quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Longa Noite

Finalmente de novo o prazer a teu lado. Os beijos trocados na penumbra. A dureza do teu corpo junto ao meu. Os gemidos como uma fileira de estrelas abrindo a escuridão até ao anúncio de um novo dia. E o amor a riscar o silêncio da noite e surgir belo como a manhã.
Longa foi a noite em que fui refém do ódio que me conduziu a um penoso acordar. Mas agora sei que mesmo carregando as marcas do ódio, o meu amor conseguiu ser mais forte. 

Depois de tanto medo e auto-dilaceração por me ver fora da normatividade, de temer a exclusão, o ostracismo  e a hostilidade por amar e desejar aqueles do meu género, para no meu espanto encontrar uma aceitação muito além do que eu esperava, caí no erro de pensar que o país e o mundo avançavam a um ritmo mais rápido do que realmente avançavam. Daqueles de quem eu temia que me voltassem as costas, não encontrei senão apoio e conforto. De anónimos a quem receava insultos e provocações, não desvendei senão cochichos em surdina e piadas às quais era fácil fazer ouvido mouco. Depois a legislação no nosso país deu um enorme passo em frente ao reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e por fim a cereja no topo do bolo, encontrar-te a ti o amor que há muito sonhava, um fogo sólido e intenso nascido não da chama mas das brasas. 

Eram tantos ventos a soprar a meu favor que cometi o erro de pensar que não mais ficaria à deriva e esqueci-me que o mal, o ódio e a violência espreitam em cada esquina e podem atacar ao mínimo baixar de guarda. Foi assim que eu caí na armadilha do ódio, depois de ter-me despedido de ti com um terno beijo à porta da tua coisa. Uns quarteirões depois, uma mão que me agarra com força, um punho cerrado arremessado à minha cara, o meu corpo prostrado sem apelo no chão, quatro pares de pés a pontapearem-me estendido com a violência de mil explosões e a dor de mil punhais. Não me lembro se eles me falarem, se me vergastaram com más palavras ou se deixaram a brutalidade dos seus actos falar mais alto do que qualquer insulto. 

Quando dei por mim, estava numa cama de hospital, negro e inchado para além da razão, demasiado devastado e fraco para sequer chorar. Choraste tu e a minha família por mim ao me verem naquele estado. Mas o vosso amor resgatou-me das profundezas e fez-me encarar de novo a luz. Tinha sobrevivido, e mesmo olhando nos olhos do ódio, o amor continuava forte, dorido mas não golpeado. Por isso, não temi a penosa e demorada recuperação porque seria uma questão de tempo até voltar a reconstruir-me e erguer-me mais forte que nunca. 

Quando detiveram um dos meus agressores, fiquei espantado por descobrir, à luz do dia, como ele era ainda um rapaz tão jovem e vulnerável. O seu rosto mal conseguia encarar-me diante da sua vergonha pelas marcas ainda visíveis que ele e os seus, digamos, amigos me infligiram. Tudo o que conseguiu dizer foi me pedir timidamente o perdão, certo de que seria um pedido vão. Mas para sua surpresa e até minha, não ergui a minha voz de indignação ou raiva. Calmamente, pedi que ele olhasse para mim e visse que aquele que ele atacou naquela noite não era um bicho ruim a abater ou um espectro incorpóreo e esquisito, mas sim um simples ser humano, afinal tão semelhante a ele. "Apesar de tudo, mesmo sendo difícil, eu poderei perdoar-te. Conseguirás perdoar-te a ti mesmo?" O olhar de espanto que ele me devolveu fez-me crer que ele era alguém a quem pouco lhe mostraram de compaixão. 

Foi aí que a minha longa noite terminou e perdido nos teus braços assisti ao raiar de uma nova aurora. Mas agora não me deixo iludir pelo brilho destes novos raios luminosos porque sei o que pode me esperar nos mais escuros recantos. Ainda que eu guarde em mim a luz própria para vencer a penumbra.

 
               

quarta-feira, 25 de março de 2015

Caixinha de Jóias

Carina

Agora que reatámos a nossa amizade que tinha ficado em banho-maria desde o 12.º ano, apercebo-me que foi uma pena imensa que ela não tivesse continuado. Mas o que fazer? A vida meteu-se pelo meio e estava escrito que tínhamos de seguir cada uma o seu próprio caminho. E se calhar foi por termos passado estes anos todos sem quase nenhum contacto que torna a agora esta retoma ainda mais saborosa. E por acréscimo, ganhámos ambas outra grande amiga na Vanessa. Eu sempre soube que havia muito mais sobre ela do que aquilo que ela demonstrava nos tempos de escola, mas agora que a conheço cada vez mais sobre ela, sinto a presença dela na minha vida quase tão necessária como a tua. Quando estamos a três juntas, não há nenhum momento de aborrecimento.
Sinto-me bastante grata por saber que tanto eu como a Vanessa temos sido o teu maior apoio nesta nova fase da tua vida, em que decidiste começar do zero. Sobretudo porque os teus pais não têm sido exactamente muito solidários contigo, encarando o fim do teu casamento como um falhanço, como se em alternativa fosse um grande feito continuares presa a um casamento que te fazia infeliz e a um homem que já não te dava a devida atenção. Eu sei que talvez a tua filha tivesse sido aquela que mais sofreu com a tua separação do David, mas garanto-te que foi o melhor para todos, sobretudo para a Inês. Aliás até nem me parece que ela se sinta mal com o facto de agora viver sozinha contigo e estar com o pai a cada dois fins de semana. Dá para ver que ela não é uma miúda frágil, e tu também não. 
Mas a verdade é que esta reciclagem de amizades que resultou do nosso jantar da turma do 3.º ciclo também tem significado bastante para mim, mais do que eu julgava possível. Claro que antes disso, já me sentia bastante feliz e realizada: a minha loja pode não ter muitos clientes, mas o que tenho são fiéis e apreciam o meu trabalho, casei com o Sérgio que é simplesmente o homem mais maravilhoso que já conheci, daqueles que eu só pensava que existiam nos livros do Nicholas Sparks, e tenho dois pestinhas que por muito que me deixem a cabeça em água, são a melhor coisa que eu tenho no mundo. Por entre uma ou outra complicação, tinha uma vida estável e previsível. Porém, agora que eu tenho de novo a ti e à Vanessa na minha vida, apercebi-me que já algum tempo que não tinha o meu próprio espaço na minha vida, o meu pequeno recanto emocional, a minha pequena caixinha de jóias com bugigangas pessoais. Apercebi-me que nos últimos anos, apesar de não me sentir menos feliz por isso, tenho vivido muito para a família e para o trabalho de tal forma que entre ser a Joana-mulher de negócios, a Joana-esposa/amante e a Joana-mãe, tinham sido poucos os momentos em que eu pude ser simplesmente a Joana. Por isso, estou muito grata que tu e a Vanessa tenham-me feito reabrir esse recanto esquecido onde posso ser apenas a Joana sem qualquer outro hífen, nem sequer o de Joana-amiga.
Por isso mesmo, sinto-me mais à vontade para contar algo em que muito de vez em quando tem-me assaltado a mente desde o jantar, sem ter medo que me julguem. Já o contei à Vanessa e ela não fez, por isso espero que não te importes esta pequena confidência. Como sabes, o César e eu tivemos uma breve história comum no 9.º ano, algo que não deu para ser considerado um namoro de tão breve que foi, mas que foi bom enquanto durou. E como viste, os anos foram muito generosos com o César, que ainda está mais giro agora do que em adolescente e ele continua com toda aquela pinta de galã malandro, um pouco mais refinado. Pois bem, por entre as memórias do passado e as constatações do presente, já me aconteceu algumas vezes pensar no César de forma não muito inocente, ao ponto de me masturbar  no chuveiro. É claro que nunca teria nada com o César, se ele estivesse para aí virado e por muito charme que ele destilasse. Primeiro porque é o Sérgio quem eu amo. Segundo porque o César sempre teve aquela alma de pássaro e é feliz assim, a pousar onde lhe apetece e a bater de novo as asas quando quiser e não há gaiola que o detenha. Terceiro porque tenho idade e discernimento suficientes para saber que a carne tem as suas fraquezas e caprichos a quem ninguém é imune, mas a mente e o coração são os melhores conselheiros. Por isso, há certos delírios carnais que existem apenas para serem arrumados num recanto da mente e dar-lhes mais valor do que isso é uma insensatez que não vale a pena perseguir. Mas mesmo assim, é bom que eles existam em mim, e creio que em cada um de nós. São como aquelas bugigangas da nossa caixinha de jóias. Podemos não querer usá-las mas a gente gosta de saber que estão lá guardadas. 

Joana
   

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Meros Mortais

Vem ter comigo esta noite. Prometo que vai ser tudo leve e divertido, como sempre quiseste que fosse. Será nos teus termos, sem quaisquer palavras e gestos que tu não queiras ou que te façam sentir desconfortável. Serei uma óptima companhia, descontraído e atento e assim que te levar para a cama, será tudo de bom ou mau gosto, conforme te apetecer.
Eu não te quero complicar as coisas, tu já tens bastante com que lidar, e eu tenho os meus próprios problemas. Por isso, não tenhas receio de dizer sim quando eu chamar por ti. Prefiro ter-te com desprendimento a ver-te fugir de mim, a ver sombras de medo a pairarem nos teus olhos. 
Esquece aquilo que não te disse por palavras mas que soaram tão claramente no espaço entre nós. Não é isso que procuras, pelo menos por agora. Eu próprio não sei bem se é isso que quero. Faz de conta que foi apenas uma nota fora de tom. Sou mesmo assim, intenso demais, vivo e sinto tudo em demasia. Devia ter-te avisado logo de início, mas sabia lá eu. Isto também não estava nos meus planos. 
Não te escondas, não fujas. Podes ter aqui em mim um abrigo. Deixar lá fora estas noites frias de inverno, os ruídos da rua, o choro dos bêbados, as luzes amarelas dos postes de iluminação. Abandonares-te ao conforto do meu edredão e da flanela do meu pijama.
Eu sei que também sentes a minha falta. Já me confessaste que a tua pele está viciada no meu toque. Chamas-me feiticeiro, que te hipnotizo com duas ou três palavras meigas, que te deixo louca das ideias a cada beijo meu. Falas de outros homens com quem estiveste antes, vários deles mais bonitos, inteligentes ou confiantes do que eu, mas que nenhum deles te deixou assim. E odeias não sentir que tu estás em controlo do jogo. Odeias saber que foste tu que começaste tudo, que me viste com um desafio e que não me desarmaste, pelo menos da forma que tu querias. Odeias sentir que dependes de mim, que estás na minha mão. E odeias que no fundo adores todas essas sensações, que alguém te faça cair as tuas defesas e te faça ansiar pela vertigem do abandono. Por isso é que andas fugida.
Mas acredita quando te digo que não és a única enfeitiçada. Também me consegues toldar os sentidos como creio que ninguém o fez. Também detesto sentir que te tenho de correr atrás de ti como quem persegue um pássaro que fugiu da gaiola. Também assusta-me não saber se o meu próximo passo, por mais cuidadoso, me fará tropeçar ou ser engolido por areias movediças. Também dói-me pensar em ti sem me sentir à beira do desvario, na ânsia de ti. 
No entanto, não iremos falar nisso. Não vamos ser feiticeiros, mas sim meros mortais. Estes jogos de sedução já têm muito que se lhe digam, mesmo sem lhes prestar demasiada análise. Jogaremos com as cartas que sabemos sem arriscar nos lances. Se alguém ganhar ou perder, só se saberá mais tarde. 
Por isso não tenhas medo de recomeçar e vem ter comigo esta noite. Não porque te peço, mas porque queres.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Acordar da Noite

O acordar da noite chegou assim de repente
Luz matinal em ternos fios de cetim
O Sol pousado num encanto reluzente
E a tua pele confundida em mim

Vem-me à memória as horas que a noite roubou
Horas em fuga que quisemos abrandar
Mas mesmo assim, entre nós porém ficou
O que de mãos dadas queríamos começar  

Não sei bem o que veio depois
Talvez suspiros impressos a dois
Adormecer sem medo de cansar
Ou da lucidez de um novo acordar

O acordar da noite chegou num abraço velado
Anunciando um estranho amanhecer
Parecendo natural ter-te aqui ao meu lado
Prenúncio do que estava por acontecer

Agora eu sei que esta noite não foi acaso
Foi um rio de estrelas rumando à foz
E agora nem me importa o motivo ou o prazo
De tudo aquilo que nasceu entre nós

E a noite acabou, chegou o dia
Por cá ainda ficou a magia
Dos doces ardis tecidos ao luar
Para nos unirmos neste acordar.
 



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Aranhões na Cabeça

Vanessa

Só podia ser mesmo a Sofia, a nossa delegada de turma, a nossa eterna líder, para se lembrar de organizar um jantar de reunião da nossa turma do 7.º ao 9.º ano. E de repente foi todo um desenterrar de memórias no Facebook, com gente que eu não via há quase vinte anos e de coisas que pareciam para sempre trancadas na minha mente. E na noite do reencontro, todo um desfilar de exclamações de espanto, ataques de riso e algumas lágrimas à mistura.
Alguns dos nossos colegas estavam fisicamente diferentes: o Miguel perdeu não sei quantos quilos e parece metade do que ele era, a Cláudia está um autêntico patinho feio que se transformou em cisne, o Fernando, que sempre recordei de longos cabelos louros, tipo Kurt Cobain, corta agora o cabelo a pente 2 e a Mariana, que era uma autêntica maria-rapaz e que raramente víamos vestida com outra coisa que não sweat-shirts, calças de ganga e fatos de treino, surgiu toda elegantíssima que até tive medo de amarrotar-lhe a roupa ao abraçá-la. 
Mas apesar disso, após as primeiras garfadas, percebi que no essencial não tínhamos mudado assim tanto: o César continua a exercer o seu charme junto das mulheres, o Alex continua a fazer toda a gente rir, a Sandra tem sempre algo a dizer que dá que pensar e bastou cinco minutos com a Joana para perceber que, apesar destes anos com tão pouco contacto, o laço de amizade que nos ligava não perdeu força. 
Porém, para mim, tu foste a maior surpresa deste reencontro. Nunca pensei que tu fosses a pessoa que eu mais gostasse de ter reencontrado. Nós nem éramos muito amigas na altura. Aliás, nem sei bem de quem eras particularmente amiga pois costumavas estar muitas vezes sozinha. Não que fosses uma anti-social, tu até costumavas alinhar em quase tudo o que a malta planeava, mas eras muito senhora do teu nariz, parecias estar melhor quando estavas metida para ti mesmo, a pensar em sei lá o quê. Agora olhando para trás, percebo que te invejava. Tu não tinhas medo de ser tu própria, de pensar por ti mesma, de dizer coisas sem recear se os outros iriam gostar de ouvir ou não e eu gostava de ser assim como tu. Também recordo que eras muito inteligente e estavas entre os que tiravam as melhores notas da turma, mas agias como se isso não fosse nada de importante, e evitavas comparações e competições com o Duarte, o nosso crânio residente.
Só quando estava a sós com a Joana é que eu me sentia à vontade para ser eu própria e falar de tudo o que eu quisesse, pois ela é de longe uma das pessoas mais compreensivas e com capacidade de encaixe que eu já conheci. Fora isso, não sei porquê, nunca ousava destacar-me e contentava-me em seguir nas ondas dos outros, que nem ovelha num rebanho, e morria de medo de ser o centro das atenções, convencida de que estava um passo de dar bronca. E assim continuei pelo resto da vida.
A minha irmã diz que eu sou assim porque herdei da minha mãe o gene "o-que-é-que-os-outros-vão-pensar", máxima pela qual ela tem regido a sua vida e que eu também acabei por seguir. Sempre a pensar na ideia do que os outros poderiam ter de mim e só talvez depois naquilo que eu queria ou o que era melhor para mim. O que me levou a tomar decisões que eu tinha como as mais seguras mas que não eram necessariamente as mais acertadas, especialmente a de ter casado com o David. E foi por causa do que os outros iriam pensar que eu resisti o máximo que pude ao divórcio, mesmo se até antes do início do nosso ponto de ruptura o nosso casamento era um barco a afundar e não haveria mais outro resultado. 
Durante o jantar mantive esse assunto o mais velado possível, se bem que todos foram suficientemente respeitadores para não o abordarem. Entretanto, sentada ao teu lado, foste falando mais sobre ti e fiquei espantada quando disseste que durante algum tempo tinhas visto o 3.º Ciclo como um período algo negativo na tua vida e só agora com toda esta redescoberta, é que percebeste que até te divertias imenso e te davas bem com toda a gente, e tudo o mais era, segundo tu afirmaste, aranhões na tua cabeça. A tua sinceridade acabou por mexer comigo e mais tarde, quando alguns de nós foram ao Bar Cáspio, eu senti-me à vontade para te contar sobre como esta nova fase da minha vida tem-me sido penosa, em que eu me vejo sozinha, com uma filha para criar, a caminhar pelo meu próprio pé, por minha conta e risco. Entretanto, já descobri que essa situação tem o seu quê de libertadora, mas nem por isso deixa de me assustar de tempos a tempos. Já sabia que de ti poderia esperar empatia e compreensão, mas não estava preparada para a tua compaixão, que mostraste de forma subtil, em pequenos detalhes, mas que eu captei e que tanto significaram para mim. E percebi que tu tens um enorme coração, do qual poucos devem conhecer a verdadeira dimensão. Talvez a tua família e o teu namorado. (Esse Daniel é teu namorado, certo? Pelo menos dá para perceber que gostas imenso dele, nisso não foste assim tão subtil). 
E agora que eu conheci um pouco do teu coração, quero conhecer mais. Quero que sejamos boas amigas, tal como pretendo renovar a velha e grande amizade que com a Joana. Preciso de pessoas positivas na minha vida, para eu continuar a descobrir, por muito aterrador que seja, como é ser eu própria e construir sozinha a minha própria felicidade. É incrível constatar como, olhando para aqueles tempos, ser feliz dava muito menos trabalho e eram as nossas mentes inquietas e insensatas de adolescentes que complicavam tudo. Nesta idade, fica mais difícil, mas o interessa é continuar a tentar. E tudo mais são aranhões.

Carina       

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Momento Mais Ansiado

Mesmo atarefada na cozinha como é hábito a cada véspera de Natal, a Mãe observa os dois filhos na sala, o mais velho de oito, o mais novo de seis. Aparentemente, parecem entretidos com o filme que passa na televisão, mas ela sabe que existe algo que não lhes sai da cabeça. Os grandes embrulhos de papel garrido que repousam debaixo da árvore de Natal e a hora em que eles lhes deitarão a mão e rasgarão avidamente os papéis e as caixas que contêm os brinquedos que eles pediram aos pais. 
Ela fingiu que não dava por nada mas tem reparado nos últimos dias que os dois têm volta e meia cirandado à volta da árvore, esticaram várias vezes os braços como que a quererem pegar nos embrulhos mas recuando no instante seguinte, calcularam inúmeras vezes diante do calendário quantos dias é que faltam, bufaram as bochechas de impaciência várias vezes por dia, remoeram numa espera que parece cada vez mais longa. 
Nem o facto de já saberem perfeitamente o que se esconde por detrás do embrulho não lhes atenua a ansiedade. De certo modo, os dois sempre souberam que o Pai Natal é tão real como o Homem Aranha. Além disso, o mais velho até acompanhou os pais durante a aquisição, aproveitando a promoção do hipermercado no início de Dezembro.
Felizmente que apesar de tudo, bastou apenas um aviso em voz alta por parte cada um dos pais para eles não tentarem mexer nas prendas, muito menos barafustar ou entrar em modo birra e limitaram-se a um jogo de espera impaciente e silenciosa ainda que mal contida. Também ficaram avisados que só abririam na manhã do dia do Natal, para a véspera já bem bastam as prendas do resto da família que vão abrir em casa dos avós.

Eles só parecem finalmente ter esquecido a ansiedade uma vez chegados à casa dos avós, entretidos entre as brincadeiras com os primos, os bonecos na televisão e os assaltos à travessa de sonhos e coscorões da Avó. É com um certo alívio que o Pai os conduz para a cama quando regressam a casa, cansados demais para se importar com outra coisa senão deitarem-se e deixarem-se vencer pelo sono. No dia seguinte, revigorados pelas horas dormidas, os dois entram pelo quarto dos pais a dentro saltitando de euforia e gritando "Feliz Natal!". Contudo, ao contrário do que a Mãe esperaria, eles não trazem nas mãos os brinquedos que lhes eram destinados, já desembrulhados. Em vez disso, trazem outros embrulhos. O mais novo traz uma caixa embrulhada num sóbrio papel verde e exclama:
- Feliz Natal, Pai, isto é para ti.
O mais velho carrega um grande embrulho num papel às riscas e um elaborado laço em forma de roseta branca e diz:
- Feliz Natal, Mãe. Este presente é para ti.
Os dois pais sorriem, desembrulham as prendas, que também sabem perfeitamente o que contêm. Coisas que cada um comprara, dizendo aos filhos que essa seria a prenda deles para o outro progenitor.  Uma nova cafeteira eléctrica para a Mãe, visto que a actual está quase a dar o berro. Um elegante conjunto de after-shave, perfume e desodorizante para o Pai.
- Muito obrigada, queridos. E vocês já abriram as vossas prendas?
- Ainda não. Já lá vamos. - responde o mais velho. - O que eu e o Martim queríamos mesmo era dar-vos as nossas prendas.
Os pais entreolham-se com um sorriso. Por muito que uns pais conheçam os truques e as manhas dos seus filhos, de vez em quando estes ainda têm a capacidade de os surpreender. E de lhes oferecer mais doces memórias de Natal.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cobranças Difíceis

Ontem chorei a caminho de casa. Felizmente que chovia bastante e podia fingir que as lágrimas eram gotas oblíquas de chuva a desabarem na minha cara.
Não sei porque me deu para chorar. É certo que um dia chuvoso de Novembro nunca será bom para levantar a moral alguém, mas não me sentia triste. De momento a vida corre-me bem e até tenho alguém que de vez em quando chega para trancar a porta ao Inverno e dar-me um pouco do seu calor.
E depois, nunca fui pessoa de chorar. Não por ter vergonha de o fazer, simplesmente fui sempre muito parco em lágrimas, por muito magoado que eu estivesse. Se calhar foi isso que me aconteceu ontem: todos os meus desgostos passados vieram cobrar-me as dívidas, quais agentes de cobranças difíceis, e não tive outro remédio senão expulsá-los pelas fossas lacrimais, sem hipótese de estancar a corrente.

Não conseguia encontrar um motivo definido por isso fui desfiando pelos fios da memória. Os trambolhões que eu dei em miúdo, deixando-me ferido e esfolado, mas que aguentei mordendo o lábio pois desde cedo tinha martelado na minha mente a velha máxima que um homem não chora. As pessoas que me decepcionaram e a quem não dei a satisfação de me verem exteriorizar o desgosto. Os arrependimentos por ter falhado com outras pessoas, faltando-me coragem para assumir os meus erros. As perdas que eu tive e as rédeas que coloquei a essa dor, com medo que se não a conseguisse travar, a dor paralisar-me-ia por completo.
Por entre este cemitério de sofrimentos passados, acabei por me lembrar de ti. Prefiro sempre lembrar-me de ti com ternura, em nome dos breves momentos luminosos que partilhámos, dos beijos que trocámos, daquela noite em que nos demos. Nunca te vi chorar e até sorrias bastante, mas agora sei que apesar disso, nunca te sentiste verdadeiramente feliz. Se calhar, estar comigo naquilo que não tivemos tempo nem vontade para chamar um namoro, foi o mais próximo que tiveste da felicidade. Mas o que podia a ténue luz do amor incipiente de um puto egoísta como eu contra a densa escuridão em que vivias? Só depois de te teres atirado da ponte é que descobri a dimensão dessa escuridão. Tinhas passado por coisas que nenhuma criança deveria passar e que para sempre roubaram a luz e a vida em ti. Se eu na altura tivesse a perspicácia e a maturidade devida, talvez tivesse visto tudo isso por detrás do teu frágil sorriso. Mas eu era miúdo demais para ser quem tu precisavas, ainda tinha tão pouco para oferecer. Agora sei que esse pouco, embora não o suficiente, ainda conseguiu ser tanto para ti. Na altura, o amor e a morte eram conceitos demasiado abstractos para eu conseguir ter uma ideia do que sentia. Só sabia que doeu perder-te assim de repente mas tudo o resto era mais do que eu conseguia alcançar. Por isso, deixei-te ficar assim, iluminada pelas recordações que o tempo deixou a adocicar. 

Porém, agora sei que tive imensa pena de não ter feito mais, de não ter sido motivo suficiente para fazeres marcha atrás na tua caminhada à escuridão. Mas eu só sabia o que sabia e como tal não podia fazer melhor do que fiz. E sei que não vale a pena a viver a lamentar aquilo que nunca fizemos.
Por isso, sempre que a vida me dá as suas pancadas proverbiais, prefiro morder o lábio, fazer-me  de forte e pagar as lágrimas em dívida quando elas me assaltam em chuvosos dias de Novembro.