terça-feira, 1 de outubro de 2013

Jogo de Tabuleiro

Francisco:

Sabes o que invejo na tua relação com a Rita? Não é o facto de vocês os dois já serem pessoas espetaculares isoladamente e de juntos parecerem ainda melhor, cientes da noção do que amar não é encaixar peças de puzzle mas sim ser o mesmo peão no percurso neste jogo de tabuleiro que é a vida, mesmo quando os dados não estão favoráveis. Nem sequer a aura de tranquilidade que vocês transmitem a quem vos rodeia, dando a ideia que a vossa relação é quase perfeita e sem esforço. O que mais invejo é como a vossa relação é algo de bastante sincero e adulto sem deixar de ser intenso e emotivo e há quatro anos que tem sido assim, tirando obviamente o período em que vocês andaram a brincar aos amigos coloridos sem admitir que já eram bem mais que isso durante mais tempo do que deviam.

Infelizmente as duas relações mais importantes que eu tive falharam por falta de sinceridade e por eu me ter deixado iludir durante demasiado tempo. Quando conheci a Ana, o meu corpo tinha perdido vinte e quatro quilos mas a minha mente não. Vampira como ela era, apercebeu-se disso e alimentava-se das minhas inseguranças. Quando olho para trás, até tenho estas imagens de eu sentindo-me miserável e ela com um discreto sorriso no canto da boca, como uma sanguessuga reabastecida. Perdido entre os conflitos do que eu era por fora e de como me sentia por dentro, e extasiado por finalmente me sentir desejado, fui a sua dose diária durante quase dois anos. Acreditei piamente que era somente porque tinha emagrecido que as coisas tinham mudado e finalmente havia alguém interessado em mim. Mas como continuava com os mesmos 24 quilos por dentro, acreditava sempre que a Ana me fazia sentir que ela era o melhor que eu iria arranjar, que ela poderia facilmente arranjar alguém melhor mas que queria ficar melhor, que não obteria amor e sexo de (o facto de ela ser muito boa na cama só piorava as coisas) de mais ninguém. Foi preciso ter dado comigo no chão da casa de banho após mais uma discussão cheia de drama que ela armou, sem forças para me levantar, com a moral na merda e um vómito a querer subir pelo estômago para finalmente ser sincero comigo mesmo. Assim que comecei a sê-lo, passei a ver a Ana pelo aquilo que era realmente era e o poder que ela tinha sobre mim foi-se dissipando.

Já com a Lígia, o engano foi só meu. Depois do que eu passei com a Ana, foi reconfortante entregar-me à atenção com que ela me rodeou, sentir-me desejado por uma mulher mais velha. A Lígia era totalmente diferente da Ana: madura, culta, apaziguadora, reconhecendo o meu valor mas chamando-me à razão se eu estivesse a ser menos correcto. Mas acabei por me envolver mais do que devia, porque era mais certo que isto era uma relação a prazo, pois eu nunca poderia ser aquele que ela precisava: alguém que a ajudasse a reconstruir a vida e ser um pai para o filho dela, apesar de eu também ter-me afeiçoado bastante ao miúdo. A Lígia ainda deixou-se ir, refugiada no conforto de ter alguém a seu lado, mas acabou por abrir os olhos e abrir os meus também. E lá acabou por seguir cada um com a sua vida, de forma civilizada. 

Tudo isto para dizer que fui para a cama com a Sandra, aquela rapariga que tu e a Rita com quem eu estava quando nos viram à saída do cinema. Temos andado de sair em termos amigáveis, apesar de desde cedo haver uma atracção mútua. Mas com o AVC do Pedro e tanta coisa que ando a questionar na minha vida, a Sandra apanhou-me num momento mais vulnerável e entreguei-me ao momento. Se não tivesse sido bom, tudo seria mais fácil, bastava voltar à casa de partida (sem receber 2000 escudos, não sei quantos euros são no Monopólio actual). Mas o problema é que foi bastante bom. Talvez ainda melhor do que com a Ana ou a Lígia. Foi por ter sido tão bom com elas as duas é que me deixei iludir. Por isso, agora tenho que manter a minha game face, e para onde rolem os dados, vou tentar sincero desde o princípio, mesmo que alguém saia magoado. Se não tivesse um instinto tão avariado no jogo afectivo, até podia dizer que isto com a Sandra pode ser algo promissor. Mas agora tudo o que posso fazer é lançar os dados.

Miguel          


domingo, 22 de setembro de 2013

Cortar o Fôlego

Pedro:

Acabaste de nos pregar o maior susto das nossas vidas. Mas ainda bem que estávamos todos juntos quando te deu aquele maldito AVC. Nem deves imaginar a agonia enorme que foi ver-te cair inanimado assim de repente, como um boneco que ficou sem pilhas. Felizmente que o meu treino dos bombeiros, a rapidez do Miguel em chamar o 112 e a lucidez inquebrável do Francisco quando toda a gente estava no limite da histeria, aliada ao profissionalismo dos médicos que te operaram, ajudaram a que tudo isto não tivesse passado de um negro mas breve pesadelo. As coisas teriam sido certamente muito diferentes se isso te tivesse acontecido quando estivesses sozinho.
Porém o pesadelo ainda se arrastou por dias, e além de nós os três, toda a gente que te ama passou esta longa e negra sucessão de horas: os teus pais, a tua irmã, a mãe da tua filha. E até mesmo a Joaninha, sem que ninguém tivesse tido a coragem de lhe contar a gravidade de situação, pressentiu que esteve perto de ficar sem pai. Todas estas pessoas andaram todos estes dias como se o chão lhes fugisse debaixo dos pés a qualquer momento, ora com o peito apertado de tanta agonia e ansiedade, ora em estado de zombie sonâmbulo.

Na manhã do dia em que acordámos do pesadelo, ainda sem saber que horas deixarias os cuidados intensivos e voltarias a abrir os olhos, o Francisco, o Miguel e eu fomos tomar o pequeno almoço a uma pastelaria perto do hospital. Qual é o nosso espanto quando o Miguel, que não tocava em qualquer coisa doce há quase um ano, decide pedir uma enorme bola-de-berlim a transbordar de creme. Mesmo sem que eu ou o Francisco disséssemos algo, as nossas caras de espantados eram tão transparentes que ele declarou:

"Sejamos sinceros. Se nós imaginássemos que isto iria acontecer a um de nós os quatro, o mais provável era que fosse eu. E o Pedro o mais improvável. Ele praticou todos os desportos possíveis, levanta pesos desde antes da puberdade, é ultra-cuidadoso com aquilo que come, se deu mais de cinco passas de cigarro na vida já foi muito. E no entanto, é ele que está todo entubado nos cuidados intensivos e sabe-se lá como vai sair desta. Por mim, está decidido, não me vou privar nada. Sim, vou continuar a ter cuidado com a alimentação, vou continuar com as sessões de tortura no ginásio, mas se me apetecer o bolo mais calórico, podem ter a certeza que vou comer. A vida é curta e dela só levamos os prazeres que soubemos tirar dela."

Foi então o Francisco tomou logo ali a resolução de deixar de fumar. Sim, estamos a falar do Francisco, que fuma cigarros como quem come tremoços. Mas ele foi categórico em afirmar que quando merdas destas acontecem, se já é suficientemente complicado quando se tem pulmões saudáveis, com pulmões forrados a alcatrão torna-se impossível. O certo é que ao fim de três dias, ainda não pegou em nenhum cigarro. Claro que por vezes revela os sintomas da privação de fumar, mas sendo obstinado como é, será difícil o Francisco ceder. 
Eu também tomei naquele momento e naquele sítio uma resolução, mas não disse a ninguém senão a mim próprio. Ainda não sei bem como hei de fazer, ainda tenho medo do que vão pensar quando o revelar - incluindo tu. Mas sinto que é um risco que tenho de correr e que me irei arrepender amargamente senão o tomar. Já bem basta as outras tantas vezes que não segui um rumo por medo de arriscar...

Porém, agora o importante é que tu despertaste do nosso pesadelo colectivo, como luz a invadir a noite escura e aqueles que te amam recuperaram a respiração sustida. A operação não deixou sequelas e em breve estarás de novo em casa. Não tarda nada, todo este drama não passará de um obstáculo no teu caminho que soubeste transpôr e continuarás a ser o mesmo Pedro de sempre. Irás a ser de novo o óptimo pai que és para a Joaninha, o irmão protector da Cláudia, o filho atencioso para os teus pais, e o companheiro ideal para aquela que procuras e um dia encontrarás. E nós continuaremos a aborrecermo-nos com a tua mania de exercício, da comida saudável, de nos chamares molengões e a adorar-te por isso e muito, muito mais. Tal como a saúde, a amizade é um bem precioso e ter-vos como amigos é algo inestimável, sobretudo para quem viveu uma infância e adolescência solitária como eu. 

Por isso, recupera a tua saúde e respira a vida que quase te escapou (e que a nós três também pareceu cortar-nos o fôlego). E já sabes que nós os três estamos aqui para o que der e vier. 

Tomás 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Olimpismo está em nós


O Olimpismo é algo que me apaixona desde que me conheço. No entanto, dada a minha ausência de talento para o desporto e de meios para deslocar-me às cidades que organizavam os demais Jogos Olímpicos, sentia que seria esta uma paixão confinada aos meus sonhos mais utópicos. A minha experiência como voluntário nos Jogos da Lusofonia 2009 em Lisboa e nos Jogos Desportivos da CPLP 2012 em Mafra ajudou porém a fazer com que esses sonhos não fossem tão distantes, até porque, sem o saber concretamente, pude assistir nesses eventos a várias manifestações dos valores olímpicos: a excelência, o respeito e a amizade.

Esse sonhos ficaram ainda mais próximos quando assisti a uma sessão da Academia Olímpica de Portugal em Almada e me vi rodeado de pessoas dos mais diversos quadrantes que partilhavam a minha paixão pelo Olimpismo. Quando eu soube do concurso de bolseiros para Sessão de Jovens Participantes da Academia Olímpica Internacional de 2013, que oferecia a oportunidade de ir a Olímpia, o berço dos Jogos Olímpicos, e conviver com jovens do mundo inteiro, não hesitei em participar. Quando recebi a carta a dizer-me que eu seria um dos dois representantes portugueses na Sessão, mal podia acreditar, tive que reler a carta mais vezes. Foi uma espera ansiosa até ao dia 11 de Junho, quando embarquei rumo à Grécia.

Quaisquer adjectivos que possam descrever as duas semanas que vivi em Atenas, Delfi e Olímpia parecem tão insignificantes diante tudo o que me foi permitido sentir e experimentar. Éramos mais de 160 jovens de 81 países, de diferentes realidades e percursos de vida, de atletas olímpicos e paralímpicos a académicos, treinadores e gestores. Porém, aquilo que nos diferenciava perdia importância diante daquilo que nos unia, ao ponto de nos parecer estranho que a Humanidade tenho sempre erguido muros ao longo dos tempos a diferenciar as pessoas - nações, religiões, raças, géneros - quando basta apenas uma palavra, ou até um sorriso, para os derrubar.

No ano do 150.º aniversário do nascimento de Pierre de Coubertin, o tema da Sessão foi o Legado Olímpico e como ele pode influenciar e fortalecer a juventude atual. Imersos na herança cultural da Grécia Antiga, atentos aos conhecimento adquiridos nas palestras, contagiados pelo entusiasmo dos nossos coordenadores, dedicados às diversas actividades desportivas, artísticas e lúdicas, inquisitivos na reflexão dos temas que surgiam nos grupos de discussão, acabámos por descobrir que o legado olímpico está em nós. Os valores olímpicos da excelência, do respeito e da amizade, que vivemos nestas duas semanas de forma tão palpável que até parecia bastar respirar o ar de Olímpia, estavam em nós. Ao vivermos segundo estes valores pelos meandros das nossas vidas, estaremos a promover o Movimento Olímpico e a transmitir o seu legado para o futuro.

Ao longo da sua história, os Jogos Olímpicos deixaram inúmeros legados, positivos e negativos, materiais e imateriais, sendo cada qual uma lição que as gerações vindouras devem aprender. Mas mais do que o impacto organizativo positivo de uns Jogos Olímpicos, as proezas incríveis dos atletas ou mesmo a promoção do desporto, da saúde e do meio ambiente, o verdadeiro sucesso do Movimento Olímpico será inspirar cada geração a lutar por um mundo melhor, dando o melhor de si e deitando abaixo as barreiras que teimam sempre em separar as pessoas. Tal como o fizemos em Olímpia.

Na hora da despedida, não evitámos as lágrimas. Ao fim daquelas duas semanas, passámos de estranhos a amigos. Agora éramos todos portugueses, gregos, sírios, guatemaltecos, japoneses, chilenos, australianos suazis. Todos cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, ateus. Todos desportistas, poetas, professores e bailarinos. Todos humanos, pois os valores olímpicos são os valores da Humanidade. Mesmo se as nossas vidas nunca mais se voltarem a cruzar, pelo menos guardaremos as memórias de Olímpia, que perdurarão para o resto da vida. Tal como a vontade de viver a vida pelos valores do Olimpismo e fazer com que o seu legado seja cada vez mais forte. Viemos de tão longe, para perceber que o Olimpismo sempre esteve em nós.  

domingo, 25 de agosto de 2013

Antologia Poética 1999-2002 (Volume 2)

ÍRIS

Quando tudo parece irreal,
Respiramos e votamos a viver.
Tudo tão belo que custa a crer.

Foste um sonho tornado real
Quando vieste no sol da manhã
Fresca e doce como rubra romã.

Agora o real parece ilusão
Juntos, outro mundo começou
Soltamos alegria numa canção
Foste rio que em meu mar desaguou

Mesmo se for de curta duração
Valeu por aquilo que em mim mudou
No espelho - olhar uma revelação
Descobri aquele que eu sou

O OUTRO

Que tem o Outro que não tenho eu?
Como é que ele te fará feliz?
Queria saber, mas ninguém me diz.

Porque é que teu coração não é meu?
Porque te entregas a esse alguém,
Em vez de mim, que te amo como ninguém?

O outro é mais belo, mais forte?
Ele ama-te com a mesma paixão
Como a que trago no meu coração?
Quem me dera ter a sua sorte!

Ele jurou amar-te até à morte?
Também será teu o seu coração?
Só sei que ele tem a tua devoção
E eu tenho um amor sem norte.

INVEJA 

Sou o que tem voz e não deixam falar.
Sou o que tem luz e não pode alumiar.
Sou o que amo sem poder ser amado.

Sou um sonho que foram acordar.
Sou uma ave impedida de voar.
Sou o que não é perdido nem achado.

Não sei porque calam este meu grito!
Talvez por inveja, má conselheira...
Pois eu hei de ir além da cegueira
E encontrar a imagem do Infinito!

Vossas ameaças não me deixam aflito.
Deixem a inveja, gente traiçoeira!
Passem a ser gente verdadeira
E cantem comigo num longo grito.

DEDOS FLUTUANTES

Dedos flutuantes na minha pele...
No meu torso, lábios ardentes...
Uma mão nas minhas costas quentes

Fitam-me uns olhos cor de mel
Que brilham pela noite escura,
Cheios de amor e doce ternura

Vem ao refúgio dos meus braços
Mostra-me teu encanto de mulher
Sente o calor dos meus abraços
Sedentos de abraçar e de viver.

Ofereço-te um amor puro e louco
Como aquele que sonhaste ter.
Tudo o que te disser, ainda é pouco
Só me amando poderás saber...

A TUA MENTIRA

Dói-me o coração, consome-me a ira...
Na minha boca, o sabor do agro fel...
Porque acreditei na tua mentira.

Prendido em tua garras, vampira
Sem coração, violenta e cruel,
Porque acreditei na tua mentira.

Fui tão cego por querer amar
E por me dar a quem não devia.
Amaldiçoada para sempre vais ficar
Por não teres senão uma alma vazia.

Mentirosa - é o que te irão chamar!
Será como a minha, a tua agonia.
O teu castigo será sempre errar
Por entre uma vida incolor e fria.

AMIGOS

Quantas noites passámos acordados
Debaixo de estórias, risos e segredos,
Contando as nossas esperanças e medos.

Quantos momentos vivemos apaixonados
Pela vida que estava à nossa frente,
Pela nossa amizade sempre presente.

E as canções que sabíamos de cor?
E o chocolate quente a fumegar?
E as conversas sobre a vida e o amor,
Sobre o mundo que queríamos abraçar?

Amigos! Que saudades do calor
Do abraço que só amigos sabem dar!
Crescemos e separámo-nos, mas com fervor
A nossa amizade iremos sempre acalentar!  


sábado, 24 de agosto de 2013

Antologia Poética 1999-2002 (Volume 1)

VEM

Onde estás? Quando vais regressar?
Os meus dedos querem o teu corpo tocar
E cheirar a tua essência de âmbar e mel.

Vens pela penumbra, com o tecto luar
Ofereces-me doce para te beijar
Cada centímetro da tua alva pele

A tua irmã, a Noite, é tua guardiã
Que te acorda no romper da manhã
Deixando-me só, nu e adormecido
Assim encontrado e logo perdido

Até ao dia acabar e vier o cheiro a maçã
Que fica preso nos lençóis até ao Amanhã
Fico eu a navegar sem nenhum sentido
Vem! Volta se para ti sou querido

ESTRELA 

Estrela adormecida aqui ao meu lado
Brilha neste meu coração pesado
A quem tu deste tamanha leveza.

Dá-me o teu corpo de neve caiado
O teu rosto de luz enfeitado 
Para apagar de vez a minha tristeza

Antes de ti, meu coração não amou
Vivia, mas vivo não estava
Até que o teu amor lhe mostrou
A luz de que ele nescessitava

É por ti que hoje sou como sou
Vulcão expelindo a doce lava
Na minha vida tudo mudou
E apenas uma estrela bastava.


SECRETAMENTE

Amiga, esposa, amante, segredo?
Só eu sei quem tu és para mim:
És a cura para qualquer medo

Enquanto a cidade dorme por fim,
Fugimos para o nosso abrigo ledo,
Entramos pelo secreto jardim.

Amamo-nos assim tão secretamente
E mais ninguém sabes que somos nós
Somos seres abertos de corpo e mente
Que a noite embala e nos deixa a sós.

Que as estrelas sejam uma corrente
Que nos protege e vela sobre nós.
Amar-nos-emos assim secretamente,
E a brisa espalhará o riso da nossa voz.

A VIDA

Quem me dera que a Vida fosse cinema
Que a Vida fosse bela como um poema, 
Que tudo corresse como eu quisesse!

Na minha vida, há tanta tristeza...
Atrás do Sonho, há tanta dureza...
Aquilo que eu queria, não acontece!

Tentei nos meus sonhos me refugiar,
Mas só de Sonho, não vive ninguém.
A doce Vida é fria e dura também
E nada posso fazer para a evitar.

Resta-me pela tristeza atravessar, 
Guardar na minh' alma todo o bem.
Afinal, se calhar a Dor também
Faz com que seja tão bom sonhar!

PAISAGEM 

Campos verdes a perder de vista!
Céu azul para além do horizonte!
Coisas belas a minha alma avista!

Planícies verdes, alta serra!
Água de lagos e água de monte
Trazem riqueza a esta terra.

Como passa depressa esta paisagem
Diante dos meus olhos viajantes.
Comboio louco em linhas errantes
Traz para mim tão bela imagem.

É tudo tão rápido, parece miragem
A visão destes campos verdejantes.
Que paisagens tão radiantes
Se me estendem nesta longa viagem.

QUERO 

Quero ser o luar no teu rosto
A entrar sereno pela janela
Numa noite quente de Agosto.

Quero beijar a tua pele
Ter os meus dedos a navegar nela
O meu nariz cheirando o teu mel.

Ser um beijo pousado na tua boca,
Aconchegar a ternura do teu seio, 
Amar-te sem medos nem receio,
Gritar até a minha voz ficar rouca.

Quero dar-me à paixão louca,
Quero um amor livre, sem freio!
Enfim, és tudo o que eu anseio
E toda a ansiedade para mim é pouca.


sábado, 10 de agosto de 2013

Pontos de Vista 2 (ou Um Autocarro Chamado Desejo)

Não, hoje não vou pensar em sexo. O que é demais, enjoa, andar a comer gajas pode ser bom para o ego e para o currículo, fazer-me sentir atraente e macho, mas ao fim e ao cabo, permanece esta sensação que ando a colar os cacos da minha existência com cuspo. Vou antes pensar noutra coisa, no próximo jogo do Benfica, no próximo CD que vou comprar, nas camisas que eu tenho de passar a ferro, em comprar comida para o hamster, na situação política do Médio Oriente, quem vai ser o próximo expulso da Casa dos Segredos. Tudo menos sexo.

Detesto quando o autocarro vem apinhado cheio de gente, com velhas mais enrugadas que passas de uva a grunhir, tipos barrigudos e sebosos a soprarem-me no pescoço, putos a berrar por isto e aquilo, os encontrões, as paragens bruscas e sei lá mais o quê. Felizmente que hoje não está muito cheio, dá para eu ir sentadinha, e que bem que me sabe, apesar de me fazer pensar que já me ando a cansar como uma velha.

Raios parta a ladeira. Mas quem é que se lembrou de erguer um cidade cheia de subidas e descidas. Para quê andar de montanha russa quando se vive em Coimbra? Basta apanhar um autocarro.

Quando chegar a casa, tenho que rapar as pernas. Malditos pêlos que crescem como ervas daninhas.

Será que a sopa de anteontem ainda está boa? Não me apetece fazer nada para o jantar. Tudo bem que eu até sei cozinhar algumas coisas e não sou daqueles que compram sempre comida feitam, mas hoje não estou com pachorra nenhuma para tachos. Se a sopa estiver azeda, faço umas tostas mistas e tá a andar.

Pelos menos, o meu cabelo está bem hoje. Gosto deste tom de coloração, É louro o suficiente para me dar um visual novo mas suficientemente acastanhado para que não passe por loura bimba. Na próxima vez que for ao hiper, tenho que comprar outra embalagem.

Aquela fulana que vi há dias no Insónias tinha cá umas mamas...Merda, lá estou eu a pensar nestas porrar. Eu até nem gosto de mulheres com grandes mamas. Bem basta daquela vez que a Daniela, que tinha uns grandes airbags, quase me sufocava com o peito quando se deitou em cima de mim.

Qual é o mal de estar sozinha? Era melhor andar com um traste qualquer só por que sim, se calhar! Só poque não tenho ninguém há oito meses, não me vou transformar numa velhota solteirona com duas dúzias de gatos. Ainda só tenho 28 anos, tenho muito tempo. E mesmo que não encontre mais nenhum tipo decente, hei de ser feliz à minha maneira.

Pronto, agora que reparei naquela ali ao lado, não consigo deixar de a observar. Mas pronto, não tem mal nenhum se for discreto. Está sentada, mas parece-me bastante bem feitinha. E sem ser demasiado vistosa.

Agora que reparo, aquele ali ao lado é muito giro. Gosto do cabelo dele assim meio despenteado, tem ombros largos e olhos escuros. Sim senhor. Se calhar é daqueles que têm as gajas que quer e não quer, mas se é, pelo menos não parece assim muito emproado.

Ela agora virou a cara para mim. Bolas, é mesmo gira. Que olhos, que boca. Decididamente é daquelas que são para manter. Pelo menos, do tipo que eu quereria que fosse minha namorada, se eu estivesse virado para isso.

E se ele sentasse ao pé de mim e metesse conversa?

"Olá, o meu nome é Vítor, e o teu?"

"Chamo-me Laura. Gosto de filmes a preto e branco, livros do José Luís Peixoto, pintura abstracta, flores secas, comida chinesa, adoro Tindersticks e Nouvelle Vague. Tenho um canário."

"Eu tenho um hamster. Gosto de hóquei em patins, snooker, filmes do Tarantino, frango assado, pipocas, pintura abstracta, Radiohead e Sigur Rós."

"Não gosto de homens peludos, é só pelos de lavatório. Gosto de homens sérios e trabalhadores, mas com sentido de humor."

"Gosto de mulheres atenciosas mas que não se detêm em pormenores e pormenorzinhos, que gostem de sair e conversar. Divertidas mas que saibam ser sérias quando é preciso."

"No fundo, só quero alguém com quem eu gosto de estar, mesmo sem fazer nada."

"No fundo, só preciso, como toda a gente, que alguém esteja ao meu lado."

"És tu, és tu quem eu procuro!"

"Se não há ninguém que te ame, posso ser eu?"

"Dá-me a tua mão, meu amor!"

"Abraça-me, my love!"

Paragem. Rua António José de Almeida.

Bem, saio aqui. Decididamente, tenho de deixar de pensar em gajas.

Que pena, ele está a ir-se embora. Bem, a vida continua dentro de momentos. 



  

domingo, 2 de junho de 2013

Respirar debaixo de água

Eu sei que é difícil, talvez até mesmo doloroso. Mas aceita-o fazer, nem que seja à laia do desafio, para tentar superar os teus limites, que eu farei o mesmo. 

Procura esquecer-me, o meu rosto, o meu nome, o meu toque, o meu cheiro, o nosso passado. Se não conseguires apagar-me da tua memória, guarda-me num canto recôndito dela, como um frasco de pickles perdido numa prateleira da dispensa. Resiste à tentação de me procurares, à sedução da imagem daquilo que tudo poderia ter sido, ao ferrão da solidão e ao receio de que nunca serás mais feliz. 

Repete para ti, as vezes que forem precisas, que não há mais volta a dar, que já tentámos tudo o que devíamos ter tentado, que insistir em ficarmos juntos é correr atrás do engano. Chora se for preciso, insulta-me e maldiz-me se isso te fizer sentir melhor. Podes dizer que sou insensível e cruel, que eu é que me estou a enganar, que estou a virar as costas ao maior amor da minha vida. Tudo o que for necessário para mudares de rumo. Ao contrário do Monopólio, não ganhamos nada por voltar à casa de partida.

Entende que se continuarmos assim, tudo o que tivemos de doce e belo irá se amargar na frustração da nossa teimosia e destruir as boas memórias. O melhor que pudemos fazer para salvar a nossa história é conservá-la muito bem, para que possa continuar a saber bem recordá-la.

Vamos redireccionar toda a energia que gastámos a chocar constantemente contra este muro de desilusões e utilizá-la para alcançarmos outras vistas, acreditando que no fim de tudo, de toda a dor  e dificuldade, será mais fácil caminhar numa vida onde o outro já não faz parte e onde as saudades, daquilo que queríamos que fôssemos (afinal diferente daquilo que nós éramos).

Pode ser então que caminhar no escuro não seja assustador, respirar debaixo de água não agrida os  pulmões,  pensar em nós não magoe o coração. Pelo menos, acredita que vale a pena tentar, até porque sempre ouvimos dizer que para trás não é caminho.