Peço imensa desculpa, senhora jornalista, pelas minhas respostas atabalhoadas ás suas perguntas. Como deve calcular, isto tudo é novo para mim, nunca fui entrevistado antes nem fiz uma sessão fotográfica assim com estas roupas tão finas, no meio deste hotel com tantas estrelas onde antes nunca me atreveria sequer a entrar.
Sim, estou bem, muito obrigado. Depois da euforia do fim do programa, senti que o melhor era regressar à minha terra, para junto da minha família e amigos, passar uns dias descontraídos sem pensar no que vou fazer a seguir. Em suma, ser o Eduardo que era, apenas um simples rapaz de vinte e quatro anos, nascido e criado em Guimarães, que gostava de jogar futsal e que pretendia trabalhar em Fisioterapia, para fazer valer a licenciatura feita a custo de muito esforço e alguns sacrifícios dos pais. Foi com alívio que depois destes meses de loucura, fechado numa casa com mais dezena e meia de outros gatos pingados sob o olhar do país, que continuo a ser o mesmo Eduardo. Pelo menos dentro do possível.
Confesso que uma das razões porque quis entrar no programa foi porque queria ver se conseguia ganhar algum dinheiro. Desde que o meu pai faleceu há ano e meio que o dinheiro lá em casa é minuciosamente contado, para que nada nos falte e para se viver com algum conforto, mas sem extravagâncias. Os poucos trabalhos que eu tive desde que acabei o curso foram muito esporádicos, e raramente tinham a ver com a minha área. E há meses que não que conseguia arranjar emprego e não queria ser um fardo para a minha mãe e para a minha irmã, que se esfalfam a trabalhar e ganham bem menos do que o seu esforço mereceria. Por isso, não vou esconder, qualquer rendimento que eu pudesse ganhar por causa do programa, de presença em discotecas ou fosse o que fosse, era bem-vindo. E, claro está, o lado da aventura também me seduziu, passar por essa experiência singular, de viver numa espécie de mundo à parte. É incrível como uma pessoa lá se esquece tão facilmente das câmaras e que tudo o que fazemos está a ser visto e escrutinado por não sei quantas pessoas.
Mas daí a pensar que eu ia ganhar, ainda ia uma distância. Ainda não sei bem porque ganhei. Não sou nenhum pastor campónio, Guimarães até é um meio urbano considerável, até já foi Capital Europeia da Cultura. Não tenho uma carinha laroca, tipo ator dos Morangos Com Açúcar, como o Salvador, nem físico de bodybuilder como o David. Não me envolvi em nenhum romance e nem fiz sexo dentro da casa como o Tiago B. e a Marta. Não sou de me pôr em cantorias e beijinhos para a câmara como a Patrícia. Não sou um líder nato como o Tiago M. Das três vezes que fui nomeado, partia do princípio que tinha sido poupado por exclusões de partes, e que em confronto direto com alguém mais carismático, eu sairia logo.
Já me disseram que eu ganhei porque fui o mais natural, seja lá o que isso quer dizer. Apesar de ter mais afinidades com os membros do quarto amarelo, passei um pouco ao lado dos conflitos com os do quarto verde. Só me envolvi nos conflitos mais generalizados e quando a Joana T. e o Luís andaram a mandar indiretas e a pedirem aos outros para me nomearem, eu fiz-me de despercebido, esperando que o tiro lhe saísse pela culatra.
Sim, isso foi a parte mais triste. Lá dentro estava protegido do que se especulava e comentava cá fora, e agora sei que a minha família, sobretudo a minha mãe, sofreram com o que foi aparecendo na imprensa. Desde gente que me chamava falso e sonso na internet, a pessoas aí da terra que mal me conhecem a darem palpites para as revistas sobre mim e os meus familiares até terem descoberto que o meu pai tinha sido uma vez infiel e até terem contactado a outra, que agora mora lá para os lados de Ponte de Lima. Ainda bem que ela teve a decência de não dizer nada, até porque também ela refez a sua vida, tal como o meu pai percebeu que, após a euforia inicial do caso, era junto da mulher e dos filhos que queria estar.
Para já não falar que das sete raparigas que foram apontadas como sendo minhas ex-namoradas, uma nunca a vi mais gorda, duas só conhecia através de amigos comuns e duas delas, se saí duas ou três vezes com cada, já foi muito. Só uma tinha sido minha namorada, e já há uns bons anos, e aquela que fora a minha ex mais recente ninguém deu por ela. E depois houve a Carina...
Não, não estou nem estive apaixonado por ela. Primeiro não sou de me meter com a mulher de outros, e ela tinha namorado, ainda que tivessem dado um tempo à relação, segundo ela. Depois porque apesar de desde cedo se estabelecer uma química e uma ligação forte entre ambos, sabia que grande parte do que sentia era devido à situação em que estávamos, com as emoções a mil e tentando encontrar um refúgio em alguém. Admito que me senti fisicamente atraído pela Carina, cheguei a pensar no que poderia haver além mais do que tivemos, mas instintivamente sentia que era um risco que eu não queria pisar e creio que ela também não. E agora que estes meses de irrealidade terminaram, começo a analisar tudo pelo que eu passei e já indaguei se ela não se aproximou assim de mim porque foi a única a ver em mim um potencial vencedor e associando-se a mim, ela conseguia chegar pelo menos à final. Nas missões e nos desafios que houve ao longo do programa, ela revelava uma faceta extremamente competitiva e estratega, e tinha a confiança de um jogador que sabe que não vai falhar na cartada final. Pode ser que eu também tenha sido um trunfo para ela ter chegado ao segundo lugar. Não a censuraria se isso fosse verdade, afinal era um jogo e cada um joga como quer, mas eu prefiro acreditar que o que a Carina me disse e me demonstrava era quase sempre com sinceridade. Pelo menos, tenho-lhe a agradecer ter sido o meu abrigo nos meus momentos mais difíceis na casa. Gostava muito de continuarmos amigos, mas agora sei que as nossas vidas têm outras voltas para dar e as nossas promessas podem ficar pelo caminho, até cada um não ser mais que uma terna memória para o outro.
O futuro? Como diz a minha mãe, só a Deus pertence. A maioria do dinheiro será para guardar, para se usar quando for preciso. Pretendo pagar as obras da nossa cozinha, e o resto do empréstimo dos nossos carros, mas também decidi que uma pequena parte será para gastar no que me dê na real gana. Acho que mereço uma ou outra extravaganciazinha. Apesar de estar a gostar desta minha fama inesperada, tenho algum receio do reverso da medalha. Felizmente, acho que continuo a ser o mesmo Eduardo de sempre. Decerto que não foi por ter estado num reality show e não será por agora ser conhecido em todo o país que deixarei de o ser.
Posto isto, venham de lá essas fotos, afinal de contas, estou aqui todo aperaltado neste hotel, quero ver como fico. Espero que a senhora jornalista tenha gostado de falar comigo. Ora essa, assim fico embaraçado com o seu elogio. Deixe lá, é assim que eu sou.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Águas paradas
Às vezes, quando nado, parece que me transformo em água. Vejo o fundo azul da piscina e invade-me uma sensação de tranquilidade e calma, como se tudo fosse claro e simples como a água. Nado o estilo mariposa com os braços a puxar e as pernas a acompanhar em ondulação. Tento acelerar um bocado o movimento mas o meu corpo recusa esta mudança, quer continuar a deslizar calmamente. Ao fim da piscina, vejo o Bruno, o meu treinador, a querer parecer zangado, mas sem conseguir:
- Então, Cláudia? Isto é tempo que se apresente? Já mais dez piscinas de castigo.
Aceito a sentença por me ter deixado seduzir pela lentidão e retomo a mariposa nadando ao meu ritmo de corrida, ao nível de que o Bruno diz que pode me levar bem longe nas competições.
O Bruno é daquelas pessoas que por muito que tentem não conseguem ser autoritário. Não que isso faça dele um treinador menos exigente e provido de disciplina, pelo contrário. É a maneira de ser dele, para ele está tudo bem, e não perde tempo com chatices. Se ele fica nervoso ou chateado, tenta sempre pôr boa cara. Tem sempre aquele sorriso tímido, que à primeira vista pode parecer um sorrisinho parvo mas cedo se descobre que é mesmo assim o jeito dele, natural e simpático. É daqueles homens que têm aquele charme de que não tem (ou não sabe que tem) charme. Não é daqueles que faça uma mulher parar quando se cruza com ele. Aliás, de cara não é muito bonito: o rosto preserva as marcas de uma acne tardia, o nariz entre romano e aquilino, lábios grossos, cabelo desalinhado e olhos do tom de castanho mais banal. Nem sequer é muito alto. Já o corpo é mais interessante, tem aquele físico de nadador, com os músculos do torso e dos membros bem delineados mas sem parecerem insufláveis como os dos culturistas. Mas o que cativa mesmo nele é a sua simpatia e a sua humildade. Nunca vi ninguém tão modesto, sobretudo alguém que foi aos Jogos Olímpicos. Diz apenas: “Tentei os mínimos e tive a sorte de conseguir”. Se eu me apurar para os Jogos Olímpicos, hei de ficar tão orgulhosa ao ponto de o dizer a toda a hora até chatear todo o mundo.
Bem sei que só tenho 16 anos e ainda sou virgem, mas sei bem como as coisas se fazem. As pessoas fazem tanto bicho de sete cabeças sobre o sexo, a mim não parece nada complicado como isso, desde que haja precauções. Os meus colegas, sobretudo rapazes, são ainda muito miúdos e ainda não percebem nada, pelo menos não tanto como julgam. É vê-los de hormonas aos pulos a fazerem figuras tristes atrás das raparigas. E algumas delas a darem-lhe troco. De mim é que não levam nada. Por essas e por outros, que as minhas fantasias são quase sempre com homens mais velhos. Em especial com o Bruno.
Como se diz em inglês, still waters run deep, e admito que já imaginei a profundidade com que deverão correr as águas paradas do Bruno. Mas claro que está que é tudo na minha cabeça e nunca faria nada para o concretizar, mesmo se eu fosse maior de idade. Primeiro, o Bruno só me vê como pupila, quiçá como uma irmã mais nova. E depois a nossa relação de treinador/atleta e de amigos é demasiado valiosa para eu querer pôr em risco, com as minhas fantasias de adolescente. Depois, porque é que o Bruno ou outro qualquer haveria de se interessar por mim. Sou uma autêntica tábua de passar, sem peito nem rabo que se veja, com dentes de coelho e olhos esbugalhados, um pão sem sal com ar de quem deixou ontem de usar fraldas.
O Miguel, que é um dos poucos rapazes de jeito na minha turma, disse-me uma vez que eu tenho cara de Lolita e que não tarda nada, vou deixar muito homem fascinados por mim. Uma ova é que não tarda nada. Mas quem sabe? O melhor é esperar, pode ser que não seja só conversa e a previsão do Miguel se torne realidade e eu seja mais atraente aos olhares masculinos. O que é fascinante e ao mesmo tempo assustador. De facto, sinto em mim uma sensualidade prestes a explodir e não sei como hei-de lidar com isso. Tenho apenas que crescer mais um pouco – e o tempo passa por vezes mais depressa do que pensamos.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Menina Jesus
Mónica:
Não é que o nosso primo pôs no Facebook uma foto daquele Natal em que o Tio Armando resolveu mascarar-se de Pai Natal? Apareces lá tu chorosa com a barba que tinhas acabado de arrancar na mão, enquanto o resto da família está perdida de riso. E ano após ano, toda a família lembra-se daquele Natal e sei que ainda hoje, quando se fala nisso, por muito que disfarces, ficas toda envergonhada.
Por isso, e como sei que deves ter ficado toda abespinhada e já deves ter amaldiçoado o David (e não me digas que é mentira, quem não te conhecer que te compre!), resolvi contar-te uma história do teu primeiro Natal. Obviamente que não te lembras, e não há fotografias desse ano, mas foi um Natal que me ficou sempre na memória. Quem sabe se assim não te ajuda a eclipsar as memórias do Natal em que revelaste, não a careca, mas a falsa barba do tio?
Estávamos em 1984. Tinhas nascido há dois meses. A Mãe estava em casa de licença de parto, e teve nesse ano mais tempo para dedicar às tarefas natalícias. Ainda por cima, o Pai, todo babado por finalmente ter uma menina, também se oferecia para também para tratar dos teus cuidados sempre que era necessário. Ele mudou mais fraldas tuas do que minhas e do Ricardo juntas e até foi ele que te deu o teu primeiro banho. A Mãe até estava espantada com tanto desvelo raramente visto comigo ou com o Ricardo, mas sabia que aliando a alegria de ter finalmente uma filha e a experiência de já ter dois filhos, ele já dava bem conta do recado. E como era menos uma preocupação, também era bom para ela. Além do mais, eu e o Ricardo fomos sempre donos dos nossos narizes e não tivemos quaisquer ciumeiras.
Nesse Natal, eu tinha seis anos. Tinha acabado de entrar para a escola primária e sentia-me todo importante por já andar na escola e fazia por cumprir todas as responsabilidades, dos trabalhos de casa até à arrumação do cacifo. No início do mês de Dezembro, os professores tinham pedido para os alunos trazerem elementos para formar um presépio gigante no átrio da escola. Cada um trouxe uma figura ou algum material para fazer o presépio e ficou uma coisa digna de se ver. Com umas caixas de cartão, tinham feito um monte do meu tamanho coberto de musgo, entrecortado por um papel de prata a fazer de rio onde puseram patos. A encosta estava polvilhada de pastores, ovelhas e até umas casinhas. E lá no alto, a gruta com uma representação muito sui generis da Natividade, pois tinham trazido dois São Josés e os professores devem ter decidido que não valia a pena a chatice de deixar um de fora, por isso lá estavam os Josés de um lado, a Maria do outro, e o Menino Jesus ao meio. Eu estava muito orgulhoso de ter sido eu a trazer o Menino, que fazia parte do presépio que todos os anos a Mãe armava debaixo da árvore lá em casa.
Como era hábito, no último dia de escola houve uma festa, com cada turma a actuar com a respectiva cantilena. Depois seguiu-se a sempre desejada hora de encher o bandulho com todas as guloseimas que cada um trouxera. Estava eu alegremente com uma fatia de torta Dan Cake na mão quando verifiquei, para meu choque, que o Menino Jesus não estava no presépio. Alguém o tinha roubado! Dada a situação, fiz aquilo que um miúdo de seis anos, inteligente e responsável como eu, era suposto fazer: desatei a chorar que nem um desalmado. Quem fora o malvado que tivera a ousadia de roubar o Jesus do presépio? Foi então que a festa acabou em tragédia, com a maioria dos miúdos também a chorar: alguns em solidariedade para comigo, outros a fim de clamar inocência do furto. Desnorteados com a situação, os professores não tiveram o remédio do que deixar tudo em águas de bacalhau, dar a festa por encerrada e tentar consolar a todos.
Porém, uns dias depois ainda estava triste pelo sucedido e nem o facto de os pais dizerem que iam comprar outro Menino Jesus para o nosso presépio, me deixava mais animado. Mas um dia, eu e o Ricardo estávamos a ver televisão, provavelmente o Natal dos Hospitais, e a Mãe veio-se juntar a nós na sala contigo ao colo. Foi então que o nosso irmão, já na altura sempre atento a tudo como só ele, chega-se ao pé de mim e diz-me:
- A Mónica pode ser o Menino Jesus.
- O quê?
- O Pai é José como o José, a mãe tem Maria no nome como a Maria e a Mónica é um bebé como o Menino Jesus.
- Mas a Mónica é uma menina, não um menino.
- Não faz mal. Faz de conta.
Pensei um pouco no que o Ricardo disse e cheguei à conclusão que se não havia mal nenhum em ter um presépio com dois São Josés, também não deveria fazer assim tão mal em haver uma menina a fazer de Jesus. Mais tarde, quando chegou a casa, o Pai veio ter comigo e disse:
- Olha, Nelson, comprei outro menino Jesus para o presépio. Não quero é que fiques triste no Natal.
Ao que respondi:
- Não estou triste, Pai. Nós já temos uma Menina Jesus. - e apontei para ti, que dormias pacificamente na alcofa.
- Tens razão.
Quando chegou a noite da Consoada, eu e o Ricardo estávamos junto à árvore a admirar com uma quase devoção as luzinhas coloridas e intermitentes, pois até esse ano só enfeitávamos a árvore com fitas, bolas e pedaços de algodão, daí que ter pela primeira vez uma árvore de Natal com luzes a piscar parecia algo para além de fantástico. Foi então que me lembrei de lhe perguntar:
- Se a Mónica é o Jesus, a Mãe é a Maria e o Pai é o José, nós somos o quê?
- Somos os pastorinhos que viemos dar os parabéns por ela ter nascido.
Mais uma vez, achei graça à ideia do Ricardo. Na altura, só abríamos as prendas na manhã do dia 25, tu depois é que implantaste a tradição de abrir à noite quando, três Natais depois, não havia quem te arrancasse de perto das prendas debaixo da árvore até à meia-noite. Mas até irmos deitar passámos o resto da noite de 24 junto da tua alcova, desempenhando o papel de pastorinhos a adorar o Menino, ou melhor, a Menina Jesus. Desde então, nunca mais dei mais importância aos bonecos do presépio, pois sentia que nós formávamos um presépio de carne e osso.
Espero que tenhas gostado desta história, creio que ninguém ainda tinha-te contado isto. Estou muito ansioso para te rever e a Ju está louca por finalmente conhecer-te a ti, ao Pai e ao Ricardo. (É pena que nunca possa vir a conhecer a Mãe...) Aqui há neve com fartura há que tempos, e embora seja bonito de ver, tenho saudades do sol de Inverno português. Que até lá tudo te corra pelo melhor!
Feliz Natal,
Nelson
P.S.: Quando desmontaram o presépio da escola, acharam o Menino Jesus desaparecido. Havia uma parte descolada no cartão da zona da Natividade e o Menino tinha rebolado lá para dentro, sabe-se lá como. No Natal, ele há cada coisa mais inacreditável!
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Cá vou vivendo
Hoje, que é Dia dos Finados, é que me deu para olhar para trás, pensando nestes meus dois anos sem ti. Por um lado, tanta coisa mudou que às vezes que a tua presença neste mundo foi uma realidade paralela. Por outro lado, ainda tenho dias em que nem consigo crer que já não estás aqui a meu lado. A falta que me fazes, Celeste Maria. Tantos anos com a vida correr certinha, apesar de uns ou outros percalços, como um calmo leito de rio e de repente, tu partiste e fiquei sem norte, sem saber que rumo tomar.
Acabei por continuar a trabalhar, não só porque só fazia sentido meter a reforma antecipada se tu estivesses cá para gozarmos o tempo que nos restasse juntos, com os filhos já a traçarem as suas vidas, mas também porque o trabalho lá nos seguros sempre me ajuda a distrair e a desanuviar a cabeça de tanto zunir de sofrimento. Tal como me ensinaram desde pequeno, por fora mostrava-me forte e estóico, mas em privado, sozinho entre as paredes do quarto que tantos anos partilhámos, tal como todo o resto, sentia-me tão vazio e triste. Segundo o Ricardo, há cinco estádios do luto: da negação à raiva, da negociação à depressão e por fim a aceitação. Mas eu cá acho que passei pelos cinco ao mesmo tempo.
Só que mesmo que a dor e a saudade nunca se apaguem com o tempo, continuamos vivos e a vida, mal ou bem, retoma o curso. E de repente, vi o Nelson a partir para a Noruega, não hesitando em aceitar a oferta de trabalhar num laboratório em Oslo, e a Mónica a tornar-se hospedeira e saltitar entre o céu e a terra. E de repente, fiquei só com o Ricardo aqui por perto.
Por muito que uns pais se esforcem para gostar dos filhos por igual, creio que é natural que algumas preferências surjam. Eu sempre fui mais próximo do Nelson, porque que me revia mais nele de entre os três. E a Mónica foi sempre a minha pequenina e ela sabia mesmo como deixar-me derretido e embeiçado, foi sempre uma coisa irracional. Lá dizia sempre tu, "Ai, a menina do papá".
Já o Ricardo foi sempre um mistério para mim, sempre muito quieto e fechado em si mesmo. Mesmo em pequeno, estava sempre quietinho, não fazia birras e parecia contentar-se de observar tudo com aqueles grandes olhos castanhos, semelhantes os teus. Agora percebo que ele saiu a ti, que eras também um mistério para os outros, que também observavas tudo e nada te escapava e nunca dizias mais do que era o essencial. Mas como eu fui dos poucos a quem tu abriste a alma e o coração, sem filtro nem reservas, era fácil para mim esquecer desse teu traço.
Enquanto bastava olhar para a expressão do Nelson para adivinhar o que se passava com ele e a Mónica sempre foi de dizer o que pensava, o Ricardo parecia por vezes de um mundo à parte, embora se mantivesse atento em tudo a seu redor.
Ainda assim, quando ele nos contou que gostava de rapazes, já eu sabia há algum tempo. Por mais que ele não fizesse por revelar, havia sinais que não davam para ignorar. Claro que eu fiquei alarmado e só depois de falar contigo, é que pude ter o discernimento para concluir que filho é filho, não mudava em nada o que eu sentia por ele. Qualquer esperança que ainda acalentei que fosse apenas uma fase ou uma confusão juvenil não durou diante das evidências. Mesmo assim, era e é um assunto que sempre me fez espécie.
Fui criado num tempo em que se acreditava que ser gay era totalmente inaceitável, um pecado, quase um crime até. Que os homossexuais eram todos efeminados e devassos, apesar de durante muito tempo a grande maioria manter habilmente as experiências escondidas debaixo de fachadas de homens respeitáveis e pais de família. E que pai é que consegue imaginar um filho aos beijos e abraços com outro homem sem nenhum desconforto? Por isso é que nunca quis saber de nada da vida amorosa dele para além do que ele dizia e ficava satisfeito por ele preferir falar contigo sobre isso. Limitei-me a aceitar, o que já não é pouco, e agora sei que isso já significou muito para o Ricardo.
Com o Nelson na terra dos vikings e a Mónica entre aeroportos e aviões, vi-me a procurar a maioria do apoio que necessitava no Ricardo e isso tem-nos aproximado mais do que nunca. Eu sabia que ele era psicólogo e que estava a trabalhar em escolas, mas não sabia que ele fez um mestrado sobre o que agora se chama bullying nas escolas. Tu decerto sabias, mas eu não fazia ideia que ele também tinha sido vítima de algumas maldades dos colegas de escola, que faziam troça dele só por ele ser diferente e não alinhar com as matilhas dos outros cachopos. E nem era por ele ser gay, nem sequer sabiam disso, era só por ele ser calado e reservado, e para esses fedelhos, isso já era motivo para ser esquisito e merecer ser gozado. Uma vez até o apanharam à saída da escola e enfiaram-no num caixote do lixo. Segundo o nosso filho, queriam fazê-lo chorar e ele com os nervos pôs-se a rir! Diz que foi remédio santo e não o chatearam mais. Fiquei tão admirado com a coragem dele, mas fiquei triste por nunca me ter apercebido do que ele estava a passar para o poder ajudar. Ele disse-me que entre o Nelson a ser alvo de inveja por causa das boas notas dele e umas raparigas a espalharem rumores maliciosos sobre a Mónica, eu já tinha ralação que chegue. Também descobri que ele pretende criar um grupo de apoio a jovens que lidam com a sua homossexualidade e com todos os estigmas que daí advêm. Espero que ele consiga levar isso adiante, é uma pena haver tanta gente a sofrer por uma coisa que, vistas bem as coisas, não têm culpa nenhuma de serem assim e que não puderam escolher. Ou como diz o Ricardo: "Se fosse escolha, escolhia-se não ser homossexual e ser como a norma, quanto mais não seja porque era menos chatice."
Agora que finalmente vou conhecendo bem o nosso filho do meio, tenho aberto a minha mente a muita coisa. Ainda assim, como deves imaginar, quando fui para o Algarve com o Ricardo e o namorado dele no Verão passado, ainda foram bastantes os momentos embaraçosos. Nos primeiros dias, à hora das refeições, ou não falávamos à mesa, ou íamos fazendo conversa de circunstância. Até que num jantar, o Filipe, o namorado dele, estava a abrir uma garrafa de vinho e a rolha não havia meio de sair. Quando finalmente a rolha soltou, deixou tombar a garrafa e uma boa quantidade de vinho escorreu para cima do frango assado que tínhamos acabado de trazer. Sai-se então o Filipe com esta:
- Se calhar, em vivo o frango nunca tinha apanhado uma bebedeira.
Era uma piada um bocadinho seca, mas sabe-se lá como, desatei-me a rir. E até ao final da estadia, não houve mais silêncios embaraçosos. Pela primeira vez em longos meses, sentia-me completamente em família. E nos grandes olhos castanhos do nosso filho, podia ver a sua felicidade em ter o companheiro e o pai lado-a-lado. Parecia que pela primeira vez, o seu silêncio dizia mais que as palavras. Tal como o teu sempre me disse tanto.
Fazes-me tanta falta, Celeste. Mas cá vou vivendo e é tudo o que eu posso fazer.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Peça do Tetris
Meu caro S.:
Um beijo,
Houve um Natal em que um tio resolveu dar a cada um de nós, a mim, ao Nelson e ao Ricardo, um daqueles jogos de Tetris, que na altura chamavam-se Brick Mania. O Nelson foi o mais viciado, andou quase o resto do Inverno viciado naquilo, quase só parava para comer, dormir e estudar, mas eu e o Ricardo também dispensámos umas boas horas naquilo. Certo dia, a minha mãe, curiosa por saber que raio de traquitana era aquela que nos deixava todos vidrados, pediu-me que lhe ensinasse como funcionava aquilo. E não é que nem dez minutos depois, ela já estava uma mestra naquilo e a fazer melhores pontuações que eu?
Mas também não era de estranhar já que nunca vi ninguém tão organizado como ela. Como professora, já estava mais que habituada a formar ordem no meio do caos e a mesma doutrina se aplicava em casa com três filhos e um marido que se lavasse a loiça e limpasse o pó de vez em quando já era muito.
Por exemplo, nas nossas viagens em família quando íamos de férias para o Algarve ou passar alguns dias a casa da Avó Eugénia, cada um tinha a sua lista detalhada de toda a roupa que tinha de levar na mala e tínhamos de restringir a nossa tralha pessoal. Eu e os meus irmãos protestávamos ao princípio mas no fim, nenhum levava assim muita coisa: bastava uns livros para o Nelson, umas cassetes para o Ricardo ouvir no walkman e um caderno e umas canetas para eu escrevinhar coisas e mais não era preciso. Mas mesmo assim, era sempre um desafio enfiar todas as malas no porta-bagagens do carro, que nunca parecia suficientemente grande. No fundo, as malas eram peças de Tetris e minha mãe sabia sempre como encaixar. Não admira que ela também se tornasse uma expert desse jogo vindo da Rússia.
Com o tempo aprendi a ser tão organizada como ela, mas demorei algum tempo. Creio que comecei a ser boa a arrumar os pertences quando aprendi a arrumar bem as coisas do meu coração. Animada pela euforia insensata de adolescente e recém-adulta, julgava que se podia medir o amor numa média aritmética de altos e baixos, e embarcava sem hesitar nas voltas da montanha-russa. Onde cada momento de prazer era um fogo de artifício e cada momento de desgosto um drama lacrimejante. Até que surgiu uma definitiva paixão de caixão à cova que perdi por causa dos meus excessos. Fez parte do meu crescimento saber que mesmo no amor e na paixão, também é preciso haver conta, peso e medida e que tudo o que é demais, enjoa e aborrece. Fiquei muito decepcionada por saber que amor, por si só, não era suficiente para fazer as coisas funcionarem.
Foi uma lição dura que eu aprendi, mas além de outros benefícios, fez com que eu fosse muito mais organizada no dia-a-dia. O que se tornou muito útil quando segui esta profissão, onde convém levar todos os pertences num pequeno trolley. Das peças básicas da roupa (como um simples vestido preto que nunca me compromete) ao frasquinho onde aplico as recargas de perfume, dos sapatos rasos que dão tréguas aos saltos altos do ofício ao tubo da pasta de dentes convenientemente enrolado à medida que se vai espremendo.
Ainda assim, eu não sou eu mesma se não viver intensamente e continuo atreita a paixões, só que agora sei medir melhor as coisas, as causas e as consequências. Por isso, pode ser que penses que eu estou a ser fria, ou que o que temos não é muito sério, mas a verdade é que ainda não decidi onde te arrumar no meu coração. A vida tem destas coisas e bastou um simples cruzar de olhares no aeroporto para que entrasses na minha vida e me baralhasses os itens emocionais. Mas ainda bem que o fizeste, não te quereria de outra forma. Porque dás-me sempre vontade de regressar para ti. Por agora, quero que tudo fique assim como está. Logo se vê onde iremos parar. Talvez sejas como aquela peça do Tetris que se infiltra no meio dos blocos mal arrumados que foram impossíveis de encaixar e que preenche os espaços deixados por completar. Para que quando caírem mais peças, venham mais pontos bónus.
Um beijo,
M.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Reles
Não sei exactamente com quantos homens já dormi. Cem? Duzentos? Eu sei lá, chegou uma altura que já não tive coragem para fazer contas. Foram muitos mais do que aqueles que deviam ter sido, e isso é que interessa.
Se eu fosse homem, suponho que seria um herói. Haveria aqueles, sobretudo mulheres, que me chamariam tarado e vadio, mas outros, sobretudo homens, olhar-me-iam com admiração e reverência. Seria o supra-sumo da virilidade, o macho dos machos, um deus sexual. Mas como sou mulher, na melhor das hipóteses, sou considerada uma excêntrica. E na pior, uma puta do mais reles que há.
A bem-dizer, essa palavra de quatro letras não se aplica literalmente a mim. A minha profissão não é a mais velha do mundo, e embora algumas vezes tenha-me sido oferecido dinheiro pela pernoita, eu nunca aceitei. Como de uma vez que quando acordei com uma nota na mão, que fui dar logo ao primeiro mendigo que eu vi. Mas obviamente que num sentido mais lato é o que eu sou.
Posso dizer que sou uma viciada em sexo, que o sexo pode provocar uma dependência e uma "pedrada" tão forte como qualquer droga que se possa mencionar, que momentos houve onde o que me interessava era saber onde é que a próxima vez que irei foder, em busca do êxtase que desaparece tão depressa como surge. (Quando ainda surge...) Mas como poderão ver o meu sofrimento, se só me vêem é tentar engatar da forma mais óbvia e oferecida? Ainda por cima, vivemos numa altura em que a dependência do sexo é sobrediagnosticada, em especial a celebridades que vêem as suas taras privadas tornarem-se públicas.
Mas porque é que me tornei assim, não sei dizer ao certo. Sempre me disseram que eu sou bonita, mas nunca me senti bonita. Sei que tenho bons atributos, físicos e não só, que captam a atenção de qualquer homem mas estou sempre duvidar disso, e só consigo acreditar quando alguém se aproxima de mim. E na minha mente, só podiam se aproximar de mim para o sexo, que mais poderia ser? Só com sexo, teria namorados, sentir-me-ia bonita, sensual, desejada, amada, só com sexo eu prestava...E aos poucos, deixei que se aproveitassem de mim, que me usassem, tornei-me mais descartável que uma pastilha elástica. Alimento a ilusão que é que estou em controlo, eu é que dou o primeiro passo, eu é que seduzo, mas na verdade já perdi o controlo de tudo, o vício é que me controla.
Nem sequer posso justificar-me com um trauma do passado, como abusos sexuais ou a um pai ausente ou violento, como é habitual em tantos casos como o meu. Tive uma infância inconsequente mas relativamente feliz e tive pais sempre atenciosos e carinhosos.No fundo, pura e simplesmente não consigo gostar de mim e andei sempre em busca da validação.
Pois eu sei, o tal slogan do leite, se eu não gostar de mim, quem gostará...mas é mais fácil falar do que fazer. Não tive só sacanas na minha lista, também houve tipos decentes, se calhar alguns que gostavam mesmo de mim, e que os afastei por não acreditar que alguém pudesse gostar de mim a não ser para me saltar em cima. Não gosto de mim o suficiente ao ponto de não ter vontade nem força para me deixar disto e conservar a pouca dignidade que me resta. Para começar a olhar-me de outra forma e fugir deste caminho que me empurra para o abismo. Provavelmente já é tarde demais para mim, mas não consigo deixar de sonhar que um dia, alguma luz irá penetrar no escuro do meu ser e à força de me encadear tanto os olhos, eu veja tudo de maneira diferente. E eu me veja como bem mais do que a puta reles que eu me conformei a ser.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Grão-Ducado
Era apenas um sonho em forma de anúncio num jornal. Um tiro no escuro. Quase como jogar no EuroMilhões. A esperança não era muita, mas só não jogando é que não sai mesmo o jackpot. Se é verdade que a desgraça toca por volta e meia a qualquer um, as horas felizes também surgem assim. Mas logo a mim?
Quando vi aquele e-mail na biblioteca, levei as mãos ao ar e nem sei como gritei logo ali. Afinal os sonhos acontecem, e alguns deles levam-nos bem longe. No meu caso, a um pequenino grão-ducado entalado algures na Europa. Esse seria o lugar a que chamaria casa durante três meses. Para um estágio onde eu faria aquilo que sonhava fazer na vida: traduzir. E logo para o Parlamento Europeu.
Assim que o avião descolou de Lisboa, sabia que um admirável mundo novo estava agora à minha frente. E apercebia-me de quanto o meu país está ali encurralado num canto da Europa, quase dentro de uma redoma. Indo para fora, é mais fácil sentir-se um cidadão do Mundo, sobretudo da Europa, e que há toda uma tapeçaria de sons e imagens estendida pelo Velho Continente, onde as estradas são como os fios urdidos. Parece que Portugal é apenas o arremate.
No entanto, em certos aspectos, era como Portugal tivesse ido comigo, ou não estivesse eu num país com tantos imigrantes que eram meus compatriotas. Aliás, na casa em que fiquei, no meio de uma família portuguesa, só me dava conta que estava fora do meu país quando olhava pela janela e via aquelas casas típicas de outras latitudes que só tinha visto em fotos.
Porém ao deixar o lar longe do meu lar e sair para a rua, sentia-me como a Dorothy quando descobriu que já não estava no Kansas. Mesmo quando essas ruas, pontes e avenidas se iam tornando familiares aos meus olhos. Não ao fim do arco-íris, mas ao fim do percurso do autocarro, lá estavam as Torres Gémeas, quais Torres de Babel, onde tantas línguas confluem como rios, esperando que no curso se chegue a um mar de entendimento, a bem do Velho Continente.
No 12.º andar da Torre A, surgiam-me no computador actas e ordens do dia destinadas às diversas comissões de deputados do Parlamento Europeu em francês e inglês para eu traduzir para a minha língua. Das quotas de captura do carapau branco à situação os direitos do Homem na Guiné, nenhum assunto escapa ao debate dos deputados em Bruxelas e em Estrasburgo nem à descodificação dos tradutores nas Torres erguidas no bairro luxemburguês de Kirchberg.
Mas se já a oportunidade de viver noutro país e trabalhar em tradução seria já uma valiosa experiência para a minha vida, foram os amigos que fiz lá que a tornaram verdadeiramente preciosa. Primeiro, o encontro dos estagiários, as apresentações feitas em várias direcções, as curiosidades sobre as origens e as línguas de cada um. Depois, os forwards no e-mail trocando piadas, reflexões e convites, as conversas temperadas com a comida da cantina à hora do almoço ou sob um café au lait nas pausas matinais, as festas regadas com um quanto baste de álcool, as viagens que por entre tropelias e azeites me fizeram descobrir mais lugares que até então só em sonhos tinha ido. Por fim, sentir na alma que havia tanta gente vinda de tantos sítios diferentes do meu que me acarinhou, que me inspirou, que soube olhar para além da minha superfície e ver o meu verdadeiro eu.
Tive muita pena que o meu sonho não pudesse durar mais do que três meses, que passaram num instante diante dos meus olhos e deixaram tanto por dizer a tanta gente. Porém, ao menos vivi o sonho intensamente enquanto durou; se era para ficar triste, que o ficasse depois, quando acabasse.
Quando numa madrugada de Dezembro, deixei a neve (que caíra na véspera como que num gesto de despedida do Luxemburgo para mim) e aterrei sob o tímido mas límpido Sol de Inverno português, trazia comigo um mundo mais alargado e tantas memórias do grão-ducado que para sempre viverão comigo, que ainda hoje permanecem tão vivas. Bem como a ânsia de saber aonde outros sonhos me levarão...
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