quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Olimpismo está em nós


O Olimpismo é algo que me apaixona desde que me conheço. No entanto, dada a minha ausência de talento para o desporto e de meios para deslocar-me às cidades que organizavam os demais Jogos Olímpicos, sentia que seria esta uma paixão confinada aos meus sonhos mais utópicos. A minha experiência como voluntário nos Jogos da Lusofonia 2009 em Lisboa e nos Jogos Desportivos da CPLP 2012 em Mafra ajudou porém a fazer com que esses sonhos não fossem tão distantes, até porque, sem o saber concretamente, pude assistir nesses eventos a várias manifestações dos valores olímpicos: a excelência, o respeito e a amizade.

Esse sonhos ficaram ainda mais próximos quando assisti a uma sessão da Academia Olímpica de Portugal em Almada e me vi rodeado de pessoas dos mais diversos quadrantes que partilhavam a minha paixão pelo Olimpismo. Quando eu soube do concurso de bolseiros para Sessão de Jovens Participantes da Academia Olímpica Internacional de 2013, que oferecia a oportunidade de ir a Olímpia, o berço dos Jogos Olímpicos, e conviver com jovens do mundo inteiro, não hesitei em participar. Quando recebi a carta a dizer-me que eu seria um dos dois representantes portugueses na Sessão, mal podia acreditar, tive que reler a carta mais vezes. Foi uma espera ansiosa até ao dia 11 de Junho, quando embarquei rumo à Grécia.

Quaisquer adjectivos que possam descrever as duas semanas que vivi em Atenas, Delfi e Olímpia parecem tão insignificantes diante tudo o que me foi permitido sentir e experimentar. Éramos mais de 160 jovens de 81 países, de diferentes realidades e percursos de vida, de atletas olímpicos e paralímpicos a académicos, treinadores e gestores. Porém, aquilo que nos diferenciava perdia importância diante daquilo que nos unia, ao ponto de nos parecer estranho que a Humanidade tenho sempre erguido muros ao longo dos tempos a diferenciar as pessoas - nações, religiões, raças, géneros - quando basta apenas uma palavra, ou até um sorriso, para os derrubar.

No ano do 150.º aniversário do nascimento de Pierre de Coubertin, o tema da Sessão foi o Legado Olímpico e como ele pode influenciar e fortalecer a juventude atual. Imersos na herança cultural da Grécia Antiga, atentos aos conhecimento adquiridos nas palestras, contagiados pelo entusiasmo dos nossos coordenadores, dedicados às diversas actividades desportivas, artísticas e lúdicas, inquisitivos na reflexão dos temas que surgiam nos grupos de discussão, acabámos por descobrir que o legado olímpico está em nós. Os valores olímpicos da excelência, do respeito e da amizade, que vivemos nestas duas semanas de forma tão palpável que até parecia bastar respirar o ar de Olímpia, estavam em nós. Ao vivermos segundo estes valores pelos meandros das nossas vidas, estaremos a promover o Movimento Olímpico e a transmitir o seu legado para o futuro.

Ao longo da sua história, os Jogos Olímpicos deixaram inúmeros legados, positivos e negativos, materiais e imateriais, sendo cada qual uma lição que as gerações vindouras devem aprender. Mas mais do que o impacto organizativo positivo de uns Jogos Olímpicos, as proezas incríveis dos atletas ou mesmo a promoção do desporto, da saúde e do meio ambiente, o verdadeiro sucesso do Movimento Olímpico será inspirar cada geração a lutar por um mundo melhor, dando o melhor de si e deitando abaixo as barreiras que teimam sempre em separar as pessoas. Tal como o fizemos em Olímpia.

Na hora da despedida, não evitámos as lágrimas. Ao fim daquelas duas semanas, passámos de estranhos a amigos. Agora éramos todos portugueses, gregos, sírios, guatemaltecos, japoneses, chilenos, australianos suazis. Todos cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, ateus. Todos desportistas, poetas, professores e bailarinos. Todos humanos, pois os valores olímpicos são os valores da Humanidade. Mesmo se as nossas vidas nunca mais se voltarem a cruzar, pelo menos guardaremos as memórias de Olímpia, que perdurarão para o resto da vida. Tal como a vontade de viver a vida pelos valores do Olimpismo e fazer com que o seu legado seja cada vez mais forte. Viemos de tão longe, para perceber que o Olimpismo sempre esteve em nós.  

domingo, 25 de agosto de 2013

Antologia Poética 1999-2002 (Volume 2)

ÍRIS

Quando tudo parece irreal,
Respiramos e votamos a viver.
Tudo tão belo que custa a crer.

Foste um sonho tornado real
Quando vieste no sol da manhã
Fresca e doce como rubra romã.

Agora o real parece ilusão
Juntos, outro mundo começou
Soltamos alegria numa canção
Foste rio que em meu mar desaguou

Mesmo se for de curta duração
Valeu por aquilo que em mim mudou
No espelho - olhar uma revelação
Descobri aquele que eu sou

O OUTRO

Que tem o Outro que não tenho eu?
Como é que ele te fará feliz?
Queria saber, mas ninguém me diz.

Porque é que teu coração não é meu?
Porque te entregas a esse alguém,
Em vez de mim, que te amo como ninguém?

O outro é mais belo, mais forte?
Ele ama-te com a mesma paixão
Como a que trago no meu coração?
Quem me dera ter a sua sorte!

Ele jurou amar-te até à morte?
Também será teu o seu coração?
Só sei que ele tem a tua devoção
E eu tenho um amor sem norte.

INVEJA 

Sou o que tem voz e não deixam falar.
Sou o que tem luz e não pode alumiar.
Sou o que amo sem poder ser amado.

Sou um sonho que foram acordar.
Sou uma ave impedida de voar.
Sou o que não é perdido nem achado.

Não sei porque calam este meu grito!
Talvez por inveja, má conselheira...
Pois eu hei de ir além da cegueira
E encontrar a imagem do Infinito!

Vossas ameaças não me deixam aflito.
Deixem a inveja, gente traiçoeira!
Passem a ser gente verdadeira
E cantem comigo num longo grito.

DEDOS FLUTUANTES

Dedos flutuantes na minha pele...
No meu torso, lábios ardentes...
Uma mão nas minhas costas quentes

Fitam-me uns olhos cor de mel
Que brilham pela noite escura,
Cheios de amor e doce ternura

Vem ao refúgio dos meus braços
Mostra-me teu encanto de mulher
Sente o calor dos meus abraços
Sedentos de abraçar e de viver.

Ofereço-te um amor puro e louco
Como aquele que sonhaste ter.
Tudo o que te disser, ainda é pouco
Só me amando poderás saber...

A TUA MENTIRA

Dói-me o coração, consome-me a ira...
Na minha boca, o sabor do agro fel...
Porque acreditei na tua mentira.

Prendido em tua garras, vampira
Sem coração, violenta e cruel,
Porque acreditei na tua mentira.

Fui tão cego por querer amar
E por me dar a quem não devia.
Amaldiçoada para sempre vais ficar
Por não teres senão uma alma vazia.

Mentirosa - é o que te irão chamar!
Será como a minha, a tua agonia.
O teu castigo será sempre errar
Por entre uma vida incolor e fria.

AMIGOS

Quantas noites passámos acordados
Debaixo de estórias, risos e segredos,
Contando as nossas esperanças e medos.

Quantos momentos vivemos apaixonados
Pela vida que estava à nossa frente,
Pela nossa amizade sempre presente.

E as canções que sabíamos de cor?
E o chocolate quente a fumegar?
E as conversas sobre a vida e o amor,
Sobre o mundo que queríamos abraçar?

Amigos! Que saudades do calor
Do abraço que só amigos sabem dar!
Crescemos e separámo-nos, mas com fervor
A nossa amizade iremos sempre acalentar!  


sábado, 24 de agosto de 2013

Antologia Poética 1999-2002 (Volume 1)

VEM

Onde estás? Quando vais regressar?
Os meus dedos querem o teu corpo tocar
E cheirar a tua essência de âmbar e mel.

Vens pela penumbra, com o tecto luar
Ofereces-me doce para te beijar
Cada centímetro da tua alva pele

A tua irmã, a Noite, é tua guardiã
Que te acorda no romper da manhã
Deixando-me só, nu e adormecido
Assim encontrado e logo perdido

Até ao dia acabar e vier o cheiro a maçã
Que fica preso nos lençóis até ao Amanhã
Fico eu a navegar sem nenhum sentido
Vem! Volta se para ti sou querido

ESTRELA 

Estrela adormecida aqui ao meu lado
Brilha neste meu coração pesado
A quem tu deste tamanha leveza.

Dá-me o teu corpo de neve caiado
O teu rosto de luz enfeitado 
Para apagar de vez a minha tristeza

Antes de ti, meu coração não amou
Vivia, mas vivo não estava
Até que o teu amor lhe mostrou
A luz de que ele nescessitava

É por ti que hoje sou como sou
Vulcão expelindo a doce lava
Na minha vida tudo mudou
E apenas uma estrela bastava.


SECRETAMENTE

Amiga, esposa, amante, segredo?
Só eu sei quem tu és para mim:
És a cura para qualquer medo

Enquanto a cidade dorme por fim,
Fugimos para o nosso abrigo ledo,
Entramos pelo secreto jardim.

Amamo-nos assim tão secretamente
E mais ninguém sabes que somos nós
Somos seres abertos de corpo e mente
Que a noite embala e nos deixa a sós.

Que as estrelas sejam uma corrente
Que nos protege e vela sobre nós.
Amar-nos-emos assim secretamente,
E a brisa espalhará o riso da nossa voz.

A VIDA

Quem me dera que a Vida fosse cinema
Que a Vida fosse bela como um poema, 
Que tudo corresse como eu quisesse!

Na minha vida, há tanta tristeza...
Atrás do Sonho, há tanta dureza...
Aquilo que eu queria, não acontece!

Tentei nos meus sonhos me refugiar,
Mas só de Sonho, não vive ninguém.
A doce Vida é fria e dura também
E nada posso fazer para a evitar.

Resta-me pela tristeza atravessar, 
Guardar na minh' alma todo o bem.
Afinal, se calhar a Dor também
Faz com que seja tão bom sonhar!

PAISAGEM 

Campos verdes a perder de vista!
Céu azul para além do horizonte!
Coisas belas a minha alma avista!

Planícies verdes, alta serra!
Água de lagos e água de monte
Trazem riqueza a esta terra.

Como passa depressa esta paisagem
Diante dos meus olhos viajantes.
Comboio louco em linhas errantes
Traz para mim tão bela imagem.

É tudo tão rápido, parece miragem
A visão destes campos verdejantes.
Que paisagens tão radiantes
Se me estendem nesta longa viagem.

QUERO 

Quero ser o luar no teu rosto
A entrar sereno pela janela
Numa noite quente de Agosto.

Quero beijar a tua pele
Ter os meus dedos a navegar nela
O meu nariz cheirando o teu mel.

Ser um beijo pousado na tua boca,
Aconchegar a ternura do teu seio, 
Amar-te sem medos nem receio,
Gritar até a minha voz ficar rouca.

Quero dar-me à paixão louca,
Quero um amor livre, sem freio!
Enfim, és tudo o que eu anseio
E toda a ansiedade para mim é pouca.


sábado, 10 de agosto de 2013

Pontos de Vista 2 (ou Um Autocarro Chamado Desejo)

Não, hoje não vou pensar em sexo. O que é demais, enjoa, andar a comer gajas pode ser bom para o ego e para o currículo, fazer-me sentir atraente e macho, mas ao fim e ao cabo, permanece esta sensação que ando a colar os cacos da minha existência com cuspo. Vou antes pensar noutra coisa, no próximo jogo do Benfica, no próximo CD que vou comprar, nas camisas que eu tenho de passar a ferro, em comprar comida para o hamster, na situação política do Médio Oriente, quem vai ser o próximo expulso da Casa dos Segredos. Tudo menos sexo.

Detesto quando o autocarro vem apinhado cheio de gente, com velhas mais enrugadas que passas de uva a grunhir, tipos barrigudos e sebosos a soprarem-me no pescoço, putos a berrar por isto e aquilo, os encontrões, as paragens bruscas e sei lá mais o quê. Felizmente que hoje não está muito cheio, dá para eu ir sentadinha, e que bem que me sabe, apesar de me fazer pensar que já me ando a cansar como uma velha.

Raios parta a ladeira. Mas quem é que se lembrou de erguer um cidade cheia de subidas e descidas. Para quê andar de montanha russa quando se vive em Coimbra? Basta apanhar um autocarro.

Quando chegar a casa, tenho que rapar as pernas. Malditos pêlos que crescem como ervas daninhas.

Será que a sopa de anteontem ainda está boa? Não me apetece fazer nada para o jantar. Tudo bem que eu até sei cozinhar algumas coisas e não sou daqueles que compram sempre comida feitam, mas hoje não estou com pachorra nenhuma para tachos. Se a sopa estiver azeda, faço umas tostas mistas e tá a andar.

Pelos menos, o meu cabelo está bem hoje. Gosto deste tom de coloração, É louro o suficiente para me dar um visual novo mas suficientemente acastanhado para que não passe por loura bimba. Na próxima vez que for ao hiper, tenho que comprar outra embalagem.

Aquela fulana que vi há dias no Insónias tinha cá umas mamas...Merda, lá estou eu a pensar nestas porrar. Eu até nem gosto de mulheres com grandes mamas. Bem basta daquela vez que a Daniela, que tinha uns grandes airbags, quase me sufocava com o peito quando se deitou em cima de mim.

Qual é o mal de estar sozinha? Era melhor andar com um traste qualquer só por que sim, se calhar! Só poque não tenho ninguém há oito meses, não me vou transformar numa velhota solteirona com duas dúzias de gatos. Ainda só tenho 28 anos, tenho muito tempo. E mesmo que não encontre mais nenhum tipo decente, hei de ser feliz à minha maneira.

Pronto, agora que reparei naquela ali ao lado, não consigo deixar de a observar. Mas pronto, não tem mal nenhum se for discreto. Está sentada, mas parece-me bastante bem feitinha. E sem ser demasiado vistosa.

Agora que reparo, aquele ali ao lado é muito giro. Gosto do cabelo dele assim meio despenteado, tem ombros largos e olhos escuros. Sim senhor. Se calhar é daqueles que têm as gajas que quer e não quer, mas se é, pelo menos não parece assim muito emproado.

Ela agora virou a cara para mim. Bolas, é mesmo gira. Que olhos, que boca. Decididamente é daquelas que são para manter. Pelo menos, do tipo que eu quereria que fosse minha namorada, se eu estivesse virado para isso.

E se ele sentasse ao pé de mim e metesse conversa?

"Olá, o meu nome é Vítor, e o teu?"

"Chamo-me Laura. Gosto de filmes a preto e branco, livros do José Luís Peixoto, pintura abstracta, flores secas, comida chinesa, adoro Tindersticks e Nouvelle Vague. Tenho um canário."

"Eu tenho um hamster. Gosto de hóquei em patins, snooker, filmes do Tarantino, frango assado, pipocas, pintura abstracta, Radiohead e Sigur Rós."

"Não gosto de homens peludos, é só pelos de lavatório. Gosto de homens sérios e trabalhadores, mas com sentido de humor."

"Gosto de mulheres atenciosas mas que não se detêm em pormenores e pormenorzinhos, que gostem de sair e conversar. Divertidas mas que saibam ser sérias quando é preciso."

"No fundo, só quero alguém com quem eu gosto de estar, mesmo sem fazer nada."

"No fundo, só preciso, como toda a gente, que alguém esteja ao meu lado."

"És tu, és tu quem eu procuro!"

"Se não há ninguém que te ame, posso ser eu?"

"Dá-me a tua mão, meu amor!"

"Abraça-me, my love!"

Paragem. Rua António José de Almeida.

Bem, saio aqui. Decididamente, tenho de deixar de pensar em gajas.

Que pena, ele está a ir-se embora. Bem, a vida continua dentro de momentos. 



  

domingo, 2 de junho de 2013

Respirar debaixo de água

Eu sei que é difícil, talvez até mesmo doloroso. Mas aceita-o fazer, nem que seja à laia do desafio, para tentar superar os teus limites, que eu farei o mesmo. 

Procura esquecer-me, o meu rosto, o meu nome, o meu toque, o meu cheiro, o nosso passado. Se não conseguires apagar-me da tua memória, guarda-me num canto recôndito dela, como um frasco de pickles perdido numa prateleira da dispensa. Resiste à tentação de me procurares, à sedução da imagem daquilo que tudo poderia ter sido, ao ferrão da solidão e ao receio de que nunca serás mais feliz. 

Repete para ti, as vezes que forem precisas, que não há mais volta a dar, que já tentámos tudo o que devíamos ter tentado, que insistir em ficarmos juntos é correr atrás do engano. Chora se for preciso, insulta-me e maldiz-me se isso te fizer sentir melhor. Podes dizer que sou insensível e cruel, que eu é que me estou a enganar, que estou a virar as costas ao maior amor da minha vida. Tudo o que for necessário para mudares de rumo. Ao contrário do Monopólio, não ganhamos nada por voltar à casa de partida.

Entende que se continuarmos assim, tudo o que tivemos de doce e belo irá se amargar na frustração da nossa teimosia e destruir as boas memórias. O melhor que pudemos fazer para salvar a nossa história é conservá-la muito bem, para que possa continuar a saber bem recordá-la.

Vamos redireccionar toda a energia que gastámos a chocar constantemente contra este muro de desilusões e utilizá-la para alcançarmos outras vistas, acreditando que no fim de tudo, de toda a dor  e dificuldade, será mais fácil caminhar numa vida onde o outro já não faz parte e onde as saudades, daquilo que queríamos que fôssemos (afinal diferente daquilo que nós éramos).

Pode ser então que caminhar no escuro não seja assustador, respirar debaixo de água não agrida os  pulmões,  pensar em nós não magoe o coração. Pelo menos, acredita que vale a pena tentar, até porque sempre ouvimos dizer que para trás não é caminho. 


           

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Futuro Inadiável

- Ainda estás em pé?
- Sim, não tinha sono, fiquei a ver televisão. Voltaste a trabalhar até tarde?
- Fiquei. Só quero ir dormir.
- Tudo bem. Eu também vou.

Agora faz todo o sentido. Afinal notava-se tão bem, a cara dela não enganava, como a amiga de ambos afirmou. Ele é que nunca tinha reparado, alienado pela sequencial rotina quotidiana que se comprazia em perpetuar, partindo do princípio que ela também fazia o mesmo. Há quanto tempo teria ela deixado de afinar pelo mesmo diapasão e começado a marchar por outros compassos? Há quanto tempo é que ela tem outro homem na sua vida? E porque é que ao descobrir isso, ele não consegue sentir raiva ou despeito, apenas a desilusão de quem viu as suas ilusões caídas por terra. E talvez a tristeza de algo que terminou. Ou de não mais ser ele o homem que lhe faz povoar aquelas sensações. Será que alguma vez o foi?

- A Ana está toda esplendorosa e tudo graças a ti. Nem sei como estando vocês casados há tanto tempo, conseguem ainda ter tanta paixão na vossa relação?
- Achas?
- A cara dela não engana ninguém. É a cara de uma mulher que tem paixão e bom sexo na sua vida.

Ele matutou durante longo tempo as palavras da amiga Bárbara, ditas durante um jantar entre casais amigos na casa dela. Paixão? Bom sexo? Mas se eles mal tinham qualquer contacto íntimo há vários meses, senão há mais de um ano...Foi então que pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, ele olhou para ela com olhos de ver e descobriu que algo tinha mudado nela. Não sabia descrever o que seria mas era bastante nítido no rosto dela. Mesmo comedida e discreta, como sempre, havia algo diferente no olhar, no sorriso, até a pele parecia mais resplandecente e fresca.
À medida que ia reflectindo, ia descobrindo os sinais que ele tinha ignorado e que eram tão óbvios. Há coisa de três meses, ela chegava frequentemente mais tarde a casa, por vezes depois da hora do jantar, desculpando-se vagamente com o seu trabalho e encontros com amigas. Era habitual ela também chegar algo despenteada, com a roupa desalinhada. Até reparou em algumas marcas nos braços, nas costas e nas coxas, como se alguém a tivesse agarrado com força. Afinal, Bárbara tinha razão. A cara dela não enganava ninguém. Aliás ela sempre fora tão transparente. Bastaria ter reparado um pouco mais atentamente. 

Como sempre, os dois deitam-se na cama de costas voltadas um para o outro, colocando uma distância em que os movimentos de um não importunem o outro. Durante tempo, ele sentiu segurança e até conforto nisso. Quem é que precisa de dormir sempre abraçado a alguém? Era frequente que sempre que um se atrevesse a fazer alguma meiguice, o outro repelisse. Estou de rastos, não me apetece. Já era assim há tanto tempo. Milhentas perguntas lhe percorrem o pensamento. Quem é esse outro homem, o que fazem eles os dois, onde, quando. E porquê esse outro e não o homem com quem ela casou. 

Talvez porque, mais do que ele gostaria de admitir, sempre foram um para o outro mais uns sócios de uma empresa do que amantes e amados. Eram ambos pessoas, racionais, lógicas, pouco dadas a sentimentos de arrebatamento e gestos vistosos. Apreciavam a discrição, as rotinas bem delineadas, as sopas e o descanso. Havia amizade, entendimento, afecto, até mesmo amor fraterno e mais não era preciso. Que diabo, eles até eram atraentes aos olhos de um e de outro, e o sexo entre ambos podia não ser estonteante mas era bem satisfatório, pelo menos ao princípio. Não se costuma dizer que a paixão é uma sensação demasiado fugaz e volátil para nela construir algo sólido? Só que na verdade sempre faltou algo indizível que distinguisse o seu casamento de uma empresa de actividades conjugais. Mas continuaram a insistir, porque eram assim que eles eram, porque detestavam desistir dos seus planos, porque achavam natural que assim fosse. E depois, por preguiça, por comodismo, por medo do imprevisível da mudança. Até que ela encontrou um novo mundo de sensações nos braços de outro homem e ele ficou rendido à evidência de que já não haveria volta a dar.

Sentado na cama, ele observa-a, adormecida, talvez encontrando em sonhos aquele a quem se entrega como ela nunca se entregou a ele. Matutando, mais um pouco, descobre que houve alturas em que ela o encarou, quase desafiante, a pedir que ele reparasse na mudança do seu rosto. A pedir talvez mesmo que a sua infidelidade fosse descoberta, que ele ficasse furioso, que fosse prestar contas ao outro, que ele se importasse. E agora que ele sabe, não se capaz de nada mais do que ficar imóvel, encadeado com o brilho da revelação, paralisado pelo medo de um futuro inadiável que ele preferiria ainda assim que fosse antes apagado e enfadonho do que incerto e solitário. Mas então, quase sem reconhecer a sua voz, ele acorda-a sacudindo-lhe um ombro e diz:

- Ana?
- O que foi?
- Desculpa não ter reparado antes.

 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Passo de Gigante

Querida Ju:

Se eu pudesse reescrever a nossa história, só mudaria o início. Teríamos conhecido em Portugal, numa tarde de Sábado banhada pelo sol, onde descobrias pela primeira vez as maravilhas do meu país. Estarias a mirar o belíssimo azul do céu português e a indagar se seria o mesmo tom do céu que conhecias dos teus anos de menina no Brasil. Ouvir-se-ia o bramido do mar ou o torpor do Tejo. Já eu iria a passear sem destino, perdido como sempre nos meus pensamentos. Mas fosse como fosse, haveria de reparar assim de repente em ti e iria meter conversa, olá o meu nome é Nelson. Ao que responderias, abandonado a tua timidez habitual e adoptando a pose descontraída de uma actriz numa cena de telenovela da Rede Globo, muito prazer, me chamo Juliana, que lindo dia esse aqui em Portugal.
Sim, eu sei, que cena mais foleira, mais brega. Nem nos livros da Danielle Steel que a Mónica lia na adolescência. Quem sempre teve jeito para a escrita era o Ricardo. Já eu, que sempre fui mais virado para a ciência, quando me dá para o lirismo só me saem pirosices.

Mas seja como for, achei tão pouco romântico o nosso primeiro encontro. Apesar de ser uma cidade bonita, Oslo não inspira encontros apaixonados como Lisboa, Paris, Roma, Praga ou até Londres. Ainda para mais num dia frio de Abril ainda com tanto resquício invernoso, num bar apinhado de gente onde fomos apresentados por amigos comuns que achavam que só por falarmos a mesma língua, iria ser reinventada a pólvora. Por acaso, até acabou por resultar mas levou o seu tempo até vermos um no outro um potencial amante. Aos poucos fui percebendo que o que eu julgava ser o teu excesso de timidez era apenas o teu jeito introvertido de ser, já que não és de conviver só por conviver e preferes uma interacção mais selectiva, de um para um, a moveres-te no meio de um grande grupo.
Eu também sou um bocado assim, só perdi os meus modos de bicho de mato nos meus anos universitários, onde, pela primeira vez longe do lar parental, investi a sério em fazer amizades e em tornar-me um ser mais sociável. Foi também aí que descobri que dispunha de encantos masculinos que não escapavam os sagazes olhares femininos. A minha iniciação amorosa e sexual trouxe-me algumas desilusões e deixou-me baralhado, mas ajudou-me a descobrir o meu potencial de sedutor. Verificando que eu não era nada feio e deixando de ser parvo, fui jogando as cartas que tinha no jogo da sedução. Durante anos a fio, foi isso que me bastou,  a excitação do jogo, o lançar dos dados, o prazer das vitórias e o desportivismo das derrotas. Se eu fazia planos que envolvesse amor constante e uma relação sólida, era apenas em certos recantos da minha mente onde me permitia a sonhos distantes, quase abstractos. Sonhos que só ganhariam consistência e solidez quando tivesse a mente e o coração abertos para tal. Mas que sempre existiram.

Quando cheguei à Noruega, ainda julgava esses sonhos distantes e difusos e a minha ideia de relacionamentos era dar uso ao meu charme de sul-europeu e animar umas quantas nórdicas. Até porque tinha o coração ainda dorido pela perda da minha mãe. Foi então que naquele bar apinhado, fomos apresentados e nem a tua introversão te impediu de me presenteares com uns sorrisos nem a minha cabeçudice me impediu de estar atento ao teu encanto subtil. Meses mais tardes depois, com mais alguns encontros em grupo e depois alguns a dois, o que me parecia ténue começou a tornar-se nítido. E apercebi-me que afinal estava preparado para receber aquilo que estavas disposta a dar-me, com vontade de te retribuir com juros. Os desejos que acalentava em mim já não eram os mesmos, já não queria conquistar várias mulheres, havia uma mulher que queria conquistar várias vezes. E queria ser o homem que pudesse ser o teu rochedo e o teu repouso de guerreira, onde pudesses despir as tuas defesas e entregares-te ao conforto interior que tanto te tinha faltado na tua vida.
Claro que nem tudo foi rosas, era a primeira relação amorosa séria para ambos e por vezes era como se caminhássemos por um campo minado, com medo dos obstáculos e dos inevitáveis tédios e desilusões mútuas. Eles vieram e foram, mas lá soubemos escapar minimamente ilesos. Nos piores momentos, não houve discussões, desconfianças e aborrecimentos que me impedissem de me esquecer por muito tempo os motivos porque gosto de ti. Ou para gostar de ti mesmo sem motivo. Por isso, se um início mais idílico para a nossa história é a única coisa que gostaria de reescrever, já é muito bom. Até porque os arrependimentos são uma carga demasiado pesada.

E eis-nos chegados a este momento, onde acabo de ter dar um anel e falamos em casamento. É mais um passo de gigante e convém não menorizar. É fácil dizer que um papel passado não muda nada, mas nem sempre é assim. Conheço casos de casais felizes em que a oficialização despoletou sensações, por vezes inconscientes, de propriedade e possessão. Nem toda a certeza e racionalidade do mundo por vezes nos poderá valer quando nos tropeçarmos em mais lombas no caminho. Mas até agora, não me importo dos trambolhões que dei contigo e que dei por ti. Por isso, espero que este papel seja apenas uma das muitas páginas ainda por escrever.

Tchi amo,
Nelson