quinta-feira, 15 de março de 2012

O Jogo dos Países

Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica, Luxemburgo...

Não te preocupes, não dei em maluco. Eu sei que pareço doido quando, sem querer, digo em voz alta nomes de países sem motivo aparente. Mas é apenas um jogo para exercitar a mente. Tento lembrar-me do maior número de países. Estranhamente, isso acalma-me bastante quando estou stressado ou nervoso, ou simplesmente quando não quero pensar naquilo que estou a pensar em determinado momento. Tu bem sabes que não é por pensar mais ou menos nos problemas que eles se resolvem. Quando eles têm resolução...

...Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé & Príncipe, Guiné Bissau, Guiné Equatorial... 

É muito raro conseguir-me lembrar de todos os países. Eles são tantos, não é verdade? 193 países pertencem à ONU. Nos Jogos Olímpicos, participam mais de duzentos.
Lembras-te quando havia duas Alemanhas, dois Vietnames, dois Iémens? Esses pares são agora um só, mas por cada país que se une, outros tantos partem-se em dois ou mais. Só do colapso da União Soviética e da Jugoslávia, surgiram uma data de novos países. Agora até existe um Sudão do Norte e um Sudão do Sul. E quem sabe se da próxima vez que virmos as notícias tenha entretanto surgido uma nova nação?

...Brasil, Argentina, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai...

A sério, a mim, este jogo costuma deixar-me mais calmo. Por vezes, sinto a cabeça a andar à roda, com os pensamentos todos emaranhados. Começo lentamente a enumerar países e, sabe-se lá como, é como as peças do puzzle se encaixassem. Não sei se isso resulta com outras pessoas, mas comigo resulta.

...Estados Unidos, Canadá, México, El Salvador, Guatemala, Honduras...

Por exemplo, sabes daquelas vezes em que tu te deitas e vem-te tudo à cabeça? Mas mesmo tudo. Coisas boas, coisas más, coisas sérias, coisas parvas, coisas engraçadas, coisas deprimentes...tudo isso numa sucessão vertiginosa que quando dás por ti, tens o cérebro feito em papa e já nem distingues as baboseiras dos pensamentos concretos.

...Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia...

Também faço este jogo quando dou comigo a pensar na Mariana. E quando penso nela, parece que nem aguento o peso que cai sobre o meu coração. Por isso, tento não pensar nela mais do que eu consigo aguentar. Até porque pensar nela não muda nada. Nem Deus pode mudar o passado. Por isso, penso em países...

...Irão, Iraque, Arábia Saudita, Qatar, Líbano, Jordânia...

O que é que uma pessoa há de fazer? A vida é mesmo assim, injusta como tudo. Onde há justiça no facto de uma criança de quatro anos, linda, saudável, maravilhosa, seja levada deste mundo por algo tão fulminante, quase estúpido? Onde há a justiça em toda a felicidade construída arduamente por uma família venha abaixo numa derrocada? Mas a vida é assim, o que se há de fazer?

...Cazaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguizistão, Turcomenistão, Afeganistão...

Creio que foi depois da morte da Mariana que eu comecei a fazer este jogo. Uma maneira de ocupar a mente. Tu por exemplo, dedicaste à jardinagem. Passavas horas a fio no quintal das traseiras, onde transformaste o baldio em belos canteiros de amores-perfeitos, sardinheiras, camélias...

...China, Japão, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura...

Porque depois de tudo, não há nada a fazer. E o tempo não muda nada, nem a dor, nem a saudade, mas a vida continua, continuamos a viver, um dia após o outro, dias bons, dias maus, dias péssimos, dias mais ou menos...

...África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe, Lesoto, Suazilândia, Tanzânia...

E a vida continuou, os dias passaram, os anos também, já quase tantos como aqueles que a Mariana viveu. E mesmo com a dor dilacerante, o coração pesado, as lágrimas esgotadas, continuámos a viver. Não há nada que a faça voltar a este mundo, por isso, sofrer mais, sofrer menos, pouco importa. Nós ainda estamos vivos, não sabemos quando vai chegar a nossa hora e entretanto há trabalhos para fazer, contas para pagar, sítios para ir...

...Austrália, Nova Zelândia, Timor-Leste, Papua-Nova Guiné, Fiji, Samoa...

Entretanto nasceu o Afonso. Não veio ocupar o lugar da irmã, veio ocupar o lugar que é dele, o lugar que seria sempre dele. Era isto que a minha Mãe dizia, ela que teve quatro filhos e cada um tinha o seu lugar no coração. Ela dizia sempre assim, e com a sua razão.
Sim, dou graças a Deus pelo Afonso, tal como dei e ainda dou pela Mariana. Pelos quatro anos em que a tivemos junto de nós, e pelos anos em que tivermos aqui o Afonso, sejam quantos forem. Porque apesar de tudo a vida é uma dádiva, viver uma bênção, seja por muito ou pouco tempo.

...Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Tailândia, Cambodja...

Gosto de imaginar que onde quer que a Mariana esteja, ela consegue ver todo o mundo, todos os países que eu enumero no meu jogo para aclarar a mente...Que ela viu montanhas, praias, desertos, florestas, cataratas e cidades, sobretudo daqueles países dos quais eu não sei nada senão o nome. Como quando ela arrastava o seu dedinho pelo mapa-mundo do meu atlas e dizia que andava a percorrer o mundo inteiro.

...Saint Kitts & Nevis, Santa Lucìa, São Vicente & Grenadinas, Antígua & Barbuda, Trinidad & Tobago...

Por isso e por tudo o mais, eu jogo este jogo de listar países. Não perco nem ganho. O importante é jogar, penso eu. Há alguns momentos em que parece que não me consigo lembrar de mais nenhum país e eis que de repente lembro-me de um país obscuro.

Tuvalu!

Gosto desses momentos. Lembram-me que tal como de um momento para o outro, as desgraças acontecem,  também surgem momentos felizes. A vida é mesmo assim. O que havemos nós de fazer, senão viver?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ao nível do solo

Ricardo

Nem acredito que já passaram três anos desde que tu me perguntaste: "Somos um casal?" ao que, para meu espanto, respondi que sim sem hesitar. Deixámos de fingir que éramos apenas dois amigos (que por acaso até se sentem mutuamente atraídos e dão uma esporádica queca) para passar a encarar que o que havia entre nós era algo bem mais sério. A Sara, minha amiga desde sempre, foi tua colega de curso e foi ela que nos apresentou. Ela ainda hoje nega que queria fazer um arranjinho entre nós, mas ela já me falava de ti desde os tempos do vosso curso, por isso ela não me convence que nunca lhe ocorreu armar-se em casamenteira.

Mas se era mesmo essa intenção, tenho que reconhecer que o timing dela foi o melhor possível. Havias de me detestar se me tivesses conhecido uns anos antes. Eu era um fútil do caraças: não só era uma fashion victim, como me deixava embeiçar por qualquer palminho de cara e de corpo. Por isso, andava a sempre a saltar de um relacionamento para outro, atrás de alguém cada vez mais bonito e pelintra que o anterior. Foi preciso ter andado à tareia com o mais pelintra deles todos para abrir os olhos. Dei comigo com uma auto-estima tão arrasada que achava que eu merecia este círculo de traições e que não era digno de algo melhor. A maca do hospital para onde fui parar foi melhor que um divã de psicólogo. Saí com a minha autoconfiança renovada, decidido a dar a volta por cima. Despachei logo o outro que ficou de nariz partido mas livre do fardo de um rosto perfeito.

Tal como o meu antigo eu não olharia duas vezes para ti. Não que sejas feio, longe disso, mas o teu ar geek chic não poderia atrair-me menos. Felizmente, quando te conheci, já conseguia apreciar outras qualidades que não um aspecto de fazer parar o trânsito. Por exemplo, descobri logo que eras um bom ouvinte. Era fácil falar contigo, mesmo de coisas que nunca tinha dito a ninguém. Parecias ouvir tudo atentamente, dos assuntos mais sérios às minhas maiores parvoíces. E ao contrário da maioria das pessoas que eu conheço, não fizeste nenhum juízo de valor, não denotei em ti nenhum olhar de reprovação ou condescendência. Poucos dias depois de nos conhecermos, já conhecias quase toda a minha vida amorosa, familiar ou profissional. E não me importava de partilhar coisas que sempre prezei em ter como apenas minhas. Isso já era um sinal de que eras alguém com quem eu queria partilhar uma vida.

Também vim a perceber que o teu charme estava sobretudo nessa tua combinação de inteligência, sensatez e compaixão. Nunca pensaria nessas qualidades como sensuais, mas resultou comigo. Agora acredito que a beleza interior pode ser bem mais sedutora que a exterior. Dei comigo a desejar-te e a querer seduzir-te. Cedeste, fazendo de desprendido e descomplexado, convencido que isto era uma comichão que tínhamos de coçar. Concordámos que era só a tusa a falar mais alto e nada mais. Mas havia bem mais...

Porém, foi difícil admitir. Eu achava que tu eras só uma peça da minha evolução, qual Pokemón, de ser superficial e atadinho para algo mais substancial. Tu ainda estavas apegado à memória desse austríaco do Erasmus e achavas que mais ninguém estaria minimamente à altura dele e do que viveste com ele. Em boa hora, recorreste ao bom-senso que te acompanha em quase tudo e deixaste-o lá no alto do pedestal e decidiste procurar alguém ao nível do solo. E felizmente decidiste que esse alguém era eu.
Por isso, quando perguntaste se éramos um casal e eu disse que sim, também deixei de metáforas. Percebi que valias a pena e decidi que ia dar tudo para te merecer. Espero que tenho sido bem-sucedido.

Quanto a mim, já não consigo imaginar a amar ou a desejar mais ninguém. E já me sinto parte da tua família que soube bem acolher-me. Eu sou filho único e nunca me importei com isso, mas agora quem me dera ter tido uma irmã mais nova como a Mónica. Bem me dizias tu que no dia em que eu a conhecesse, iríamos ficar loucos um pelo outro. Até fazes-te de enciumado e dizes-lhe por vezes: "Só queres é o Filipe, eu é que sou teu irmão!". Também simpatizei logo com o Nelson, até com o teu pai. Sei que para ele foi um bocado mais difícil de se adaptar à ideia de tu teres um namorado. Coitado, estava tão embaraçado quando foi connosco para o Algarve, e eu também. Ainda bem que tudo correu pelo melhor.
Também tenho tanta pena de mal ter conhecido a tua mãe com um mínimo de saúde, porque poucos meses depois de a teres-me apresentado, começou a agonia da doença que a levou tão depressa e tão cedo deste mundo. Mas deu para perceber que tinhas saído a ela, que tu eras um verdadeiro reflexo da pessoa admirável que ela era e o quanto te custou vê-la a lutar ingloriamente contra a doença. Por isso, estive sempre ao teu lado, a apoiar-te, com uma força que eu achava que não tinha. Queria ser aquele com quem podias contar. E é o que continuo a fazer. Mas sei que tudo o que eu fizer não se compara ao que tu me deste, ao que fizeste por mim ao longo de mais de três anos.

Bem sei que algumas coisas não precisam de serem ditas para terem significado. Mas eu gosto de dizê-las. Obrigado por tudo. Sobretudo por me fazeres querer partilhar tudo.

Com amor,

Filipe  

terça-feira, 6 de março de 2012

Mudar

Quando deixaste cair a tua máscara e vi pela primeira vez o teu lado negro, ainda acreditei que podias mudar.

Quando reparei nos teus sinais subtis de repreensão e controlo que no fundo sempre estiveram lá, ainda acreditei que podias mudar.

Quando passaste abertamente aos insultos, e qualquer motivo servia para isso, ainda acreditei que podias mudar.

Quando minaste a minha autoconfiança e dizias que sem ti, eu não era nem nunca seria nada, ainda acreditei que podias mudar.

Quando eu não podia fazer nada, entrar ou sair, sem que tu pudesses controlar-me, ainda acreditei podias mudar.

Quando pensavas que todos os homens que conhecia eram meus amantes e julgavas que me oferecia descaradamente a cada homem que cruzasse o meu caminho, ainda acreditei que podias mudar.

Quando passaste da violência verbal à violência física, embora com o cuidado de não deixar marcas, ainda acreditei que podias mudar.

Quando a tua loucura destruiu-te o pouco discernimento que tinhas e já nem te preocupavas se deixavas marcas ou não, tendo eu ido parar ao hospital mais morta que viva, percebi que por muito que acreditasse, não ias mudar.

Agora estou aqui nesta cama de hospital, e não há volta a dar. Podes ameaçar-me, podes chorar baba e ranho, podes jurar pela enésima que vais mudar. Eu até posso acreditar em ti. Mas eu mudei.

domingo, 4 de março de 2012

Uma camada de verniz

No tempo dos nossos pais, era bem mais fácil. Era quase como passar uma camada de verniz sobre a madeira riscada. Pintar um quadro de harmonia da família exemplar, o casal apaixonado, os filhos sorridentes. Camuflar os dramas, os gritos, os espaços em branco, mesmo quando eram as evidências mais evidentes. No tempo dos nossos pais, e dos pais deles, era mais fácil olhar para as pinturas, mesmo as mais abstractas, do que encarar as fendas dos espelhos. Foi só quando sopraram outros ventos que os espelhos partidos tornaram-se impossíveis de ignorar. Como se de repente a luz que incidia sobre todos fosse mais forte e não houvesse canto obscuro que resistisse.

Pergunto-me tanta vez se eu não estou a fazer o mesmo que os meus pais. E a Carla também se questiona. Se andamos a brincar às famílias felizes. Se o nosso universo edificado sobre um sonho de vida em comum e criar uma família foi bem alicerçado. Brincadeiras com as filhas, torradas com geleia, passeios no jardim, refeições no micro-ondas, sexo semi-espontâneo, séries do Canal Panda, AXN e Fox Life, conversas de trabalho, tintura de iodo e pensos rápidos, gincanas de hipermercado, ferros de engomar a deslizar pelas camisas, Domingos de Verão na praia e tantos outros fotogramas deste filme. A vida é isto mesmo ou é tudo uma estratégia da nossa empresa conjugal? Quanto mais nós queremos acreditar que sim, que semeámos os nossos projectos a dois com cuidado, amor e dedicação e agora colhemos uma sucessão relativamente pacífica e sossegada de cenas banais mas não sem o seu travo tragicómico, mais a dúvida se instala. 

Se ao menos eu e ela não tivéssemos passado pelo mesmo processo de olhar nos espelhos, para ver a nossa ideia dos nossos pais, como um casal feliz e apaixonado, rasurada pelas fendas. Mesmo sendo fácil de perceber porque é que eles preferiram alimentar essa ilusão - os tempos eram outros, reinava a lei da vergonha e do verniz - teríamos preferido a sinceridade, mesmo com risco de encadeamento. Poderíamos arrumar as histórias de amor nas páginas dos livros e escrever outra história, talvez menos feliz mas mais verdadeira. Mas foi assim que escrevemos a nossa história, realizámos uma comédia romântica, adicionando uma pitada de sexo hardcore, esse ingrediente que não era tão essencial nas gerações anteriores mas que na nossa já é tão imprescindível como o sal nas batatas fritas. Poderá a felicidade existir sem verniz?

Ou será a realidade como a guerra sem quartel a que o meu irmão e a Diana se entregaram? Ora morrendo das balas perdidas e dos golpes das espadas quando estão juntos, ou de falta do ar que o outro respira quando estão longe. A Carla e eu gostamos de olhar de alto, abanar a cabeça e lamentar que eles não saibam viver um com o outro sem se digladiarem. Mas secretamente invejamos o ardor dos seus tumultos e das rendições na cama, a vertigem de viver sempre de punho cerrado e de ouvidos em alerta, os sangue a pulsar nas veias, cada respirar profundo e doloroso cheio de vida. Como isso tudo parece tão vivo e arrebatador e faz parecer a nossa vida tão enfadonha e medíocre, quase catatónica! 

Mas mesmo que quiséssemos e tentássemos, nunca seríamos como eles. Para feridas e cicatrizes, bem basta aquelas que já temos e as que não poderemos evitar. Vistas bem as coisas, não há mal em querer a felicidade, amor e paz de espírito, mesmo sob a forma de ilusão analgésica. Sempre é melhor do que sentir-se em dor constante. Tudo o que eu posso dizer que, pelo menos por agora, quando eu puxo a Carla para a beijar diante das nossas filhas, é para mais do que mostrar a elas o quadro de um casal feliz. Enquanto assim for, não é preciso aplicar nenhum verniz. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Coração e Tomates

Nelson:

Há tantas coisas sobre a nossa Mãe que eu sinto tanta falta. Basicamente tudo. Sinto falta de ela estar viva neste mundo e está tudo dito. Mas também sinto particularmente falta de haver outra mulher na família. Por muito que eu vos adore, a ti, ao Pai e ao Ricardo, gostava tanto daqueles momentos de cumplicidade feminina que tinha com a Mãe, de poder de falar de coisas de mulheres com ela, de revirarmos os olhos diante dos vossos desvarios como quem diz: "Ai, os homens." Não que a gente não adorasse os homens em geral, e vocês os três em particular. E crescer com dois irmãos velhos, deu-me uma privilegiada perspectiva do universo masculino, e também uma melhor compreensão do vosso sexo. Por isso, eu não alinho no famoso cliché dos homens serem todos iguais. Por muitos denominadores comuns que hajam, um olhar mais esclarecido consegue captar todo um prisma de variedades.
Tudo isto para dizer que eu adorei ter a Juliana aqui neste Natal. Isto agora de ser a única mulher numa família de homens tem que se lhe diga. Ainda para mais agora com a adição do Filipe como significant other do Ricardo, e que não deixa de ser homem, por muito que gente de dimensão muito limitada queira descategorizá-lo por ser gay. Por isso, soube bem poder reproduzir com a Ju alguma da cumplicidade feminina que eu tinha com a Mãe. Uma vez ouvi dizer que os amigos não se fazem, reconhecem-se, e não tardou a perceber que tinha uma amiga diante de mim.
Aliás, não demorou nada até ela nos conquistar a todos. Foi fácil perceber porque é que tu ficaste caidinho por ela. Por exemplo, é conhecido o teu fascínio por loiras. O Pai dizia na brincadeira que um dos principais motivos que te levou logo a querer ir para a Noruega era para lá sacar uma loira nórdica. Saiu-te porém uma loira brasileira, que sempre tem a vantagem da língua. Falas muito bem inglês e até já te desenrascas minimamente com o norueguês, mas deve ser reconfortante para ti poder falar com alguém que fala a mesma língua que tu, ainda que numa variação cantada e cheia de gerúndios. Apesar de ela viver já há vários anos na Europa, de ter uma fisionomia bem europeizada (devido aos genes alemães dos bisavós) e de não ter um feitio muito expansivo, é fácil de perceber que ela é brasileira de alma e coração.
Depois, eu sei que por muito que mulheres bonitas te fascinem, gostas mesmo é de mulheres inteligentes. Podes ter à tua frente um clone da Scarlett Johansson que se ela não tiver dois dedos de testa, perdes logo o interesse. Ficou para a história aquela tampa que tu deste uma vez a uma boazona, só porque ela disse: "O Luxemburgo fica na Alemanha, não é?".
Mas sobretudo porque tu saíste ao nosso Pai. Vocês têm ambos uma mente brilhante e um carisma cativante, mas precisam de alguém que esteja por trás que os faça brilhar. A Mãe dizia que ela se apaixonou pelo Pai porque ele era um diamante em bruto, alguém cheio de potencial e de qualidades para prosperar mas que não soubesse bem o que fazer com elas. Sem dúvida que grande parte do sucesso que o nosso Pai teve deve-se ao apoio e ao amor da sua mulher, que o ajudou a polir a gema e a limar as arestas para ser a pessoa notável que se tornou - e que continua a ser, mesmo sem a Mãe.
Contigo sucedia algo semelhante, não tanto nas tuas aptidões profissionais, pois sempre foste muito culto e inteligente, de raciocínio analítico e meticuloso e muito disciplinado naquilo que fazias. Mas em competências sociais, deixavas sempre um pouco a desejar, sobretudo no que toca o sexo oposto. Das poucas vezes que arriscavas abordar uma rapariga, o teu cérebro entrava em tal sobrecarga que saía asneira. Por isso a maioria das vezes, nem te atrevias a dar um passo, ou por medo de errar (demoraste algum tempo a aprender a lidar com os teus fracassos) ou porque mergulhavas num autismo que te impedia de captar a sinalização luminosa que passava diante dos teus olhos. Houve algumas amigas minhas que se apercebiam que por detrás daquele marrão estava um rapaz bem jeitoso, interessante e totalmente material de namorado e que vinham a casa só para se meterem contigo, mas tu era sempre cordialmente pitosga. Foi preciso a Mafalda, já na Universidade, a abrir-te os olhos e a braguilha, para entenderes que nessas coisas, não há teoria que se compare à prática. Apesar de ela ter sido uma parvalhona que depois te largou de forma ignóbil, deves muito a ela se hoje és o mestre do flirt, trabalhando a tua combinação poderosa de dois dedos de testa e um palmo de cara.
E também sinto que a Ju realça o homem brilhante que és, tal como a Mãe para com o nosso pai. É fácil ver que encontras nela o apoio e a serenidade que precisas. E que retribuis com toda a paixão que um homem pode dar a uma mulher. Tens muita sorte de a ter a teu lado, mas ela não é menos sortuda.

Infelizmente, por muitos passos em frente que já foram dados, há dogmas bacocos que ainda persistem na nossa sociedade sobre o que é ser homem e ser mulher. Que faz com que tantos homens achem que ou têm tomates ou têm coração, como se fosse obrigatório escolher, ou pior, como se só ter tomates fosse a opção correcta. O Pedro ainda era pior, era daqueles que têm coração, mas que estão convencidos que só têm tomates. Felizmente, cresci com três homens que têm ambos e não se envergonham disso. Percebo muito bem agora o privilégio que foi crescer entre o afecto e a autoridade do Pai, a generosidade e a introspecção do Ricardo e a tua lealdade e sensatez. É graças a vocês os três que eu sei que os homens são seres fabulosos. Quantas mulheres não conhecerem senão a vossa faceta mais dura, fria e cruel, tornando-as descrentes e destroçadas?
Eu podia ser uma dessas mulheres, depois do que eu passei com o Pedro, quando eu movia montanhas por ele, e ele nem conseguia dar um passo em frente. E mesmo quando eu reconheci que lutava por uma causa perdida, foi tão difícil esquecê-lo. Mas a minha tristeza nunca se transformou em aversão, porque o mal que ele me fez não ofuscou o bem que ele também me deu, porque com vocês aprendi a distinguir os matizes do espectro masculino. E agora posso olhar para trás com um mínimo de mágoa e valorizar a nossa história como uma lição que tinha de aprender, que me fez crescer um pouco mais. Ou, como naquela canção da Christina Aguilera, "made my skin a little bit thicker."
Acredito que foi essa decantação quase científica que me faz apreciar as coisas boas quando elas surgem. (Digo "quase" porque como te disse, há coisas onde a prática arruma qualquer teoria.) E agora surgiu-me o Salvador. Sim, é como se chama o meu homem-mistério, não sei a Juliana já te disse. Falei-lhe um pouco sobre ele, num momento de cumplicidade e confidência feminina. A antiga Mónica não resistiria ao brilho de um homem daqueles, tão intenso (como o teu) e atirar-se-ia de cabeça. Mas a Mónica actual gosta de manter a cabeça à tona de água e vai com calma. Por isso, ainda não quero revelar muito mais sobre ele. Só te digo, que até agora, estou a gostar. Tanto do homem como do mistério

Espero que te estejas a defender bem desta vaga de frio, que por aí deve ser particularmente intensa. Também eu agora dou valor ao típico clima temperado português, se bem que já não tão temperado como dantes. Manda muito beijinhos à Ju, e vê lá se não a chateias muito. Tens aí uma mulher que merece o teu brilho. Acho que, tirando o pai dela, nenhum homem antes de ti soube como iluminá-la como deve ser. Por isso tem paciência com ela, mantém os olhos abertos tal como costumas abrir o teu coração, fá-la acreditar como eu acredito.

Aquele abraço da tua querida maninha,

 Mónica

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ensaio experimental

Quando dizem que a luz é a melhor amiga de uma modelo, não é à toa. Quem te vê nos outdoors, banhada pela luz, o teu corpo arqueado em ângulos sinuosos que te traçam uma sensualidade extravasante, a tua longa cabeleira ruiva esvoaçando numa rebeldia calculada, imagina-te uma deusa sensual, mitológica e inacessível.
Se eu não soubesse como te transformas de crisálida a borboleta à velocidade de um clique diante de uma máquina fotográfica, também eu seria mais um de que responderia com um incrédulo "Ah, pois", quando tu dizias que queria ser modelo. Mas até nas fotos que eu te tirava no liceu, ora nas saídas com a malta, ora improvisando ensaios, já tu pousavas para exercitar esse teu inesperado talento, eu conseguia ver essa metamorfose. Sempre que mostrava esses fotos a alguém, a invariável reacção.
Não acredito, é mesmo a Érica? Ela está mesmo bem nestas fotos. Está tão bonita! 
E de facto, custava a crer que aquela miudita caixa-de-óculos, ruiva e branquinha, de semblante fechado, magrinha com uma vagem, quase sem nenhum peito nem rabo pudesse mudar assim tanto sob a luz do flash. Às tantas, é por isso que ainda és pouco reconhecida na rua, porque circulas à vontade no teu modo Clark Kent de saias e só te transformas em super-heroína numa sessão fotográfica ou em cima de uma passerelle.
Sempre gostaste muito da ideia de seres um mistério para todos. Sem dúvida foi por isso que quiseste sempre cultivar a nossa amizade, porque para os outros era de facto uma amizade misteriosa. No liceu, eu era o desportista, o às do voleibol, o puto giro, popular e extrovertido, e tu eras a geek que andava sempre sozinha, que não trocava mais de meia dúzia de palavras com ninguém, sempre sozinha a um canto a ler, ou a observar tudo em redor como quem admira uma pintura abstracta. Ouvi rumores velados de que eu me aproximei de ti para te saltar em cima, movido por uma suposta tara por mosquinhas-mortas, embora a maioria acreditava que era por eu ser um bom rapaz e não querer deixar ninguém de fora e desintegrado dos outros. Se me perguntassem abertamente na altura, eu poderia dizer que era por gostar do facto de seres uma miúda inteligente, pouco dada a futilidades e dramatismos típicos da adolescência e sobretudo, porque eras uma boa ouvinte e sentia que te podia contar tudo, sem que me julgasses ou fizesses troça.
Mas agora sei que além desses motivos, era porque eu gostava de ti, Érica. Tal como agora sei que tu também gostavas de mim. Os teus sinais foram sempre muito subtis, quase imperceptíveis, e era miúdo demais para os detectar, mas agora sei que lá estavam. E lamento que não tenhas sido mais óbvia, devias saber que nessa idade nós, os rapazes, ainda não sabemos captar esses pequenos indícios dos ardis femininos, tem de ser mesmo tudo ali em frente, com desenhos do Pictionary, ou melhor, sinais gigantes de néon a piscar. Provavelmente, diria que sim, aliviado por teres dado o primeiro passo. Sim, Érica, também gosto de ti, quero namorar contigo, que se lixem as piadas da saloiada. 
Contudo, deves ter analisado tudo muito bem, pesado os prós e contras, para concluíres que não valia a pena arriscares o passo em frente. Iria ser esquisito, iria mudar as coisas, criar ciúmes e desconfianças, estragar tudo de bom que demorámos a construir. Sempre foste cartesiana, a analisar e sobreanalisar tudo. Sem dúvida que isso te dá muito jeito na tua carreira actual de manequim, consigo imaginar-te a assimilar como uma esponja as direcções dos fotógrafos e dos produtores, a procurares mentalmente quais as poses ideais diante do cenário com que te deparas e o produto que é preciso vender. Até acredito que foi após muita análise e reflexão que decidiste que a situação ideal para perderes a virgindade foi naquela noite em Albufeira, nas férias da Páscoa, em que te meteste na minha cama com uma caixa de preservativos e debaixo de um edredão experimentámos aquilo que só em lugares distantes das nossas mentes desejávamos viver.
Claro que nunca esqueci essa noite nem o que fizemos nesse novelo de ternura, desejo e embaraço. Se bem que prefiro recordar em particular uma noite chuvosa, umas semanas antes, onde me arrastaste para ver uma peça de teatro qualquer e no caminho de volta, eu puxei-te para debaixo de uma paragem de autocarro e beijei-te. Foi a única vez que te vi completamente desprevenida e adorei isso, embora eu depois tenha dito que fora uma vez sem exemplo.
Os anos passaram, já não somos uns miúdos, mas continuamos amigos. Apesar dos truques de magia dos soutiens que agora usas, tens ainda um peito pequenino, mas nem por isso menos apetecível. Continuas igual a ti própria, algumas das tuas manias extinguiram-se, outras ampliaram-se, mas ainda gosto de estar contigo.  Eu próprio também mantenho algumas manias, adquiri outras, e nem por isso deixaste de apreciar a minha companhia. A Érica manequim é bela e sensual, mas é da outra Érica que eu gosto. Se eu te dissesse que estou apaixonado por ti, como afinal sempre estive, arriscarias esse flash, só para ver no que dá? Podes esmiuçar cientificamente as vantagens e os inconvenientes ou então decidires, por uma vez na vida, fazer algo espontâneo, mas gostava que dissesses que sim. Eu por mim, acho que podemos ficar bem na fotografia, mas mesmo que não, mesmo que se estrague o filme todo, ao menos podes dizer que foi apenas um ensaio experimental. Vou procurar o ângulo onde a luz melhor me incide, diz-me qual é a minha melhor pose. Então, que dizes?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Três Metros do Céu

Mónica:

Vê só como é a vida. De nós os três, eu fui o primeiro a andar de avião e o único que fez Erasmus. E agora anda o Nelson a fazer a vida dele lá pela Escandinávia, tu a acumular milhas aéreas, e eu é que estou aqui em Portugal e já faz dois anos que não vou ao estrangeiro, todo ocupado entre o trabalho, o Pai e oficializar a união de facto com o Filipe.
Mas não me queixo. O trabalho tem-me ocupado muito tempo e energia, mas este projecto é algo que me faz sentir feliz e realizado. E com vocês fora, fui eu que tive de acompanhar mais o Pai enquanto ele refazia a vida sem a Mãe, e no processo foi como se nos redescobríssemos um ao outro.

Por falar nisso, no outro dia o Pai contou-me como tu estavas tão preocupada quando eu fui fazer o Erasmus na Holanda. Também não era para menos, foi umas semanas depois do 11 de Setembro e nessa altura toda a gente estava cheia de medo de entrar em aviões. Até eu estava um pouco apreensivo, mas a ideia de andar de avião e viver num país estrangeiro pela primeira vez deixava-me muito entusiasmado e durante o voo, não pensei em terrorismos nem nada do género. Mas tu estavas tão preocupada com a hipótese de haver no avião um esbirro qualquer da Al Qaeda pronto a mandar-me pelos ares que quando aterrei em Amesterdão, ainda à espera das malas, foste logo a primeira pessoa a quem liguei e acho que o teu suspiro de alívio deve ter-se ouvido em todo o município. Longe de nós imaginarmos que um dia irias fazer vida de andar de avião.
Tal como longe de mim saber que também eu iria ter um romance de Erasmus, que terminou tão repentinamente quanto começou. Qual caixa de Pandora, o Johann soube como libertar todos os espectros emocionais que eu carregava desde sempre e quando dei por mim, já tinha mergulhado de cabeça.
Sim, eu sempre soube que era homossexual, tal como tu, o Nelson e os pais sempre souberam, mesmo que nunca falássemos disso, qual elefante no meio da sala. Se por um lado, não tinha dúvidas do que eu sentia e sentia a óbvia curiosidade de passar da teoria à prática, por outro sabia que muita gente não aceitaria isso tão bem como a minha família. Se eu já tinha chatices que cheguem dos bullies só por ser diferente da maioria do rebanho escolar, se eu lhes desse mais razões para levar porrada e, como sabes, quem me tira o sossego da minha vida, tira-me tudo. Para não falar dos inevitáveis conflitos interiores: "Porque é que sou assim? Porque é que não sou como os outros? Porque é que dizem que sentir o que eu sinto é errado e nojento? Serei uma pessoa abominável?"
Foi preciso eu estar noutro país para me sentir suficientemente confortável para verbalizar os meus sentimentos e os meus dilemas. Algo que nem sequer fizera convosco, embora já soubesse que vocês iriam apoiar-me, mas quando temos uma semente de medo e dúvida tão enraizada em nós, isso paralisa-nos.

Para além do excelente contributo académico que estudar um semestre na Universidade de Haia me proporcionou, também o simples facto de viver num país diferente e conviver com gente de várias nacionalidades abriu-me os horizontes, dando-me ideias sobre alguns dos rumos que queria tomar na vida. Até mesmo a língua acabou por não ser problema de maior, apesar de não ter retido o pouco que consegui aprender daquele idioma arreganhado, nem sequer o frio em doses a que não estava muito habituado por cá. Acabaram por ser poucos os momentos em que me senti um peixe fora de água.
Imbuído nesta expansão de espírito, arrombei a caixa de Pandora de emoções que mantive fechada a cadeado durante toda a minha vida. Primeiro porque estava num país onde há séculos o pragmatismo prevalecia sobre os dogmas religiosos, e por isso não admira que tenha sido um dos primeiros a entender o quão redutor é restringir as relações afectivas e físicas ao binómio homem/mulher. Depois porque um austríaco de olhos verdes fez-me viver tudo aquilo com que mal me atrevia a sonhar.
Nós sabíamos que era uma loucura, que não era justo nos apaixonarmos quando sabíamos que não iria durar, que não valia a pena criar ilusões de que poderíamos continuar a relação quando cada um voltasse ao seu país. Mas o que havia entre nós era tão forte que tudo o que podíamos fazer era vivê-lo e tentar esticar o pouco tempo que dispúnhamos tanto quanto pudéssemos.
Como é que eu não sabia até então como é tão belo o amor e tão ardente a paixão? Como é alucinante sentir o prazer a explodir nos nossos corpos? Como vicia mais do que qualquer droga, como tudo isto nos deixa tão parvos e tão esclarecidos ao mesmo tempo? Como tudo dói quando chega ao fim?
Na minha última noite em Haia, eu e o Johann fizemos amor pela última vez, num acto que falou mais do que todas as palavras de despedida. Deixei-o adormecido no quarto dele, entrei no meu e estendi-me na cama, pronto a romper em choro. Mas eis senão que oiço alguém a chorar, e não era eu. Era a Kasia, uma polaca, também ela a carpir o fim de um romance Erasmus com um italiano. Fui ter com ela, limpei-lhe as lágrimas e ela abraçou-me. Ficámos ainda algum tempo abraçados em silêncio até ela se recompor e agradecer-e. Senti que ao consolá-la, estava também a consolar a mim próprio. Acabei por não chorar, e assim embarquei  no voo de regresso, com a sensação agridoce de que eu vivera este tempo todo a três metros do céu e que chegara a hora dos meus pés reencontrarem o solo.

Lamentei só terme inscrito no Erasmus por um semestre e não para o ano inteiro, mas era o meu último ano de curso, queria viver a minha última Queima das Fitas, tinha medo que houvesse problemas com a equivalência dos créditos, de perder matéria no curso cá que fosse importante, ou que não me tivesse conseguido adaptar bem a viver tanto tempo na Holanda. Tudo receios infundados. Mas agora não havia nada a fazer e a vida seguiu o seu caminho.
Mesmo assim, as marcas do Johann permaneceram muito tempo. Ele elevou de tal forma a fasquia com o que vivi com ele que nos anos seguintes não me conseguia interessar por ninguém e todos aqueles que se interessavam por mim perdiam redondamente na comparação ao Johann. No máximo dos máximos, muito de vez em quando, se a minha libido prevalecia e a solidão apertava, cedi a umas aventuras de uma noite.
E já quando eu receava que nunca mais iria viver nada parecido, apareceu o Filipe. Então percebi que o fogo do amor tanto pode surgir abruptamente da chama como erguer lentamente das brasas. Mas essa história já tu conheces.

Entretanto, minha querida maninha, também tu já perdeste o medo de voar, já estiveste em mais países que eu, já amaste e sofreste por amor. Haverá de chegar o dia em que vais querer deixar a casa do Pai, que ainda é a tua morada oficial em Portugal, e construir o teu lar. Tal como eu o fiz, semeando os meus projectos aqui no nosso país, à espera de colher os frutos, e escolhendo o Filipe para a pessoa a quem eu quero voltar quando chego a casa. Pode ser que o faças noutro país, como o Nelson. Ou então, que continues a voar pelo céu de Europa, mas fazendo de o coração de alguém a tua casa. Quem sabe se não esse homem-mistério de quem tens sempre vontade de procurar quando estás por cá?

Muito e bons voos para ti
do teu irmão Ricardo.