domingo, 2 de junho de 2013

Respirar debaixo de água

Eu sei que é difícil, talvez até mesmo doloroso. Mas aceita-o fazer, nem que seja à laia do desafio, para tentar superar os teus limites, que eu farei o mesmo. 

Procura esquecer-me, o meu rosto, o meu nome, o meu toque, o meu cheiro, o nosso passado. Se não conseguires apagar-me da tua memória, guarda-me num canto recôndito dela, como um frasco de pickles perdido numa prateleira da dispensa. Resiste à tentação de me procurares, à sedução da imagem daquilo que tudo poderia ter sido, ao ferrão da solidão e ao receio de que nunca serás mais feliz. 

Repete para ti, as vezes que forem precisas, que não há mais volta a dar, que já tentámos tudo o que devíamos ter tentado, que insistir em ficarmos juntos é correr atrás do engano. Chora se for preciso, insulta-me e maldiz-me se isso te fizer sentir melhor. Podes dizer que sou insensível e cruel, que eu é que me estou a enganar, que estou a virar as costas ao maior amor da minha vida. Tudo o que for necessário para mudares de rumo. Ao contrário do Monopólio, não ganhamos nada por voltar à casa de partida.

Entende que se continuarmos assim, tudo o que tivemos de doce e belo irá se amargar na frustração da nossa teimosia e destruir as boas memórias. O melhor que pudemos fazer para salvar a nossa história é conservá-la muito bem, para que possa continuar a saber bem recordá-la.

Vamos redireccionar toda a energia que gastámos a chocar constantemente contra este muro de desilusões e utilizá-la para alcançarmos outras vistas, acreditando que no fim de tudo, de toda a dor  e dificuldade, será mais fácil caminhar numa vida onde o outro já não faz parte e onde as saudades, daquilo que queríamos que fôssemos (afinal diferente daquilo que nós éramos).

Pode ser então que caminhar no escuro não seja assustador, respirar debaixo de água não agrida os  pulmões,  pensar em nós não magoe o coração. Pelo menos, acredita que vale a pena tentar, até porque sempre ouvimos dizer que para trás não é caminho. 


           

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Futuro Inadiável

- Ainda estás em pé?
- Sim, não tinha sono, fiquei a ver televisão. Voltaste a trabalhar até tarde?
- Fiquei. Só quero ir dormir.
- Tudo bem. Eu também vou.

Agora faz todo o sentido. Afinal notava-se tão bem, a cara dela não enganava, como a amiga de ambos afirmou. Ele é que nunca tinha reparado, alienado pela sequencial rotina quotidiana que se comprazia em perpetuar, partindo do princípio que ela também fazia o mesmo. Há quanto tempo teria ela deixado de afinar pelo mesmo diapasão e começado a marchar por outros compassos? Há quanto tempo é que ela tem outro homem na sua vida? E porque é que ao descobrir isso, ele não consegue sentir raiva ou despeito, apenas a desilusão de quem viu as suas ilusões caídas por terra. E talvez a tristeza de algo que terminou. Ou de não mais ser ele o homem que lhe faz povoar aquelas sensações. Será que alguma vez o foi?

- A Ana está toda esplendorosa e tudo graças a ti. Nem sei como estando vocês casados há tanto tempo, conseguem ainda ter tanta paixão na vossa relação?
- Achas?
- A cara dela não engana ninguém. É a cara de uma mulher que tem paixão e bom sexo na sua vida.

Ele matutou durante longo tempo as palavras da amiga Bárbara, ditas durante um jantar entre casais amigos na casa dela. Paixão? Bom sexo? Mas se eles mal tinham qualquer contacto íntimo há vários meses, senão há mais de um ano...Foi então que pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, ele olhou para ela com olhos de ver e descobriu que algo tinha mudado nela. Não sabia descrever o que seria mas era bastante nítido no rosto dela. Mesmo comedida e discreta, como sempre, havia algo diferente no olhar, no sorriso, até a pele parecia mais resplandecente e fresca.
À medida que ia reflectindo, ia descobrindo os sinais que ele tinha ignorado e que eram tão óbvios. Há coisa de três meses, ela chegava frequentemente mais tarde a casa, por vezes depois da hora do jantar, desculpando-se vagamente com o seu trabalho e encontros com amigas. Era habitual ela também chegar algo despenteada, com a roupa desalinhada. Até reparou em algumas marcas nos braços, nas costas e nas coxas, como se alguém a tivesse agarrado com força. Afinal, Bárbara tinha razão. A cara dela não enganava ninguém. Aliás ela sempre fora tão transparente. Bastaria ter reparado um pouco mais atentamente. 

Como sempre, os dois deitam-se na cama de costas voltadas um para o outro, colocando uma distância em que os movimentos de um não importunem o outro. Durante tempo, ele sentiu segurança e até conforto nisso. Quem é que precisa de dormir sempre abraçado a alguém? Era frequente que sempre que um se atrevesse a fazer alguma meiguice, o outro repelisse. Estou de rastos, não me apetece. Já era assim há tanto tempo. Milhentas perguntas lhe percorrem o pensamento. Quem é esse outro homem, o que fazem eles os dois, onde, quando. E porquê esse outro e não o homem com quem ela casou. 

Talvez porque, mais do que ele gostaria de admitir, sempre foram um para o outro mais uns sócios de uma empresa do que amantes e amados. Eram ambos pessoas, racionais, lógicas, pouco dadas a sentimentos de arrebatamento e gestos vistosos. Apreciavam a discrição, as rotinas bem delineadas, as sopas e o descanso. Havia amizade, entendimento, afecto, até mesmo amor fraterno e mais não era preciso. Que diabo, eles até eram atraentes aos olhos de um e de outro, e o sexo entre ambos podia não ser estonteante mas era bem satisfatório, pelo menos ao princípio. Não se costuma dizer que a paixão é uma sensação demasiado fugaz e volátil para nela construir algo sólido? Só que na verdade sempre faltou algo indizível que distinguisse o seu casamento de uma empresa de actividades conjugais. Mas continuaram a insistir, porque eram assim que eles eram, porque detestavam desistir dos seus planos, porque achavam natural que assim fosse. E depois, por preguiça, por comodismo, por medo do imprevisível da mudança. Até que ela encontrou um novo mundo de sensações nos braços de outro homem e ele ficou rendido à evidência de que já não haveria volta a dar.

Sentado na cama, ele observa-a, adormecida, talvez encontrando em sonhos aquele a quem se entrega como ela nunca se entregou a ele. Matutando, mais um pouco, descobre que houve alturas em que ela o encarou, quase desafiante, a pedir que ele reparasse na mudança do seu rosto. A pedir talvez mesmo que a sua infidelidade fosse descoberta, que ele ficasse furioso, que fosse prestar contas ao outro, que ele se importasse. E agora que ele sabe, não se capaz de nada mais do que ficar imóvel, encadeado com o brilho da revelação, paralisado pelo medo de um futuro inadiável que ele preferiria ainda assim que fosse antes apagado e enfadonho do que incerto e solitário. Mas então, quase sem reconhecer a sua voz, ele acorda-a sacudindo-lhe um ombro e diz:

- Ana?
- O que foi?
- Desculpa não ter reparado antes.

 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Passo de Gigante

Querida Ju:

Se eu pudesse reescrever a nossa história, só mudaria o início. Teríamos conhecido em Portugal, numa tarde de Sábado banhada pelo sol, onde descobrias pela primeira vez as maravilhas do meu país. Estarias a mirar o belíssimo azul do céu português e a indagar se seria o mesmo tom do céu que conhecias dos teus anos de menina no Brasil. Ouvir-se-ia o bramido do mar ou o torpor do Tejo. Já eu iria a passear sem destino, perdido como sempre nos meus pensamentos. Mas fosse como fosse, haveria de reparar assim de repente em ti e iria meter conversa, olá o meu nome é Nelson. Ao que responderias, abandonado a tua timidez habitual e adoptando a pose descontraída de uma actriz numa cena de telenovela da Rede Globo, muito prazer, me chamo Juliana, que lindo dia esse aqui em Portugal.
Sim, eu sei, que cena mais foleira, mais brega. Nem nos livros da Danielle Steel que a Mónica lia na adolescência. Quem sempre teve jeito para a escrita era o Ricardo. Já eu, que sempre fui mais virado para a ciência, quando me dá para o lirismo só me saem pirosices.

Mas seja como for, achei tão pouco romântico o nosso primeiro encontro. Apesar de ser uma cidade bonita, Oslo não inspira encontros apaixonados como Lisboa, Paris, Roma, Praga ou até Londres. Ainda para mais num dia frio de Abril ainda com tanto resquício invernoso, num bar apinhado de gente onde fomos apresentados por amigos comuns que achavam que só por falarmos a mesma língua, iria ser reinventada a pólvora. Por acaso, até acabou por resultar mas levou o seu tempo até vermos um no outro um potencial amante. Aos poucos fui percebendo que o que eu julgava ser o teu excesso de timidez era apenas o teu jeito introvertido de ser, já que não és de conviver só por conviver e preferes uma interacção mais selectiva, de um para um, a moveres-te no meio de um grande grupo.
Eu também sou um bocado assim, só perdi os meus modos de bicho de mato nos meus anos universitários, onde, pela primeira vez longe do lar parental, investi a sério em fazer amizades e em tornar-me um ser mais sociável. Foi também aí que descobri que dispunha de encantos masculinos que não escapavam os sagazes olhares femininos. A minha iniciação amorosa e sexual trouxe-me algumas desilusões e deixou-me baralhado, mas ajudou-me a descobrir o meu potencial de sedutor. Verificando que eu não era nada feio e deixando de ser parvo, fui jogando as cartas que tinha no jogo da sedução. Durante anos a fio, foi isso que me bastou,  a excitação do jogo, o lançar dos dados, o prazer das vitórias e o desportivismo das derrotas. Se eu fazia planos que envolvesse amor constante e uma relação sólida, era apenas em certos recantos da minha mente onde me permitia a sonhos distantes, quase abstractos. Sonhos que só ganhariam consistência e solidez quando tivesse a mente e o coração abertos para tal. Mas que sempre existiram.

Quando cheguei à Noruega, ainda julgava esses sonhos distantes e difusos e a minha ideia de relacionamentos era dar uso ao meu charme de sul-europeu e animar umas quantas nórdicas. Até porque tinha o coração ainda dorido pela perda da minha mãe. Foi então que naquele bar apinhado, fomos apresentados e nem a tua introversão te impediu de me presenteares com uns sorrisos nem a minha cabeçudice me impediu de estar atento ao teu encanto subtil. Meses mais tardes depois, com mais alguns encontros em grupo e depois alguns a dois, o que me parecia ténue começou a tornar-se nítido. E apercebi-me que afinal estava preparado para receber aquilo que estavas disposta a dar-me, com vontade de te retribuir com juros. Os desejos que acalentava em mim já não eram os mesmos, já não queria conquistar várias mulheres, havia uma mulher que queria conquistar várias vezes. E queria ser o homem que pudesse ser o teu rochedo e o teu repouso de guerreira, onde pudesses despir as tuas defesas e entregares-te ao conforto interior que tanto te tinha faltado na tua vida.
Claro que nem tudo foi rosas, era a primeira relação amorosa séria para ambos e por vezes era como se caminhássemos por um campo minado, com medo dos obstáculos e dos inevitáveis tédios e desilusões mútuas. Eles vieram e foram, mas lá soubemos escapar minimamente ilesos. Nos piores momentos, não houve discussões, desconfianças e aborrecimentos que me impedissem de me esquecer por muito tempo os motivos porque gosto de ti. Ou para gostar de ti mesmo sem motivo. Por isso, se um início mais idílico para a nossa história é a única coisa que gostaria de reescrever, já é muito bom. Até porque os arrependimentos são uma carga demasiado pesada.

E eis-nos chegados a este momento, onde acabo de ter dar um anel e falamos em casamento. É mais um passo de gigante e convém não menorizar. É fácil dizer que um papel passado não muda nada, mas nem sempre é assim. Conheço casos de casais felizes em que a oficialização despoletou sensações, por vezes inconscientes, de propriedade e possessão. Nem toda a certeza e racionalidade do mundo por vezes nos poderá valer quando nos tropeçarmos em mais lombas no caminho. Mas até agora, não me importo dos trambolhões que dei contigo e que dei por ti. Por isso, espero que este papel seja apenas uma das muitas páginas ainda por escrever.

Tchi amo,
Nelson   




quinta-feira, 28 de março de 2013

5%


Se me queres ensinar a ser optimista, confiante e equilibrado como tu, primeiro admite que ninguém consegue ser isso tudo a 100%, quando muito 95%.

Depois mostra-me um pouco dos teus 5%:
- que também tu duvidas de ti próprio quando aparentemente não tens nenhuma razão para tal.
- que também os insultos te afectam e que os elogios são difíceis de acreditar.
- que também tu ficas irritado ou frustrado por motivos irrisórios.
- que também tu dizes palavras erradas, deixas cair coisas, dás passos em falso e escorregas em cascas de banana.

Depois mostra-me que apesar disso tudo, não te envergonhas desses teus 5%.

Só aí é que vou aprender contigo quando me dizes para não me ir abaixo com paus, pedras e más palavras. E se cair, vou aprender contigo a sacudir o pó das calças, levantar-me de novo e regressar a uma fabulosa percentagem de optimismo e autoconfiança. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Parabéns

Hoje faço trinta e seis anos. 

Esta manhã olhei-me ao espelho e senti o peso dos anos, como se em cinco anos tivesse envelhecido dez. Logo eu que durante tanto tempo dei a impressão de ser mais novo que era. Lembras-te de quando nos conhecemos, ficaste espantada ao descobrir que eu era um ano mais velho que tu? 
Agora olho para mim, vejo que o tom dos meus olhos está um pouco mais baço, que o meu rosto é um cruzamento de rugas de expressão, que a minha barriga, outrora bem lisa, está cada vez mais proeminente. Pelo menos, ainda tenho bastante cabelo e são ainda discretas as entradas da calvície, mas suponho que seja uma questão de tempo até começar a ver diariamente uma grande quantidade de cabelos que ficam na escova. 
Nunca fui um homem muito bonito mas o que sempre me faltou em beleza clássica, eu conseguia compensar com charme atrevido e uma lábia apurada. Por algum motivo escolheste casar comigo quando tinhas pretendentes mais garbosos. Hoje em dia duvido seriamente que, com ou sem uma personalidade fabulosa, seja um homem com quem uma mulher imagine uma noite de paixão tórrida. Não que isso me importe, pois a única mulher a quem eu ainda quero inspirar desejo és tu.
Tu raramente desabafas sobre esse assunto, mas sei que também a ti o peso da idade às vezes te martiriza. Reparo na tua expressão desconsolado quando te demoras ao espelho buscando defeitos, alguns visíveis, outros que só tu reconheces. Na tua relutância em me ofereceres a visão da tua nudez. Nos teus suspiros surdos a gabar a fortuna daquelas que têm a sorte e/ou o dinheiro que impedem que a idade não mate o viço dos seus corpos. No teu ar de dúvida quando eu te digo que estás longe de estar danificada por todas as transformações no teu corpo, sobretudo desde que deste à luz a Maria.

É verdade, a idade não perdoa, o tempo não pára, aos poucos vamos perdendo encantos e capacidades, e isso é mesmo lixado como o caraças. Sobretudo porque dá aquela ideia que se vai perdendo mais do que se ganha. Ainda para mais agora que os tempos estão difíceis e o raio da crise tira a paciência a qualquer um. Sim, o meu negócio até não vai nada mal, mas tu bem sabes toda a ginástica financeira e anímica que tenho executado para que não seja engolido pelas malhas da crise e para manter a nossa vida no mais frugal dos confortos. Tal como tens suado as estopinhas no teu trabalho sem a certeza se a remota estabilidade que existe hoje não se desvanecerá amanhã. Depois de tudo isso, ainda existe a Maria, a quem nunca negamos a atenção que ela necessita e merece. Posto isto, são tantos os dias em que caímos redondos na cama sem vontade para algo mais. E de tempos em tempos, em vez de um casamento parece que temos uma empresa de actividades financeiras e puericulturais. 

Mas quando esta noite tiveste energia para me procurar na cama e me contaminaste com essa vontade de nos unirmos, foi como por breves momentos, tudo fosse mais leve e suportável. Não foi uma maratona de prazer alucinante como aquelas em que nos aventurávamos antigamente, não foi nada extraordinário mas que foi muito bom ter acontecido. Não foi por eu fazer anos, não foi por dever conjugal, não foi para enganar o fardo da rotina. Obrigado pelo teu presente, que me fez recordar tanta coisa esquecida e acordar tanta coisa adormecida.
Hoje faço anos mas tu é que mereces os parabéns.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Motivos para Sonhar

Sonhar não é negar a realidade. É sentir que a vida é mais do que aquilo que podemos ver e que a lógica pode explicar. Claro que não se pode viver sempre com os pés fora do chão mas qual é a graça de viver uma vida onde nunca se olha para o alto, para além das nuvens e das coisas visíveis? Diria mesmo que perder a capacidade de sonhar é deixar de viver. 

Claro que nem todos os sonhos são possíveis. É com alguma pena minha que sei que nunca irei imitar o voo das aves, pois não tenho asas para bater e descolar do chão sempre que me apetecesse. Nunca irei  teletransportar-me à velocidade do pensamento para onde quer que eu queira ir. Nunca terei a capacidade de me tornar invisível, de levantar camiões, de ler os pensamentos dos outros ou de prever o futuro.
Mas a maioria dos sonhos são possíveis e alguns deles estão à distância do nosso esforço e perseverança, de pequenos projectos a grandes feitos. Coisas que imaginámos e que construímos aos poucos até se tornarem coisas bem reais. 
Mas existem dois tipos de sonhos que são mais saborosos. Aqueles que surgem na vida inesperadamente, por vezes até sem nos termos dado conta que os tínhamos sonhado e que nos levam a lugares inimaginados, geograficamente e/ou espiritualmente. E aqueles que sempre nos pareceram tão distantes e inacessíveis e que por fim se concretizam, para nos relembrar que vale sempre a pena sonhar.

Durante tantos anos que sonhava um dia em ver as palavras que escrevia em cadernos ou em ficheiros de Word ganharem forma nas folhas de um livro. E agora que este sonho é agora matéria, palavras, folha, papel, capa, livro, ainda me parece tão surreal, como se eu estivesse ainda para acordar e encarar a luz de um novo dia. Mas aos poucos, vou-me apercebendo que estas palavras que durante tanto tempo foram só minhas, pertencem agora a todos que as lerem. E agora sonho que elas irão rumar por caminhos que nunca percorrerei e que talvez durem muito para além da minha vida.

É muito fácil procurarmos refúgio na desilusão, rendermo-nos ao medo, sentirmos que não merecemos mais do que aquilo que temos. Tantas vezes que me senti assim! Mas eis que um sonho meu se tornou realidade como outros que anteriormente acalentei. E descubro novamente todos os motivos pelos quais eu sento-me na pedra filosofal de Gedeão e deixo que a minha vida seja comandada pelo sonho: para saborear os sonhos que concretizam, para sorrir com aqueles que são impossíveis mas que não se perde nada em efabular, para seguir em frente com aqueles que estão a um relativamente fácil alcance. Ou para pura e simplesmente sentir-me vivo.




sábado, 16 de fevereiro de 2013

Plano de Navegação

Mónica

Depois de mais de um ano e meio  a fazer de amante misterioso, ainda custa-me um pouco a acreditar que passámos de relação essencialmente casual a relação indubitavelmente oficial, com direito a almoços de família, fotografias ternurentas no Facebook e saídas em público, apresentando-nos como casal feliz e apaixonado. E agora?

Agora, como tu disseste, vamos com calma. O futuro é uma longa e sinuosa estrada onde é fácil nos perdermos, mesmo quando elaboramos o melhor plano de navegação. Por isso, tal como o fizemos sob o manto do semi-secretismo, continuamos a gerir o melhor que podemos os momentos que passamos juntos e aqueles que passamos afastados. Tu continuas no teu trabalho enfiada em aviões que aterram aqui e ali e eu continuo a apreciar os momentos de saudável solidão onde aproveito para renovar energias para a minha vida quotidiana, como aprendi a fazer desde menino e moço. Assim como, desde que te conheço, também vou recorrendo a essa minha apetência para a introspecção para expiar as minhas ânsias de te reencontrar.

Desde que oficializámos a relação, lá vou levando com as inevitáveis perguntas mais ou menos veladas sobre casamento, filhos, se vais deixar o teu trabalho para ficares a tempo inteiro em Portugal, se a distância vai afectar o relacionamento. A tudo isto vou respondendo de modo vago: talvez, não sei, quem sabe, ainda é cedo, logo se vê. Por vezes até fico um pouco irritado, a pensar que é um assunto que só a nós dois devia dizer respeito e que nem todas as relações felizes têm que passar imperativamente pelo casamento ou até pela coabitação. Mas depois percebo que é natural que as pessoas que me rodeiam queiram saber essas coisas e que até eu próprio já quis saber concretamente dos planos dos meus casais amigos.

Por enquanto, tal como não se mexe numa equipa ganhadora, também acho que se o que temos não está a funcionar mal, não precisamos de mudar a táctica. Já foi bastante importante para mim teres tido a coragem de arriscar a dar um passo em frente e corresponderes ao meu amor. Creio que tal como eu, já deves ter sentido que a emocionante excitação de um relacionamento secreto não se perdeu ao se expor à clara luz do dia. Pelo contrário, estar contigo continua a ser um desejo intenso e um matiz de felicidade que nunca pensei que pudesse experimentar e que sinto estar longe de escassear. E cada vez que te tenho nos meu braços, chego à conclusão que é por sabermos apreciar os nossos momentos distantes um do outro que conseguimos aperceber do valor real de estarmos juntos. 

O que estiver para vir e o que houver para mudar são ainda caminhos por percorrer. E mesmo se um dia a vida nos obrigar a tomar direcções opostas, sei que os passos que demos juntos levaram-nos para bem mais longe do que julgávamos ser possível. Perdem-se alguns mistérios, surgem outros. 

Loving you,

Salvador