que agora é que ele percebia mesmo o quanto eu era importante para ele, blá, blá, blá. E eu, vulnerável e confusa, acabei por perdoar e acreditar de novo na treta dele.
- E passaste o resto das férias lá no resort a fingir que não me conhecias. Tu de novo com o namoradinho e os teus amiguinhos, nas vossas festas de meninos ricos, e eu de novo a limpar as casas de banho para juntar um pé-de-meia para a Universidade.
- Eu tinha que te evitar. Falar contigo de novo só iria complicar mais as coisas. Decidi que o melhor era esquecer, mas nunca esqueci. Foi mesmo uma noite mágica, ali ao luar, pé do mar...
- Como aquela canção.
- Pois foi. Ao longo destes anos, quando pensava que tinha esquecido completamente, havia algo que me fazia lembrar em ti e naquela noite. Nem sei como é que correu tudo tão bem, quando estava nervosa. Cheia de adrenalina e raiva, mas super nervosa.
- E eu também. Eu mal queria acreditar. Só dizia para mim mesmo que só podia ser um sonho. Não podia estar a fazer amor com a Raquel Peixoto. Que a minha primeira vez estava a ser com ela. Que se aquilo era um sonho, não queria nunca mais acordar. Mas veio a manhã seguinte e chapéu. Tudo o que tinha era essa recordação. Fiquei destroçado quando em evitaste o resto do Verão. Para me conformar, ia dizendo a mim mesmo: “Ao menos tivemos aquela noite. É melhor que nada.”
- Uma vez, até me lembrei de ti quando estava na cama com o Diogo.
- A sério? Não me tinhas contado isso. E o Diogo não notou nada?
- Achas? Ele, egocêntrico como era, nunca notou nada. Nem nunca lhe falei de nós os dois. Ainda hoje pensa que ele é que me tirou a virgindade. Mas também não era difícil disfarçar. E disfarcei muitas vezes com ele...
- E comigo, disfarçaste?
- Não, contigo foi tudo real. Logo aí, devia ter visto um sinal. Eu acabei por ter relações com ele mais tarde e notei bem a diferença.
- Giro, giro, era que sem querer, quando estivesses com ele, sussurrasses o meu nome: “Francisco”.
- Não querias mais nada... Mas não era só na cama que dissimulava. Desde que por fora, eu sorrisse e fizesse o meu papel de esposa perfeita, para ele estava tudo bem.
- Nem acredito que casaste com ele.
- Nem eu. Mais que iludir o Diogo, iludi-me a mim própria. Pensando que ele tinha mudado, que tinha amadurecido, que os seus dias de playboy já estavam para trás. Durante os anos da faculdade, demos um tempo à nossa relação.
- Claro que para ele, “dar um tempo” significava “quero-me enrolar com quem bem me apetecer sem me sentir culpado”.
- Exactamente. E se bem o pensou, melhor o deve ter feito. Mas para mim foi mais naquela: ele ia para Coimbra, eu para Lisboa, estávamos numa fase nova da vida, iríamos conhecer pessoas novas, seria complicado manter a relação. Até para mim foi melhor assim. Fiz novos amigos, dediquei-me aos estudos, tive um ocasional flirt mas nada de muito sério.
- Nada de noites de tórrida e fortuita paixão, como foi no nosso caso.
- Nem pensar. Uns meses depois do fim do curso, ele veio ter comigo e parecia outro. A dizer que teve saudades minhas, que nenhuma das raparigas que conhecera por lá não se comparava comigo, que estava mais maduro e pronto a assumir responsabilidades. E todo cheio de gestos românticos, como nunca antes fizera. Como é que podia resistir? Mal ele pediu-me em casamento, já estava toda maravilhada.
- E no entanto, ele estava na mesma, só que mais matreiro. Ele sabia que serias a esposa perfeita, que assegurarias bons genes para os filhos e que te tinha como ele queria.
- Resumindo e concluindo. Casámo-nos e tivemos a Madalena. Ao fim de sete anos, apanho-o em flagrante na cama com a estagiária de vinte e dois anos, expulso-o de casa, ele faz inúmeras tentativas de reconciliação, descubro que houve outras antes daquela, eu já não acredito mais nele, mando-o bugiar, por fim ele aceita o divórcio e em pagar pensão de alimentos até eu conseguir orientar-me por mim própria, fica com a menina aos fins-de-semana. Foi muito duro voltar a viver às minhas custas, porque depois da Madalena nascer eu só trabalhei em part-time e no estado em que isto está, foi muito difícil voltar a arranjar emprego. Felizmente, uma colega de curso convidou-me para trabalhar na firma dela e as coisas por fim começam a entrar nos eixos. Mais ainda agora, que te reencontrei. Então e tu? Também tens de contar o que se passou contigo depois daquela noite, não sou só eu.
- Está bem. Ora é assim. Depois de naquela manhã seguinte teres-me cruelmente ignorado e evitado durante o resto do Verão...
- Tu queres ver?
- ...depois desse Verão, convenci-me que o que quer que houve entre nós os dois não iria mais além dessa noite. Fui também para a Faculdade, por lá tive uma namorada. Depois do curso, fui aceitando os trabalhos que me apareciam, mesmo fora da área, até ser contratado por aquele jornal.
- Mais ou menos na altura em que iniciaste o teu famoso blogue.
- Mais ou menos. Uns anos depois, iniciei uma relação séria com a Marta, como tu sabes. Ao fim de dois anos de união de facto, tivemos o Sandro. Três anos depois, vimos que a coisa já não estava a resultar, que já não havia um “nós” na relação, tínhamos só um filho em comum e quase mais nada. Simplesmente deixámos de estar apaixonados, como ela disse. A separação não tardou. Foi inevitável, mas mesmo assim custou-me imenso. Tinha investido muito nessa relação, tinha-me esforçado, tinha feito planos e foi doloroso saber que esses planos já não se iriam realizar. E sentia que tinha falhado. Os meus pais continuam felizes e casados ao fim de quase quarenta anos, e eu sempre quis algo assim para mim, alguém para amar e passar o resto da minha vida. E pensava que a Marta seria essa pessoa. Mas nós continuamos amigos, damo-nos lindamente, e não só apenas por causa do nosso filho. Aliás, ela está grávida de novo, do actual companheiro. Costumamos ir jantar com eles várias vezes, apesar da Raquel não gostar muito da Marta.
- Mentiroso. Eu gosto dela. Não me identifico muito com ela, temos muitas opiniões diferentes, mas damo-nos bem. E creio que ela também simpatiza comigo.
-  Claro. Ela sabia da nossa história. Mas continuando, a minha separação da Marta afectou-me bastante, muito mais do que eu gostaria. Ao ponto de não me sentir muito festivo quando recebi a notícia de que iam publicar o meu blogue em livro. E publicar um livro era apenas o meu maior sonho desde que aprendi a escrever. Até que surgiste de novo, numa sessão de autógrafos.
- Eu era uma das poucas pessoas que nunca tinham lido o blogue dele. Mas quando vi a foto dele na contracapa do livro, vieram-me à mente de novo as memórias daquela noite. Só conseguia pensar “Uau, o Francisco Antunes escreveu um livro.” Ele sempre escreveu muito bem, lembro-me de gostar das coisas que ele escrevia para o jornal da escola. Claro que comprei logo o livro, devorei-o de ponta a ponta nessa mesma noite e mal soube que iria haver uma sessão de autógrafos, eu tinha que ir lá. Mas era mais naquela de nostalgia, nada mais.
- Mal dei por ela, quando ela me estendeu o livro para autografar. Já tinha dado milhares de autógrafos e nem olhei quando lhe perguntei o nome. Mas assim que ouvi o voz dela, fiquei estarrecido. Lá estava ela, ao fim destes anos todos. Ainda por cima, parecia que não tinha mudado nada. Bonita como há catorze anos atrás.
- Vou fingir que isso é verdade. Já tu tinhas mudado, mas para melhor. Quer dizer, já eras giro antes, mas parecia que tinhas melhorado com o tempo. Até os óculos faziam-te parecer mais sexy. Agora é que ele estava mesmo um borracho.
- Sim, agora que era famoso e tal.
- Até parece...
- Claro que estou a brincar. Assinei com “Para a Raquel, catorze Verões depois. Um beijo, Francisco”.
- E eu julgava que o nosso reencontro ficaria por aqui.
- Eu também. Mas duas semanas, depois, numa cena melosa como aquelas que parece que só acontecem nos filmes, lá estava ela no Burger King.
- Eu tinha ido ao cinema com a Madalena e fomos almoçar ao Burger King. Ela foi brincar para uns baloiços que lá havia e uma das crianças que lá estavam era o filho dele. A dada altura, a Madalena, que tem o hábito de ir ter comigo apresentar os amigos que vai fazendo, veio logo dizer-me “Mãe, este é o Sandro.” E o miúdo, muito educado, estende-me a mão à homenzinho, diz: “Como está, passou bem?”. Achei tão engraçado. Então ele diz à Madalena: “Vou só ter ali com o meu pai, já volto.” Vejo-o a correr e quando não é o meu espanto quando vejo ele a ter contigo a chamar-te pai.
- Igualmente espantado, fui ter contigo, pusemos a conversa em dia. E como quem não quer a coisa, perguntei-te se queria almoçar comigo um dia destes.
- Combinámos no sábado seguinte, uma vez que a Madalena ia ficar com o pai e o Sandro com a Marta.
- Sendo que o que era para ser só um almoço amigável, mas acabou por ser dois dias de paixão, a recuperar o tempo perdido. E foi ela que começou, vejam lá!
- Eu não sei o que me deu. Só sei é que já há três anos não tinha sexo. Pensava que o sexo não me fazia falta. Mas foi revê-lo, tão bonito e atraente, que percebi que não era bem assim. Olhem, atirei-me e, por uma vez da vida, não quis saber do resto. Foi como se estes anos não tivessem passado. Quero dizer, senti que os anos tinham passado, já não éramos miúdos, éramos adultos. Mas o que tinha sentido naquela noite, voltei a sentir. 
- E eu também. Ao longo destes anos, dava por mim a pensar em ti, naquela noite, em onde e como estarias então. E ao rever-te, foi como se nunca tivesse deixado de estar apaixonado contigo. E cinco meses depois, estamos assim.
- Pois estamos. Cada um ainda mora na sua casa, cada um ainda faz a sua vida, mas sempre que podemos, encontramo-nos.
- Seja para uma saída romântica ou uma sessão de sexo escaldante.
- Mas não pensem que tem sido um mar de rosas. Este homem por vezes irrita-me profundamente, dá-me mesmo cabo da paciência.
- Ui...E tu também não és uma santa. Mas mesmo quando te zangas, continuo a gostar de ti.
- É chato quando nos zangamos, mas no fundo, prefiro ralhar do que reter tudo cá dentro, como quando eu estava com o Diogo. Pelo menos, sinto-me viva. A princípio, pensei que a Madalena iria estranhar, mas qual quê, está felicíssima, já adoptou o Sandro como irmão. Aliás, praticamente desde que começou a falar que me pedia um mano.
- Não sabemos onde isto vai dar, se vai ser para durar. Mas até agora, não tem corrido mal. E eu também.
- Eu também.
- É como se uma premonição se realizasse. Full circle.
- Absolutamente. E é isto.
- E é isto. Como vêem, a nossa história é toda melosa e foleira, uma comédia romântica muito fraquinha e cliché.
- Pois é. Mas é a nossa história.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Votos desfeitos

Caminho o mais depressa que posso mas a vergonha está no meu encalço. Entro no carro rumo a casa, para junto daquela a quem jurei fidelidade e respeito.
Votos desfeitos numa troca de olhares, outros braços prontos a me acolher. A dizerem que eu sou bom, que sou maravilhoso. A pedirem mais.
Sou um cabrão traidor, que anda há meses metido com uma sirigaita de trazer por casa enquanto a boa esposa, mulher porreira e excelente mãe está lá no lar doce lar, estranhando a minha demora.
Os candeeiros da rua encadeiam-me. Será que ela já sabe? Será que ela imagina a outra como uma deusa sexual, bela e lasciva, impossível de competir? Se ela soubesse como a outra é, ficaria surpreendida. Sim, é bonita e fogosa, mas não muito mais bonita que ela, nem sequer melhor na cama.
Mas não é por isso que vou regressando à outra. É pela maneira como ela me faz sentir. Venerado, adorado, ouvido, importante, especial. Mas também não é muito difícil ela conseguir isso de mim. Nas horas em que me acolhe, não se queixa do trabalho dela, não demonstra o cansaço da sua rotina, não reclama sobre dinheiro nem sobre o ex-marido, não me conta os problemas do filho. Ela põe tudo isso para trás das costas por umas breves horas só para se dedicar a mim. Só tem que sorrir para mim, vestir uma lingerie sexy, dizer-me palavras meigas, tocar-me como sabe que eu gosto. E sinto-me logo o máximo, o macho dos machos. Emocionado com tal dedicação, acredito, acolho, iludo-me.
Até acredito que ela goste de mim, que tenha muito prazer comigo, que a sua devoção não é totalmente encenada. Se não fosse casado, até poderia querer algo mais com ela. Mas esta noite, veio-me uma estranha lucidez. A outra não vale tanto assim, e a esposa não vale assim tão pouco. Tudo o que eu queria encontrar por fora já tinha no sítio de onde parti. Eu é que não passo de um canalha ingrato, que se julgava com uma grande crise existencial. Tudo não passou de uma ilusão. Pode ter tido bonitos momentos, mas não deixou de ser ilusão. Por isso acabei tudo com a outra.
Vou regressar a casa, vou ser um marido decente. Espero que as saudades que possa sentir da outra sejam menos fortes que esta minha nova determinação. Espero que a esposa nunca venha a saber, e se souber, que se dê por satisfeita pelo meu regresso definitivo e não me confronte. Espero que, caso ela me confrontar, eu saiba as palavras certas e os actos correctos. Para que ela me perdoe e não me deixe. Embora não a censurasse se ela o fizesse.
Vou rodar a fechadura e tentar trancar a ilusão para sempre.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Preservar o calor

Ricardo:

Já deves saber que eu e a Ju nos encontramos bem de saúde, pois nem sequer estávamos próximos do local da explosão. Mas claro que esta tragédia também nos afectou, afinal de contas, este país é a nossa casa e não há memória de um semelhante murro no estômago colectivo.
Lembras-te de eu dizer amiúde que eu era uma alma nórdica aprisionada num corpo português? Pois bem, foi preciso eu ir viver para a Noruega, para me aperceber que sou portuguesíssimo. Aprecio este povo solícito, bem educado, civilizado. Admiro como assumem a sua responsabilidade, e sabem conjugar bem o trabalho e o lazer. Não perdem tempo nem dinheiro com ninharias nem gostam de fazer alarde daquilo que têm e deixam de ter. Apesar da elevada carga fiscal, os dinheiros são bem aplicadas pois os políticos aqui sabem que estão para servir e não para serem servidos e há uma real preocupação com o bem-estar das populações. Mas a verdade é que por muito que admire os noruegueses e por muitos anos que viva cá, nunca serei senão português. Não consigo adquirir as doses cavalares de paciência que eles têm; exaspera-me que mesmo no pino do Verão rara seja a semana em que não chove; chateia-me estar semanas sem ver o Sol no Inverno e o frio ainda me faz impressão embora seja geralmente um frio seco que faz com que se suporte melhor cinco graus negativos cá do que cinco positivos aí.
No entanto, embora saibam acolher e sejam um povo simpático e cordial, eles possuem uma frieza que acho que ninguém no Sul da Europa terá. Imagina tu que volta e meio dizem-me que acham graça eu ser muito expansivo e irrequieto. Vê lá, logo eu, que sempre fui tão introvertido e sempre me orgulhei de ser tão calmo e ponderado. E com a Juliana, passa-se o mesmo, dizem-lhe "és mesmo brasileira" embora ela esteja longe de ser a típica brasileira que o mundo inteiro idealiza. Mas no meio de tanta escandinava, ela era suficientemente brasileira para me aquecer...
Eu até cheguei a engatar algumas norueguesas. Aparentemente agradavam-lhes os meus olhos e cabelos castanhos, tal como eu apreciava os seus olhos claros e cabelos louros. Uma vez quando disse a uma que tinha uns lindos olhos azuis, ela respondeu que ter olhos azuis é aborrecido, que toda a gente na Noruega tem olhos azuis, que ela gostaria de ter olhos castanhos como eu. Deve ser a velha história da galinha da vizinha. Seja como for, aproveitando o meu aparente exotismo de homem latino e como em termos de engate, o português pode ser pacóvio mas é eficiente, lá fui namoriscando uma ou outra local. Mas teve que vir uma brasileira para me deixar completamente apanhadinho e querer mais que um caso fugaz. Ela não é a típica brasuca boazona mas é encantadora que só ela, como tu bem sabes. A nossa compatibilidade de feitios e gostos, aliado à invulgar situação algures entre sermos peixes fora de água e estar num lar longe do nosso lar, ajudou à nossa cumplicidade. E apesar de tudo, estamos muito felizes por viver aqui.
Por isso, esta tragédia veio-nos relembrar que até nos sítios mais aprazíveis podem surgir os piores monstros. Como aquele que esteve por detrás disto tudo, que fez explodir o prédio do gabinete do primeiro ministro e matou indiscriminadamente tantos jovens em Utoya. Muitos deles, tão noruegueses e caucasianos como ele, embora apregoasse que a sua causa era contra os forasteiros imigrantes, sobretudo muçulmanos. Para uma sociedade onde coabitavam de forma relativamente harmoniosa e pacífica gente de várias nações, raças, culturas e religiões e que se orgulhava disso, foi um duro golpe. Saber que as vozes que se erguiam contra isso poderiam ir aos limites extremos de terror para tal foi um alarmante abrir dos olhos. Lembrou-nos a todos que o terrorismo, tal como todos os males do mundo, pode ter vários rostos.
No entanto, e apesar do duro murro no estômago, existe calma, respeito e ordem. Espero que me engane, mas algo me diz que se o mesmo tivesse acontecido em Portugal, haveria uma histeria colectiva colossal. Mas aqui mesmo os que mais sofreram, recusam o vitimismo. As vozes que se levantam são para reafirmar o orgulho na sociedade multicultural e tolerante. Mais do que nunca, tenho ouvido os nossos amigos e  até desconhecidos a dizerem para não termos medo, que não têm nada contra os imigrantes bem pelo contrário, que só uma quantidade muito residual dos noruegueses é que pensa como aquele doido. Se ele queria com isto lançar uma semente de ódio, só se foi de ódio contra ele e contra aquilo que ele defende.
Por muito rapidamente que ordem e a calma tenham sido restabelecida, sei que a Noruega vai demorar muito tempo a recuperar de todas as mazelas. Foi uma espécie de inocência perdida, um brusco rasgo numa tela de cores, um abrupto risco na harmonia. Só espero que o frio do medo não se junte à frieza cordata dos noruegueses. Mas pelo que eu sei deles, tal não deve acontecer. É que aqui se aplica literalmente a expressão "trabalhar para aquecer" e num clima frio como este, viver é preservar o calor.
Não é à toa que em Portugal, toda a gente adora o Sol. Parece que em Portugal, apesar de tudo, não há nada como o sentir o Sol na cara para sentir um gosto da vida.

O teu mano,
 Nelson 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cama quente e sapatos arranjados

Tu vê só as voltas que a vida dá, Almerindo. Nem faz dois anos que foste para outro mundo e eis-me recasada, ainda por cima com um homem quinze anos mais novo. Como as coisas mudam!...
Lembras-te de quando eu era nova, a quantidade de moças que havia cá na aldeia? Eram tantas que muitas ou ficavam para tias ou iam para freiras. Houve até quem achasse um "último recurso" eu casar-me contigo, tendo eu dezanove anos e tu mais de trinta. Mas nunca dei muita importância à nossa diferença de idades. Era de ti que eu gostava, e só queria fosses bom marido e não desses em bêbado, e felizmente foste um bom marido e sempre tiveste muito tino com o vinho. Claro que por vezes, mais do que eu desejaria, eras rabugento e ralhavas comigo mas pelo menos nunca me bateste nem me chamaste nomes.
E tu tão-pouco tiveste razões de queixa de mim. Estive sempre ao teu lado nas boas e más horas, criei o nosso Zé Pedro o melhor que pude, encarreguei-me sempre de haver comida à mesa e roupa lavada quando tu e eles queriam. E nos quatro anos em que essa malfadada doença te prendeu à cama até a morte te levar, nunca me poupei nos teus cuidados, esperando reduzir o teu sofrimento como pudesse. Tu não penses que haveria assim muitas como eu, dispostas a isso nesta situação. Seja como for, fui tudo o que uma boa esposa devia ser até ao último dia da tua vida.
Mas agora na aldeia está tudo ao contrário. Mulheres há poucas, só dos cinquenta anos para cima, e quase todas casadas. Rapazes novos por casar é que são aos magotes. Vê só os três da Deolinda, ainda todos solteiros e a viverem com ela e o marido. Muitos abandonaram a cidade em busca de melhor vida e de uma esposa. Como o nosso filho, que depois da tropa, lá ficou por Lisboa, onde fez a sua vida, casou e teve as nossas netas. Os que ficam, quando acabam o trabalho, andam por aí aos bandos; juntam-se no café da Alzira, jogam às cartas, falam da bola e do mulherio que não há meio de arranjarem. De vez em quando, vão ao putedo nas cidades mais próximas. E alguns ainda se armam em esquisitos, a dizerem que só querem mulher airosa e bem-cheirosa. Mas no fim, acabam por contentar-se com menos. E se uma mulher enviuva, tem logo candidatos para novo homem. E foi isso que me aconteceu, depois de eu deixar o luto e ter de novo a vida orientada.
Se em nova era bonita, os anos não me foram muito generosos. Já tenho sessenta e um anos, só me restam metade dos dentes, os meus cabelos estão já muito brancos e quebradiços e cheiro a bedum de velha. Mas não estou morta e lá vou aproveitando a saúde e a energia que me restam. E quando me surgiu um pretendente, após o choque inicial, não demorei assim muito tempo a decidir aceitar a companhia dele. E vê lá tu, foi o Juvenal, o filho do Alberto sapateiro. Lembras-te dele em cachopo quando ele começou a ajudar o pai? Ele agora tem quarenta e seis anos e, como sabias, herdou o negócio do pai.
Claro que não posso gostar dele como gostei de ti. Mas tenho que admitir que estou muito bem e gosto muito deste novo conchegozinho. Lá por ser velha, não tenho direito a ter alguém que ainda me aqueça a cama? O Juvenal é trabalhador, sadio e, ao contrário de mim, até parece mais jeitoso agora do que em moço. Tenho a cama quente, os sapatos arranjados e alguém para cuidar de mim quando a saúde me faltar. E quantas mulheres como eu tiveram a chance de serem desposadas por dois homens, o segundo ainda com bastante vigor?
A vida dá muitas voltas e nunca se sabe onde isto vai dar. Mas espero que a coisa se mantenha para o resto da minha vida. Tu bem sabes que mereço passar os anos que me faltam de forma tranquila, de quem trabalhou arduamente uma vida inteira e está no merecido descanso. Por isso, deixa-me ser agora mulher de outro. Até Deus Nosso Senhor me levar para daqui, para junto Dele, e espero que também para junto de ti.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Algo

- Olá!
- Olá! Tudo bem contigo?
- Tudo. E tu?
- Também está tudo bem.
- Óptimo...Então, adeus.
- Adeus.
Tinha dito a si próprio que a tinha esquecido. Mas claro que nunca a esquecera. Nem ela tão-pouco o esquecera, bastou vê-la para perceber. Encontrou-a no meio da rua, naquelas situações onde não dá para se fazer de distraído. Cada qual estava acompanhado, ele com uma loura esfuziante, ela com um tipo engravatado. Ele reparou que ela usava a mesma blusa azul de quando a viu pela primeira vez. Tanto tempo passou e ela parecia que mal tinha mudado. Que aquele rosto terno e tímido era o mesmo de quando a conheceu. Ou ainda antes...


ANTES...
- Puta do caralho, foste para a cama com esse cabrão!
- E tu fodeste com aquela vaca putalhona!
- Mas eu deixei-a por ti, tu é que queres trocar-me por ele.
- Deixaste-a por mim! Ai, que generoso. Lá estás tu a fazeres-te passar por santo e eu pela má da fita.
- Deixa-te de merdas.
- Já não posso mais. Estou sufocada.
- Sufocada, tu? Essa é boa. Fazes o que queres e te apetece...
- Faço o que quero? Eu fiz sempre tudo o que TU querias. Porque tem de ser sempre como tu queres senão ninguém te atura.
- Ai é? Então faz como queiras. Vai-te embora, se tu quiseres. Mas, por favor, cala-te.
Depois dos gritos, o silêncio. O que mais havia para dizer, para gritar? De que valia andarem aos berros e a atirar coisas? Perceberam que tinha chegado o fim. Era como se um já não 
tivesse lugar para o outro. Olhando para trás, se não tivessem cometido tantos erros, se tivessem lutado mais por eles, se resistido mais às tentações, não estariam aqui neste ponto sem retorno. Mas agora já é tarde demais.


ANTES...
Ele parece vê-la lá ao longe. Aproxima-se e confirma que é mesmo ela. Está bonita e radiosa como há muito não a via. Ela olha sempre em frente, procurando alguém. Talvez uma amiga. Ele não quer fazer de espião, mas a curiosidade é mais forte. Quando vê o Gonçalo, um colega do trabalho dele. O tipo de pessoa que está sempre de aspecto impecável e que parece nunca pôr uma pata na poça. O sorriso de espião infiltrado desvanece-se quando eles se abraçam e ele lhe dá um beijo na face. Podia não ser nada demais, mesmo assim. Excepto que o rosto dela ilumina-se. Como quando ela o via, há uma eternidade atrás. Ela gostava de ouvir Sheryl Crow.   


ANTES...
Ele entra no quarto. São quatro da manhã. Ela finge que dorme. Ele despe-se e deita-se à pressa. Ela, como quem não quer a coisa, chega-se para junto dele. Ele vira as costas e coloca uma barreira de roupa da cama entre eles. Ela repara num cheiro a perfume que ela nunca usou e que ele nem se deu ao trabalho de ocultar.


ANTES...
O que se passou para ela o achar diferente? Aqueles defeitos, aqueles nadas que ela de início mal reparava, agora irritam-na para além da razão. É o tampo da sanita que ele deixa levantado. É a banheira cheia de pêlos no ralo. É o ruído canídeo que ele faz quando se espreguiça. São aquelas boxers pavorosas com estampado de cãezinhos que ele insiste em usar e em tê-las lavadas e passadas. É ele que come sempre depressa como se fosse apagar um fogo. São os imbecis dos amigos dele sempre com piadolas boçais e nojentas. O homem que ela julgava perfeito é afinal um grande chato. Ainda há pouco, não via nada para além do seu sorriso e do seu olhar. Só pensava em como ele a fazia sentir quando a apertava contra si. Só ouvia a sua voz sensual a dizer baixinho o seu nome. E ela mal acreditava que alguém como ele pudesse amá-la tanto. Será que ainda acredita?

ANTES...
O que está feito, feito está, repete ele. Que estúpido que foi. Por que raio foi ele para a cama com a Joana? Se é ela que ele ama, é com ela que eu partilha o tecto e a vida, é com ela que ele quer casar... Se tivesse que ser ao menos que fosse com uma desconhecida, não com uma gaja que apesar de não ser amiga dela, ela sabe bem quem é.
Ele gostava de saber como é que ele chegou até ali. Terá gostado de ter chamado a atenção de outra mulher? Teria resolvido responder aos avanços dela, apenas de forma inocente? Terá tudo se desencadeado depressa demais? Terá tido saudades dos jogos de sedução, da emoção da caça?
Não importa. Ele traiu aquela que ama. Aconteceu. O que está feito, feito está. É inútil afastar a culpa que o persegue. Resta-lhe a frágil protecção de um segredo. Ela nunca poderá saber...

ANTES...
Mas por que raio é que as mulheres embirram tanto com a porra do tampo da sanita? Ela tinha que fazer uma cena por causa disso? Passou-se, só pode. Mas pronto, acontece a qualquer um. Mas ultimamente, anda a embirrar por tudo e por nada. Ela nunca fora de dar aquela estúpida importância àqueles pormenorzinhos insignificantes. Bem pelo contrário, ela sempre lhe pareceu tão descontraída e descomplexada. Algo nela deixa-o apreensivo. Que é feito daquela tipa bestial que o cativou assim que a viu? Ele não quer acreditar que está perante um caso de metamorfose quase kafkiana. Ele ainda a ama.
Só que...

ANTES...
Seis meses de paixão. Que bela é a vida. Que bela esta manhã de sábado, com a chuva a cair lá fora e eles bem quentes, abraçados debaixo dos cobertores. Como se bastasse isso para serem felizes. Ela deita a sua cabeça no ombro dele e afaga-lhe o torso. Ele passa as mãos pela cabeleira arruivada dela. E como se nada fosse, de repente a coragem para fazer aquela pergunta que há muito tempo ele lhe quer fazer.
- Sabes, detesto termos de andar de um lado para o outro. Mal consigo estar longe de ti. Talvez seja melhor...
- Tens a certeza? - ela percebe logo o subentendido.
- Nunca tive tanta certeza.
- Então quando é que tu pensas mudar-te para cá?
- Mudar para cá? Eu estava a pedir-te para que viesses morar comigo.
- Mas a tua casa é muito longe do meu trabalho, e aqui até nem ficas longe do teu...
- Não, até fico bastante longe do meu emprego.
- Eu sei...mas não podes fazer isso por mim?
Ele hesita. Mas acede.
- Está bem.
Eles beijam-se e voltam a fazer amor. Eles não cabem em si de contentes. Tanta paixão até lhes causa medo. Mas medo de quê?

ANTES...
Ainda bem que ela o desafiou para aquele passeio de bicicleta na serra. Está um belo dia. O ar não podia parecer mais puro a fluír-lhe pelos pulmões. A serra não podia estar mais verdejante e gloriosa. Credo, até os passarinhos a pipilarem é mais doce música para os seus ouvidos. Ele está mesmo apanhado.
Os dois sentaram-se sobre uma manta e lançaram-se avidamente à merenda. Quando estão saciados de comida, ela aproxima-se dele e beija-o ao de leve. Eles olhem em volta, ninguém por perto, não estão numa zona muito visível. Entreolham-se.
- Queres?
- Quero?
Agora há mais algo por saciar.

ANTES...
- Só te conheço há duas semanas, mas começo a ficar completamente louco por ti. Ainda me acabo por apaixonar, se é que já não estou.
A frase está lançada. Ele espera pela resposta. Ele fixa-se nos olhos dela que, à luz das velas, parecem faíscar. Ela não consegue dizer nada, mas o olhar dela diz tudo. Ele continua:
- Eu não sei que sensação é esta, mas seja como for estou a adorar sentir.
- Também sinto o mesmo. Também adoro, nunca senti nada assim.
- Eu também não. - uma pausa. - Amo-te.
- Também te amo.
Ele faz deslizar o vinho branco pelos copos. Os dois brindam e bebem, entreolhando-se. Com que então isto é que é o amor. Os olhos dele brilham como as chamas das velas. Ela mal pode acreditar que alguém como ele a ama. Mas acredita.

ANTES...
Ela entra na loja, detém-se um pouco a ver os CD até pegar naquele que ela quer. Ele observa-a de soslaio. É alta, de cabelo arruivado e a blusa azul que traz vestida fá-la parecer casualmente elegante. Ela só se apercebe dele quando se dirije para ir pagar à caixa. Ele repara no CD que ela traz na mão.
- Gosta de Sheryl Crow?
- Sim, soube que ela tem um novo álbum. Mas o "Strong enough", do primeiro álbum dela, é a minha canção preferida de sempre.
- Não me recordo como é.
Ela não resiste em cantar, mas baixinho.
- Are you strong enough to be my man?
- Maybe.
Ela ri. Ainda que não seja o tipo de homem que ela costuma mais apreciar, ele é bastante atraente. É da altura dela, moreno, de olhos pretos. Fica-lhe bem a barba de dois dias.
- Eu chamo-me H. - diz ele.
- Eu chamo-me M. - diz ela.
A conversa continua até chegar a vez de ela pagar. À saída da loja, ele pede-lhe o número de telefone. Algo lhe diz a ela para o dar. Algo lhe diz a ele que vão se voltar a ver. Algo lhes diz que algo vai acontecer. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pontos de vista

O amor é uma merda. Uma pessoa só sofre. Por que raio fui me apaixonar por aquele vadio? Ele fez de mim o que quis e no fim deitou-me fora, que nem um preservativo. Mas por que é que tenho esta sina com os homens? Por que é que só me apaixono por tipos que não prestam? Tantos rapazes impecáveis por aí  que eu conheço - se calhar alguns até gostam de mim - e eu só me interesso por aqueles de quem devia fugir. Sou mesmo uma estúpida. Basta ver um palminho de cara e de corpo a dizer "Nunca vi uma mulher tão linda como tu" para caír na teia de aranha. Depois quando quero mais, ou fogem a sete pés ou apanho-os a dar a mesma cantiga a outras. E acabo aqui num bar como este, a chorar sobre um copo de whisky.

Só sexo. Nada de envolvimentos. Umas quecas e umas noites bem passadas. É o que eu digo quando me interesso por alguém. Os meus amigos depois aplaudem-me e dizem que sou o maior. Algumas das minhas conquistas mais indiscretas louvam as minhas proezas na cama às amigas. Como diz a Teresa, uma dos meus primeiros casos, dizia que tinha cara de menino e corpo de homem feito e pelos vistos, devo ser por isso que o mulherio me acha piada. Apesar de ter vinte e seis anos, há quem me dê vinte anos ou até menos pela minha cara ainda de chavaleco.
Houve algumas mulheres com que eu poderia eventualmente ter algo mais sério. Mas por preguiça, hábito ou até receio, nunca ousei dar esse passo. Quem sabe se agora não tinha uma namorada porreira e deixava esta sensação de que eu não vou a lado nenhum? Em vez disso, sinto-me um gigolô de trazer por casa. Depois do efémero prazer, dou comigo a fitar o tecto enquanto alguém ao meu lado, vira-me as costas e adormece, satisfeita ou nem por isso. Tudo isto para quê? Está decidido. Acabou-se o "só sexo".

Agora reparo. Aquele rapaz ali naquela mesa é muito giro. Tem cara de miúdo mas deve ser mais velho do que parece. Ai, controla-te, Catarina! Lá estás tu a deixares-te embeiçar por uma cara bonita. Já te esqueceste que ainda agora estavas a chorar por causa do cabrão do Diogo? Deixa lá esse rapaz, às tantas é igualzinho ao Diogo e aos outros sacanas por quem caíste feita parva.

Aquela ali já vai no terceiro whisky. Deve estar a sofrer um desgosto de amor. Algum tipo pôs-lhe os cornos, ou raspou-se mal lhe saltou em cima. Eu ao menos sou sincero, não há cá tretas nem frases feitas. Aposto que o tipo disse-lhe "Nunca vi uma mulher tão linda como tu". Ao menos podiam ser originais e não irem nos mesmos clichés. Mas é pena, ela é mesmo bonita. Se calhar era alguém assim que eu devia procurar. Não é o tipo de mulher que queira só umas voltas. Ela, com o tipo certo, deve dar uma excelente companheira. E se eu fosse o tipo certo? Não. Logo eu. E mesmo que fosse, ela deve estar naquela fase em que odeia todos os homens e se meter conversa ainda fica piúrsa.

Ele olhou para mim. O que será que ele está a pensar? Como saber o que os homens pensam. A Guida diz que os homens são do mais previsível que há. Eu não acho. O que fazer? Saír? Ignorá-lo? Talvez. Vou fazer de conta que não reparo nele.

Bolas, ela é mesmo gira. Será que já reparou em mim? Mas como adivinhar o que vai na cabeça de uma mulher...Depois os homens é que andam imprevisíveis. O que fazer? Ir ter com ela? Ignorá-la? Sair? Sei lá! Eu ia jurar que ela tinha reparado em mim, mas agora já não sei dizer.

Será que ele vem para o pé de mim? Ele já deve ter reparado que eu reparei nele. Se ele vier, o que fazer? E o que ele vai dizer?

Será que eu devo ir para a mesa dela? E se eu for, o que é que digo? Talvez...Olá, chamo-me Ricardo. Não sei se quer companhia, se não quiser, não a incomodo mais. É que reparei que tem um ar triste. Posso fazer alguma coisa para a ajudar?

Se ele vier para a minha mesa, o que é irá dizer? Perguntará o que se passa comigo e eu direi que não é nada. Mas é claro que é alguma coisa, e por isso, se ele insistir, digo a verdade. Que sofri um desgosto de amor.

Se ela disser que sofreu um desgosto de amor, digo-lhe que eu também ando mal de amores. E até nem é mentira. Assim, comungo da dor dela e não se põe na defensiva. Talvez eu lhe explique o que se passa comigo.  A verdade é a melhor política. Ando a procura de relacionamento sério.

Não quero nada fugaz. Quero estabilidade. Ou tudo ou nada.

Quero estar á vontade com alguém à vontade, sem ter que pôr sempre este ar de galã. É só isso.

Quero alguém que seja honesto comigo. É só isso.

Acho que vou para a mesa dela.

Espero que ele venha aqui para a minha mesa.