quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Acordar da Noite

O acordar da noite chegou assim de repente
Luz matinal em ternos fios de cetim
O Sol pousado num encanto reluzente
E a tua pele confundida em mim

Vem-me à memória as horas que a noite roubou
Horas em fuga que quisemos abrandar
Mas mesmo assim, entre nós porém ficou
O que de mãos dadas queríamos começar  

Não sei bem o que veio depois
Talvez suspiros impressos a dois
Adormecer sem medo de cansar
Ou da lucidez de um novo acordar

O acordar da noite chegou num abraço velado
Anunciando um estranho amanhecer
Parecendo natural ter-te aqui ao meu lado
Prenúncio do que estava por acontecer

Agora eu sei que esta noite não foi acaso
Foi um rio de estrelas rumando à foz
E agora nem me importa o motivo ou o prazo
De tudo aquilo que nasceu entre nós

E a noite acabou, chegou o dia
Por cá ainda ficou a magia
Dos doces ardis tecidos ao luar
Para nos unirmos neste acordar.
 



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Aranhões na Cabeça

Vanessa

Só podia ser mesmo a Sofia, a nossa delegada de turma, a nossa eterna líder, para se lembrar de organizar um jantar de reunião da nossa turma do 7.º ao 9.º ano. E de repente foi todo um desenterrar de memórias no Facebook, com gente que eu não via há quase vinte anos e de coisas que pareciam para sempre trancadas na minha mente. E na noite do reencontro, todo um desfilar de exclamações de espanto, ataques de riso e algumas lágrimas à mistura.
Alguns dos nossos colegas estavam fisicamente diferentes: o Miguel perdeu não sei quantos quilos e parece metade do que ele era, a Cláudia está um autêntico patinho feio que se transformou em cisne, o Fernando, que sempre recordei de longos cabelos louros, tipo Kurt Cobain, corta agora o cabelo a pente 2 e a Mariana, que era uma autêntica maria-rapaz e que raramente víamos vestida com outra coisa que não sweat-shirts, calças de ganga e fatos de treino, surgiu toda elegantíssima que até tive medo de amarrotar-lhe a roupa ao abraçá-la. 
Mas apesar disso, após as primeiras garfadas, percebi que no essencial não tínhamos mudado assim tanto: o César continua a exercer o seu charme junto das mulheres, o Alex continua a fazer toda a gente rir, a Sandra tem sempre algo a dizer que dá que pensar e bastou cinco minutos com a Joana para perceber que, apesar destes anos com tão pouco contacto, o laço de amizade que nos ligava não perdeu força. 
Porém, para mim, tu foste a maior surpresa deste reencontro. Nunca pensei que tu fosses a pessoa que eu mais gostasse de ter reencontrado. Nós nem éramos muito amigas na altura. Aliás, nem sei bem de quem eras particularmente amiga pois costumavas estar muitas vezes sozinha. Não que fosses uma anti-social, tu até costumavas alinhar em quase tudo o que a malta planeava, mas eras muito senhora do teu nariz, parecias estar melhor quando estavas metida para ti mesmo, a pensar em sei lá o quê. Agora olhando para trás, percebo que te invejava. Tu não tinhas medo de ser tu própria, de pensar por ti mesma, de dizer coisas sem recear se os outros iriam gostar de ouvir ou não e eu gostava de ser assim como tu. Também recordo que eras muito inteligente e estavas entre os que tiravam as melhores notas da turma, mas agias como se isso não fosse nada de importante, e evitavas comparações e competições com o Duarte, o nosso crânio residente.
Só quando estava a sós com a Joana é que eu me sentia à vontade para ser eu própria e falar de tudo o que eu quisesse, pois ela é de longe uma das pessoas mais compreensivas e com capacidade de encaixe que eu já conheci. Fora isso, não sei porquê, nunca ousava destacar-me e contentava-me em seguir nas ondas dos outros, que nem ovelha num rebanho, e morria de medo de ser o centro das atenções, convencida de que estava um passo de dar bronca. E assim continuei pelo resto da vida.
A minha irmã diz que eu sou assim porque herdei da minha mãe o gene "o-que-é-que-os-outros-vão-pensar", máxima pela qual ela tem regido a sua vida e que eu também acabei por seguir. Sempre a pensar na ideia do que os outros poderiam ter de mim e só talvez depois naquilo que eu queria ou o que era melhor para mim. O que me levou a tomar decisões que eu tinha como as mais seguras mas que não eram necessariamente as mais acertadas, especialmente a de ter casado com o David. E foi por causa do que os outros iriam pensar que eu resisti o máximo que pude ao divórcio, mesmo se até antes do início do nosso ponto de ruptura o nosso casamento era um barco a afundar e não haveria mais outro resultado. 
Durante o jantar mantive esse assunto o mais velado possível, se bem que todos foram suficientemente respeitadores para não o abordarem. Entretanto, sentada ao teu lado, foste falando mais sobre ti e fiquei espantada quando disseste que durante algum tempo tinhas visto o 3.º Ciclo como um período algo negativo na tua vida e só agora com toda esta redescoberta, é que percebeste que até te divertias imenso e te davas bem com toda a gente, e tudo o mais era, segundo tu afirmaste, aranhões na tua cabeça. A tua sinceridade acabou por mexer comigo e mais tarde, quando alguns de nós foram ao Bar Cáspio, eu senti-me à vontade para te contar sobre como esta nova fase da minha vida tem-me sido penosa, em que eu me vejo sozinha, com uma filha para criar, a caminhar pelo meu próprio pé, por minha conta e risco. Entretanto, já descobri que essa situação tem o seu quê de libertadora, mas nem por isso deixa de me assustar de tempos a tempos. Já sabia que de ti poderia esperar empatia e compreensão, mas não estava preparada para a tua compaixão, que mostraste de forma subtil, em pequenos detalhes, mas que eu captei e que tanto significaram para mim. E percebi que tu tens um enorme coração, do qual poucos devem conhecer a verdadeira dimensão. Talvez a tua família e o teu namorado. (Esse Daniel é teu namorado, certo? Pelo menos dá para perceber que gostas imenso dele, nisso não foste assim tão subtil). 
E agora que eu conheci um pouco do teu coração, quero conhecer mais. Quero que sejamos boas amigas, tal como pretendo renovar a velha e grande amizade que com a Joana. Preciso de pessoas positivas na minha vida, para eu continuar a descobrir, por muito aterrador que seja, como é ser eu própria e construir sozinha a minha própria felicidade. É incrível constatar como, olhando para aqueles tempos, ser feliz dava muito menos trabalho e eram as nossas mentes inquietas e insensatas de adolescentes que complicavam tudo. Nesta idade, fica mais difícil, mas o interessa é continuar a tentar. E tudo mais são aranhões.

Carina       

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Momento Mais Ansiado

Mesmo atarefada na cozinha como é hábito a cada véspera de Natal, a Mãe observa os dois filhos na sala, o mais velho de oito, o mais novo de seis. Aparentemente, parecem entretidos com o filme que passa na televisão, mas ela sabe que existe algo que não lhes sai da cabeça. Os grandes embrulhos de papel garrido que repousam debaixo da árvore de Natal e a hora em que eles lhes deitarão a mão e rasgarão avidamente os papéis e as caixas que contêm os brinquedos que eles pediram aos pais. 
Ela fingiu que não dava por nada mas tem reparado nos últimos dias que os dois têm volta e meia cirandado à volta da árvore, esticaram várias vezes os braços como que a quererem pegar nos embrulhos mas recuando no instante seguinte, calcularam inúmeras vezes diante do calendário quantos dias é que faltam, bufaram as bochechas de impaciência várias vezes por dia, remoeram numa espera que parece cada vez mais longa. 
Nem o facto de já saberem perfeitamente o que se esconde por detrás do embrulho não lhes atenua a ansiedade. De certo modo, os dois sempre souberam que o Pai Natal é tão real como o Homem Aranha. Além disso, o mais velho até acompanhou os pais durante a aquisição, aproveitando a promoção do hipermercado no início de Dezembro.
Felizmente que apesar de tudo, bastou apenas um aviso em voz alta por parte cada um dos pais para eles não tentarem mexer nas prendas, muito menos barafustar ou entrar em modo birra e limitaram-se a um jogo de espera impaciente e silenciosa ainda que mal contida. Também ficaram avisados que só abririam na manhã do dia do Natal, para a véspera já bem bastam as prendas do resto da família que vão abrir em casa dos avós.

Eles só parecem finalmente ter esquecido a ansiedade uma vez chegados à casa dos avós, entretidos entre as brincadeiras com os primos, os bonecos na televisão e os assaltos à travessa de sonhos e coscorões da Avó. É com um certo alívio que o Pai os conduz para a cama quando regressam a casa, cansados demais para se importar com outra coisa senão deitarem-se e deixarem-se vencer pelo sono. No dia seguinte, revigorados pelas horas dormidas, os dois entram pelo quarto dos pais a dentro saltitando de euforia e gritando "Feliz Natal!". Contudo, ao contrário do que a Mãe esperaria, eles não trazem nas mãos os brinquedos que lhes eram destinados, já desembrulhados. Em vez disso, trazem outros embrulhos. O mais novo traz uma caixa embrulhada num sóbrio papel verde e exclama:
- Feliz Natal, Pai, isto é para ti.
O mais velho carrega um grande embrulho num papel às riscas e um elaborado laço em forma de roseta branca e diz:
- Feliz Natal, Mãe. Este presente é para ti.
Os dois pais sorriem, desembrulham as prendas, que também sabem perfeitamente o que contêm. Coisas que cada um comprara, dizendo aos filhos que essa seria a prenda deles para o outro progenitor.  Uma nova cafeteira eléctrica para a Mãe, visto que a actual está quase a dar o berro. Um elegante conjunto de after-shave, perfume e desodorizante para o Pai.
- Muito obrigada, queridos. E vocês já abriram as vossas prendas?
- Ainda não. Já lá vamos. - responde o mais velho. - O que eu e o Martim queríamos mesmo era dar-vos as nossas prendas.
Os pais entreolham-se com um sorriso. Por muito que uns pais conheçam os truques e as manhas dos seus filhos, de vez em quando estes ainda têm a capacidade de os surpreender. E de lhes oferecer mais doces memórias de Natal.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cobranças Difíceis

Ontem chorei a caminho de casa. Felizmente que chovia bastante e podia fingir que as lágrimas eram gotas oblíquas de chuva a desabarem na minha cara.
Não sei porque me deu para chorar. É certo que um dia chuvoso de Novembro nunca será bom para levantar a moral alguém, mas não me sentia triste. De momento a vida corre-me bem e até tenho alguém que de vez em quando chega para trancar a porta ao Inverno e dar-me um pouco do seu calor.
E depois, nunca fui pessoa de chorar. Não por ter vergonha de o fazer, simplesmente fui sempre muito parco em lágrimas, por muito magoado que eu estivesse. Se calhar foi isso que me aconteceu ontem: todos os meus desgostos passados vieram cobrar-me as dívidas, quais agentes de cobranças difíceis, e não tive outro remédio senão expulsá-los pelas fossas lacrimais, sem hipótese de estancar a corrente.

Não conseguia encontrar um motivo definido por isso fui desfiando pelos fios da memória. Os trambolhões que eu dei em miúdo, deixando-me ferido e esfolado, mas que aguentei mordendo o lábio pois desde cedo tinha martelado na minha mente a velha máxima que um homem não chora. As pessoas que me decepcionaram e a quem não dei a satisfação de me verem exteriorizar o desgosto. Os arrependimentos por ter falhado com outras pessoas, faltando-me coragem para assumir os meus erros. As perdas que eu tive e as rédeas que coloquei a essa dor, com medo que se não a conseguisse travar, a dor paralisar-me-ia por completo.
Por entre este cemitério de sofrimentos passados, acabei por me lembrar de ti. Prefiro sempre lembrar-me de ti com ternura, em nome dos breves momentos luminosos que partilhámos, dos beijos que trocámos, daquela noite em que nos demos. Nunca te vi chorar e até sorrias bastante, mas agora sei que apesar disso, nunca te sentiste verdadeiramente feliz. Se calhar, estar comigo naquilo que não tivemos tempo nem vontade para chamar um namoro, foi o mais próximo que tiveste da felicidade. Mas o que podia a ténue luz do amor incipiente de um puto egoísta como eu contra a densa escuridão em que vivias? Só depois de te teres atirado da ponte é que descobri a dimensão dessa escuridão. Tinhas passado por coisas que nenhuma criança deveria passar e que para sempre roubaram a luz e a vida em ti. Se eu na altura tivesse a perspicácia e a maturidade devida, talvez tivesse visto tudo isso por detrás do teu frágil sorriso. Mas eu era miúdo demais para ser quem tu precisavas, ainda tinha tão pouco para oferecer. Agora sei que esse pouco, embora não o suficiente, ainda conseguiu ser tanto para ti. Na altura, o amor e a morte eram conceitos demasiado abstractos para eu conseguir ter uma ideia do que sentia. Só sabia que doeu perder-te assim de repente mas tudo o resto era mais do que eu conseguia alcançar. Por isso, deixei-te ficar assim, iluminada pelas recordações que o tempo deixou a adocicar. 

Porém, agora sei que tive imensa pena de não ter feito mais, de não ter sido motivo suficiente para fazeres marcha atrás na tua caminhada à escuridão. Mas eu só sabia o que sabia e como tal não podia fazer melhor do que fiz. E sei que não vale a pena a viver a lamentar aquilo que nunca fizemos.
Por isso, sempre que a vida me dá as suas pancadas proverbiais, prefiro morder o lábio, fazer-me  de forte e pagar as lágrimas em dívida quando elas me assaltam em chuvosos dias de Novembro.              

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Homem de confiança

Saído do hospital, sentado no banco de passageiro enquanto a esposa conduzia o carro rumo a casa, ele pôs-se a pensar na sorte que teve. Felizmente que ele caíra de um rés de chão pelo que o seu voo pela janela do escritório não resultou nada além de umas nódoas negras e um enorme susto.
Ele era um homem discreto com um rosto vulgaríssimo daqueles que se perdiam facilmente na multidão. Ao longo da vida aprendeu a tirar partido dessa invisibilidade, transformando-se num homem confiável junto de quem os segredos estavam mais seguros que dentro de um cofre. 
Foi assim que prosperou profissionalmente, tornado-se um apetecível wingman, o ideal número dois para todos os números uns que encontrara na carreira. A ele foram confiados sigilos, confidências, pecadilhos profissionais, vícios privados que ele soube armazenar da melhor forma, colhendo os frutos e sabendo afastar-se dos podres. E aos poucos, à custa dessas qualidades, construíra uma vida próspera para a sua família, em especial para os seus dois filhos.  
O seu novo chefe não foi excepção. Recém-quarentão, com aspecto de galã de telenovelas, era solteirão inveterado e entusiasta mulherengo, ainda que profissionalmente irrepreensível. Não lhe tardou em lhe confidenciar todas as suas aventuras e conquistas horizontais, não se subtraindo aos pormenores mais picantes. A todos estes relatos, ele ouvia com um misto de diversão e - tinha que admitir - uma pontinha de inveja.
Não era incomum que as suas conquistas fossem bastante jovens, pelo que não estranhou que o chefe lhe passasse a contar sobre a sua mais recente história, com uma jovem de 28 anos, estudante de mestrado, dona de uma beleza subtil mas inebriante. Nem se deteve muito a reflectir quando a filha de 23 anos admitiu que andava a sair ocasionalmente com um homem "um pouco mais velho". 
Só se apercebeu das coincidências quando o chefe referiu o nome Catarina e depois descaiu-se a dizer que ela afinal tinha 23, quando antes mantinha que ela tinha 28. Depois, ele mencionou que ela tinha uma tatuagem de uma libélula na omoplata, um dos pouco actos de semi-rebeldia de Catarina, feita após terminar o liceu. Por fim, tomou nota de que as saídas da filha para ir ter com o namorado misterioso e os relatos que os seu chefe lhe descrevia. E quando deu por si, já sabia dos detalhes mais descritivos dos tórridos encontros entre ambos, coisas que nenhum pai devia ouvir sobre a sua rica filha. É claro que já não fazia nenhum sentido agarrar-se à ideia de que a filha era ainda imaculada, imune aos desejos sexuais. No entanto, como daria tudo para que lhe esvaziassem a memória sempre que o chefe lhe contava em que posições, as vezes que ela atingia o clímax, as obscenidades que apenas ela se atrevia a dizer quando estava com ele. Era muito mais do que um pai podia aguentar ouvir e cada vez que o chefe lhe chamava de parte para lhe contar as últimas novidades escaldantes envolvendo Catarina, a sua vontade era que o chão lhe engolisse.
Porém não foi isso que transbordou o copo e o fez voar pela janela do escritório num momento de insanidade há muito anunciado. Foi quando o chefe lhe disse que ela era diferente de todas as mulheres com quem estivera, que estava realmente apaixonado por Catarina e já começava mesmo a pensar em pedi-la em casamento. Palavras não eram ditas, já ele estava em voo picado até ao chão do passeio em frente ao edifício. Mais tarde, explicaria o inusitado ao chefe como uma reacção alérgica ao caril de lulas que comeu ao almoço. 

domingo, 5 de outubro de 2014

De um ano para outro

Pedro

Agora mais de um ano depois, até parece fácil. Como se tivéssemos cruzado a meta depois de uma corrida exasperante e agora fosse tempo de receber o descanso e a glória. Banhar num tépido mar de sorrisos e felicidade e sentir que a próxima cruzada está longe demais para nos tirar o sono.
Parece fácil que estejas aqui de novo a respirar vida por todos os poros, tal como fazias até que há um ano atrás o AVC deixou-te atravessado na última linha e retirou o chão a mim, ao Francisco e ao Miguel que assistimos a esse fatídico instante. Como se a incrível sorte com que foste bafejado ao recuperares sem problemas de maior estivesse sempre prevista na ordem dos acontecimentos, bem como a relação que vives sem pressas (mas com promissores avanços) com a hot nurse Raquel.
Parece fácil ver o Francisco pronto a assumir o papel de pai em breve, a passar a mão pela barriga de quatro meses da Rita (embora ainda se note pouco), a sorrir de orelha a orelha enquanto fala em tudo aquilo que há de fazer e ensinar ao Pedro Miguel. E no entanto, esta nova fase da sua vida tem lhe causado um colapso de dúvidas e um redemoinho de receios que ele, ao seu bom estilo, habilmente disfarça, mas que não passaram despercebidos a nós que o conhecemos tão bem.
Parece fácil o Miguel de braço à volta dos ombros da Sandra, transformado num viril rochedo de afectos, como se tivesse trazido em si toda a alquimia que lhe permite ser o homem, amigo e amante que ela precisava. Só nós é que sabemos o tremendo desafio que foi para ele estar à altura da relação, sobretudo quando lhe demorou tanto tempo a combater os fantasmas do excesso do peso e das relações frustradas. 
Parece fácil olhar nos olhos da Cláudia e ler neles aquilo que sempre sonhei que eles me dissessem, buscar neles a luz e o calor para o meu coração desnorteado e perceber que ela encontra o mesmo em mim. E no entanto, só eu sei o martírio que foi dar o passo em frente, arriscar e rezar para que uma rejeição - por parte dela mas também de certo modo da tua parte também...- não me vergasse a alma. 
Parece fácil nós os quatro, juntos como sempre, um círculo amigos de arcos ilógicos porém inquebráveis, onde os gestos falaram mais alto que as palavras e as maneiras de ser. Ainda mais agora que nenhum de nós está temporariamente só. 
Mas nada na vida é fácil, pelo menos aquilo que vale a pena alcançar. De um ano para o outro, uma pessoas vai vivendo e muitas vezes resvala entre a alegria e o desgosto à velocidade de um batimento cardíaco, quando não mesmo por entre a vida e a morte, como tu bem sabes. Por tudo isto, é bom conservar estes momentos perfeitos, plenos de felicidade em que tudo parece fácil. Mas que são perfeitos precisamente porque não o foram.
Por isso, só posso estar grato que por entre as dificuldades e as arritmias, tenho-te a ti, ao Miguel e ao Francisco para que tudo fique um pouco mais fácil e por saber que comigo por perto, tudo se torna um pouco menos difícil.

Tomás.
 
   
        

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Q4

Não me fales do Verão tímido nem do princípio de Outono descarado.
Não me fales de política nem de futebol.
Não me contes dos horrores por esse mundo fora nem das comédias românticas impressas nas revistas.
Não me digas quantos segredos têm a casa nem quantas letras tem o factor.
Não me fales do cansaços perenes nem das azias do tempo, dos engarrafamentos e das greves dos transporte.
Não me lembres que o ano está no seu último trimestre e tanto ficou por fazer.

Senta-te apenas comigo, sem pressas e pega-me na mão.
E aí podes falar das árvores a despirem-se de folhas,
de como vai ser bom tentar enganar o frio com fofas camisolas de lã,
ou podermos dormir uma hora a mais na noite da mudança para  hora de Inverno.
E que vem aí o Natal, o Ano Novo e tantos feriados que deixaram de o ser.

Numa era em que as estações do ano pareceram entrar em esquizofrenia,
nada como confiar na arrumação dos calendários,  a repartição entre dias, semanas, meses e trimestres.
Cada tem quatro trimestres, quatro quartos e estamos agora à porta do último,
o Q4.
É certo e sabido  que o tempo que o tempo nunca para
e nos rouba tantas horas que gostaríamos de recuperar
e nos faz lembrar de tanta coisa que podíamos ter feito e não fomos capazes.
Por isso, fala-me de fins e recomeços.
De portas que se fecham e janelas que se abrem.
De lareiras para espantar o frio e de gelados para combater o calor.
Porque o Q é uma letra que se lê
e a vida não foi feita para ser passada em silêncio.