quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Lua Nova

Eis-me aqui, parada junto ao semáforo, tamborilando os dedos no volante, à espera que acenda a luz verde. São duas da manhã, a rua está deserta, circulo sozinha pela cidade. Então vem-me à cabeça um cenário de transgressão: e se eu cruzasse este sinal vermelho, protegida pela solidão desta rua? Como estamos na Lua Nova, nem sequer a Lua seria testemunha. E aquelas estrelas que aproveitam a ausência de luar para povilhar o seu brilho no firmamento estão longe demais para me avistarem cá de baixo. A minha mão desce até ao manípulo das mudanças, o meu pé já sente a urgência de carregar no acelerador.
A luz verde acaba por surgir no preciso instante antes de ceder ao meu impulso final. Em vez de um arranque vertiginoso sob o chiar dos pneus e o zunido do motor, avanço sem pressa pela via, seguindo o meu caminho.

Creio que a primeira vez que senti este desejo transgressor quando tinha cinco anos e imaginava-me a empurrar o gato malhado da minha avó que dormia descansado num novelo de si próprio num degrau das escadas. Quase que podia sentir as minhas mãozinhas sobre o seu volumoso pêlo a pressioná-lo para fora do degrau, o bichano a despertar estremunhado num grito assustado e a fugir num voo picado escada abaixo. Depois seguiram-se outros cenários realizados na minha mente, onde calcava um relvado junto do sinal “Não pise a relva”, largava um grito em plena biblioteca, desatava-me a rir no meio de uma missa, puxava o cabelo de uma antipática colega da escola, pegava num sabonete no supermercado e atirava-o contra a prateleira das lacas para o cabelo e por aí fora. Claro que nunca fiz nada disso. Primeiro porque faltava-me sempre a coragem para pisar de vez o risco, e depois porque a imaginação do acto já me dava pica suficiente, provavelmente mais do que obteria com a realização. Quando uma vez confessei isto à minha mãe, ela concluiu que era uma partida do meu subconsciente. Seria precisamente por eu ser tão bem comportada que me sentia fascinada com maus comportamentos. E no fim, ela sossegou-me, afirmando:
- É normal ter vontade de ser mau. Fazer maldades é que já não é normal.

De facto fui sempre uma menina bem comportada. Obedecia sem grandes protestos às ordens dos meus pais, mantinha o meu quarto arrumado, era disciplinada e atenta nas escolas, nunca chegava das saídas à noite depois da hora combinada, nunca bebi álcool para além da conta, nem sequer nunca fumei um cigarro inteiro. Mas nesse caso, também não tenho interesse nisso, detesto o cheiro a tabaco. Até acho pior que o cheiro da ganza. E aliás, a única vez que fumei ganza foi em Amesterdão, pelo que posso seguramente afirmar nunca fiz nada de ilegal.
Vistas bem as coisas, a minha mãe tinha razão. Agradava-me mais a ideia de me portar mal do que propriamente o acto. E qualquer pedrada de adrenalina que pudesse obter se o fizesse não compensaria certamente as consequências que teria de enfrentar.
No entanto, agora enquanto conduzo pelas ruas desta cidade, não consigo deixar de pensar que pisei o risco e que tenho de me aguentar à bronca. A bem dizer, não houve nenhum risco para pisar. Foi sexo consentido entre dois adultos oficialmente desimpedidos. Mas a frieza das palavras não se encontra no labirinto dos sentimentos. E o que sinto é que traí o Fernando, ao voltar-me a entregar de novo ao Gustavo.

O Gustavo continuava igual a si próprio: sedutor, descontraído, convidativo, aplicado. Desta vez tinha regressado a Portugal como membro da banda que acompanha uma cantora de jazz holandesa na sua digressão europeia e claro que não perdeu a oportunidade de voltar a ligar-me, para de mais uma vez nos encontrarmos e matarmos saudades dos corpos um do outro, como temos feito a espaços durante o último ano e meio. Lançava-me de novo o seu canto de sereio, na sua voz grave e calma e mais uma vez atordoava-me os sentidos e ateava o fogo dos meus desejos de mulher, deixando-me incapaz de dizer não.
Porém, desta vez já havia o Fernando e o meu sim não foi tão imediato. Fui enganando uma eventual culpa com a racionalização. Eu ainda não namoro com o Fernando. Quando muito, andamos a ver se andamos a namorar. Se dependesse só dele, já teríamos relação oficial mas ele tem sabido esperar que eu resolva o puzzle da minha cabeça e que tome uma atitude, ciente que já não é para mim apenas um amigo e certo que não tardará a sair da minha friendzone para o nível seguinte.

Como sempre, bastou uma porta fechada e estarmos sozinhos entre quatro paredes para que o Gustavo e eu nos agarrássemos, como se entre nós irradiassem todas as ondas magnéticas reconhecidas pela Física. As roupas caíram à pressa, as peles sedentas de contacto, as bocas sequiosas do licor salival, as mãos esvoaçando por entre as curvas e contracurvas dos músculos, os sexos roçando-se em fúria.
Como sempre, o Gustavo foi magnífico no seu desempenho, com o seu toque a deixar cada centímetro da mulher que sou em brasa. A responder às minhas ânsias, a celebrar-me com beijos, a dominar-me com o seu belo corpo, a impor-me o seu ritmo vertiginoso, a rasgar-me bem fundo, a garantir-me que os orgasmos seriam alucinantes.
Como sempre, respondi na mesma forma, deixando-o desvairado para além da razão, sem outro pensamento senão em possuir-me, inebriado no meu cheiro e sabor de mulher. Provocando-o com os meus dentes cerrados e as minhas unhas afiadas. Zunindo-o com os meus gemidos de prazer rumo ao clímax. Movendo-me para que ele sentisse todos os estremecimentos do meu ventre. Desdobrando-me entre a amante exigente e a amante submissa, obrigando-o a efectuar a soma das partes.
Como sempre, ele foi perfeito, o sexo foi além de fantástico.

Só que desta vez, assim que a euforia desapareceu no éter da noite pelo céu da Lua Nova, e os corpos saboreavam a doce trégua depois da violência do prazer, tudo ficou diferente. A saudade que eu tinha deste meu amante e do seu corpo foram aniquiladas por outra saudade.
Uma saudade que vinha agora do coração e que me levava a outro corpo, a outro amante. A um outro amado.
- O que tens, Luísa? – perguntou o Gustavo.
Tentei dizer alguma coisa mas só me apetecia chorar e não consegui evitar que uma lágrima se condensasse no meu rosto. Com a sua habitual perspicácia, percebeu que eu não estava bem mas nada disse. Passou apenas a mão pela face, limpando-me a lágrima. Depois pegou no trompete e, ainda nu, tocou-me um excerto de uma música que tinha ouvido antes no concerto. Recordei a canção que a cantora cantou no concerto.

Whisper to the moon, my heart pleads for you.

Sentei-me na cama, desfiz o nó da garganta.
- O Fernando ama-me.
Ele parou de tocar e sorriu para mim.
- O Fernando tem bom gosto.


Assim que senti a brisa da noite, olhei para o céu sem lua, mas cheio de estrelas. De certa maneira, creio que amei o Gustavo. Não pela atracção animal que ele me inspirou, pelos prazeres que ele me fez descobrir, nem sequer pelo bom entendimento que soubemos cultivar fora da insanidade carnal. Amei-o com a ternura de alguém que foi importante para nós e que nos pintou um novo matiz da vida. No caso dele, talvez a luz branca do luar. Mas a rotação da vida é constante e só agora percebi que estava agora na órbita de um novo ciclo. Peguei no meu carro e voei no reflexo celestial do alcatrão. Se eu pisei algum risco, só tenho é que seguir em frente.  

Filho De Ninguém

Já faz dois meses que eu e a Marisa decidimos acrescentar benefícios à nossa amizade. Encontramo-nos pelo menos uma vez por semana. Toda esta situação tem tanto de estranho como de excitante.
Estranho porque quando me envolvo com alguém, gosto de conhecer as histórias dela, o que ela passou, dessa descoberta gradual. Mas eu conheço a Marisa desde que ela ainda usava fraldas e eu não passava de um cachopito. Crescemos juntos e temos todo um passado comum de amizade e de conhecimento. Ela sabe toda a minha história e eu sei a dela. Até dos detalhes mais íntimos como quando ela se enrolou com um italiano em Ibiza na viagem de final de curso. E embora por vezes indagasse como seria ter uma coisinha tão bela na cama, nunca me tinha atrevido a tal pois sempre prezei a amizade dela, tanto como a dos outros. E sempre gostei de ter uma miúda porreira como ela como amiga, apreciava a perspectiva feminina dela nas conversas e a sua mente aberta (infelizmente muitas gajas são mais tacanhas do que querem admitir). Era bom partilhar ter este tipo de convivência sem o sexo ser para ali chamado. Até agora.
E excitante porque agora que pisámos o risco, a experiência tem sido fascinante em todos os aspectos. E a nossa familiaridade acaba por fazer parte do jogo, antes e depois. No durante, basta despir a pele de amigos e vestir a de amantes. O sexo não é bruto nem demasiado delicado ou refinado. Acaba por ser algo bastante natural, um gozo mútuo, sem pressas nem preâmbulos. Como se o clímax não fosse o objectivo, mas sim parte do processo. É algo de adulto, esclarecido mas ao mesmo tempo, intenso e poderoso, e também divertido. A nossa relação de amizade acaba por ser uma zona de conforto, como se fosse a rede de um trapézio. Mas eu sei como no sexo por vezes é fácil perder a pega do trapézio e enfrentar o abismo.

A única coisa que me preocupa é se isto continua por mais algum tempo, ainda me meto numa alhada. Eu sei bem que as mulheres, mesmo as mais esclarecidas nestes assuntos, muitas vezes não resistem em urdir uma teia de afectos, tentando capturar o amante na armadilha do amor. Foi o que algumas tentaram e sempre fui-me safando airosamente. Se continuamos nisto, a Marisa ainda pode um dia pensar que a nossa relação pode ir ainda mais além do que nós temos, por muito que ela ache que não e aí vai ser um sarilho. Até já pensei em acabar com isto. 
Mas não o faço. Sei lá, talvez esteja a amolecer. Talvez não queira ainda abrir mão deste doce aconchego, do corpo feminino e adorável dela junto ao meu, deste engraçado jogo de sedução, desta nova descoberta.
E a verdade é que apesar de fugir às armadilhas do amor, não quer dizer que quero fugir para sempre. Nunca disse isto a ninguém mas sempre tive uma pontinha de inveja do que o Sérgio teve com a Diana. Pergunto-me como seria ter vivido um amor assim, tão intenso, sem reservas, mais forte que tudo. Não admira que tenha custado tanto ao Sérgio ter de continuar a viver sem ela.       

Mas se aspiro a esse amor, também o receio porque sei como pode ser destructivo. Por amor ao meu pai, a minha mãe deixou tudo e todos e mergulhou com ele na espiral da droga e da miséria. Amparou toda a porrada que ele lhe dava, ébrio ou sóbrio. Diz quem sabia que também tinham momentos felizes, de paixão e união total. Que não podiam viver um sem o outro, que eram super apaixonados, uma versão portuguesa e rústica do Sid Vicious e da Nancy Spugeon.
Mas não me lembro disso. Só me lembro dos gritos, do sangue e do cheiro a podridão. E o mito Sid & Nancy está demasiado romantizado: ele não a matou durante uma pedrada de heroína? Neste caso, foi a Nancy que matou o Sid. Era um ou o outro, lutando por uma navalha.
Ao menos, estou-lhe grato por ter-me deixado com a tia Luísa antes do confronto final. É o seu único acto de amor que recordo. E do meu pai não me lembro de nenhum, embora digam que sim, que gostava de mim, quando estava minimamente sóbrio.
A tia Luísa e o tio Alfredo foram mais que uns pais para mim e sempre vi o Hugo como um irmão. Graças a eles, o meu destino trágico reverteu-se e tive a oportunidade de crescer num ambiente limpo e estável. Fui e sou feliz.
No entanto, sempre me senti que não devia estar neste mundo, que fui um percalço, um filho de ninguém. Sobretudo depois da minha mãe morrer na prisão. Por isso, é que tenho esta raiva dentro de mim. Por isso, quis sempre provar o que valho, que sou capaz, que nenhum desafio é demais para mim. Por isso, é que sempre fui tão competitivo, na escola, no trabalho, até nos jogos a feijões. E nos jogos de sedução. Eram formas de ser validado. No fundo, ando sempre à procura da aprovação, embora me faça de forte e diga que não preciso de ninguém. Parece uma contradição, mas no fundo todos nós somos um poço de contradições.

O melhor que tenho a fazer, se calhar, é não pensar muito nisto. Seja feita a vossa vontade, que será, será, carpe diem e et cetera e tal. Não vale a pena andar a remoer em dúvidas, bem basta termos que sofrer com as certezas, como diz a tia Luísa. Neste momento, estou bem assim como estou, com estes novos benefícios na minha amizade com a Marisa está muito bem assim e se der mal, logo se vê. É aproveitar enquanto dura. Ou “enquanto duro”, como dizia o Vinícius de Moraes, que era cá dos meus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Nas Nossas Mãos

Joana

Este foi o primeiro Verão que a Inês passou férias diferentes com cada um dos pais. Eu temia a princípio que fosse demasiado confuso para ela, mas qual quê, para ela estava tudo perfeitamente claro, nós é que estávamos a complicar as coisas e a esquecermos de como ela é bem mais esperta do que aquilo que julgamos. Aliás, ao longo de todo o processo da separação, a Inês percebeu sempre tudo - até aquilo que eu e o David achámos que ela era nova demais para perceber - e tem-se adaptado bem à nova vida comigo num lado e com o pai no outro. 
Não é que estivéssemos em competição, mas sabia que ir à Disneylândia de Paris com o pai era imbatível, por isso decidi optar pela simplicidade para as nossas duas semanas fora da cidade. Descobri esta adorável casinha no concelho de Ferreira do Zêzere que além de ter piscina, fica perto de uma praia fluvial e aproveitando o sossego e a frescura do local, iríamos entregar-nos ao mais completo dolce far niente, limitando limpezas e tudo mais ao mínimo essencial. A Inês adorou e eu ainda mais. Por entre nadar na piscina e na praia (com sete anos, ela já nada melhor do que eu nadava aos doze), ver DVDs da Disney e da Violetta, sentar-me na rede a ler um livro enquanto ela se entretinha a jogar no tablet ou a colorir livros e comermos coisas simples e fáceis de preparar, parecia que tínhamos entrado num universo paralelo, onde não havia horários, regras a cumprir, avaliações a respeitar. A certa altura, dei comigo no carro a cantar com a Inês canções da Violetta a plenos pulmões na figura mais tola possível mas sem qualquer medo de o parecer. Acho que nunca na vida me senti tão liberta das inibições que sempre dominaram a minha vida.

Mas cada vez mais me convenço que existe uma nova Carina, mais liberta e senhora do seu nariz, menos permeável à opinião dos outros. Com o fim do meu casamento, tantas vezes que duvidei se conseguiria sobreviver e afinal de certa forma, sinto que só agora comecei a viver a sério. Claro que até então tive muitos momentos felizes ao longo da vida, inclusivamente ao lado do David. Mas sem dúvida que há outro sabor em viver a vida caminhando pelo nosso pé, cada conquista feita de enorme esforço e até alguma frustração mas intensamente vivida, sem regermos por regras que não as nossas e termos de dar satisfações a ninguém. O David nunca me apontou nenhuma falha na lida da casa mas sei que, talvez até conscientemente, havia de coisas que ele esperava que eu cumprisse e sobretudo eu própria sentia que se eu não correspondesse a um certo padrão estava a fracassar. Foi preciso passar por tudo isto para descobrir que o mundo não parava se não lavasse a loiça após o jantar. E que ir onde quisermos sem prestar contas ou fazer programas a sós, como ir ao cinema, pode ser algo estimulante e nada solitário. Até porque sei bem como é sentir-me solitária no meio de tanta gente.

Por essas e por outros é que compreendo a relutância da Vanessa em avançar as coisas com o Daniel. Tudo bem que ele é um tipo cinco estrelas, que tenho a melhor ideia dele, mas também já sei entender a satisfação que a Vanessa tem de ter sido independente e de tudo aquilo que ela conseguiu por si mesma. Para alguém como ela, será  difícil encarar uma vida em que se terá de reger em grande parte por aquilo que esperamos de outra pessoa e que o outro espera de nós, com todos os benefícios e desvantagens que isso traz. Apesar de eu pensar que muito dos receios dela quanto a isso são mais complicações sem nexo na cabeça dela que de outra coisa, os tais aranhões de que ela costuma falar.

Eu não ponho de todo a parte de um dia refazer a minha vida com outra pessoa, mas acho cada vez mais absurda essa ideia tão incrustada na nossa sociedade que a vida só faz sentido com alguém ao nosso lado. Por isso é que tantas e tantas mulheres sujeitam-se a tudo para não estar sozinhas, como se esse fosse o horror absoluto e o maior fracasso como mulher. A minha mãe volta e meia diz-me isso de forma algo velada mas eu já nem a ouço. Talvez outrora eu pensasse assim também, mas agora que percebi que o meu mundo continuou a girar quando fiquei por minha conta, já não vejo nenhuma razão de ser nisso. Claro que a ajuda - financeira e não só - do David para a Inês é ainda muito importante, mas ano e meio depois após o meu divórcio estou orgulhosa daquilo que tenho alcançado: gosto do meu trabalho na imobiliária, tenho gerido as minhas finanças e as minhas responsabilidades de forma hábil, sinto que faço a minha filha feliz, reatei a amizade contigo e com a Vanessa e tenho agora uma sensação de liberdade, pela qual paguei um duro preço, mas que me traz bastante paz e satisfação. E não há nada que pague o sentimento de que felicidade está nas nossas mãos, com ou sem alguém do nosso lado.

Carina

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Terra Sem Lei


O ar quente das noites de Agosto penetra pela janela e incendeia ainda mais os nossos corpos. Não há centímetro dos lençóis que não estejam entranhados em suor. 
As mãos dela flutuam pelas minhas costas, os seus olhos cerram para voar enquanto eu conduzo-a uma imersão cada vez mais profunda. Estou prestes a abdicar da única réstia de controlo que ainda me sobra mas ela parece uma vez mais decidida a que eu o perca por completo. Extasiado pela deliciosa simplicidade do seu corpo que o suor parece fazer reluzir, perco finalmente as estribeiras e obrigo-a a acompanhar o meu ritmo cada vez mais frenético.

Abrando apenas por um momento, deitando-me em cima dela e sentindo os seus mamilos premidos contra o meu peito, para lhe sussurrar ao ouvido: "Vem-te". Abrindo-me os seus enormes olhos âmbar, ela aceita o desafio e ao entregar-se, arrasta-me comigo. Num último assomo, esvazio-me dentro dela. 
Depois do êxtase, é como se emergíssemos de novo e respirássemos pela primeira vez em séculos. Sinto que os meus ossos derreteram e sou uma massa disforme, suada e pegajosa que se deita sobre o corpo dela. O prazer é ainda imenso nestes minutos em que resgatamos a calma e aguardamos que a energia nos regresse.

Há mulheres que são raios ultravioletas disfarçados de flocos de neve. Que escondem tanto calor sob uma nuvem aparentemente fresca e vítrea. Devia saber disso antes de ela me dar a chave do seu jardim secreto e o seu toque me revelou que ela era muito mais do que os seus subtis encantos que me intrigaram à partida. E é esse tipo de mulheres que tanto medo causa aos homens: o medo de não as saber descrever, categorizar, antecipar os seus gestos. Mas apesar da confusão que ela me causava, nunca fui medroso e não seria agora que eu iria sê-lo. Por isso deixei-me levar. 
Antes dela, só conhecia dois tipos de sexo: aquele que é desde logo animalesco e obsceno e o outro mais sereno e que se pede cheio de bom gosto. Nem sequer posso dizer que com ela é um meio-termo entre os dois, é como que uma nova categoria. Eu curto, ela curte, nós curtimos, tudo muito aprazível e muito gostoso mas quando a intensidade sobe, é escaldante, é desenfreado, por vezes até excessivo mas nunca é vulgar ou exagerado. 


Ao recuperarmos as forças, procuramos o ponto mais fresco da cama. As suas costas colam-se ao meu torso e eu passo um braço sobre o peito dela e assim adormecemos. O seu sorriso tem tanto de devasso como de inocente enquanto se deixa acolher pelo sono, sem me revelar o que se esconde naquele sorriso nos cantos da boca. Estaria a mentir se eu não dissesse que estar com ela é como estar numa terra sem lei onde qualquer definição parece irrelevante e que isso me deixa inquieto. Nem sequer sou capaz de definir o que ela é para mim, amiga, amante, namorada, desvio de percurso. 
A ter uma única certeza é a de que o nosso sexo não é casual. Foi desde logo do mais sério que pode haver. Isso devia-me assustar, bem como a sensação que ela me prende num feitiço, de que me faz caminhar fora de solo firme. de que estou nas suas mãos. Só me conforta saber que o seu pulso acelera ao meu toque como o meu sobre as suas carícias. Mas para ser sincero, estou bem menos assustado do que deveria estar. Talvez porque vou aprendendo que há certas coisas que não foram feitas para serem definidas, mas para serem sentidas. 

 

sábado, 20 de junho de 2015

Leveza do Ser

Joana

Tive que chegar a esta idade para me sentir como se estivesse nos tempos do 3.º ciclo, se calhar ainda mais do que quando realmente estive. Primeiro foi o jantar onde descobri que sentia mais falta da malta da turma do que eu pensava. Depois, firmar este inesperado laço de amizade contigo e com a Carina. Eu que sempre olhei para os grupinhos de raparigas que se juntavam no meio de risinhos e conversas parvas com um misto de desdém e complacência, agora descubro o prazer de risos parvos e conversas parvas (que costumam vir misturadas com assuntos sérios) com vocês as duas. Nem imaginas quanto me custou admitir que eu podia ser assim sem deixar de ser quem sou e que não estava a ser fútil, superficial ou mais atoleimada por causa disso. Mas também, já estou na idade de perceber que só uma mãe-cheia de coisas é que têm de ser verdadeiramente a sério e que a maioria delas é melhor serem tratadas com mais, digamos, leveza.
Por isso é que andei a maior parte dos meus anos na casa dos vinte completamente à nora, porque queria fazer tudo, porque achava que tudo tinha de ser sempre um luta. Mas o que ganhei acima de tudo com isso foram enormes desgastes de energia e dava por mim a regressar à casa da partida sem receber 2000$00. (Credo, como parece tão arcaico agora falar em escudos. E já agora, quanto será que se recebe em euros no Monopólio actual?). Só por volta dos trinta anos é que percebi que fazia melhor em focar-me numa só direcção do que andar feita cata-vento a querer fazer tudo. Ou então é como o meu pai me diz, que a idade traz-nos uma certa calma como antídoto ao facto do tempo parecer correr cada vez mais depressa. Com uns colegas de curso, investi na criação de uma produtora audiovisual, e o que começou por simples negócio sobretudo de filmagem de espectáculos de colectividades locais e de edição de vídeos de casamentos desenvolveu-se num viveiro de projectos bem criativos. E cada passo desse caminho não só me trouxe auto-realização como me ajudou criar uma base sólida interior quando durante muito tempo parecia que andava na vida ao sabor do vento qual fiapo de palha. 
Como se não bastasse, o Daniel surgiu na vida há quase um ano, e não é que me fui apaixonar por ele? Raios parta o estúpido que me deixou caidinha de todo, que nem as raparigas da turma que se punham a fazer coraçõezinhos e a escrever várias vezes os nomes dos namorados ou dos rapazes de quem elas gostavam nos cadernos. Eu que interiormente ria-me disso tudo e me comprazia na minha alegada superior maturidade, agora volta e meio parece que ando a três metros do céu. Sorrio ao pensar como os nossos nomes combinam bem (Daniel + Vanessa), fico com o coração num rodopio sempre que a canção do toque de chamada que lhe atribui desata a tocar no meu telemóvel ("True Faith" dos New Order, um dia explico-te essa história). Enfim, coisas que eu outrora achava do mais foleiro e cliché que há, agora acho tão naturais e aprazíveis. E tudo por causa do estúpido do Daniel. Eu não procurava nada sério, queria tudo muito levezinho e sem levantar ondas e pumba! Não é que o velhaco sabe amar uma mulher e deixá-la sequiosa das suas carícias? E no entanto, desde logo que percebi que não iria ser algo casual. 
Eu devia odiar esta sensação de necessidade dele, a forma como ele consegue derreter a barreira de gelo que sempre orgulhei de erigir só com uma palavra ou um olhar, a maneira como ele consegue que eu dispa a minha alma e lhe revele tudo aquilo que sempre gostei de manter guardado em mim. Em vez disso, encantam-me essas sensações, é como se antes tivesse tido somente uma vida meio-vivida.
Porém, sabes que já passamos o estado de graça e os nossos momentos de tédio e de irritação já se fazem sentir. No entanto, esta sensação de segunda adolescência condimentada com sensatez trintona teima em perdurar. Mesmo que um dia, eu vá em voo picado dos três metros de céu até me espalhar no chão, sinto que valeu a pena ter deixado a terra firme. Agora que sustentei esta leveza no meu ser, sinto-me mais capaz de carregar os pesos da vida. 

Vanessa  

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Longa Noite

Finalmente de novo o prazer a teu lado. Os beijos trocados na penumbra. A dureza do teu corpo junto ao meu. Os gemidos como uma fileira de estrelas abrindo a escuridão até ao anúncio de um novo dia. E o amor a riscar o silêncio da noite e surgir belo como a manhã.
Longa foi a noite em que fui refém do ódio que me conduziu a um penoso acordar. Mas agora sei que mesmo carregando as marcas do ódio, o meu amor conseguiu ser mais forte. 

Depois de tanto medo e auto-dilaceração por me ver fora da normatividade, de temer a exclusão, o ostracismo  e a hostilidade por amar e desejar aqueles do meu género, para no meu espanto encontrar uma aceitação muito além do que eu esperava, caí no erro de pensar que o país e o mundo avançavam a um ritmo mais rápido do que realmente avançavam. Daqueles de quem eu temia que me voltassem as costas, não encontrei senão apoio e conforto. De anónimos a quem receava insultos e provocações, não desvendei senão cochichos em surdina e piadas às quais era fácil fazer ouvido mouco. Depois a legislação no nosso país deu um enorme passo em frente ao reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e por fim a cereja no topo do bolo, encontrar-te a ti o amor que há muito sonhava, um fogo sólido e intenso nascido não da chama mas das brasas. 

Eram tantos ventos a soprar a meu favor que cometi o erro de pensar que não mais ficaria à deriva e esqueci-me que o mal, o ódio e a violência espreitam em cada esquina e podem atacar ao mínimo baixar de guarda. Foi assim que eu caí na armadilha do ódio, depois de ter-me despedido de ti com um terno beijo à porta da tua coisa. Uns quarteirões depois, uma mão que me agarra com força, um punho cerrado arremessado à minha cara, o meu corpo prostrado sem apelo no chão, quatro pares de pés a pontapearem-me estendido com a violência de mil explosões e a dor de mil punhais. Não me lembro se eles me falarem, se me vergastaram com más palavras ou se deixaram a brutalidade dos seus actos falar mais alto do que qualquer insulto. 

Quando dei por mim, estava numa cama de hospital, negro e inchado para além da razão, demasiado devastado e fraco para sequer chorar. Choraste tu e a minha família por mim ao me verem naquele estado. Mas o vosso amor resgatou-me das profundezas e fez-me encarar de novo a luz. Tinha sobrevivido, e mesmo olhando nos olhos do ódio, o amor continuava forte, dorido mas não golpeado. Por isso, não temi a penosa e demorada recuperação porque seria uma questão de tempo até voltar a reconstruir-me e erguer-me mais forte que nunca. 

Quando detiveram um dos meus agressores, fiquei espantado por descobrir, à luz do dia, como ele era ainda um rapaz tão jovem e vulnerável. O seu rosto mal conseguia encarar-me diante da sua vergonha pelas marcas ainda visíveis que ele e os seus, digamos, amigos me infligiram. Tudo o que conseguiu dizer foi me pedir timidamente o perdão, certo de que seria um pedido vão. Mas para sua surpresa e até minha, não ergui a minha voz de indignação ou raiva. Calmamente, pedi que ele olhasse para mim e visse que aquele que ele atacou naquela noite não era um bicho ruim a abater ou um espectro incorpóreo e esquisito, mas sim um simples ser humano, afinal tão semelhante a ele. "Apesar de tudo, mesmo sendo difícil, eu poderei perdoar-te. Conseguirás perdoar-te a ti mesmo?" O olhar de espanto que ele me devolveu fez-me crer que ele era alguém a quem pouco lhe mostraram de compaixão. 

Foi aí que a minha longa noite terminou e perdido nos teus braços assisti ao raiar de uma nova aurora. Mas agora não me deixo iludir pelo brilho destes novos raios luminosos porque sei o que pode me esperar nos mais escuros recantos. Ainda que eu guarde em mim a luz própria para vencer a penumbra.

 
               

quarta-feira, 25 de março de 2015

Caixinha de Jóias

Carina

Agora que reatámos a nossa amizade que tinha ficado em banho-maria desde o 12.º ano, apercebo-me que foi uma pena imensa que ela não tivesse continuado. Mas o que fazer? A vida meteu-se pelo meio e estava escrito que tínhamos de seguir cada uma o seu próprio caminho. E se calhar foi por termos passado estes anos todos sem quase nenhum contacto que torna a agora esta retoma ainda mais saborosa. E por acréscimo, ganhámos ambas outra grande amiga na Vanessa. Eu sempre soube que havia muito mais sobre ela do que aquilo que ela demonstrava nos tempos de escola, mas agora que a conheço cada vez mais sobre ela, sinto a presença dela na minha vida quase tão necessária como a tua. Quando estamos a três juntas, não há nenhum momento de aborrecimento.
Sinto-me bastante grata por saber que tanto eu como a Vanessa temos sido o teu maior apoio nesta nova fase da tua vida, em que decidiste começar do zero. Sobretudo porque os teus pais não têm sido exactamente muito solidários contigo, encarando o fim do teu casamento como um falhanço, como se em alternativa fosse um grande feito continuares presa a um casamento que te fazia infeliz e a um homem que já não te dava a devida atenção. Eu sei que talvez a tua filha tivesse sido aquela que mais sofreu com a tua separação do David, mas garanto-te que foi o melhor para todos, sobretudo para a Inês. Aliás até nem me parece que ela se sinta mal com o facto de agora viver sozinha contigo e estar com o pai a cada dois fins de semana. Dá para ver que ela não é uma miúda frágil, e tu também não. 
Mas a verdade é que esta reciclagem de amizades que resultou do nosso jantar da turma do 3.º ciclo também tem significado bastante para mim, mais do que eu julgava possível. Claro que antes disso, já me sentia bastante feliz e realizada: a minha loja pode não ter muitos clientes, mas o que tenho são fiéis e apreciam o meu trabalho, casei com o Sérgio que é simplesmente o homem mais maravilhoso que já conheci, daqueles que eu só pensava que existiam nos livros do Nicholas Sparks, e tenho dois pestinhas que por muito que me deixem a cabeça em água, são a melhor coisa que eu tenho no mundo. Por entre uma ou outra complicação, tinha uma vida estável e previsível. Porém, agora que eu tenho de novo a ti e à Vanessa na minha vida, apercebi-me que já algum tempo que não tinha o meu próprio espaço na minha vida, o meu pequeno recanto emocional, a minha pequena caixinha de jóias com bugigangas pessoais. Apercebi-me que nos últimos anos, apesar de não me sentir menos feliz por isso, tenho vivido muito para a família e para o trabalho de tal forma que entre ser a Joana-mulher de negócios, a Joana-esposa/amante e a Joana-mãe, tinham sido poucos os momentos em que eu pude ser simplesmente a Joana. Por isso, estou muito grata que tu e a Vanessa tenham-me feito reabrir esse recanto esquecido onde posso ser apenas a Joana sem qualquer outro hífen, nem sequer o de Joana-amiga.
Por isso mesmo, sinto-me mais à vontade para contar algo em que muito de vez em quando tem-me assaltado a mente desde o jantar, sem ter medo que me julguem. Já o contei à Vanessa e ela não fez, por isso espero que não te importes esta pequena confidência. Como sabes, o César e eu tivemos uma breve história comum no 9.º ano, algo que não deu para ser considerado um namoro de tão breve que foi, mas que foi bom enquanto durou. E como viste, os anos foram muito generosos com o César, que ainda está mais giro agora do que em adolescente e ele continua com toda aquela pinta de galã malandro, um pouco mais refinado. Pois bem, por entre as memórias do passado e as constatações do presente, já me aconteceu algumas vezes pensar no César de forma não muito inocente, ao ponto de me masturbar  no chuveiro. É claro que nunca teria nada com o César, se ele estivesse para aí virado e por muito charme que ele destilasse. Primeiro porque é o Sérgio quem eu amo. Segundo porque o César sempre teve aquela alma de pássaro e é feliz assim, a pousar onde lhe apetece e a bater de novo as asas quando quiser e não há gaiola que o detenha. Terceiro porque tenho idade e discernimento suficientes para saber que a carne tem as suas fraquezas e caprichos a quem ninguém é imune, mas a mente e o coração são os melhores conselheiros. Por isso, há certos delírios carnais que existem apenas para serem arrumados num recanto da mente e dar-lhes mais valor do que isso é uma insensatez que não vale a pena perseguir. Mas mesmo assim, é bom que eles existam em mim, e creio que em cada um de nós. São como aquelas bugigangas da nossa caixinha de jóias. Podemos não querer usá-las mas a gente gosta de saber que estão lá guardadas. 

Joana