quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Coração e Tomates

Nelson:

Há tantas coisas sobre a nossa Mãe que eu sinto tanta falta. Basicamente tudo. Sinto falta de ela estar viva neste mundo e está tudo dito. Mas também sinto particularmente falta de haver outra mulher na família. Por muito que eu vos adore, a ti, ao Pai e ao Ricardo, gostava tanto daqueles momentos de cumplicidade feminina que tinha com a Mãe, de poder de falar de coisas de mulheres com ela, de revirarmos os olhos diante dos vossos desvarios como quem diz: "Ai, os homens." Não que a gente não adorasse os homens em geral, e vocês os três em particular. E crescer com dois irmãos velhos, deu-me uma privilegiada perspectiva do universo masculino, e também uma melhor compreensão do vosso sexo. Por isso, eu não alinho no famoso cliché dos homens serem todos iguais. Por muitos denominadores comuns que hajam, um olhar mais esclarecido consegue captar todo um prisma de variedades.
Tudo isto para dizer que eu adorei ter a Juliana aqui neste Natal. Isto agora de ser a única mulher numa família de homens tem que se lhe diga. Ainda para mais agora com a adição do Filipe como significant other do Ricardo, e que não deixa de ser homem, por muito que gente de dimensão muito limitada queira descategorizá-lo por ser gay. Por isso, soube bem poder reproduzir com a Ju alguma da cumplicidade feminina que eu tinha com a Mãe. Uma vez ouvi dizer que os amigos não se fazem, reconhecem-se, e não tardou a perceber que tinha uma amiga diante de mim.
Aliás, não demorou nada até ela nos conquistar a todos. Foi fácil perceber porque é que tu ficaste caidinho por ela. Por exemplo, é conhecido o teu fascínio por loiras. O Pai dizia na brincadeira que um dos principais motivos que te levou logo a querer ir para a Noruega era para lá sacar uma loira nórdica. Saiu-te porém uma loira brasileira, que sempre tem a vantagem da língua. Falas muito bem inglês e até já te desenrascas minimamente com o norueguês, mas deve ser reconfortante para ti poder falar com alguém que fala a mesma língua que tu, ainda que numa variação cantada e cheia de gerúndios. Apesar de ela viver já há vários anos na Europa, de ter uma fisionomia bem europeizada (devido aos genes alemães dos bisavós) e de não ter um feitio muito expansivo, é fácil de perceber que ela é brasileira de alma e coração.
Depois, eu sei que por muito que mulheres bonitas te fascinem, gostas mesmo é de mulheres inteligentes. Podes ter à tua frente um clone da Scarlett Johansson que se ela não tiver dois dedos de testa, perdes logo o interesse. Ficou para a história aquela tampa que tu deste uma vez a uma boazona, só porque ela disse: "O Luxemburgo fica na Alemanha, não é?".
Mas sobretudo porque tu saíste ao nosso Pai. Vocês têm ambos uma mente brilhante e um carisma cativante, mas precisam de alguém que esteja por trás que os faça brilhar. A Mãe dizia que ela se apaixonou pelo Pai porque ele era um diamante em bruto, alguém cheio de potencial e de qualidades para prosperar mas que não soubesse bem o que fazer com elas. Sem dúvida que grande parte do sucesso que o nosso Pai teve deve-se ao apoio e ao amor da sua mulher, que o ajudou a polir a gema e a limar as arestas para ser a pessoa notável que se tornou - e que continua a ser, mesmo sem a Mãe.
Contigo sucedia algo semelhante, não tanto nas tuas aptidões profissionais, pois sempre foste muito culto e inteligente, de raciocínio analítico e meticuloso e muito disciplinado naquilo que fazias. Mas em competências sociais, deixavas sempre um pouco a desejar, sobretudo no que toca o sexo oposto. Das poucas vezes que arriscavas abordar uma rapariga, o teu cérebro entrava em tal sobrecarga que saía asneira. Por isso a maioria das vezes, nem te atrevias a dar um passo, ou por medo de errar (demoraste algum tempo a aprender a lidar com os teus fracassos) ou porque mergulhavas num autismo que te impedia de captar a sinalização luminosa que passava diante dos teus olhos. Houve algumas amigas minhas que se apercebiam que por detrás daquele marrão estava um rapaz bem jeitoso, interessante e totalmente material de namorado e que vinham a casa só para se meterem contigo, mas tu era sempre cordialmente pitosga. Foi preciso a Mafalda, já na Universidade, a abrir-te os olhos e a braguilha, para entenderes que nessas coisas, não há teoria que se compare à prática. Apesar de ela ter sido uma parvalhona que depois te largou de forma ignóbil, deves muito a ela se hoje és o mestre do flirt, trabalhando a tua combinação poderosa de dois dedos de testa e um palmo de cara.
E também sinto que a Ju realça o homem brilhante que és, tal como a Mãe para com o nosso pai. É fácil ver que encontras nela o apoio e a serenidade que precisas. E que retribuis com toda a paixão que um homem pode dar a uma mulher. Tens muita sorte de a ter a teu lado, mas ela não é menos sortuda.

Infelizmente, por muitos passos em frente que já foram dados, há dogmas bacocos que ainda persistem na nossa sociedade sobre o que é ser homem e ser mulher. Que faz com que tantos homens achem que ou têm tomates ou têm coração, como se fosse obrigatório escolher, ou pior, como se só ter tomates fosse a opção correcta. O Pedro ainda era pior, era daqueles que têm coração, mas que estão convencidos que só têm tomates. Felizmente, cresci com três homens que têm ambos e não se envergonham disso. Percebo muito bem agora o privilégio que foi crescer entre o afecto e a autoridade do Pai, a generosidade e a introspecção do Ricardo e a tua lealdade e sensatez. É graças a vocês os três que eu sei que os homens são seres fabulosos. Quantas mulheres não conhecerem senão a vossa faceta mais dura, fria e cruel, tornando-as descrentes e destroçadas?
Eu podia ser uma dessas mulheres, depois do que eu passei com o Pedro, quando eu movia montanhas por ele, e ele nem conseguia dar um passo em frente. E mesmo quando eu reconheci que lutava por uma causa perdida, foi tão difícil esquecê-lo. Mas a minha tristeza nunca se transformou em aversão, porque o mal que ele me fez não ofuscou o bem que ele também me deu, porque com vocês aprendi a distinguir os matizes do espectro masculino. E agora posso olhar para trás com um mínimo de mágoa e valorizar a nossa história como uma lição que tinha de aprender, que me fez crescer um pouco mais. Ou, como naquela canção da Christina Aguilera, "made my skin a little bit thicker."
Acredito que foi essa decantação quase científica que me faz apreciar as coisas boas quando elas surgem. (Digo "quase" porque como te disse, há coisas onde a prática arruma qualquer teoria.) E agora surgiu-me o Salvador. Sim, é como se chama o meu homem-mistério, não sei a Juliana já te disse. Falei-lhe um pouco sobre ele, num momento de cumplicidade e confidência feminina. A antiga Mónica não resistiria ao brilho de um homem daqueles, tão intenso (como o teu) e atirar-se-ia de cabeça. Mas a Mónica actual gosta de manter a cabeça à tona de água e vai com calma. Por isso, ainda não quero revelar muito mais sobre ele. Só te digo, que até agora, estou a gostar. Tanto do homem como do mistério

Espero que te estejas a defender bem desta vaga de frio, que por aí deve ser particularmente intensa. Também eu agora dou valor ao típico clima temperado português, se bem que já não tão temperado como dantes. Manda muito beijinhos à Ju, e vê lá se não a chateias muito. Tens aí uma mulher que merece o teu brilho. Acho que, tirando o pai dela, nenhum homem antes de ti soube como iluminá-la como deve ser. Por isso tem paciência com ela, mantém os olhos abertos tal como costumas abrir o teu coração, fá-la acreditar como eu acredito.

Aquele abraço da tua querida maninha,

 Mónica

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ensaio experimental

Quando dizem que a luz é a melhor amiga de uma modelo, não é à toa. Quem te vê nos outdoors, banhada pela luz, o teu corpo arqueado em ângulos sinuosos que te traçam uma sensualidade extravasante, a tua longa cabeleira ruiva esvoaçando numa rebeldia calculada, imagina-te uma deusa sensual, mitológica e inacessível.
Se eu não soubesse como te transformas de crisálida a borboleta à velocidade de um clique diante de uma máquina fotográfica, também eu seria mais um de que responderia com um incrédulo "Ah, pois", quando tu dizias que queria ser modelo. Mas até nas fotos que eu te tirava no liceu, ora nas saídas com a malta, ora improvisando ensaios, já tu pousavas para exercitar esse teu inesperado talento, eu conseguia ver essa metamorfose. Sempre que mostrava esses fotos a alguém, a invariável reacção.
Não acredito, é mesmo a Érica? Ela está mesmo bem nestas fotos. Está tão bonita! 
E de facto, custava a crer que aquela miudita caixa-de-óculos, ruiva e branquinha, de semblante fechado, magrinha com uma vagem, quase sem nenhum peito nem rabo pudesse mudar assim tanto sob a luz do flash. Às tantas, é por isso que ainda és pouco reconhecida na rua, porque circulas à vontade no teu modo Clark Kent de saias e só te transformas em super-heroína numa sessão fotográfica ou em cima de uma passerelle.
Sempre gostaste muito da ideia de seres um mistério para todos. Sem dúvida foi por isso que quiseste sempre cultivar a nossa amizade, porque para os outros era de facto uma amizade misteriosa. No liceu, eu era o desportista, o às do voleibol, o puto giro, popular e extrovertido, e tu eras a geek que andava sempre sozinha, que não trocava mais de meia dúzia de palavras com ninguém, sempre sozinha a um canto a ler, ou a observar tudo em redor como quem admira uma pintura abstracta. Ouvi rumores velados de que eu me aproximei de ti para te saltar em cima, movido por uma suposta tara por mosquinhas-mortas, embora a maioria acreditava que era por eu ser um bom rapaz e não querer deixar ninguém de fora e desintegrado dos outros. Se me perguntassem abertamente na altura, eu poderia dizer que era por gostar do facto de seres uma miúda inteligente, pouco dada a futilidades e dramatismos típicos da adolescência e sobretudo, porque eras uma boa ouvinte e sentia que te podia contar tudo, sem que me julgasses ou fizesses troça.
Mas agora sei que além desses motivos, era porque eu gostava de ti, Érica. Tal como agora sei que tu também gostavas de mim. Os teus sinais foram sempre muito subtis, quase imperceptíveis, e era miúdo demais para os detectar, mas agora sei que lá estavam. E lamento que não tenhas sido mais óbvia, devias saber que nessa idade nós, os rapazes, ainda não sabemos captar esses pequenos indícios dos ardis femininos, tem de ser mesmo tudo ali em frente, com desenhos do Pictionary, ou melhor, sinais gigantes de néon a piscar. Provavelmente, diria que sim, aliviado por teres dado o primeiro passo. Sim, Érica, também gosto de ti, quero namorar contigo, que se lixem as piadas da saloiada. 
Contudo, deves ter analisado tudo muito bem, pesado os prós e contras, para concluíres que não valia a pena arriscares o passo em frente. Iria ser esquisito, iria mudar as coisas, criar ciúmes e desconfianças, estragar tudo de bom que demorámos a construir. Sempre foste cartesiana, a analisar e sobreanalisar tudo. Sem dúvida que isso te dá muito jeito na tua carreira actual de manequim, consigo imaginar-te a assimilar como uma esponja as direcções dos fotógrafos e dos produtores, a procurares mentalmente quais as poses ideais diante do cenário com que te deparas e o produto que é preciso vender. Até acredito que foi após muita análise e reflexão que decidiste que a situação ideal para perderes a virgindade foi naquela noite em Albufeira, nas férias da Páscoa, em que te meteste na minha cama com uma caixa de preservativos e debaixo de um edredão experimentámos aquilo que só em lugares distantes das nossas mentes desejávamos viver.
Claro que nunca esqueci essa noite nem o que fizemos nesse novelo de ternura, desejo e embaraço. Se bem que prefiro recordar em particular uma noite chuvosa, umas semanas antes, onde me arrastaste para ver uma peça de teatro qualquer e no caminho de volta, eu puxei-te para debaixo de uma paragem de autocarro e beijei-te. Foi a única vez que te vi completamente desprevenida e adorei isso, embora eu depois tenha dito que fora uma vez sem exemplo.
Os anos passaram, já não somos uns miúdos, mas continuamos amigos. Apesar dos truques de magia dos soutiens que agora usas, tens ainda um peito pequenino, mas nem por isso menos apetecível. Continuas igual a ti própria, algumas das tuas manias extinguiram-se, outras ampliaram-se, mas ainda gosto de estar contigo.  Eu próprio também mantenho algumas manias, adquiri outras, e nem por isso deixaste de apreciar a minha companhia. A Érica manequim é bela e sensual, mas é da outra Érica que eu gosto. Se eu te dissesse que estou apaixonado por ti, como afinal sempre estive, arriscarias esse flash, só para ver no que dá? Podes esmiuçar cientificamente as vantagens e os inconvenientes ou então decidires, por uma vez na vida, fazer algo espontâneo, mas gostava que dissesses que sim. Eu por mim, acho que podemos ficar bem na fotografia, mas mesmo que não, mesmo que se estrague o filme todo, ao menos podes dizer que foi apenas um ensaio experimental. Vou procurar o ângulo onde a luz melhor me incide, diz-me qual é a minha melhor pose. Então, que dizes?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Três Metros do Céu

Mónica:

Vê só como é a vida. De nós os três, eu fui o primeiro a andar de avião e o único que fez Erasmus. E agora anda o Nelson a fazer a vida dele lá pela Escandinávia, tu a acumular milhas aéreas, e eu é que estou aqui em Portugal e já faz dois anos que não vou ao estrangeiro, todo ocupado entre o trabalho, o Pai e oficializar a união de facto com o Filipe.
Mas não me queixo. O trabalho tem-me ocupado muito tempo e energia, mas este projecto é algo que me faz sentir feliz e realizado. E com vocês fora, fui eu que tive de acompanhar mais o Pai enquanto ele refazia a vida sem a Mãe, e no processo foi como se nos redescobríssemos um ao outro.

Por falar nisso, no outro dia o Pai contou-me como tu estavas tão preocupada quando eu fui fazer o Erasmus na Holanda. Também não era para menos, foi umas semanas depois do 11 de Setembro e nessa altura toda a gente estava cheia de medo de entrar em aviões. Até eu estava um pouco apreensivo, mas a ideia de andar de avião e viver num país estrangeiro pela primeira vez deixava-me muito entusiasmado e durante o voo, não pensei em terrorismos nem nada do género. Mas tu estavas tão preocupada com a hipótese de haver no avião um esbirro qualquer da Al Qaeda pronto a mandar-me pelos ares que quando aterrei em Amesterdão, ainda à espera das malas, foste logo a primeira pessoa a quem liguei e acho que o teu suspiro de alívio deve ter-se ouvido em todo o município. Longe de nós imaginarmos que um dia irias fazer vida de andar de avião.
Tal como longe de mim saber que também eu iria ter um romance de Erasmus, que terminou tão repentinamente quanto começou. Qual caixa de Pandora, o Johann soube como libertar todos os espectros emocionais que eu carregava desde sempre e quando dei por mim, já tinha mergulhado de cabeça.
Sim, eu sempre soube que era homossexual, tal como tu, o Nelson e os pais sempre souberam, mesmo que nunca falássemos disso, qual elefante no meio da sala. Se por um lado, não tinha dúvidas do que eu sentia e sentia a óbvia curiosidade de passar da teoria à prática, por outro sabia que muita gente não aceitaria isso tão bem como a minha família. Se eu já tinha chatices que cheguem dos bullies só por ser diferente da maioria do rebanho escolar, se eu lhes desse mais razões para levar porrada e, como sabes, quem me tira o sossego da minha vida, tira-me tudo. Para não falar dos inevitáveis conflitos interiores: "Porque é que sou assim? Porque é que não sou como os outros? Porque é que dizem que sentir o que eu sinto é errado e nojento? Serei uma pessoa abominável?"
Foi preciso eu estar noutro país para me sentir suficientemente confortável para verbalizar os meus sentimentos e os meus dilemas. Algo que nem sequer fizera convosco, embora já soubesse que vocês iriam apoiar-me, mas quando temos uma semente de medo e dúvida tão enraizada em nós, isso paralisa-nos.

Para além do excelente contributo académico que estudar um semestre na Universidade de Haia me proporcionou, também o simples facto de viver num país diferente e conviver com gente de várias nacionalidades abriu-me os horizontes, dando-me ideias sobre alguns dos rumos que queria tomar na vida. Até mesmo a língua acabou por não ser problema de maior, apesar de não ter retido o pouco que consegui aprender daquele idioma arreganhado, nem sequer o frio em doses a que não estava muito habituado por cá. Acabaram por ser poucos os momentos em que me senti um peixe fora de água.
Imbuído nesta expansão de espírito, arrombei a caixa de Pandora de emoções que mantive fechada a cadeado durante toda a minha vida. Primeiro porque estava num país onde há séculos o pragmatismo prevalecia sobre os dogmas religiosos, e por isso não admira que tenha sido um dos primeiros a entender o quão redutor é restringir as relações afectivas e físicas ao binómio homem/mulher. Depois porque um austríaco de olhos verdes fez-me viver tudo aquilo com que mal me atrevia a sonhar.
Nós sabíamos que era uma loucura, que não era justo nos apaixonarmos quando sabíamos que não iria durar, que não valia a pena criar ilusões de que poderíamos continuar a relação quando cada um voltasse ao seu país. Mas o que havia entre nós era tão forte que tudo o que podíamos fazer era vivê-lo e tentar esticar o pouco tempo que dispúnhamos tanto quanto pudéssemos.
Como é que eu não sabia até então como é tão belo o amor e tão ardente a paixão? Como é alucinante sentir o prazer a explodir nos nossos corpos? Como vicia mais do que qualquer droga, como tudo isto nos deixa tão parvos e tão esclarecidos ao mesmo tempo? Como tudo dói quando chega ao fim?
Na minha última noite em Haia, eu e o Johann fizemos amor pela última vez, num acto que falou mais do que todas as palavras de despedida. Deixei-o adormecido no quarto dele, entrei no meu e estendi-me na cama, pronto a romper em choro. Mas eis senão que oiço alguém a chorar, e não era eu. Era a Kasia, uma polaca, também ela a carpir o fim de um romance Erasmus com um italiano. Fui ter com ela, limpei-lhe as lágrimas e ela abraçou-me. Ficámos ainda algum tempo abraçados em silêncio até ela se recompor e agradecer-e. Senti que ao consolá-la, estava também a consolar a mim próprio. Acabei por não chorar, e assim embarquei  no voo de regresso, com a sensação agridoce de que eu vivera este tempo todo a três metros do céu e que chegara a hora dos meus pés reencontrarem o solo.

Lamentei só terme inscrito no Erasmus por um semestre e não para o ano inteiro, mas era o meu último ano de curso, queria viver a minha última Queima das Fitas, tinha medo que houvesse problemas com a equivalência dos créditos, de perder matéria no curso cá que fosse importante, ou que não me tivesse conseguido adaptar bem a viver tanto tempo na Holanda. Tudo receios infundados. Mas agora não havia nada a fazer e a vida seguiu o seu caminho.
Mesmo assim, as marcas do Johann permaneceram muito tempo. Ele elevou de tal forma a fasquia com o que vivi com ele que nos anos seguintes não me conseguia interessar por ninguém e todos aqueles que se interessavam por mim perdiam redondamente na comparação ao Johann. No máximo dos máximos, muito de vez em quando, se a minha libido prevalecia e a solidão apertava, cedi a umas aventuras de uma noite.
E já quando eu receava que nunca mais iria viver nada parecido, apareceu o Filipe. Então percebi que o fogo do amor tanto pode surgir abruptamente da chama como erguer lentamente das brasas. Mas essa história já tu conheces.

Entretanto, minha querida maninha, também tu já perdeste o medo de voar, já estiveste em mais países que eu, já amaste e sofreste por amor. Haverá de chegar o dia em que vais querer deixar a casa do Pai, que ainda é a tua morada oficial em Portugal, e construir o teu lar. Tal como eu o fiz, semeando os meus projectos aqui no nosso país, à espera de colher os frutos, e escolhendo o Filipe para a pessoa a quem eu quero voltar quando chego a casa. Pode ser que o faças noutro país, como o Nelson. Ou então, que continues a voar pelo céu de Europa, mas fazendo de o coração de alguém a tua casa. Quem sabe se não esse homem-mistério de quem tens sempre vontade de procurar quando estás por cá?

Muito e bons voos para ti
do teu irmão Ricardo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Depois da euforia

Peço imensa desculpa, senhora jornalista, pelas minhas respostas atabalhoadas ás suas perguntas. Como deve calcular, isto tudo é novo para mim, nunca fui entrevistado antes nem fiz uma sessão fotográfica assim com estas roupas tão finas, no meio deste hotel com tantas estrelas onde antes nunca me atreveria sequer a entrar.
Sim, estou bem, muito obrigado. Depois da euforia do fim do programa, senti que o melhor era regressar à minha terra, para junto da minha família e amigos, passar uns dias descontraídos sem pensar no que vou fazer a seguir. Em suma, ser o Eduardo que era, apenas um simples rapaz de vinte e quatro anos, nascido e criado em Guimarães, que gostava de jogar futsal e que pretendia trabalhar em Fisioterapia, para fazer valer a licenciatura feita a custo de muito esforço e alguns sacrifícios dos pais. Foi com alívio que depois destes meses de loucura, fechado numa casa com mais dezena e meia de outros gatos pingados sob o olhar do país, que continuo a ser o mesmo Eduardo. Pelo menos dentro do possível.
Confesso que uma das razões porque quis entrar no programa foi porque queria ver se conseguia ganhar algum dinheiro. Desde que o meu pai faleceu há ano e meio que o dinheiro lá em casa é minuciosamente contado, para que nada nos falte e para se viver com algum conforto, mas sem extravagâncias. Os poucos trabalhos que eu tive desde que acabei o curso foram muito esporádicos, e raramente tinham a ver com a minha área. E há meses que não que conseguia arranjar emprego e não queria ser um fardo para a minha mãe e para a minha irmã, que se esfalfam a trabalhar e ganham bem menos do que o seu esforço mereceria. Por isso, não vou esconder, qualquer rendimento que eu pudesse ganhar por causa do programa, de presença em discotecas ou fosse o que fosse, era bem-vindo. E, claro está, o lado da aventura também me seduziu, passar por essa experiência singular, de viver numa espécie de mundo à parte. É incrível como uma pessoa lá se esquece tão facilmente das câmaras e que tudo o que fazemos está a ser visto e escrutinado por não sei quantas pessoas.
Mas daí a pensar que eu ia ganhar, ainda ia uma distância. Ainda não sei bem porque ganhei. Não sou nenhum pastor campónio, Guimarães até é um meio urbano considerável, até já foi Capital Europeia da Cultura. Não tenho uma carinha laroca, tipo ator dos Morangos Com Açúcar, como o Salvador, nem físico de bodybuilder como o David. Não me envolvi em nenhum romance e nem fiz sexo dentro da casa como o Tiago B. e a Marta. Não sou de me pôr em cantorias e beijinhos para a câmara como a Patrícia. Não sou um líder nato como o Tiago M. Das três vezes que fui nomeado, partia do princípio que tinha sido poupado por exclusões de partes, e que em confronto direto com alguém mais carismático, eu sairia logo.
Já me disseram que eu ganhei porque fui o mais natural, seja lá o que isso quer dizer. Apesar de ter mais afinidades com os membros do quarto amarelo, passei um pouco ao lado dos conflitos com os do quarto verde. Só me envolvi nos conflitos mais generalizados e quando a Joana T. e o Luís andaram a mandar indiretas e a pedirem aos outros para me nomearem, eu fiz-me de despercebido, esperando que o tiro lhe saísse pela culatra.
Sim, isso foi a parte mais triste. Lá dentro estava protegido do que se especulava e comentava cá fora, e agora sei que a minha família, sobretudo a minha mãe, sofreram com o que foi aparecendo na imprensa. Desde gente que me chamava falso e sonso na internet, a pessoas aí da terra que mal me conhecem a darem palpites para as revistas sobre mim e os meus familiares até terem descoberto que o meu pai tinha sido uma vez infiel e até terem contactado a outra, que agora mora lá para os lados de Ponte de Lima. Ainda bem que ela teve a decência de não dizer nada, até porque também ela refez a sua vida, tal como o meu pai percebeu que, após a euforia inicial do caso, era junto da mulher e dos filhos que queria estar.
Para já não falar que das sete raparigas que foram apontadas como sendo minhas ex-namoradas, uma nunca a vi mais gorda, duas só conhecia através de amigos comuns e duas delas, se saí duas ou três vezes com cada, já foi muito. Só uma tinha sido minha namorada, e já há uns bons anos, e aquela que fora a minha ex mais recente ninguém deu por ela. E depois houve a Carina...
Não, não estou nem estive apaixonado por ela. Primeiro não sou de me meter com a mulher de outros, e ela tinha namorado, ainda que tivessem dado um tempo à relação, segundo ela. Depois porque apesar de desde cedo se estabelecer uma química e uma ligação forte entre ambos, sabia que grande parte do que sentia era devido à situação em que estávamos, com as emoções a mil e tentando encontrar um refúgio em alguém. Admito que me senti fisicamente atraído pela Carina, cheguei a pensar no que poderia haver além mais do que tivemos, mas instintivamente sentia que era um risco que eu não queria pisar e creio que ela também não. E agora que estes meses de irrealidade terminaram, começo a analisar tudo pelo que eu passei e já indaguei se ela não se aproximou assim de mim porque foi a única a ver em mim um potencial vencedor e associando-se a mim, ela conseguia chegar pelo menos à final. Nas missões e nos desafios que houve ao longo do programa, ela revelava uma faceta extremamente competitiva e estratega, e tinha a confiança de um jogador que sabe que não vai falhar na cartada final. Pode ser que eu também tenha sido um trunfo para ela ter chegado ao segundo lugar. Não a censuraria se isso fosse verdade, afinal era um jogo e cada um joga como quer, mas eu prefiro acreditar que o que a Carina me disse e me demonstrava era quase sempre com sinceridade. Pelo menos, tenho-lhe a agradecer ter sido o meu abrigo nos meus momentos mais difíceis na casa. Gostava muito de continuarmos amigos, mas agora sei que as nossas vidas têm outras voltas para dar e as nossas promessas podem ficar pelo caminho, até cada um não ser mais que uma terna memória para o outro.
O futuro? Como diz a minha mãe, só a Deus pertence. A maioria do dinheiro será para guardar, para se usar quando for preciso. Pretendo pagar as obras da nossa cozinha, e o resto do empréstimo dos nossos carros, mas também decidi que uma pequena parte será para gastar no que me dê na real gana. Acho que mereço uma ou outra extravaganciazinha. Apesar de estar a gostar desta minha fama inesperada, tenho algum receio do reverso da medalha. Felizmente, acho que continuo a ser o mesmo Eduardo de sempre. Decerto que não foi por ter estado num reality show e não será por agora ser conhecido em todo o país que deixarei de o ser.
Posto isto, venham de lá essas fotos, afinal de contas, estou aqui todo aperaltado neste hotel, quero ver como  fico. Espero que a senhora jornalista tenha gostado de falar comigo. Ora essa, assim fico embaraçado com o seu elogio. Deixe lá, é assim que eu sou.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Águas paradas

Às vezes, quando nado, parece que me transformo em água. Vejo o fundo azul da piscina e invade-me uma sensação de tranquilidade e calma, como se tudo fosse claro e simples como a água. Nado o estilo mariposa com os braços a puxar e as pernas a acompanhar em ondulação. Tento acelerar um bocado o movimento mas o meu corpo recusa esta mudança, quer continuar a deslizar calmamente. Ao fim da piscina, vejo o Bruno, o meu treinador, a querer parecer zangado, mas sem conseguir:
- Então, Cláudia? Isto é tempo que se apresente? Já mais dez piscinas de castigo.
Aceito a sentença por me ter deixado seduzir pela lentidão e retomo a mariposa nadando ao meu ritmo de corrida, ao nível de que o Bruno diz que pode me levar bem longe nas competições.

O Bruno é daquelas pessoas que por muito que tentem não conseguem ser autoritário. Não que isso faça dele um treinador menos exigente e provido de disciplina, pelo contrário. É a maneira de ser dele, para ele está tudo bem, e não perde tempo com chatices. Se ele fica nervoso ou chateado, tenta sempre pôr boa cara. Tem sempre aquele sorriso tímido, que à primeira vista pode parecer um sorrisinho parvo mas cedo se descobre que é mesmo assim o jeito dele, natural e simpático. É daqueles homens que têm aquele charme de que não tem (ou não sabe que tem) charme. Não é daqueles que faça uma mulher parar quando se cruza com ele. Aliás, de cara não é muito bonito: o rosto preserva as marcas de uma acne tardia, o nariz entre romano e aquilino, lábios grossos, cabelo desalinhado e olhos do tom de castanho mais banal. Nem sequer é muito alto. Já o corpo é mais interessante, tem aquele físico de nadador, com os músculos do torso e dos membros bem delineados mas sem parecerem insufláveis como os dos culturistas. Mas o que cativa mesmo nele é a sua simpatia e a sua humildade. Nunca vi ninguém tão modesto, sobretudo alguém que foi aos Jogos Olímpicos. Diz apenas: “Tentei os mínimos e tive a sorte de conseguir”. Se eu me apurar para os  Jogos Olímpicos, hei de ficar tão orgulhosa ao ponto de o dizer a toda a hora até chatear todo o mundo.

Bem sei que só tenho 16 anos e ainda sou virgem, mas sei  bem como as coisas se fazem. As pessoas fazem tanto bicho de sete cabeças sobre o sexo, a mim não parece nada complicado como isso, desde que haja precauções. Os meus colegas, sobretudo rapazes, são ainda muito miúdos e ainda não percebem nada, pelo menos não tanto como julgam. É vê-los de hormonas aos pulos a fazerem figuras tristes atrás das raparigas. E algumas delas a darem-lhe troco. De mim é que não levam nada. Por essas e por outros, que as minhas fantasias são quase sempre com homens mais velhos. Em especial com o Bruno.

Como se diz em inglês, still waters run deep, e admito que já imaginei a profundidade com que deverão correr as águas paradas do Bruno. Mas claro que está que é tudo na minha cabeça e nunca faria nada para o concretizar, mesmo se eu fosse maior de idade. Primeiro, o Bruno só me vê como pupila, quiçá como uma irmã mais nova. E depois a nossa relação de treinador/atleta e de amigos é demasiado valiosa para eu querer pôr em risco, com as minhas fantasias de adolescente. Depois, porque é que o Bruno ou outro qualquer haveria de se interessar por mim. Sou uma autêntica tábua de passar, sem peito nem rabo que se veja, com dentes de coelho e olhos esbugalhados, um pão sem sal com ar de quem deixou ontem de usar fraldas.
O Miguel, que é um dos poucos rapazes de jeito na minha turma, disse-me uma vez que eu tenho cara de Lolita e que não tarda nada, vou deixar muito homem fascinados por mim. Uma ova é que não tarda nada. Mas quem sabe? O melhor é esperar, pode ser que não seja só conversa e a previsão do Miguel se torne realidade e eu seja mais atraente aos olhares masculinos.  O que é fascinante e ao mesmo tempo assustador. De facto, sinto em mim uma sensualidade prestes a explodir e não sei como hei-de lidar com isso. Tenho apenas que crescer mais um pouco – e o tempo passa por vezes mais depressa do que pensamos. 


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Menina Jesus

Mónica:

Não é que o nosso primo pôs no Facebook uma foto daquele Natal em que o Tio Armando resolveu mascarar-se de Pai Natal? Apareces lá tu chorosa com a barba que tinhas acabado de arrancar na mão, enquanto o resto da família está perdida de riso. E ano após ano, toda a família lembra-se daquele Natal e sei que ainda hoje, quando se fala nisso, por muito que disfarces, ficas toda envergonhada.
Por isso, e como sei que deves ter ficado toda abespinhada e já deves ter amaldiçoado o David (e não me digas que é mentira, quem não te conhecer que te compre!), resolvi contar-te uma história do teu primeiro Natal. Obviamente que não te lembras, e não há fotografias desse ano, mas foi um Natal que me ficou sempre na memória. Quem sabe se assim não te ajuda a eclipsar as memórias do Natal em que revelaste, não a careca, mas a falsa barba do tio?

Estávamos em 1984. Tinhas nascido há dois meses. A Mãe estava em casa de licença de parto, e teve nesse ano mais tempo para dedicar às tarefas natalícias. Ainda por cima, o Pai, todo babado por finalmente ter uma menina, também se oferecia para também para tratar dos teus cuidados sempre que era necessário. Ele mudou mais fraldas tuas do que minhas e do Ricardo juntas e até foi ele que te deu o teu primeiro banho. A Mãe até estava espantada com tanto desvelo raramente visto comigo ou com o Ricardo, mas sabia que aliando a alegria de ter finalmente uma filha e a experiência de já ter dois filhos, ele já dava bem conta do recado. E como era menos uma preocupação, também era bom para ela. Além do mais, eu e o Ricardo fomos sempre donos dos nossos narizes e não tivemos quaisquer ciumeiras.

Nesse Natal, eu tinha seis anos. Tinha acabado de entrar para a escola primária e sentia-me todo importante por já andar na escola e fazia por cumprir todas as responsabilidades, dos trabalhos de casa até à arrumação do cacifo. No início do mês de Dezembro, os professores tinham pedido para os alunos trazerem elementos para formar um presépio gigante no átrio da escola. Cada um trouxe uma figura ou algum material para fazer o presépio e ficou uma coisa digna de se ver. Com umas caixas de cartão, tinham feito um monte do meu tamanho coberto de musgo, entrecortado por um papel de prata a fazer de rio onde puseram patos. A encosta estava polvilhada de pastores, ovelhas e até umas casinhas. E lá no alto, a gruta com uma representação muito sui generis da Natividade, pois tinham trazido dois São Josés e os professores devem ter decidido que não valia a pena a chatice de deixar um de fora, por isso lá estavam os Josés de um lado, a Maria do outro, e o Menino Jesus ao meio. Eu estava muito orgulhoso de ter sido eu a trazer o Menino, que fazia parte do presépio que todos os anos a Mãe armava debaixo da árvore lá em casa.
Como era hábito, no último dia de escola houve uma festa, com cada turma a actuar com a respectiva cantilena. Depois seguiu-se a sempre desejada hora de encher o bandulho com todas as guloseimas que cada um trouxera. Estava eu alegremente com uma fatia de torta Dan Cake na mão quando verifiquei, para meu choque, que o Menino Jesus não estava no presépio. Alguém o tinha roubado! Dada a situação, fiz aquilo que um miúdo de seis anos, inteligente e responsável como eu, era suposto fazer: desatei a chorar que nem um desalmado. Quem fora o malvado que tivera a ousadia de roubar o Jesus do presépio? Foi então que a festa acabou em tragédia, com a maioria dos miúdos também a chorar: alguns em solidariedade para comigo, outros a fim de clamar inocência do furto. Desnorteados com a situação, os professores não tiveram o remédio do que deixar tudo em águas de bacalhau, dar a festa por encerrada e tentar consolar a todos.

Porém, uns dias depois ainda estava triste pelo sucedido e nem o facto de os pais dizerem que iam comprar outro Menino Jesus para o nosso presépio, me deixava mais animado. Mas um dia, eu e o Ricardo estávamos a ver televisão, provavelmente o Natal dos Hospitais, e a Mãe veio-se juntar a nós na sala contigo ao colo. Foi então que o nosso irmão, já na altura sempre atento a tudo como só ele, chega-se ao pé de mim e diz-me:
- A Mónica pode ser o Menino Jesus.
- O quê?
- O Pai é José como o José, a mãe tem Maria no nome como a Maria e a Mónica é um bebé como o Menino Jesus.
- Mas a Mónica é uma menina, não um menino.
- Não faz mal. Faz de conta. 
Pensei um pouco no que o Ricardo disse e cheguei à conclusão que se não havia mal nenhum em ter um presépio com dois São Josés, também não deveria fazer assim tão mal em haver uma menina a fazer de Jesus. Mais tarde, quando chegou a casa, o Pai veio ter comigo e disse:
- Olha, Nelson, comprei outro menino Jesus para o presépio. Não quero é que fiques triste no Natal.
Ao que respondi:
- Não estou triste, Pai. Nós já temos uma Menina Jesus. - e apontei para ti, que dormias pacificamente na alcofa.
- Tens razão.

Quando chegou a noite da Consoada, eu e o Ricardo estávamos junto à árvore a admirar com uma quase devoção as luzinhas coloridas e intermitentes, pois até esse ano só enfeitávamos a árvore com fitas, bolas e pedaços de algodão, daí que ter pela primeira vez uma árvore de Natal com luzes a piscar parecia algo para além de fantástico. Foi então que me lembrei de lhe perguntar:
- Se a Mónica é o Jesus, a Mãe é a Maria e o Pai é o José, nós somos o quê?
- Somos os pastorinhos que viemos dar os parabéns por ela ter nascido.
Mais uma vez, achei graça à ideia do Ricardo. Na altura, só abríamos as prendas na manhã do dia 25, tu depois é que implantaste a tradição de abrir à noite quando, três Natais depois, não havia quem te arrancasse  de perto das prendas debaixo da árvore até à meia-noite. Mas até irmos deitar passámos o resto da noite de 24 junto da tua alcova, desempenhando o papel de pastorinhos a adorar o Menino, ou melhor, a Menina Jesus. Desde então, nunca mais dei mais importância aos bonecos do presépio, pois sentia que nós formávamos um presépio de carne e osso.

Espero que tenhas gostado desta história, creio que ninguém ainda tinha-te contado isto. Estou muito ansioso para te rever e a Ju está louca por finalmente conhecer-te a ti, ao Pai e ao Ricardo. (É pena que nunca possa vir a conhecer a Mãe...) Aqui há neve com fartura há que tempos, e embora seja bonito de ver, tenho saudades do sol de Inverno português. Que até lá tudo te corra pelo melhor!

Feliz Natal,

Nelson 

P.S.: Quando desmontaram o presépio da escola, acharam o Menino Jesus desaparecido. Havia uma parte descolada no cartão da zona da Natividade e o Menino tinha rebolado  lá para dentro, sabe-se lá como. No Natal, ele há cada coisa mais inacreditável!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cá vou vivendo

Hoje, que é Dia dos Finados, é que me deu para olhar para trás, pensando nestes meus dois anos sem ti. Por um lado, tanta coisa mudou que às vezes que a tua presença neste mundo foi uma realidade paralela. Por outro lado, ainda tenho dias em que nem consigo crer que já não estás aqui a meu lado. A falta que me fazes, Celeste Maria. Tantos anos com a vida correr certinha, apesar de uns ou outros percalços, como um calmo leito de rio e de repente, tu partiste e fiquei sem norte, sem saber que rumo tomar.
Acabei por continuar a trabalhar, não só porque só fazia sentido meter a reforma antecipada se tu estivesses cá para gozarmos o tempo que nos restasse juntos, com os filhos já a traçarem as suas vidas, mas também porque o trabalho lá nos seguros sempre me ajuda a distrair e a desanuviar a cabeça de tanto zunir de sofrimento. Tal como me ensinaram desde pequeno, por fora mostrava-me forte e estóico, mas em privado, sozinho entre as paredes do quarto que tantos anos partilhámos, tal como todo o resto, sentia-me tão vazio e triste. Segundo o Ricardo, há cinco estádios do luto: da negação à raiva, da negociação à depressão e por fim a aceitação. Mas eu cá acho que passei pelos cinco ao mesmo tempo.

Só que mesmo que a dor e a saudade nunca se apaguem com o tempo, continuamos vivos e a vida, mal ou bem, retoma o curso. E de repente, vi o Nelson a partir para a Noruega, não hesitando em aceitar a oferta de  trabalhar num laboratório em Oslo, e a Mónica a tornar-se hospedeira e saltitar entre o céu e a terra. E de repente, fiquei só com o Ricardo aqui por perto.
Por muito que uns pais se esforcem para gostar dos filhos por igual, creio que é natural que algumas preferências surjam. Eu sempre fui mais próximo do Nelson, porque que me revia mais nele de entre os três. E a Mónica foi sempre a minha pequenina e ela sabia mesmo como deixar-me derretido e embeiçado, foi sempre uma coisa irracional. Lá dizia sempre tu, "Ai, a menina do papá". 
Já o Ricardo foi sempre um mistério para mim, sempre muito quieto e fechado em si mesmo. Mesmo em pequeno, estava sempre quietinho, não fazia birras e parecia contentar-se de observar tudo com aqueles grandes olhos castanhos, semelhantes os teus. Agora percebo que ele saiu a ti, que eras também um mistério para os outros, que também observavas tudo e nada te escapava e nunca dizias mais do que era o essencial. Mas como eu fui dos poucos a quem tu abriste a alma e o coração, sem filtro nem reservas, era fácil para mim esquecer desse teu traço. 

Enquanto bastava olhar para a expressão do Nelson para adivinhar o que se passava com ele e a Mónica sempre foi de dizer o que pensava, o Ricardo parecia por vezes de um mundo à parte, embora se mantivesse atento em tudo a seu redor. 
Ainda assim, quando ele nos contou que gostava de rapazes, já eu sabia há algum tempo. Por mais que ele não fizesse por revelar, havia sinais que não davam para ignorar. Claro que eu fiquei alarmado e só depois de falar contigo, é que pude ter o discernimento para concluir que filho é filho, não mudava em nada o que eu sentia por ele. Qualquer esperança que ainda acalentei que fosse apenas uma fase ou uma confusão juvenil não durou diante das evidências. Mesmo assim, era e é um assunto que sempre me fez espécie. 
Fui criado num tempo em que se acreditava que ser gay era totalmente inaceitável, um pecado, quase um crime até. Que os homossexuais eram todos efeminados e devassos, apesar de durante muito tempo a grande maioria manter habilmente as experiências escondidas debaixo de fachadas de homens respeitáveis e pais de família. E que pai é que consegue imaginar um filho aos beijos e abraços com outro homem sem nenhum desconforto? Por isso é que nunca quis saber de nada da vida amorosa dele para além do que ele dizia e ficava satisfeito por ele preferir falar contigo sobre isso. Limitei-me a aceitar, o que já não é pouco, e agora sei que isso já significou muito para o Ricardo.

Com o Nelson na terra dos vikings e a Mónica entre aeroportos e aviões, vi-me a procurar a maioria do apoio que necessitava no Ricardo e isso tem-nos aproximado mais do que nunca. Eu sabia que ele era psicólogo e que estava a trabalhar em escolas, mas não sabia que ele fez um mestrado sobre o que agora se chama bullying nas escolas. Tu decerto sabias, mas eu não fazia ideia que ele também tinha sido vítima de algumas maldades dos colegas de escola, que faziam troça dele só por ele ser diferente e não alinhar com as matilhas dos outros cachopos. E nem era por ele ser gay, nem sequer sabiam disso, era só por ele ser calado e reservado, e para esses fedelhos, isso já era motivo para ser esquisito e merecer ser gozado. Uma vez até o apanharam à saída da escola e enfiaram-no num caixote do lixo. Segundo o nosso filho, queriam fazê-lo chorar e ele com os nervos pôs-se a rir! Diz que foi remédio santo e não o chatearam mais. Fiquei tão admirado com a coragem dele, mas fiquei triste por nunca me ter apercebido do que ele estava a passar para o poder ajudar. Ele disse-me que entre o Nelson a ser alvo de inveja por causa das boas notas dele e umas raparigas a espalharem rumores maliciosos sobre a Mónica, eu já tinha ralação que chegue. Também descobri que ele pretende criar um grupo de apoio a jovens  que lidam com a sua homossexualidade e com todos os estigmas que daí advêm. Espero que ele consiga levar isso adiante, é uma pena haver tanta gente a sofrer por uma coisa que, vistas bem as coisas, não têm culpa nenhuma de serem assim e que não puderam escolher. Ou como diz o Ricardo: "Se fosse escolha, escolhia-se não ser homossexual e ser como a norma, quanto mais não seja porque era menos chatice."

Agora que finalmente vou conhecendo bem o nosso filho do meio, tenho aberto a minha mente a muita coisa. Ainda assim, como deves imaginar, quando fui para o Algarve com o Ricardo e o namorado dele no Verão passado, ainda foram bastantes os momentos embaraçosos. Nos primeiros dias, à hora das refeições, ou não falávamos à mesa, ou íamos fazendo conversa de circunstância. Até que num jantar, o Filipe, o namorado dele, estava a abrir uma garrafa de vinho e a rolha não havia meio de sair. Quando finalmente a rolha soltou, deixou tombar a garrafa e uma boa quantidade de vinho escorreu para cima do frango assado que tínhamos acabado de trazer. Sai-se então o Filipe com esta:
- Se calhar, em vivo o frango nunca tinha apanhado uma bebedeira. 
Era uma piada um bocadinho seca, mas sabe-se lá como, desatei-me a rir. E até ao final da estadia, não houve mais silêncios embaraçosos. Pela primeira vez em longos meses, sentia-me completamente em família. E nos grandes olhos castanhos do nosso filho, podia ver a sua felicidade em ter o companheiro e o pai lado-a-lado. Parecia que pela primeira vez, o seu silêncio dizia mais que as palavras. Tal como o teu sempre me disse tanto.
Fazes-me tanta falta, Celeste. Mas cá vou vivendo e é tudo o que eu posso fazer.