domingo, 15 de abril de 2012

Pela sombra do pecado

Ambos sabíamos que era inútil resistir, que há vontades para além da razão e da força de vontade. Por isso marcámos uma noite para libertar os fantasmas e deixar os cabos dormir. Um apartamento vazio como um campo neutro ou uma folha em branco. Como se não houvessem páginas escritas anteriormente.

Cruzámos os olhares na rua, fingimos que nunca nos tínhamos encontrado. Umas palavras trocadas, uns sorrisos  roubados, um copo de vinho tinto. E é tão fácil reescrever uma história, sermos só um homem e uma mulher num jogo de sedução. No final, um envelope com uma chave e uma morada.

Já sabia que eras tu, ouvi o eco dos teus passos a subir os degraus. Avançaste timidamente e sorriste assim que me viste. Eu hesitei em aproximar-me porque temia o que podia acontecer se eu soltasse as rédeas e te comunicasse tudo aquilo que o meu desejo há muito tempo grita em mim. Mas tu também desejavas o mesmo. Com o mesmo sorriso bondoso de sempre, passaste uma mão pelo meu cabelo e deste-me a entender que eu podia avançar. Quando eu finalmente te beijei e as camadas de roupa iam caindo pelo chão, já tínhamos caído em tentação e não havia como nos livrarmos deste mal.

Num apartamento vazio, a acústica amplificava as nossas ânsias, ecoando cada gemido, enquanto éramos apenas um homem e uma mulher enredados nesta estranha teia de paixão, banhados pela sombra do pecado.
Nessa noite fomos tudo o que queríamos ser. Tu ser apenas a Rita, e eu apenas o Sérgio. E fazer tudo o que há muito queríamos fazer.

Mas depois da noite, veio agora a manhã. E a luz do dia ilumina agora a nossa vergonha. Com o pudor indesculpável que veio após tantas horas de pecado, não nos tocamos, mal nos olhamos, vestimo-nos de costas um para o outro. Prendes o cabelo num rabo-de-cavalo, ajeitas a roda da saia, apertas o casaco de malha e dizes, quase num sussurro:
- É melhor tão cedo não voltar à paróquia, padre Sérgio.
- Estás bem?
- Estou. Não se preocupe. Foi bonito. Adeus, padre Sérgio.
Já caminhas rumo à porta, quando digo:
- Adeus, Rita.

 Fecho a porta à chave, com a alma pesada com uma pedra, como se tudo ficasse encerrado naquelas paredes. Podia ser este o pecado perfeito, se não soubesse que Deus foi testemunha e que tenho muito para expiar. Estarei envergonhado do que fiz ou atacado pela culpa de um condenado? Não sei ainda o que vou fazer a seguir, só sei que se caí em desgraça, ainda bem que foi por causa do sorriso da Rita.



  

terça-feira, 10 de abril de 2012

O que os meus olhos viram

Claro que vi no outro dia a reportagem da SIC. Nem acredito que já passaram onze anos. Por um lado, ainda tenho pesadelos com isso. Mas também não é para menos, nunca tive tanto medo na vida. Tínhamos voltado de Fátima, já a poucos quilómetros de casa. Estávamos a cantar e a rezar no autocarro, até tínhamos feito algumas orações pelas vítimas da queda da Ponte de Entre-Os-Rios, que tinha sido umas semanas antes, longe de imaginarmos que estávamos prestes a passar por também por uma tragédia. De repente, o autocarro desgoverna-se, cai numa ribanceira, sou cuspida para fora e catorze vidas são ceifadas no momento seguinte, cada uma de gente que eu bem conhecia. Mas por outro lado, já foi há tanto tempo que às vezes até parece que  só aconteceu nos meus pesadelos.
Na reportagem, revi o Domingos e a Lucília. Coitado do Domingos, ele que tinha um grande amor pela mulher, nunca mais foi o mesmo desde que ela morreu nessa noite, nem mesmo tendo casado de novo. Já a Lucília continua na mesma, sempre com aquele ar triste e sofrido, o que não é de admirar pelo que ela já passou na vida. Mas ela nem se apercebe como é rija e forte. Mesmo depois do desastre e da morte do marido três anos depois, por lá anda. A Lucília é cá das minhas. Enquanto tivermos força nas pernas, cá havemos de andar até não podermos mais.
Mas também disse ela com razão que o desastre atingiu toda a aldeia. Antes, era costume ouvir-se risos e conversas folgazonas quando se caminhava pela aldeia. Depois, mal se ouvia alguma coisa, ficou tudo mais deserto e triste na aldeia. Por essas e por outras, quando o meu marido morreu há três anos, preferi ir viver com a minha irmã e o meu cunhado aqui para esta aldeia.
Eles os dois nem sempre são fáceis de aturar, mas ele há feitios piores, e sempre são companhia. Eu ainda dava em maluca que se passasse o resto dos meus dias sozinha sem ninguém com que falar. Arranjaram-me um canto lá na casa deles para fazer de meu quarto, não é grande coisa mas para mim chega bem. Para compensar, ajudo-os na horta, coso as roupas porque a minha irmã anda cada vez pior da vista e aos domingos, sou eu que cozinho o almoço e o jantar.
Até já os convenci a ir em excursões comigo. A princípio, eles ficaram muito espantados por eu continuar a querer viajar, por causa do que passei com o desastre e pelas minhas amigas que faleceram. Respondi-lhes que se Deus não quis que fosse essa a minha hora, não ia fazer de conta que sim e eu tenho mais é de continuar a viver, bem basta quando essa hora chegar. É como o que a Lucília disse na reportagem: "O que levo de melhor deste mundo foi o que os meus próprios olhos viram."
E eles agora vêm comigo e também gostam e até dizem que enquanto tiverem um mínimo de saúde e dinheiro, também vão querer ir nos passeios. E sempre que vamos a Fátima, por entre todas as almas por quem rezamos, guardo sempre uma oração para a mulher do Domingos e todas as outras a quem Deus chamou para si nessa noite. Se Deus quiser, quando for a minha hora de ir, hei de me encontrar com todas elas.

domingo, 8 de abril de 2012

Dona Do Seu Destino

Nelson:

O funeral da minha avó materna foi como deveria ter sido. Uma cerimônia sentida e simples, respeitando a memória de uma senhora que viveu oitenta e quatro anos. Ela foi a única avó que conheci porque a outra já tinha falecido antes de eu nascer. Recordo os lanchinhos que ela me fazia e de assistir novela com ela, as duas embrulhadas no cobertor. Sabia que foi ela que teve a idéia do meu nome?
Fiquei meio espantada quando você me contou que em Portugal, vocês têm uma impressão ruim da Maitê Proença desde que ela fez um vídeo em que fazia troça dos portugueses. Eu não acompanhei a carreira dela, até porque desde criança que nunca mais segui nenhuma novela, mas era uma atriz que sempre me ficou na memória, talvez porque o meu nome vem de um personagem dela, da novela "A Guerra dos Sexos". Assim que soube que ia ter uma filha, a minha mãe estava a fim de me dar um nome anglo-saxônico como Kathleen, Ellen ou Jennifer. Mas a minha avó gostou tanto do personagem da Maitê nessa novela, que sugeriu o nome Juliana e a minha mãe acabou por aceder, nem sei bem como. E ficou Kathleen para meu segundo nome.

Eu estava um pouco apreensivo por ter de encontrar de novo a minha mãe, pela primeira vez em cinco anos, mas felizmente correu bem, não houve nenhuma cena. Percebi que ela estava mesmo abalada com a morte da  sua mãe, sem energia sequer para se fazer de vítima, como era seu costume. O máximo que fez foi dizer dois ou três impropérios do cara de quem ela agora se está divorciando (se não me engano, é o seu terceiro divórcio) e nem disse nada sobre a Debbie. Perguntou só se meu pai estava bem, como é que eu aguentava o frio da Noruega e que tal vão as coisas com o português. Quando lhe mostrei uma foto sua, ela comentou  "pelo menos é bonito, e nem parece português". Ela deve ter te imaginado você de bigode e barrete, que nem os portugueses das piadas.

Ainda assim, a maior parte do tempo, nem sequer nos falámos, limitei a apoiá-la em silêncio durante o velório e o funeral. E dei por mim a sentir que já não guardava ressentimento por ela ter deixado ao meu pai e a mim, quando eu tinha sete anos. Durante muito tempo guardei muito rancor dela por causa disso. Que mãe é que deixa assim de repente uma filha para trás e parte para São Paulo? Por isso, foi muito difícil crescer, passar de menina a mulher, com uma mãe ausente. O meu pai fez o melhor que pôde, estando sempre lá quando eu precisava, mas sabia que algo estava faltando. E no fundo, aquilo que mais me magoava era sentir que se ela se tinha ido embora, é porque ela não gostava de mim, porque eu tinha feito algo errado. Demorei muito tempo a perceber que a culpa não era minha e ainda hoje sinto bem as marcas de toda o rancor e culpa que eu guardei desde menina. Por exemplo, tornei-me muito cuidadosa e arrumada em demasia, com medo que se eu fizesse algo errado, o meu pai também me deixaria, mesmo quando ele me assegurava que não era por eu fazer besteira que ele deixaria de gostar de mim.

Isso também afetou as minhas relações com as amigas e com os rapazes. Quando eu e o meu pai nos mudámos para a Alemanha, eu estava muito ansiosa e pratiquei rigorosamente o meu alemão, para que ninguém me visse como uma estranha forasteira. Queria tanto agradar aos meus colegas e até deixei que alguns deles se aproveitassem disso. Por sorte, acabei  por distinguir rapidamente os amigos de verdade dos amigos da onça. Também morria de medo de ter um relacionamento sério com alguém, e eu era sempre simpática mas distante se um rapaz se interessava. Receava ser obsessiva se namorasse com alguém, sempre pensando que me iriam deixar. Foi preciso um curto mas marcante namoro, durante umas férias em Búzios, por volta dos meus vinte anos, para eu começar a ver as coisas de outra forma. Percebi a força do desejo e que o amor pode ser calmo e sem fazer sofrer. Por vezes, até acho que não fosse esse romance, eu não teria sabido apreciar tão bem estar contigo e deixar você entrar na minha vida.

Olhando para atrás, quase que consigo compreender a minha mãe. Ela foi se convencendo que a vida não teria mais nenhum caminho para ela senão a de ser esposa e mãe, mesmo que não fosse o caminho que ela queria seguir, até porque naquele tempo uma mulher como ela não havia muitas opções. Assim que sentiu outro caminho, quando conheceu outro homem que lhe prometia algo mais em São Paulo, sentiu que tinha de tentar, mesmo que isso significava deixar para trás um marido e uma filha. Anos mais tarde, ela até me confessou que sentia que estava cometendo uma loucura, porque até não tinha nada para se queixar do meu pai, que era um homem bom e honesto e respeitado funcionário federal no Senado em Brasília, e uma filha bem-comportada e fácil trato como eu. "Mas eu tinha que tentar, mesmo que falhasse." Claro que seria melhor que ela o tivesse feito de outra forma, quase sem dizer nada. Também gostaria que ela não tivesse esse jeito vitimista, como se ela não tivesse sido dona do seu destino, ou instável, se casando e descasando.

Mas esse é o jeito dela, e não vale a pena desejar uma mãe diferente ou um passado diferente. Foi preciso desistir dessa idéia, para abraçar um novo futuro. Que de momento passa por chamar casa à fria mas bela cidade de Oslo e namorar um certo português, meio desajeitado e irresistível...

Com muita saudade tua,

Ju

sábado, 31 de março de 2012

Talvez fosse só isso

Caminhava pelo túnel, sem outra esperança
senão a promessa de luz algures lá na frente.

Mas o breu pintava o ar, as mãos esfoladas eram guias
tacteando as paredes rasgadas.

Pés arrastados sem saber onde viria a próxima armadilha
que o deitaria ao chão.

E pensava porque continuava ali, perdido no silêncio cego agarrado à teimosia
da sede de esperança.

Já era tarde para voltar atrás e mesmo que não fosse, de pouco adiantaria.
Já era água que passara por debaixo de ponte.

Porém o terreno ficou mais plano, as paredes menos rugosas.
e o coração deixou o sobressalto para saborear aquele momento de vago sossego.

Ainda não sabia o que aguardava nos passos seguintes,
só sabia que o coração estava magoado,
mas tinha ainda vida a pulsar no sangue 
e talvez fosse só isso que precisava.

E continuou a avançar...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sim / Não / Vou Pensar

Mónica:

Para o meu sobrinho, a minha namorada é uma boneca de banda desenhada gorducha, baixinha e dentuça, de vestido vermelho e com um coelho azul atrelado. Há uns dias, ele andava de volta dos meus antigos livros da Turma da Mônica e apontou o dedo à dita cuja na capa, e disse:
- Esta é a tua namorada.

Já moro sozinho há seis anos, mas já parece uma eternidade. Quando entro no meu antigo quarto da casa dos meus pais é como se entrasse numa cápsula do tempo. A cama ainda tem o mesmo edredon azul-escuro. Os meus troféus do hóquei em patins orgulhosamente alinhados na estante sobre a secretária, juntamente com várias fotos emolduradas de mim ao longo de várias idades: eu com os vários equipamentos do hóquei, nas férias em Buarcos, com o traje académico, com o bibe escolar, segurando a vela da minha primeira comunhão, num banco de jardim ao lado da minha irmã Célia... O roupeiro continua com os mesmos autocolantes colados nas portas: os "Tou" do Bollycao, os fantasmas que brilham no escuro que saíam nas batatas fritas, logótipos de cervejas e até autocolantes das campanhas pela Associação de Estudantes. E quando se abre uma das portas, ainda resiste colado a fita-cola um poster da Selecção Nacional do Euro de 96.

Por sua vez no roupeiro, em vez de roupas, estão encaixotados muitas das minhas bugigangas antigas em práticas caixas transparentes empilháveis que eu comprei no IKEA para arrumar tudo. As minhas cadernetas de cromos, os meus livros de banda desenhada, algumas capas de cartolina das aulas de Educação Visual que no final do ano lectivo vinham carregadas de assinaturas e dedicatórias do resto da turma, as minhas cassetes e alguns CD mais antigos, cadernos com desenhos e escritos meus. Lembras-te daqueles dossiers com um gelado Perna De Pau a saltar para uma piscina? Tive dois desses que agora contêm os meus boletins de notas ao longo dos vários anos lectivos. No outro dia, descobri dentro de uma das capas de cartolina uma folha A5 onde eu escrevi: Andreia, queres namorar comigo? E três quadrados para cada uma das hipóteses de resposta: Sim / Não / Vou Pensar. A cruzinha estava no Vou Pensar, mas a reflexão da Andreia pendeu para o Não. (A parvalhona!) Por acaso, nem sei por onde anda agora a Andreia, não vejo desde o 6.º ano. Gosto de imaginar que continua loirinha e com ar de boneca Candy-Candy, mas algo me diz que se a visse de novo, ia ficar bem desiludido.

E como não podia deixar de ser, duas caixas estão cheias de brinquedos, vários brinquedos: bonecos da Playmobil e figuras de PVC sobreviventes a anos de brincadeiras e excessos, carrinhos miniatura, sacos de berlindes, um sem-fim de baralhos de cartas, uma caixa de dominós, um jogo do Sabichão com a famosa vareta pontiaguda e aguçada, um Jogo Do Ganso (não como aquele que dava na televisão, era um jogo de tabuleiro onde a temida casa da morte era ilustrada com um ganso atropelado e moribundo), a minha Sega MegaDrive e muito mais.

Quem ocupa o quarto agora é o Martim, quando vai para casa dos avós depois da creche. Muitas sestas já dormiu ele na minha cama. E de vez em quando pega nos meus bonecos de PVC e põe-se a inventar brincadeiras ou então faz deslizar os carrinhos pelo chão do quarto provocando despistes e derrapagens mais espectaculares que o Grande Prémio de São Marino em Imola. Quando vou a casa dos meus pais e está lá o Martim, ele pede-me sempre para lhe mostrar as minhas cadernetas de cromos e os meus livros. Por vezes mostro-lhe fotos antigas dos meus tempos de escola e até já passámos um sábado a jogar na MegaDrive. Com quatro anos, ele tem quase a mesma destreza que eu tinha com catorze anos. Às vezes parece que os putos de agora já nascem programados para mexerem logo em computadores e máquinas... Acho que é por isso que ele parece tão interessado nas minhas relíquias, para ele o meu quarto é autêntico museu histórico. Ele deve pensar que quando eu era criança o mundo devia andar a 10 à hora (e se calhar andava mesmo)!    

Dos meus livros de Banda Desenhada, ele gosta sobretudo dos da Turma da Mônica. Sobretudo quando eu começo a dramatizar os diálogos escritos nos balões. Ele adora quando eu falo como o Cebolinha e a minha irmã já se queixou que por causa disso, ele passou uma fase de andar a trocar os erres pelos eles e a insistir à viva força que o tratassem por "Maltim".
E esperto como todos os cachopos, ele já me ouviu a falar de ti. Nas minhas conversas com a Célia ou com os meus pais, já apanhou uma Mónica aqui, uma Mónica acolá. Resultado: vai de pegar numa capa de uma das revistas, apontar para a capa e declarar que a Mônica era a minha namorada.

- Minha namorada? Porquê? - repliquei.
- Porque a tua namorada chama-se Mónica.
- Para já esta é Mônica com chapelinho no O, a outra é Mónica com risquinho no O. E não é bem minha namorada.
- Mas tu não gostas dela?
- Gosto.
- Então porque não namoras com ela?

Que mais podia eu dizer? "Eu e a Mónica ainda não definimos bem se somos namorados ou não. Encontramo-nos várias vezes, gostamos de estar um com ou o outro, mas cada um vive a sua vida. Estamos a viver no presente, a aproveitar cada momento juntos, sem pensar no futuro." Mas optei por uma reposta mais simplista:
- Porque ela vai muitas vezes para longe trabalhar e para namorar é preciso estar sempre perto.
Não lhe ia falar ainda em relações de longa distância, e a resposta pareceu ser suficiente para ele.
- Além do mais, a Mónica não é como esta.
- É mais bonita?
- Muito mais. Sabes, eu gosto de pensar que esta Mônica cresceu e deixou de ser baixinha, ao crescer ficou mais delgadinha e deixou de ser gorducha e as dentolas caíram e passou a ter uns dentes bonitos. E tornou-se  uma menina muito bonita.
- Como a tua Mónica.
- Sim.  

Não há como os miúdos para simplificarem o que é complicado. Pode ter ficado convencido que tu e eu não namoramos a sério, mas para ele, tu és "a minha Mónica". E a conversa pôs-me a pensar como é que de repente passamos de uma fase em que ou gosta-se ou não se gosta, ou namora-se ou não se namora (Sim / Não / Vou Pensar) para as coisas tornarem-se tão indefinidas. Ainda bem que ainda falta muito tempo para o Martim perceber que as coisas não são assim tão simples. Mas quando ele crescer, ele também vai perceber que há sentimentos que não são para ser definidos, são para serem sentidos.

Como sempre, bons voos para ti.

O teu Salvador 

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Jogo dos Países

Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica, Luxemburgo...

Não te preocupes, não dei em maluco. Eu sei que pareço doido quando, sem querer, digo em voz alta nomes de países sem motivo aparente. Mas é apenas um jogo para exercitar a mente. Tento lembrar-me do maior número de países. Estranhamente, isso acalma-me bastante quando estou stressado ou nervoso, ou simplesmente quando não quero pensar naquilo que estou a pensar em determinado momento. Tu bem sabes que não é por pensar mais ou menos nos problemas que eles se resolvem. Quando eles têm resolução...

...Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé & Príncipe, Guiné Bissau, Guiné Equatorial... 

É muito raro conseguir-me lembrar de todos os países. Eles são tantos, não é verdade? 193 países pertencem à ONU. Nos Jogos Olímpicos, participam mais de duzentos.
Lembras-te quando havia duas Alemanhas, dois Vietnames, dois Iémens? Esses pares são agora um só, mas por cada país que se une, outros tantos partem-se em dois ou mais. Só do colapso da União Soviética e da Jugoslávia, surgiram uma data de novos países. Agora até existe um Sudão do Norte e um Sudão do Sul. E quem sabe se da próxima vez que virmos as notícias tenha entretanto surgido uma nova nação?

...Brasil, Argentina, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai...

A sério, a mim, este jogo costuma deixar-me mais calmo. Por vezes, sinto a cabeça a andar à roda, com os pensamentos todos emaranhados. Começo lentamente a enumerar países e, sabe-se lá como, é como as peças do puzzle se encaixassem. Não sei se isso resulta com outras pessoas, mas comigo resulta.

...Estados Unidos, Canadá, México, El Salvador, Guatemala, Honduras...

Por exemplo, sabes daquelas vezes em que tu te deitas e vem-te tudo à cabeça? Mas mesmo tudo. Coisas boas, coisas más, coisas sérias, coisas parvas, coisas engraçadas, coisas deprimentes...tudo isso numa sucessão vertiginosa que quando dás por ti, tens o cérebro feito em papa e já nem distingues as baboseiras dos pensamentos concretos.

...Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia...

Também faço este jogo quando dou comigo a pensar na Mariana. E quando penso nela, parece que nem aguento o peso que cai sobre o meu coração. Por isso, tento não pensar nela mais do que eu consigo aguentar. Até porque pensar nela não muda nada. Nem Deus pode mudar o passado. Por isso, penso em países...

...Irão, Iraque, Arábia Saudita, Qatar, Líbano, Jordânia...

O que é que uma pessoa há de fazer? A vida é mesmo assim, injusta como tudo. Onde há justiça no facto de uma criança de quatro anos, linda, saudável, maravilhosa, seja levada deste mundo por algo tão fulminante, quase estúpido? Onde há a justiça em toda a felicidade construída arduamente por uma família venha abaixo numa derrocada? Mas a vida é assim, o que se há de fazer?

...Cazaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguizistão, Turcomenistão, Afeganistão...

Creio que foi depois da morte da Mariana que eu comecei a fazer este jogo. Uma maneira de ocupar a mente. Tu por exemplo, dedicaste à jardinagem. Passavas horas a fio no quintal das traseiras, onde transformaste o baldio em belos canteiros de amores-perfeitos, sardinheiras, camélias...

...China, Japão, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura...

Porque depois de tudo, não há nada a fazer. E o tempo não muda nada, nem a dor, nem a saudade, mas a vida continua, continuamos a viver, um dia após o outro, dias bons, dias maus, dias péssimos, dias mais ou menos...

...África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe, Lesoto, Suazilândia, Tanzânia...

E a vida continuou, os dias passaram, os anos também, já quase tantos como aqueles que a Mariana viveu. E mesmo com a dor dilacerante, o coração pesado, as lágrimas esgotadas, continuámos a viver. Não há nada que a faça voltar a este mundo, por isso, sofrer mais, sofrer menos, pouco importa. Nós ainda estamos vivos, não sabemos quando vai chegar a nossa hora e entretanto há trabalhos para fazer, contas para pagar, sítios para ir...

...Austrália, Nova Zelândia, Timor-Leste, Papua-Nova Guiné, Fiji, Samoa...

Entretanto nasceu o Afonso. Não veio ocupar o lugar da irmã, veio ocupar o lugar que é dele, o lugar que seria sempre dele. Era isto que a minha Mãe dizia, ela que teve quatro filhos e cada um tinha o seu lugar no coração. Ela dizia sempre assim, e com a sua razão.
Sim, dou graças a Deus pelo Afonso, tal como dei e ainda dou pela Mariana. Pelos quatro anos em que a tivemos junto de nós, e pelos anos em que tivermos aqui o Afonso, sejam quantos forem. Porque apesar de tudo a vida é uma dádiva, viver uma bênção, seja por muito ou pouco tempo.

...Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Tailândia, Cambodja...

Gosto de imaginar que onde quer que a Mariana esteja, ela consegue ver todo o mundo, todos os países que eu enumero no meu jogo para aclarar a mente...Que ela viu montanhas, praias, desertos, florestas, cataratas e cidades, sobretudo daqueles países dos quais eu não sei nada senão o nome. Como quando ela arrastava o seu dedinho pelo mapa-mundo do meu atlas e dizia que andava a percorrer o mundo inteiro.

...Saint Kitts & Nevis, Santa Lucìa, São Vicente & Grenadinas, Antígua & Barbuda, Trinidad & Tobago...

Por isso e por tudo o mais, eu jogo este jogo de listar países. Não perco nem ganho. O importante é jogar, penso eu. Há alguns momentos em que parece que não me consigo lembrar de mais nenhum país e eis que de repente lembro-me de um país obscuro.

Tuvalu!

Gosto desses momentos. Lembram-me que tal como de um momento para o outro, as desgraças acontecem,  também surgem momentos felizes. A vida é mesmo assim. O que havemos nós de fazer, senão viver?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ao nível do solo

Ricardo

Nem acredito que já passaram três anos desde que tu me perguntaste: "Somos um casal?" ao que, para meu espanto, respondi que sim sem hesitar. Deixámos de fingir que éramos apenas dois amigos (que por acaso até se sentem mutuamente atraídos e dão uma esporádica queca) para passar a encarar que o que havia entre nós era algo bem mais sério. A Sara, minha amiga desde sempre, foi tua colega de curso e foi ela que nos apresentou. Ela ainda hoje nega que queria fazer um arranjinho entre nós, mas ela já me falava de ti desde os tempos do vosso curso, por isso ela não me convence que nunca lhe ocorreu armar-se em casamenteira.

Mas se era mesmo essa intenção, tenho que reconhecer que o timing dela foi o melhor possível. Havias de me detestar se me tivesses conhecido uns anos antes. Eu era um fútil do caraças: não só era uma fashion victim, como me deixava embeiçar por qualquer palminho de cara e de corpo. Por isso, andava a sempre a saltar de um relacionamento para outro, atrás de alguém cada vez mais bonito e pelintra que o anterior. Foi preciso ter andado à tareia com o mais pelintra deles todos para abrir os olhos. Dei comigo com uma auto-estima tão arrasada que achava que eu merecia este círculo de traições e que não era digno de algo melhor. A maca do hospital para onde fui parar foi melhor que um divã de psicólogo. Saí com a minha autoconfiança renovada, decidido a dar a volta por cima. Despachei logo o outro que ficou de nariz partido mas livre do fardo de um rosto perfeito.

Tal como o meu antigo eu não olharia duas vezes para ti. Não que sejas feio, longe disso, mas o teu ar geek chic não poderia atrair-me menos. Felizmente, quando te conheci, já conseguia apreciar outras qualidades que não um aspecto de fazer parar o trânsito. Por exemplo, descobri logo que eras um bom ouvinte. Era fácil falar contigo, mesmo de coisas que nunca tinha dito a ninguém. Parecias ouvir tudo atentamente, dos assuntos mais sérios às minhas maiores parvoíces. E ao contrário da maioria das pessoas que eu conheço, não fizeste nenhum juízo de valor, não denotei em ti nenhum olhar de reprovação ou condescendência. Poucos dias depois de nos conhecermos, já conhecias quase toda a minha vida amorosa, familiar ou profissional. E não me importava de partilhar coisas que sempre prezei em ter como apenas minhas. Isso já era um sinal de que eras alguém com quem eu queria partilhar uma vida.

Também vim a perceber que o teu charme estava sobretudo nessa tua combinação de inteligência, sensatez e compaixão. Nunca pensaria nessas qualidades como sensuais, mas resultou comigo. Agora acredito que a beleza interior pode ser bem mais sedutora que a exterior. Dei comigo a desejar-te e a querer seduzir-te. Cedeste, fazendo de desprendido e descomplexado, convencido que isto era uma comichão que tínhamos de coçar. Concordámos que era só a tusa a falar mais alto e nada mais. Mas havia bem mais...

Porém, foi difícil admitir. Eu achava que tu eras só uma peça da minha evolução, qual Pokemón, de ser superficial e atadinho para algo mais substancial. Tu ainda estavas apegado à memória desse austríaco do Erasmus e achavas que mais ninguém estaria minimamente à altura dele e do que viveste com ele. Em boa hora, recorreste ao bom-senso que te acompanha em quase tudo e deixaste-o lá no alto do pedestal e decidiste procurar alguém ao nível do solo. E felizmente decidiste que esse alguém era eu.
Por isso, quando perguntaste se éramos um casal e eu disse que sim, também deixei de metáforas. Percebi que valias a pena e decidi que ia dar tudo para te merecer. Espero que tenho sido bem-sucedido.

Quanto a mim, já não consigo imaginar a amar ou a desejar mais ninguém. E já me sinto parte da tua família que soube bem acolher-me. Eu sou filho único e nunca me importei com isso, mas agora quem me dera ter tido uma irmã mais nova como a Mónica. Bem me dizias tu que no dia em que eu a conhecesse, iríamos ficar loucos um pelo outro. Até fazes-te de enciumado e dizes-lhe por vezes: "Só queres é o Filipe, eu é que sou teu irmão!". Também simpatizei logo com o Nelson, até com o teu pai. Sei que para ele foi um bocado mais difícil de se adaptar à ideia de tu teres um namorado. Coitado, estava tão embaraçado quando foi connosco para o Algarve, e eu também. Ainda bem que tudo correu pelo melhor.
Também tenho tanta pena de mal ter conhecido a tua mãe com um mínimo de saúde, porque poucos meses depois de a teres-me apresentado, começou a agonia da doença que a levou tão depressa e tão cedo deste mundo. Mas deu para perceber que tinhas saído a ela, que tu eras um verdadeiro reflexo da pessoa admirável que ela era e o quanto te custou vê-la a lutar ingloriamente contra a doença. Por isso, estive sempre ao teu lado, a apoiar-te, com uma força que eu achava que não tinha. Queria ser aquele com quem podias contar. E é o que continuo a fazer. Mas sei que tudo o que eu fizer não se compara ao que tu me deste, ao que fizeste por mim ao longo de mais de três anos.

Bem sei que algumas coisas não precisam de serem ditas para terem significado. Mas eu gosto de dizê-las. Obrigado por tudo. Sobretudo por me fazeres querer partilhar tudo.

Com amor,

Filipe