segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Menina Jesus

Mónica:

Não é que o nosso primo pôs no Facebook uma foto daquele Natal em que o Tio Armando resolveu mascarar-se de Pai Natal? Apareces lá tu chorosa com a barba que tinhas acabado de arrancar na mão, enquanto o resto da família está perdida de riso. E ano após ano, toda a família lembra-se daquele Natal e sei que ainda hoje, quando se fala nisso, por muito que disfarces, ficas toda envergonhada.
Por isso, e como sei que deves ter ficado toda abespinhada e já deves ter amaldiçoado o David (e não me digas que é mentira, quem não te conhecer que te compre!), resolvi contar-te uma história do teu primeiro Natal. Obviamente que não te lembras, e não há fotografias desse ano, mas foi um Natal que me ficou sempre na memória. Quem sabe se assim não te ajuda a eclipsar as memórias do Natal em que revelaste, não a careca, mas a falsa barba do tio?

Estávamos em 1984. Tinhas nascido há dois meses. A Mãe estava em casa de licença de parto, e teve nesse ano mais tempo para dedicar às tarefas natalícias. Ainda por cima, o Pai, todo babado por finalmente ter uma menina, também se oferecia para também para tratar dos teus cuidados sempre que era necessário. Ele mudou mais fraldas tuas do que minhas e do Ricardo juntas e até foi ele que te deu o teu primeiro banho. A Mãe até estava espantada com tanto desvelo raramente visto comigo ou com o Ricardo, mas sabia que aliando a alegria de ter finalmente uma filha e a experiência de já ter dois filhos, ele já dava bem conta do recado. E como era menos uma preocupação, também era bom para ela. Além do mais, eu e o Ricardo fomos sempre donos dos nossos narizes e não tivemos quaisquer ciumeiras.

Nesse Natal, eu tinha seis anos. Tinha acabado de entrar para a escola primária e sentia-me todo importante por já andar na escola e fazia por cumprir todas as responsabilidades, dos trabalhos de casa até à arrumação do cacifo. No início do mês de Dezembro, os professores tinham pedido para os alunos trazerem elementos para formar um presépio gigante no átrio da escola. Cada um trouxe uma figura ou algum material para fazer o presépio e ficou uma coisa digna de se ver. Com umas caixas de cartão, tinham feito um monte do meu tamanho coberto de musgo, entrecortado por um papel de prata a fazer de rio onde puseram patos. A encosta estava polvilhada de pastores, ovelhas e até umas casinhas. E lá no alto, a gruta com uma representação muito sui generis da Natividade, pois tinham trazido dois São Josés e os professores devem ter decidido que não valia a pena a chatice de deixar um de fora, por isso lá estavam os Josés de um lado, a Maria do outro, e o Menino Jesus ao meio. Eu estava muito orgulhoso de ter sido eu a trazer o Menino, que fazia parte do presépio que todos os anos a Mãe armava debaixo da árvore lá em casa.
Como era hábito, no último dia de escola houve uma festa, com cada turma a actuar com a respectiva cantilena. Depois seguiu-se a sempre desejada hora de encher o bandulho com todas as guloseimas que cada um trouxera. Estava eu alegremente com uma fatia de torta Dan Cake na mão quando verifiquei, para meu choque, que o Menino Jesus não estava no presépio. Alguém o tinha roubado! Dada a situação, fiz aquilo que um miúdo de seis anos, inteligente e responsável como eu, era suposto fazer: desatei a chorar que nem um desalmado. Quem fora o malvado que tivera a ousadia de roubar o Jesus do presépio? Foi então que a festa acabou em tragédia, com a maioria dos miúdos também a chorar: alguns em solidariedade para comigo, outros a fim de clamar inocência do furto. Desnorteados com a situação, os professores não tiveram o remédio do que deixar tudo em águas de bacalhau, dar a festa por encerrada e tentar consolar a todos.

Porém, uns dias depois ainda estava triste pelo sucedido e nem o facto de os pais dizerem que iam comprar outro Menino Jesus para o nosso presépio, me deixava mais animado. Mas um dia, eu e o Ricardo estávamos a ver televisão, provavelmente o Natal dos Hospitais, e a Mãe veio-se juntar a nós na sala contigo ao colo. Foi então que o nosso irmão, já na altura sempre atento a tudo como só ele, chega-se ao pé de mim e diz-me:
- A Mónica pode ser o Menino Jesus.
- O quê?
- O Pai é José como o José, a mãe tem Maria no nome como a Maria e a Mónica é um bebé como o Menino Jesus.
- Mas a Mónica é uma menina, não um menino.
- Não faz mal. Faz de conta. 
Pensei um pouco no que o Ricardo disse e cheguei à conclusão que se não havia mal nenhum em ter um presépio com dois São Josés, também não deveria fazer assim tão mal em haver uma menina a fazer de Jesus. Mais tarde, quando chegou a casa, o Pai veio ter comigo e disse:
- Olha, Nelson, comprei outro menino Jesus para o presépio. Não quero é que fiques triste no Natal.
Ao que respondi:
- Não estou triste, Pai. Nós já temos uma Menina Jesus. - e apontei para ti, que dormias pacificamente na alcofa.
- Tens razão.

Quando chegou a noite da Consoada, eu e o Ricardo estávamos junto à árvore a admirar com uma quase devoção as luzinhas coloridas e intermitentes, pois até esse ano só enfeitávamos a árvore com fitas, bolas e pedaços de algodão, daí que ter pela primeira vez uma árvore de Natal com luzes a piscar parecia algo para além de fantástico. Foi então que me lembrei de lhe perguntar:
- Se a Mónica é o Jesus, a Mãe é a Maria e o Pai é o José, nós somos o quê?
- Somos os pastorinhos que viemos dar os parabéns por ela ter nascido.
Mais uma vez, achei graça à ideia do Ricardo. Na altura, só abríamos as prendas na manhã do dia 25, tu depois é que implantaste a tradição de abrir à noite quando, três Natais depois, não havia quem te arrancasse  de perto das prendas debaixo da árvore até à meia-noite. Mas até irmos deitar passámos o resto da noite de 24 junto da tua alcova, desempenhando o papel de pastorinhos a adorar o Menino, ou melhor, a Menina Jesus. Desde então, nunca mais dei mais importância aos bonecos do presépio, pois sentia que nós formávamos um presépio de carne e osso.

Espero que tenhas gostado desta história, creio que ninguém ainda tinha-te contado isto. Estou muito ansioso para te rever e a Ju está louca por finalmente conhecer-te a ti, ao Pai e ao Ricardo. (É pena que nunca possa vir a conhecer a Mãe...) Aqui há neve com fartura há que tempos, e embora seja bonito de ver, tenho saudades do sol de Inverno português. Que até lá tudo te corra pelo melhor!

Feliz Natal,

Nelson 

P.S.: Quando desmontaram o presépio da escola, acharam o Menino Jesus desaparecido. Havia uma parte descolada no cartão da zona da Natividade e o Menino tinha rebolado  lá para dentro, sabe-se lá como. No Natal, ele há cada coisa mais inacreditável!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cá vou vivendo

Hoje, que é Dia dos Finados, é que me deu para olhar para trás, pensando nestes meus dois anos sem ti. Por um lado, tanta coisa mudou que às vezes que a tua presença neste mundo foi uma realidade paralela. Por outro lado, ainda tenho dias em que nem consigo crer que já não estás aqui a meu lado. A falta que me fazes, Celeste Maria. Tantos anos com a vida correr certinha, apesar de uns ou outros percalços, como um calmo leito de rio e de repente, tu partiste e fiquei sem norte, sem saber que rumo tomar.
Acabei por continuar a trabalhar, não só porque só fazia sentido meter a reforma antecipada se tu estivesses cá para gozarmos o tempo que nos restasse juntos, com os filhos já a traçarem as suas vidas, mas também porque o trabalho lá nos seguros sempre me ajuda a distrair e a desanuviar a cabeça de tanto zunir de sofrimento. Tal como me ensinaram desde pequeno, por fora mostrava-me forte e estóico, mas em privado, sozinho entre as paredes do quarto que tantos anos partilhámos, tal como todo o resto, sentia-me tão vazio e triste. Segundo o Ricardo, há cinco estádios do luto: da negação à raiva, da negociação à depressão e por fim a aceitação. Mas eu cá acho que passei pelos cinco ao mesmo tempo.

Só que mesmo que a dor e a saudade nunca se apaguem com o tempo, continuamos vivos e a vida, mal ou bem, retoma o curso. E de repente, vi o Nelson a partir para a Noruega, não hesitando em aceitar a oferta de  trabalhar num laboratório em Oslo, e a Mónica a tornar-se hospedeira e saltitar entre o céu e a terra. E de repente, fiquei só com o Ricardo aqui por perto.
Por muito que uns pais se esforcem para gostar dos filhos por igual, creio que é natural que algumas preferências surjam. Eu sempre fui mais próximo do Nelson, porque que me revia mais nele de entre os três. E a Mónica foi sempre a minha pequenina e ela sabia mesmo como deixar-me derretido e embeiçado, foi sempre uma coisa irracional. Lá dizia sempre tu, "Ai, a menina do papá". 
Já o Ricardo foi sempre um mistério para mim, sempre muito quieto e fechado em si mesmo. Mesmo em pequeno, estava sempre quietinho, não fazia birras e parecia contentar-se de observar tudo com aqueles grandes olhos castanhos, semelhantes os teus. Agora percebo que ele saiu a ti, que eras também um mistério para os outros, que também observavas tudo e nada te escapava e nunca dizias mais do que era o essencial. Mas como eu fui dos poucos a quem tu abriste a alma e o coração, sem filtro nem reservas, era fácil para mim esquecer desse teu traço. 

Enquanto bastava olhar para a expressão do Nelson para adivinhar o que se passava com ele e a Mónica sempre foi de dizer o que pensava, o Ricardo parecia por vezes de um mundo à parte, embora se mantivesse atento em tudo a seu redor. 
Ainda assim, quando ele nos contou que gostava de rapazes, já eu sabia há algum tempo. Por mais que ele não fizesse por revelar, havia sinais que não davam para ignorar. Claro que eu fiquei alarmado e só depois de falar contigo, é que pude ter o discernimento para concluir que filho é filho, não mudava em nada o que eu sentia por ele. Qualquer esperança que ainda acalentei que fosse apenas uma fase ou uma confusão juvenil não durou diante das evidências. Mesmo assim, era e é um assunto que sempre me fez espécie. 
Fui criado num tempo em que se acreditava que ser gay era totalmente inaceitável, um pecado, quase um crime até. Que os homossexuais eram todos efeminados e devassos, apesar de durante muito tempo a grande maioria manter habilmente as experiências escondidas debaixo de fachadas de homens respeitáveis e pais de família. E que pai é que consegue imaginar um filho aos beijos e abraços com outro homem sem nenhum desconforto? Por isso é que nunca quis saber de nada da vida amorosa dele para além do que ele dizia e ficava satisfeito por ele preferir falar contigo sobre isso. Limitei-me a aceitar, o que já não é pouco, e agora sei que isso já significou muito para o Ricardo.

Com o Nelson na terra dos vikings e a Mónica entre aeroportos e aviões, vi-me a procurar a maioria do apoio que necessitava no Ricardo e isso tem-nos aproximado mais do que nunca. Eu sabia que ele era psicólogo e que estava a trabalhar em escolas, mas não sabia que ele fez um mestrado sobre o que agora se chama bullying nas escolas. Tu decerto sabias, mas eu não fazia ideia que ele também tinha sido vítima de algumas maldades dos colegas de escola, que faziam troça dele só por ele ser diferente e não alinhar com as matilhas dos outros cachopos. E nem era por ele ser gay, nem sequer sabiam disso, era só por ele ser calado e reservado, e para esses fedelhos, isso já era motivo para ser esquisito e merecer ser gozado. Uma vez até o apanharam à saída da escola e enfiaram-no num caixote do lixo. Segundo o nosso filho, queriam fazê-lo chorar e ele com os nervos pôs-se a rir! Diz que foi remédio santo e não o chatearam mais. Fiquei tão admirado com a coragem dele, mas fiquei triste por nunca me ter apercebido do que ele estava a passar para o poder ajudar. Ele disse-me que entre o Nelson a ser alvo de inveja por causa das boas notas dele e umas raparigas a espalharem rumores maliciosos sobre a Mónica, eu já tinha ralação que chegue. Também descobri que ele pretende criar um grupo de apoio a jovens  que lidam com a sua homossexualidade e com todos os estigmas que daí advêm. Espero que ele consiga levar isso adiante, é uma pena haver tanta gente a sofrer por uma coisa que, vistas bem as coisas, não têm culpa nenhuma de serem assim e que não puderam escolher. Ou como diz o Ricardo: "Se fosse escolha, escolhia-se não ser homossexual e ser como a norma, quanto mais não seja porque era menos chatice."

Agora que finalmente vou conhecendo bem o nosso filho do meio, tenho aberto a minha mente a muita coisa. Ainda assim, como deves imaginar, quando fui para o Algarve com o Ricardo e o namorado dele no Verão passado, ainda foram bastantes os momentos embaraçosos. Nos primeiros dias, à hora das refeições, ou não falávamos à mesa, ou íamos fazendo conversa de circunstância. Até que num jantar, o Filipe, o namorado dele, estava a abrir uma garrafa de vinho e a rolha não havia meio de sair. Quando finalmente a rolha soltou, deixou tombar a garrafa e uma boa quantidade de vinho escorreu para cima do frango assado que tínhamos acabado de trazer. Sai-se então o Filipe com esta:
- Se calhar, em vivo o frango nunca tinha apanhado uma bebedeira. 
Era uma piada um bocadinho seca, mas sabe-se lá como, desatei-me a rir. E até ao final da estadia, não houve mais silêncios embaraçosos. Pela primeira vez em longos meses, sentia-me completamente em família. E nos grandes olhos castanhos do nosso filho, podia ver a sua felicidade em ter o companheiro e o pai lado-a-lado. Parecia que pela primeira vez, o seu silêncio dizia mais que as palavras. Tal como o teu sempre me disse tanto.
Fazes-me tanta falta, Celeste. Mas cá vou vivendo e é tudo o que eu posso fazer.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Peça do Tetris

Meu caro S.:

Houve um Natal em que um tio resolveu dar a cada um de nós, a mim, ao Nelson e ao Ricardo, um daqueles jogos de Tetris, que na altura chamavam-se Brick Mania. O Nelson foi o mais viciado, andou quase o resto do Inverno viciado naquilo, quase só parava para comer, dormir e estudar, mas eu e o Ricardo também dispensámos umas boas horas naquilo. Certo dia, a minha mãe, curiosa por saber que raio de traquitana era aquela que nos deixava todos vidrados, pediu-me que lhe ensinasse como funcionava aquilo. E não é que nem dez minutos depois, ela já estava uma mestra naquilo e a fazer melhores pontuações que eu?
Mas também não era de estranhar já que nunca vi ninguém tão organizado como ela. Como professora, já estava mais que habituada a formar ordem no meio do caos e a mesma doutrina se aplicava em casa com três filhos e um marido que se lavasse a loiça e limpasse o pó de vez em quando já era muito.
Por exemplo, nas nossas viagens em família quando íamos de férias para o Algarve ou passar alguns dias a casa da Avó Eugénia, cada um tinha a sua lista detalhada de toda a roupa que tinha de levar na mala e tínhamos de restringir a nossa tralha pessoal. Eu e os meus irmãos protestávamos ao princípio mas no fim, nenhum levava assim muita coisa: bastava uns livros para o Nelson, umas cassetes para o Ricardo ouvir no walkman e um caderno e umas canetas para eu escrevinhar coisas e mais não era preciso. Mas mesmo assim,   era sempre um desafio enfiar todas as malas no porta-bagagens do carro, que nunca parecia suficientemente grande. No fundo, as malas eram peças de Tetris e minha mãe sabia sempre como encaixar. Não admira que ela também se tornasse uma expert desse jogo vindo da Rússia.
Com o tempo aprendi a ser tão organizada como ela, mas demorei algum tempo. Creio que comecei a ser boa a arrumar os pertences quando aprendi a arrumar bem as coisas do meu coração. Animada pela euforia insensata de adolescente e recém-adulta, julgava que se podia medir o amor numa média aritmética de altos e baixos, e embarcava sem hesitar nas voltas da montanha-russa. Onde cada momento de prazer era um fogo de artifício e cada momento de desgosto um drama lacrimejante. Até que surgiu uma definitiva paixão de caixão à cova que perdi por causa dos meus excessos. Fez parte do meu crescimento saber que mesmo no amor e na paixão, também é preciso haver conta, peso e medida e que tudo o que é demais, enjoa e aborrece. Fiquei muito decepcionada por saber que amor, por si só, não era suficiente para fazer as coisas funcionarem.
Foi uma lição dura que eu aprendi, mas além de outros benefícios, fez com que eu fosse muito mais organizada no dia-a-dia. O que se tornou muito útil quando segui esta profissão, onde convém levar todos os pertences num pequeno trolley. Das peças básicas da roupa (como um simples vestido preto que nunca me compromete) ao frasquinho onde aplico as recargas de perfume, dos sapatos rasos que dão tréguas aos saltos altos do ofício ao tubo da pasta de dentes convenientemente enrolado à medida que se vai espremendo.
Ainda assim, eu não sou eu mesma se não viver intensamente e continuo atreita a paixões, só que agora sei medir melhor as coisas, as causas e as consequências. Por isso, pode ser que penses que eu estou a ser fria, ou que o que temos não é muito sério, mas a verdade é que ainda não decidi onde te arrumar no meu coração. A vida tem destas coisas e bastou um simples cruzar de olhares no aeroporto para que entrasses na minha vida e me baralhasses os itens emocionais. Mas ainda bem que o fizeste, não te quereria de outra forma. Porque dás-me sempre vontade de regressar para ti. Por agora, quero que tudo fique assim como está. Logo se vê onde iremos parar. Talvez sejas como aquela peça do Tetris que se infiltra no meio dos blocos mal arrumados que foram impossíveis de encaixar e que preenche os espaços deixados por completar. Para que quando caírem mais peças, venham mais pontos bónus.  

Um beijo,

M. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Reles

Não sei exactamente com quantos homens já dormi. Cem? Duzentos? Eu sei lá, chegou uma altura que já não tive coragem para fazer contas. Foram muitos mais do que aqueles que deviam ter sido, e isso é que interessa.
Se eu fosse homem, suponho que seria um herói. Haveria aqueles, sobretudo mulheres, que me chamariam tarado e vadio, mas outros, sobretudo homens, olhar-me-iam com admiração e reverência. Seria o supra-sumo da virilidade, o macho dos machos, um deus sexual. Mas como sou mulher, na melhor das hipóteses, sou considerada uma excêntrica. E na pior, uma puta do mais reles que há.
A bem-dizer, essa palavra de quatro letras não se aplica literalmente a mim. A minha profissão não é a mais velha do mundo, e embora algumas vezes tenha-me sido oferecido dinheiro pela pernoita, eu nunca aceitei. Como de uma vez que quando acordei com uma nota na mão, que fui dar logo ao primeiro mendigo que eu vi. Mas obviamente que num sentido mais lato é o que eu sou.
Posso dizer que sou uma viciada em sexo, que o sexo pode provocar uma dependência e uma "pedrada" tão forte como qualquer droga que se possa mencionar, que momentos houve onde o que me interessava era saber onde é que a próxima vez que irei foder, em busca do êxtase que desaparece tão depressa como surge. (Quando ainda surge...) Mas como poderão ver o meu sofrimento, se só me vêem é tentar engatar da forma mais óbvia e oferecida? Ainda por cima, vivemos numa altura em que a dependência do sexo é sobrediagnosticada, em especial a celebridades que vêem as suas taras privadas tornarem-se públicas.
Mas porque é que me tornei assim, não sei dizer ao certo.  Sempre me disseram que eu sou bonita, mas nunca me senti bonita. Sei que tenho bons atributos, físicos e não só, que captam a atenção de qualquer homem mas estou sempre duvidar disso, e só consigo acreditar quando alguém se aproxima de mim. E na minha mente, só podiam se aproximar de mim para o sexo, que mais poderia ser? Só com sexo, teria namorados, sentir-me-ia bonita, sensual, desejada, amada, só com sexo eu prestava...E aos poucos, deixei que se aproveitassem de mim, que me usassem, tornei-me mais descartável que uma pastilha elástica. Alimento a ilusão que é que estou em controlo, eu é que dou o primeiro passo, eu é que seduzo, mas na verdade já perdi o controlo de tudo, o vício é que me controla.
Nem sequer posso justificar-me com um trauma do passado, como abusos sexuais ou a um pai ausente ou violento, como é habitual em tantos casos como o meu. Tive uma infância inconsequente mas relativamente feliz e tive pais sempre atenciosos e carinhosos.No fundo, pura e simplesmente não consigo gostar de mim e andei sempre em busca da validação.
Pois eu sei, o tal slogan do leite, se eu não gostar de mim, quem gostará...mas é mais fácil falar do que fazer. Não tive só sacanas na minha lista, também houve tipos decentes, se calhar alguns que gostavam mesmo de mim, e que os afastei por não acreditar que alguém pudesse gostar de mim a não ser para me saltar em cima. Não gosto de mim o suficiente ao ponto de não ter vontade nem força para me deixar disto e conservar a pouca dignidade que me resta. Para começar a olhar-me de outra forma e fugir deste caminho que me empurra para o abismo. Provavelmente já é tarde demais para mim, mas não consigo deixar de sonhar que um dia, alguma luz irá penetrar no escuro do meu ser e à força de me encadear tanto os olhos, eu veja tudo de maneira diferente. E eu me veja como bem mais do que a puta reles que eu me conformei a ser.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Grão-Ducado

Era apenas um sonho em forma de anúncio num jornal. Um tiro no escuro. Quase como jogar no EuroMilhões. A esperança não era muita, mas só não jogando é que não sai mesmo o jackpot. Se é verdade que a desgraça toca por volta e meia a qualquer um, as horas felizes também surgem assim. Mas logo a mim?
Quando vi aquele e-mail na biblioteca, levei as mãos ao ar e nem sei como gritei logo ali. Afinal os sonhos acontecem, e alguns deles levam-nos bem longe. No meu caso, a um pequenino grão-ducado entalado algures na Europa. Esse seria o lugar a que chamaria casa durante três meses. Para um estágio onde eu faria aquilo que sonhava fazer na vida: traduzir. E logo para o Parlamento Europeu.
Assim que o avião descolou de Lisboa, sabia que um admirável mundo novo estava agora à minha frente. E apercebia-me de quanto o meu país está ali encurralado num canto da Europa, quase dentro de uma redoma. Indo para fora, é mais fácil sentir-se um cidadão do Mundo, sobretudo da Europa, e que há toda uma tapeçaria de sons e imagens estendida pelo Velho Continente, onde as estradas são como os fios urdidos. Parece que Portugal é apenas o arremate.
No entanto, em certos aspectos, era como Portugal tivesse ido comigo, ou não estivesse eu num país com tantos imigrantes que eram meus compatriotas. Aliás, na casa em que fiquei, no meio de uma família portuguesa, só me dava conta que estava fora do meu país quando olhava pela janela e via aquelas casas típicas de outras latitudes que só tinha visto em fotos.
Porém ao deixar o lar longe do meu lar e sair para a rua, sentia-me como a Dorothy quando descobriu que já não estava no Kansas. Mesmo quando essas ruas, pontes e avenidas se iam tornando familiares aos meus olhos. Não ao fim do arco-íris, mas ao fim do percurso do autocarro, lá estavam as Torres Gémeas, quais Torres de Babel, onde tantas línguas confluem como rios, esperando que no curso se chegue a um mar de entendimento, a bem do Velho Continente.
No 12.º andar da Torre A, surgiam-me no computador actas e ordens do dia destinadas às diversas comissões de deputados do Parlamento Europeu em francês e inglês para eu traduzir para a minha língua. Das quotas de captura do carapau branco à situação os direitos do Homem na Guiné, nenhum assunto escapa ao debate dos deputados em Bruxelas e em Estrasburgo nem à descodificação dos tradutores nas Torres erguidas no bairro luxemburguês de Kirchberg.
Mas se já a oportunidade de viver noutro país e trabalhar em tradução seria já uma valiosa experiência para a minha vida, foram os amigos que fiz lá que a tornaram verdadeiramente preciosa. Primeiro, o encontro dos estagiários, as apresentações feitas em várias direcções, as curiosidades sobre as origens e as línguas de cada um. Depois, os forwards no e-mail trocando piadas, reflexões e convites, as conversas temperadas com a comida da cantina à hora do almoço ou sob um café au lait nas pausas matinais, as festas regadas com um quanto baste de álcool, as viagens que por entre tropelias e azeites me fizeram descobrir mais lugares que até então só em sonhos tinha ido. Por fim, sentir na alma que havia tanta gente vinda de tantos sítios diferentes do meu que me acarinhou, que me inspirou, que soube olhar para além da minha superfície e ver o meu verdadeiro eu.
Tive muita pena que o meu sonho não pudesse durar mais do que três meses, que passaram num instante diante dos meus olhos e deixaram tanto por dizer a tanta gente. Porém, ao menos vivi o sonho intensamente enquanto durou; se era para ficar triste, que o ficasse depois, quando acabasse.
Quando numa madrugada de Dezembro, deixei a neve (que caíra na véspera como que num gesto de despedida do Luxemburgo para mim) e aterrei sob o tímido mas límpido Sol de Inverno português, trazia comigo um mundo mais alargado e tantas memórias do grão-ducado que para sempre viverão comigo, que ainda hoje permanecem tão vivas. Bem como a ânsia de saber aonde outros sonhos me levarão...     

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Postais de Bruxelas

Minha Cara M.:

Andas lá tu nas alturas, riscando céus e furando nuvens, enquanto te moves elegantemente pelo avião servindo os passageiros. E eu aqui na terra, a pensar em ti. Ainda que eu espere por ti mas não desespere. Nunca fui dado a estoicismos, nem ando a suspirar sobre quando vens ou deixas de vir. Sigo a minha vida com o trabalho, as idas ao ginásio e à piscina e saídas com amigos. Por vezes, conheço outras mulheres, e chego a sair com elas. Ainda não me deitei com mais ninguém desde que te conheci, mas se chegar uma altura em que o ferrão da solidão doer demasiado, não te digo que isso não pudesse acontecer. E não te censuraria se o mesmo te acontecesse. O céu pode ser um local muito solitário.
Já pensei muitas vezes porque é que não termino com tudo e te deixo aí em cima, livre para ir mais além e deambular por outros lugares, enquanto procuro alguém para amar em terra firme. Mas o teu feitiço ainda está tão entranhado em mim e alimento esta esperança que tu sejas a mulher da minha vida.
Devia saber que me iria apaixonar por ti quando te vi. Que tu eras perigosa e sabias como dissipar o meu orgulho de macho. Que tu sabias como amar um homem e deixá-lo perdido pela tua pele. Que tinhas um raro discernimento sobre os mistérios do universo masculino (dizias tu que foi por cresceres com dois irmãos mais velhos e um pai que sabia dançar). Mas não me arrependo. Até porque sou feliz mesmo sem ti.
Claro que quando tu me ligas a anunciar que chegaste cá, e apareces em casa - por vezes ainda com a tua farda de hospedeira - e envolvemo-nos em abraços, é fácil imaginar que a felicidade completa só existe quando te tenho a meu lado, quando te tenho na minha cama. Mas prefiro pensar que tu és apenas a cereja em cima do bolo, o ouro sobre o azul.
Agora fazes o voo para Bruxelas e volta e meia, envias-me postais. Do Atomium, da Grand-Place, do Parlamento Europeu, da Godiva. Sem nada escrito ou com mensagens telegráficas. "Os melhores chocolates do mundo", "Vi o Durão Barroso", "Lanche num pequeno bistro". Sempre foste muito sintética. Ou melhor, sempre foste de falar pouco e dizer muito. E é esta é tua forma de dizer que ainda pensas em mim.
Por isso, podes continuar aí nas nuvens, toda elegante e profissional na tua farda. Manda-me postais de todos os sítios onde fores com meia dúzia de palavras rabiscadas no verso. Quando aterrares de novo no nosso país, eu estarei aqui para te acolher. Talvez quando correres o mundo, hás de sentir que o teu lugar é aquele de onde partiste e queiras um dia vir para ficar. Comigo. É este o meu sonho inconfessado
Mas pensa também que um dia, a altura e a distância que nos separam poderão ser longas demais. Ao ponto de que estejas também longe dos meus pensamentos. Talvez aí seja por outra que eu anseie por ver chegar. Se o céu é um lugar solitário, a terra também pode ser.
Mas por agora, voa por esse céu azul. E quando voltares, traz-me um chocolate. E de preferência, saudades minhas encafuadas na bagagem.        

Com saudades,

S.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Olhando pelo retrovisor

Meu caro irmão:

Se até a mim pareceu uma cena surreal, imagina para o nosso Pai. Vistas bem as coisas, não devem ter sido muitos homens que passaram uma semana de férias na Manta Rota com o filho e o namorado deste. Claro que o Pai foi sempre muito cordial com o Filipe e a maior parte do tempo até conseguiu abstrair-se do cenário insólito. Eu e o Filipe também concordámos em dormir em quartos separados e em não trocar manifestações de afecto diante dele, aliás em público somos sempre bastante discretos, preferimos sempre deixar isso para quando estamos os dois a sós.
No entanto, havia momentos em que o semblante do nosso Pai dizia tudo. Olhava para mim e para o Filipe, e era notório o desconforto. Estaria ele a imaginar com desagrado o filho dele agarrado aos beijos com outro tipo? Ou a desejar que a Mãe ainda fosse viva para lhe dizer como falar e agir diante desta situação inédita?
Sei que para ele é difícil. Ele cresceu a pensar que homossexualidade era algo simplesmente inconcebível e imagino que deve ter sido muito duro saber que um filho dele gostava de homens e que foi preciso muito esforço para compreender. Claro que ele e a Mãe sempre souberam, por isso posso dizer que nunca saí do armário porque nunca cheguei a entrar. Se calhar já sabiam antes de ti, que reparaste quando víamos as "Marés Vivas" e enquanto te babavas com a Pamela Anderson, eu entusiasmava-me tanto com o David Charvet que notaste o alto nos meus calções. Por isso, já significa bastante para mim que o Pai me aceite e me compreende, mesmo que não goste mas a isso não é obrigado.
Já achei extraordinário o Pai ter aceitado em vir. Quando lhe propus ir connosco foi naquela da brincadeira, imaginando que ele iria dizer que não. Não sei bem porque terá dito sim, mas acho que foi porque já não ia Algarve desde que a nossa Mãe morreu. Eles tinham retomado a ideia de ir fazer férias no Algarve nos dois Verões antes da morte dela, agora que os três filhos estavam foram de casa, e que tinham redescoberto a nova dinâmica de serem só eles os dois. Pensavam que passariam o resto dos seus dias serenamente os dois lado-a-lado, gozando a reforma, acolhendo as visitas dos filhos, ansiando a chegada dos netos por ainda uns bons anos. Foi um sonho que foi muito duro de abdicar para o Pai, ainda mais do que o seu desejo secreto de que eu estivesse só "numa fase". Mas que ele tinha de abdicar para continuar a viver em paz.
Partimos a meio da noite, como fazíamos quando íamos para o Algarve em putos, lembras-te? Para mim essa a melhor noite do ano, quando os pais nos acordavam, vestíamo-nos à pressa, descíamos as escadas com as nossas mochilas prontas a serem engolidas pelo porta-bagagens do carro. Depois sentávamo-nos no banco de trás e como sempre eu ia ao meio. De um lado, sentavas-te tu, que não tardavas em adormecer, e do outro, a Mónica, que a Mãe levava sempre com mil cuidados para não acordar, sempre a dormir imperturbável na cadeirinha dela. Também era costume a Mãe adormecer passado um bocado. Mas eu ficava acordado e olhava fascinado para a estrada a ver a noite transformar-se em dia. Primeiro o escuro da noite apenas iludido pela luz dos faróis, depois um rasgo vermelho do sol nascente, depois a metamorfose num céu azul e chegávamos a meio da manhã, com o cheiro a mar a insuflar-nos os pulmões. Como se a nossa cidade fosse o país da noite e o Algarve o país da manhã e o carro tivesse cruzado clandestinamente a fronteira entre os dois.
Na noite da partida, o Pai falou-me desse tempo, em que olhava pelo retrovisor e via-me de olhos bem abertos, fixos no horizonte da estrada enquanto os outros dormiam. E nessa madrugada, enquanto o Filipe dormia a sono solto no banco do passageiro, pareceu que os papéis tinham-se invertido. Eu é que estava a conduzir, atento à estrada, mas ao ver o Pai pelo retrovisor, vi que ele olhava fixamente em frente para o longo do céu e da estrada. Gostei de imaginar que era agora ele que se deixava maravilhar pelo encanto do nascer do sol, como se tivesse cruzado a fronteira do dia da noite com um prazer transgressor e que à chegada havia um horizonte de mar e de sal para o acolher. E que algures na aurora, a Mãe estaria lá.

Com um abraço,

Ricardo