segunda-feira, 4 de junho de 2012

Principiante Amoroso

Caro maninho:

Acabo de regressar de quatro dias passados em Amesterdão. Fiquei em casa da família de um colega holandês lá do laboratório, o Arjen. Connosco também veio um casal aqui das Noruegas, a Trine, também nossa colega, e o noivo dela, o Espen. Lá na Noruega, interessam-se sobretudo pelos desportos de Inverno, mas o Espen é doido por futebol e costuma tratar o Arjen por Robben, como o jogador do Bayern de Munique. Já a um amigo nosso que é checo, careca e chama-se Jan, ele chama-lhe Koller. Por este andar, ainda se põe a chamar-me Oliveira...
A Ju não pôde tirar os dias e por isso ficou em Oslo. Mas se puder, quero um dia voltar à Holanda. Já tinha imensa vontade de conhecer o país pelo que tu falavas dele, mas agora que já estive em Amesterdão, gostava de conhecer outras cidades como Roterdão, Eindhoven e Haia, onde tu fizeste o Erasmus. Ainda por cima se, segundo dizes, essas cidades são bem diferentes de Amesterdão. 
Tu já tinhas contado e recontado tanta coisa sobre a cidade, já vi tantas fotografias e imagens na televisão, mas nada se compara a caminhar por aquelas ruas calcetadas, atravessar as pontes e ver os canais. Sempre achei tão redutor como uma cidade cheia de história, cultura e dinamismo seja famosa sobretudo pelas coffeeshops e as meninas das montras do Red Light District, quando até no dito cujo há muito mais que isso. Como uma padaria onde tomei o melhor pequeno almoço da minha vida, um belo de um café au lait com um croissant com geleia de limão que só te digo. As minhas papilas gustativas tiveram um orgasmo múltiplo! 
Claro que aproveitámos para ir ao máximo número de sítios famosos, como os Museus Rijks, Van Gogh e Madame Tussaud's, a casa da Anne Frank e, por exigência do Espen, o estádio do Ajax. Provámos também os arenques, mas eu e os noruegueses ainda preferimos de longe o bacalhau. A única chatice foi que na última noite a Trine e o Espen emborcaram cerveja como se não houve amanhã e andaram a falar ao Gregório durante o resto da noite. A relação dos nórdicos com a bebida é mesmo assim, quando bebem é para a desgraça, são tão regrados que quando pisam o risco, pisam a valer...Mas enfim, adorei esta oportunidade de finalmente conhecer Amesterdão e foi óptimo para mim desanuviar, já que nestas últimas semanas andava numa rotina entediante.

Tenho andado a fazer coisas bastantes repetitivas no laboratório e claro que isso cansa. Felizmente estamos quase a terminar a pesquisa. O pior tem sido, em casa com a Ju. Não, não nos zangámos. Simplesmente estamos numa fase mais apática na nossa relação. Primeiro foi a euforia de nos conhecermos e começarmos a namorar, depois a de ela se mudar aqui para o meu apartamento e agora andamos há algum tempo assim. Os dias andam uns atrás dos outros, levantamo-nos, comemos, fazemos a lida da casa, andamos em modo de piloto automático. Sabes muito bem que eu não tenho nada contra uma rotina, que gosto de seguir coisas à risca e de saber com o que contar e não gosto de lidar com imprevistos. Talvez se estivesse sozinho isso não me causasse tanto transtorno. Mas eu tenho aquela que eu amo aqui comigo e não consigo deixar de me sentir chateado por a nossa relação estar actualmente num tédio onde até a nossa intimidade tornou-se previsível. E sem me dizer nada, consigo sentir que a Juliana sente o mesmo que eu.
Talvez estejamos a sentir estas apreensões todas pois esta é a primeira relação séria para ambos. Não somos ingénuos para achar que ia ser tudo azul e cor-de-rosa quando encontrássemos o amor e sabemos perfeitamente que todas as suas relações têm volta e meia as suas fases de tédio, inquietude, dúvida e até mesmo de irritação mútua. Mas a verdade é que andamos neste limbo, entre aborrecidos e apreensivos, como se ainda fossemos adolescentes a desbravar primeiros caminhos nos meandros do coração.  
Se ao menos tivéssemos tido algum ensaio no passado, por mais pequeno que fosse, para sentirmos que tínhamos passado por algo minimamente semelhante. Só que ela, por causa do trauma da mãe e da sua timidez natural, nunca permitiu entregar-se verdadeiramente a alguém antes de mim, à parte um romance de férias que ela teve há uns anos mas que foi breve demais para ela ficar devidamente instruída. E eu passei demasiado tempo a ser um tótó que não percebia as mensagens subliminares de quem estaria eventualmente interessada em mim, como algumas amigas da Mónica, ou a andar obcecado com a Mafalda que ao trocar o código Morse pela boca no trombone, fez-me o obséquio de me inaugurar. Gastei imenso tempo a imaginar que vivia com a Mafalda um amor de perdição sem perceber que ela era um pombinha da Catrina: era de quem a apanhar, ou de quem ela apanhasse, até bater as asinhas de novo. Depois, com a minha própria metamorfose de nerd para chic magnet, também eu fui pousando e voando até aterrar em Oslo e deixar-me conquistar por uma brasileira muito tímida mas tão linda que só ela. 
Com isto tudo dei a imaginar como terá sido com os nossos pais ao longo dos anos. Sempre mantiveram uma frente unida diante de nós, mas também por vezes não era difícil ver que também passavam por períodos bastante difíceis, onde pouco bastava para que um deles ficasse incomodado com o outro. Não que o amor deles alguma vez estivesse em causa, mas entre problemas de trabalho, três filhos para cuidar, contas para pagar e mais outras chatices não menos ibidem, houve sem dúvida alturas em que a relação entre ambos ficou descurada. Decerto que tu também já passaste o mesmo com o Filipe e que tiveste de recorrer a todos os teus conhecimentos de psicologia (ou então se calhar tiveste que deitar esses conhecimentos às urtigas!) para ultrapassar essas fases. 

Bem, mas não te vou maçar mais com estas minhas interrogações de principiante amoroso. Como em tudo o resto, é viver e aprender. Aliás, a minha profissão não tem tanto de tentativas, erros e acertos? Como sempre um abraço ao nosso pai e um beijinho à Mónica. 

Nelson

P.S.: Quando cheguei a casa, encontrei a Ju como sempre a ler, os óculos postos, o cabelo apanhado ao alto, os pés apoiados no tamborete do sofá, como tantas vezes nos últimos meses. Não se foi das saudades, dos meus olhos terem lavado a vista com a viagem ou destes devaneios a que a minha mente resolveu entregar-se, mas só me apetecia beijá-la. E quando ela olhou para mim e disse "Senti sua falta", percebi que até numa fase menos boa, mesmo com tédio e desencanto, é com ela que eu quero estar e isso é que importa.

  

     

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um rasto na pele

Tu só podes ser uma feiticeira, Lena. De outro modo, como explicar todo o poder que ainda tens sobre mim, que vai além de qualquer coisa racional? Como soubeste desvendar os meus pensamentos mais secretos, que eu escondia até de mim própria? Como andas sempre desaparecida um tanto tempo para apareceres justamente quando eu estou sem ninguém e promoveres mais um reencontro?
E depois de cada fugaz reencontro, deixas-me de novo mais material na minha mente para deixar o meu corpo em brasa quando penso em ti e em tudo o que fizemos, e no que ainda há vontade de fazer algures no futuro.

Apesar de tudo, eu prefiro os homens e não me considero lésbica, mas desde bastante cedo que percebi que não era indiferente aos encantos de alguns exemplares do meu sexo. E que realizar gestos mais sensuais com outra mulher era um desejo que guardava no mais íntimo do meu ser, mas antes de ti era um risco que eu nunca ousaria pisar.
Contigo passa-se algo semelhante. Tu aliás já foste casada e não te fazes rogada em falar de todos aqueles que conquistas. Somos ambas mulheres de beleza vulgar, não fazemos parar o trânsito, mas ao contrário de mim, sempre soubeste jogar com os dotes que te deram a teu favor e sempre tiveste os homens que quiseste. E uma ou outra mulher também, sei que não fui a única. Não gosto do teu jeito descarado e desbocado, por vezes a roçar o ordinário, mas já percebi que não é defeito, é feitio. E além disso, isso faz-me admirar-te ainda mais. Nunca conheci ninguém que tivesse um lado tão extremamente devasso e outro tão extremamente sensato. Fazes ideia como é tão difícil conseguir um equilíbrio perfeito como o que tu tens entre essas tuas duas facetas? Ou como a maioria das pessoas que o tenta alcançar acaba por derrubar um dos pratos da balança?

Mas mais importante de que tudo, tens sido uma boa amiga ao longo do ror de anos em que nos conhecemos. Tens tido sempre as palavras e os gestos para me animar, reconfortar e aconselhar e a paciência para me ouvir, e consigo perceber que acima de tudo, também me consideras uma grande amiga. Daí que seja tão fácil regressar ao modo de grandes amigas, antes e depois de darmos largas aos nossos desejos mais inconfessáveis nos braços uma da outra.
Talvez seja a vertigem da transgressão e do secretismo, talvez seja a frequência esporádica que impede o fastio, talvez seja o desejo a falar mais alto que tudo. Mas sempre que acontece, o êxtase é sempre o mesmo, pelo menos para mim. Como da primeira vez em que nos tocámos como eu secretamente desejava tocar e ser tocada por outra mulher. E, feiticeira como és, deixas-me sempre um rasto na pele e na alma que me faz ansiar, por muito que não queira, pela próxima vez e que me faz pensar em ti em sonhos que sonho quando a solidão aperta e o desejo invade-me.

Já há muito que deixei de racionalizar e de negar o que sinto. Isto entre nós, seja lá o que for, atracção, química, tusa, existe, é bem real e não há como negar. Por isso, quando me ligas e pedes para eu ir ter contigo, já nem me dou ao trabalho de inventar desculpas para dizer que não. Tu já sabes que eu também quero. Assim como sei que, tal como eu, e mesmo com toda essa tua libido bizarra, sonhas com o amor e a felicidade. E se tudo o mais falhar, sempre podes chamar por mim. Já sabes que eu não consigo quebrar o teu feitiço.  


domingo, 6 de maio de 2012

Insanidade temporária

Como pode ela ignorar o olhar cortante do homem da mesa à frente? Desde que entrara naquele restaurante que notara que ele a observava. E ela não consegue disfarçar a inquietude que ele lhe provoca. Nem conseguiu apreciar o jantar, logo hoje que tinha uma há muito ansiada noite livre só para ela, com a filha em casa da avó.
Ela sabia bem que não era um simples olhar de interesse ou de atracção. Já quase que tinha esquecido como era um olhar daqueles. Um olhar de um homem que deseja uma mulher. Um olhar que a trespassava, que parecia despi-la, que inspirava todo o tipo de luxúria e devassidão. 
Como seria possível alguém voltar a olhá-la assim, agora que ela já estava bem na casa dos trinta, depois de ter tido uma filha e de há muito as suas belas e esguias linhas da sua juventude não serem mais de que uma ténue memória?

Ela baixou o olhar para não o ter de encarar. Remexeu o açúcar do café o mais lentamente que pôde, bebeu-o de um só trago. Mas ao baixar de novo o olhar, deteve-se nas mãos dele, solenemente pousadas e sobrepostas na mesa. Eram mãos grandes, calejadas, dedos longos e grossos. Deu por si a imaginar aquelas mãos a agarrarem-na. Acariciando-a suavemente num instante, apalpando-a possessivamente noutro. Intrometendo-se por dentro da sua roupa até encontrarem a sua pele. A rasgarem-lhe as meias num acesso de impaciência.

Um pires com a conta aterrou na mesa, fazendo-a regressar à lucidez. Reparou com alívio que ele já se tinha ido embora. Mas que insanidade temporária fora aquela que a fez desabar pelo olhar de um completo estranho e pensar em coisas inadmissíveis para uma mulher responsável e racional como ela? O ar fresco da rua ao sair ajuda-a a arrefecer os ânimos e tranquilizar o espírito.

Mas eis que ela o encontra. E sem dizer nada, ele leva-a para um recanto bem escondido e encosta-a à parede. Em menos que nada, as mãos deles fazem todas as coisas que ela tinha imaginado minutos antes. Ela sente-se impotente diante do poder dele, das mãos que a invadem, dos beijos que a cobrem e não pode fazer mais nada do que deixar-se levar naquela loucura. Um arrepio atinge-a assim que ouve as meias dela rasgarem-se. Ela também já sente nas suas mãos o membro dele, enorme e retesado, pronto a invadi-la. Enquanto beija-lhe o pescoço, ele avança para tal...

Who do you think you are, running around leaving scars...

Com o impacto de um estrondo, o toque do telemóvel interrompe o enlevo. 
- Estou sim, mãe?
- Maria Helena, desculpa lá estar a interromper o jantar, mas a Leonor queria falar contigo antes de ir deitar.
- Não faz mal. Olá, querida.
- Olá, mamã.
- Portaste-te bem em casa da avó?
- Portei-me. E agora vou-me deitar.
- Está bem. Dorme bem, querida. Boa noite e um beijinho.
Ele aproxima-se e diz:
- Boa noite, Leonor.
- Boa noite, papá. 

Quando a chamada termina, ela volta-se para o marido.
- E agora, continuamos com o nosso plano para esta noite?
- Se ainda quiseres...
- Já há muito que não me olhavas para mim assim.
- Isso é o que tu julgas. Não costumas é reparar.
Desta vez, é ela que o encosta à parede. 
- Muito bem, vamos continuar...  


terça-feira, 24 de abril de 2012

Vermelho-Cravo

Caro Sr. José:

Antes do mais, muitos parabéns. Que giro fazer anos a 25 de Abril. Nem imagino como terá ter sido viver a revolução logo no seu dia de anos. E nem uma melhor prenda que um país mais livre. Infelizmente, muitos dos ideais que inspiraram tão nobre revolução não têm sido muito bem aplicados e alguns mesmo parecem esquecidos. Mas dá-me arrepios haver gente saudosa dos tempos do Salazar...por muita ordem e disciplina que houvesse nesse tempo e que, admito, falta actualmente, nem quero imaginar como seria viver num regime tão hostil e castrador e ao mesmo tempo tão pacóvio e paternalista. Felizmente, não nasci nesse tempo.

Também sei que desde há três anos, você não tem muita paciência para celebrar o seu aniversário por este ser perto do aniversário do falecimento da sua mulher, a Dona Celeste, a quem uma doença fulminante e impiedosa levou muito antes do que seria justo ser a sua hora. Tenho imensa pena de não poder tê-la conhecido com mais saúde, pois infelizmente a doença atacou-lhe poucos meses depois de termos sido apresentados. Mas durante esse curto espaço de tempo, deu para perceber todo o excelente carácter e força de espírito dela, que tanto revejo no Ricardo. Bem como a felicidade da vossa união, algo que infelizmente não aconteceu com os meus pais.

Mas eu gostei igual e imediatamente de si. Não levei a mal o seu embaraço nem o seu pouco à-vontade quando o Ricardo apresentou-me como namorado. Era natural, pois sei perfeitamente que o privilégio de duas pessoas do mesmo sexo poderem ter uma relação aberta é um privilégio possível (e minimamente aceite) apenas a partir da minha geração, depois de tanto tempo em que foi algo condenável e impensável. E também sei que uma coisa é saber que um filho gosta de homens e fazer as coisas lá por conta dele, longe da vista, outra é ter um filho a apresentar-lhe um genro em vez de uma nora, fundamentando-se assim a sua orientação. Mas o simples facto de que, apesar da sua relutância, você tenha aceitado sem nenhum juízo de valor, significou muito. Para mim, mas sobretudo para o Ricardo. Ele nunca disse nada mas sei bem que ele temia a sua desaprovação.
E seja como for, não sei se o José ficou com uma boa impressão de mim, mas fiquei com boa impressão sua. Vi logo que era um homem justo e honesto, afável mas firme, que foi um exemplo para os seus filhos e dei por mim a desejar ter tido um pai assim. Aliás, neste três anos de convivência em que tenho sido acolhido pela vossa família, dou comigo com pena de não ter crescido no meio de uma família assim tão unida.

Por essas e por outras, é que resolvi estar mais em contacto com o meu pai. Bem sei que ele pode ter sido um fraco marido e um pai sofrível, e ter-nos deixado quando eu era ainda um miúdo, mas é o pai que eu tenho e mesmo assim, há pais piores. E também se fosse hoje, muito provavelmente os meus pais nunca se teriam casado, mesmo com um filho em comum. Cada um iria à sua vida, acordando-se apenas as responsabilidades imperativas e tinha-se poupado muita chatice. Mas os tempos eram outros, e com o azar da minha mãe ter ficado logo grávida, não havia então outra alternativa senão casarem, mesmo que era certo para todos que era um enlace destinado a fracassar. Assim que cresci o suficiente para perceber isto tudo, deixei de sentir tanta animosidade para com o meu pai, e a aproximar-me gradualmente dele, ainda que um telefonema todas as semanas e um almoço a cada dois domingos seja o nível de contacto mais que suficiente para ambos, pelo menos por agora.

De certa forma, a família com que cresci foi só a minha mãe e eu, se bem que sempre me dei bem com os meus tios e as minhas primas, mas eles também tinham as suas vidas. Felizmente, a minha mãe nunca dependeu do meu pai, estabeleceu o seu próprio negócio e não se poupou a esforços para criar o filho sozinha. Ela apercebeu-se, ainda antes de eu próprio, de como eu era e foi a pessoa menos espantada do mundo quando me assumi. O meu pai, ao que parece não gostou muito e ainda tem as suas reservas, mas aceitou, quanto mais não seja porque não se sentia no direito de fazer qualquer objecção, já que tinha estado ausente desde os meus oito anos.

Felizmente, não tenho sofrido muito com a discriminação, até que faço por ser discreto quanto a isso. Ser homossexual é apenas uma parte daquilo que eu sou, não é só isso que me define. Uma vez, na rua, três mânfios rodearam-me, exclamando "ó paneleiro", e só escapei de boa porque me lembrei de pegar num canivete que eu tinha no bolso e de o encostar à braguilha do jagunço que ia para me agarrar, que foi remédio santo. Mas a maior discriminação que eu sofri foi por parte de alguém do meu sangue.
A minha mãe diz que a minha avó ficou mais amarga depois da morte do avô, mas não me recordo de uma manifestação de afecto por parte dela. Sei que é horrível dizer isto de uma avó, mas nunca conheci ninguém tão ruim como as cobras. Não merecia os filhos que tinha. Há tanto velhote abandonado por aí, de quem os filhos não querem saber nada, que se tivessem filhos como a minha mãe e o meu tio, dariam graças infinitas a Deus e a todos os anjos e santos. Tanta vez que a minha mãe e o meu tio deixavam tudo para acudir à minha avó à menor aflição, que fizeram mais do que a obrigação deles, e mesmo assim ela só sabia era se queixar e dizer mal de tudo. E sempre que podia, culpava a minha mãe por não saber agarrado o marido e manter o casamento e de ter tido "um filho maricas". Não sei como é que nunca tive coragem de a confrontar e dizer-lhe umas boas verdades. Não o fiz porque, como dizia a minha mãe, por vezes é melhor manter a calma e perceber a pequena dimensão de certas pessoas. Sei que não é nada bonito dizer isto, mas quando ela morreu, o meu pesar não foi muito maior que a minha sensação de alívio.

Apesar de tudo, não me arrependo de tudo quanto eu passei. Não houve nenhuma cabeçada na parede nem pé na argola que não me desse uma lição e me fizesse um bocadinho melhor como pessoa. Ainda tenho um longo caminho a percorrer até ser um modelo de virtudes, mas espero chegar lá perto com o tempo. E ter vivido num quadro familiar tão disforme só me fez apreciar ainda o facto de ser tão bem acolhido no seio da vossa família. Tal como este país, que descobriu a liberdade com o tom vivo do vermelho-cravo a romper o cinzento, vai fazendo o seu caminho entre passos à frente e passos atrás, entre saltos e trambolhões, mas sempre com esperança no futuro, também eu sigo assim. Atravessando pelos azares mesmo quando deixem graves feridas e apreciando as bênçãos quando elas surgem. Vistas bem as coisas, haverá outra forma de viver?

Muitos parabéns e feliz 25 de Abril.

Filipe


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mary Bennet

A maior vantagem de estarmos rodeados por gente que não nos leva a sério é a liberdade para dizermos tudo o que quisermos, mesmo as verdades mais inconvenientes. É tudo o que tenho, poder dizer o que eu penso, dar largas aos meus pensamentos, mesmo sabendo que vão ser condescendentes ou achar que é mais uma parvoíce minha. Falta-me a beleza das minhas quatro irmãs, a delicadeza e elegância de Jane, a argúcia e o talento de Elizabeth ou mesmo o espírito humorado e efervescente de Lydia. Os bons genes dos nossos pais já não eram muitos e ao distribuí-los por cinco filhas, a uma delas tinha de calhar a fava.
A minha mãe acha-me enfadonha, o meu pai acha-me desastrada, Lizzy acha-me ridícula. E se dependesse de Kitty e de Lydia, eu devia enfiar-me numa masmorra qualquer e lá ficar para sempre, para elas não carregarem o fardo de ter uma irmã tão sensaborona. E Jane só não me acha nada porque ela não vê mal em ninguém, a não ser quando o mal se lhe agita à frente do nariz dela, e por vezes nem assim.

Ainda assim, a irmã que mais admiro é Elizabeth. Mais que os seus dotes físicos, invejo-lhe sobretudo o jeito e o génio. Bastar-me-iam apenas essas duas virtudes para que a minha vida me parecesse mais venturosa. Cantar tão bem como ela, tocar com a mesma habilidade no piano, encetar com astúcia qualquer conversa. Porque mais do que insípida, eu lamento sobretudo ser tão grosseira de modos e de prosa. Mas pelo menos, não sou como as parvalhonas das minhas irmãs mais novas, apenas interessadas em frivolidades e namoricos. Falar com Lydia de outras coisas que não das suas diversões é como falar para uma parede e Kitty, embora mais velha que Lydia, é ainda tão infantil que quando não anda a fazer birras, anda sempre ao lado da outra como se fosse uma cadelinha de trela.

Mas nem mesmo Elizabeth é perfeita. Ou não fosse ela muito de ligar demasiado às primeiras impressões e de ser algo selectiva nos seus julgamentos. Por causa disso, ia caindo duas vezes em asneira. Vá lá, com  Mr. Darcy ainda se compreende, porque o homem parecia tão frio, a roçar o antipático, que era fácil ignorar que ele até era um homem bem jeitoso e elegante. O que eu desgostava particularmente nele era algo que é comum aos ricos, que é aquele ar "eu sou rico, logo sou muito melhor que vocês e deviam estar gratos de eu estar a dispensar este tempo em que vos aturo". Por sorte, Elizabeth inspirou Darcy a revelar que por detrás daquela postura orgulhosa e altiva, estavam muitas e nobres qualidades, senão eu via-me obrigada a partilhar a opinião desfavorável da minha mãe que ela tinha dele, mesmo sabendo que há poucos discernimentos mais fracos que o dela.

Mas ao contrário de Lizzy, eu nunca fui com a cara de Wickham. Parecia tal e qual aqueles falsos galãs dos romances, todos cheios de prosa e salamaleques, conquistando facilmente as almas femininas mais influenciáveis. Juntando a isto, um belo palminho de cara e está montado o ardil. Por isso, estive sempre de pé atrás em  relação a ele, mas como a minha opinião nunca vale para nada, nada disse. E se  Elizabeth, que é tão esperta, acreditou no discurso de vítima dele, quanta jovem facilmente impressionável não terá caído na sua teia de mentiras?
E claro está, se Lydia que nunca deu muito uso à cabecinha dela antes, não foi quando Wickham meteu-se com ela que iria pô-la a funcionar. Daí que, quando ela fugiu com ele, nem por um momento deve ter pensado na vergonha que iria fazer a família passar. Simplesmente achou que era tudo uma aventura emocionante, como se vivesse o seu próprio romance de cordel. Não fosse Darcy a remediar o mal feito, e nem sei como seria. Mas como aqueles dois não têm emenda, não lhes prevejo bom destino. Se bem que não se pode dizer que não o merecem. E a culpa também é dos meus pais, a mãe por ter-lhe encorajado as tonteiras e o pai por nunca ter feito nada para lhe corrigir.

Nunca percebi porque é que o meu pai, que até tem um ou dois dedos de testa, nunca se quis impôr no meio deste mulherio, limitando-se a observar e a achar graça a tudo: às crises de nervos da mãe, às minhas tolices, à ingenuidade de Jane, às birras de Kitty, à rebeldia fútil de Lydia.
Pelo menos por agora, está tudo bem. Lydia está longe e ela que se desembarace sozinha. Jane acabou finalmente por casar com Bingley (bom moço, mas um bocado limitado de cabecinha, verdade seja dita) e não tardarão a formar uma bela e encantadora família. Kitty, sem influência de Lydia e controlada por pulsos  mais firmes, vai aos poucos ganhando algum juízo e deixando de ser um caso perdido. Lizzy e Darcy nem parecem os mesmos, de tão apaixonados. Pelos vistos não é só nos romances que os sintomas do amor são muito poderosos e nem sequer os mais fortes e astutos escapam. Com a cabeça e o coração no devido sentido, é uma união que tem tudo para dar certo.

E quanto a mim, a tonta da Mary? Resolvi ser senhora do meu próprio destino. Esta liberdade de dizer o que eu penso é uma das poucas dádivas que me foram concedidas e não irei abdicar dela. Aliás, quero expandi-la e fazer com que me ouçam. Percebi que um dos passos passava por me socializar mais. Já não sou aquela mescla de ratinho de biblioteca com bicho de mato. Também já não me mortifico por ser a menos bonita das cinco irmãs Bennet nem por ter nascido sem gosto ou génio. Eu sou como sou, e mesmo num mundo cheio de orgulho e preconceito, também hei de encontrar o meu lugar.


(NOTA: Mary Bennet é uma personagem de Orgulho e Preconceito de Jane Austen)

domingo, 15 de abril de 2012

Pela sombra do pecado

Ambos sabíamos que era inútil resistir, que há vontades para além da razão e da força de vontade. Por isso marcámos uma noite para libertar os fantasmas e deixar os cabos dormir. Um apartamento vazio como um campo neutro ou uma folha em branco. Como se não houvessem páginas escritas anteriormente.

Cruzámos os olhares na rua, fingimos que nunca nos tínhamos encontrado. Umas palavras trocadas, uns sorrisos  roubados, um copo de vinho tinto. E é tão fácil reescrever uma história, sermos só um homem e uma mulher num jogo de sedução. No final, um envelope com uma chave e uma morada.

Já sabia que eras tu, ouvi o eco dos teus passos a subir os degraus. Avançaste timidamente e sorriste assim que me viste. Eu hesitei em aproximar-me porque temia o que podia acontecer se eu soltasse as rédeas e te comunicasse tudo aquilo que o meu desejo há muito tempo grita em mim. Mas tu também desejavas o mesmo. Com o mesmo sorriso bondoso de sempre, passaste uma mão pelo meu cabelo e deste-me a entender que eu podia avançar. Quando eu finalmente te beijei e as camadas de roupa iam caindo pelo chão, já tínhamos caído em tentação e não havia como nos livrarmos deste mal.

Num apartamento vazio, a acústica amplificava as nossas ânsias, ecoando cada gemido, enquanto éramos apenas um homem e uma mulher enredados nesta estranha teia de paixão, banhados pela sombra do pecado.
Nessa noite fomos tudo o que queríamos ser. Tu ser apenas a Rita, e eu apenas o Sérgio. E fazer tudo o que há muito queríamos fazer.

Mas depois da noite, veio agora a manhã. E a luz do dia ilumina agora a nossa vergonha. Com o pudor indesculpável que veio após tantas horas de pecado, não nos tocamos, mal nos olhamos, vestimo-nos de costas um para o outro. Prendes o cabelo num rabo-de-cavalo, ajeitas a roda da saia, apertas o casaco de malha e dizes, quase num sussurro:
- É melhor tão cedo não voltar à paróquia, padre Sérgio.
- Estás bem?
- Estou. Não se preocupe. Foi bonito. Adeus, padre Sérgio.
Já caminhas rumo à porta, quando digo:
- Adeus, Rita.

 Fecho a porta à chave, com a alma pesada com uma pedra, como se tudo ficasse encerrado naquelas paredes. Podia ser este o pecado perfeito, se não soubesse que Deus foi testemunha e que tenho muito para expiar. Estarei envergonhado do que fiz ou atacado pela culpa de um condenado? Não sei ainda o que vou fazer a seguir, só sei que se caí em desgraça, ainda bem que foi por causa do sorriso da Rita.



  

terça-feira, 10 de abril de 2012

O que os meus olhos viram

Claro que vi no outro dia a reportagem da SIC. Nem acredito que já passaram onze anos. Por um lado, ainda tenho pesadelos com isso. Mas também não é para menos, nunca tive tanto medo na vida. Tínhamos voltado de Fátima, já a poucos quilómetros de casa. Estávamos a cantar e a rezar no autocarro, até tínhamos feito algumas orações pelas vítimas da queda da Ponte de Entre-Os-Rios, que tinha sido umas semanas antes, longe de imaginarmos que estávamos prestes a passar por também por uma tragédia. De repente, o autocarro desgoverna-se, cai numa ribanceira, sou cuspida para fora e catorze vidas são ceifadas no momento seguinte, cada uma de gente que eu bem conhecia. Mas por outro lado, já foi há tanto tempo que às vezes até parece que  só aconteceu nos meus pesadelos.
Na reportagem, revi o Domingos e a Lucília. Coitado do Domingos, ele que tinha um grande amor pela mulher, nunca mais foi o mesmo desde que ela morreu nessa noite, nem mesmo tendo casado de novo. Já a Lucília continua na mesma, sempre com aquele ar triste e sofrido, o que não é de admirar pelo que ela já passou na vida. Mas ela nem se apercebe como é rija e forte. Mesmo depois do desastre e da morte do marido três anos depois, por lá anda. A Lucília é cá das minhas. Enquanto tivermos força nas pernas, cá havemos de andar até não podermos mais.
Mas também disse ela com razão que o desastre atingiu toda a aldeia. Antes, era costume ouvir-se risos e conversas folgazonas quando se caminhava pela aldeia. Depois, mal se ouvia alguma coisa, ficou tudo mais deserto e triste na aldeia. Por essas e por outras, quando o meu marido morreu há três anos, preferi ir viver com a minha irmã e o meu cunhado aqui para esta aldeia.
Eles os dois nem sempre são fáceis de aturar, mas ele há feitios piores, e sempre são companhia. Eu ainda dava em maluca que se passasse o resto dos meus dias sozinha sem ninguém com que falar. Arranjaram-me um canto lá na casa deles para fazer de meu quarto, não é grande coisa mas para mim chega bem. Para compensar, ajudo-os na horta, coso as roupas porque a minha irmã anda cada vez pior da vista e aos domingos, sou eu que cozinho o almoço e o jantar.
Até já os convenci a ir em excursões comigo. A princípio, eles ficaram muito espantados por eu continuar a querer viajar, por causa do que passei com o desastre e pelas minhas amigas que faleceram. Respondi-lhes que se Deus não quis que fosse essa a minha hora, não ia fazer de conta que sim e eu tenho mais é de continuar a viver, bem basta quando essa hora chegar. É como o que a Lucília disse na reportagem: "O que levo de melhor deste mundo foi o que os meus próprios olhos viram."
E eles agora vêm comigo e também gostam e até dizem que enquanto tiverem um mínimo de saúde e dinheiro, também vão querer ir nos passeios. E sempre que vamos a Fátima, por entre todas as almas por quem rezamos, guardo sempre uma oração para a mulher do Domingos e todas as outras a quem Deus chamou para si nessa noite. Se Deus quiser, quando for a minha hora de ir, hei de me encontrar com todas elas.