quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Labirinto do Luto

Mano:

Quando te candidataste ao teu emprego na Noruega, lembro-me de que apesar de estares muito entusiasmado com a ideia, tinhas um ar algo pessimista. Chegaste a dizer que tinhas um pressentimento de que algo terrível estava para acontecer. Logo tu que és um homem das ciências e que nunca foste de pressentimentos antes. Mas fosse como fosse, era uma sensação forte demais para ser ignorada. E a verdade é que pouco tempo depois, a nossa Mãe seria levada pela doença que a consumiu bem mais depressa do que qualquer um de nós poderia imaginar.  
O Filipe teve um pressentimento desses nas nossas férias na Turquia. Estávamos no meio da beleza arrebatadora de Pamukkale quando reparei que ele estava a chorar. Foi então que ele me disse: "Normalmente quando estou assim tão feliz, é porque algo de mau vai acontecer." Claro que eu tentei animá-lo, disse-lhe para não ser parvo e aproveitar o momento esplendoroso que vivíamos naquele lugar e ao longo da nossa viagem há tanto tempo ansiada. Mas a verdade é que o pressentimento dele estava certo.  

A minha profissão e a minha maneira de ser levaram a que eu adoptasse uma postura forte e compassiva desde a hora em que o Filipe recebeu a notícia da morte do pai dele até ao regresso do funeral. Mas como se eu não puder ser profano e pouco profissional contigo, não posso ser com mais ninguém aqui vai: fica mais uma vez provado que esta vida é uma merda, em que num momento uma pessoa está viva e noutra já não está.
Eu mal conhecia o pai dele, se trocámos uma dúzia de palavras já foi muito, mas isto tudo acabou por me afectar mais do que eu pensava. Não só pelas memórias do que passámos com a nossa mãe, mas também por ter sido algo tão repentino e burlesco: ele tinha acabado de lavar o carro, abaixou-se para pegar no balde e de repente cai para o chão, como um robô que ficou sem pilhas. E se comigo, foi o que foi, imagina o Filipe logo agora que estavam a dar-se finalmente bem e a tentar recuperar o tempo perdido. Depois de ter crescido sem pai, ele tinha procurado ao longo da vida uma figura paterna: na mãe, no tio, no nosso Pai e finalmente começava a finalmente a encontrá-la no verdadeiro pai. Com os ressentimentos e os arrependimentos arrumados, estavam lentamente a criar uma relação de pai e filho, que agora terminou abruptamente. Ele vê-se de novo órfão de uma parte de si que nunca conseguiu verdadeiramente compreender. Como é óbvio, dou comigo a comungar da sua dor, tal como ele esteve sempre presente quando a Mãe morreu.

Eu digo ao Filipe para chorar antes pelo bom que conseguiram alcançar, por terem tido a oportunidade de crescer e reaprender a relação e olharem um para o outro sem ressentimentos do que pelo que ele perdeu e nunca reparar e aquilo que podia ter sido. Mas a verdade é que também tenho muita pena de que este laço tenha sido rasgado assim tão bruscamente quando demorou tantos anos a ser remendado. E não estava nada à espera de reviver esse labirinto do luto tão cedo, só nós é que sabemos o quanto custou da outra vez. A vida é mesmo uma merda, mas tudo o que se pode fazer é continuar a viver.
O Filipe vai caminhando pelo labirinto, sem saber bem por onde seguir rumo, com dias maus onde a dor da perda é dilacerante demais para manter o mínimo rasto de serenidade e com dias mais positivos onde o sofrimento é relativamente suportável. E eu sigo ao lado o dele, tentando guiá-lo tal como eu, tu, o Pai e a Mónica nos guiámos uns aos outros em cada passo rumo a uma saída que parecia estar sempre longe demais.
Ontem o Filipe parecia estar num dia mais ou menos calmo quando o encontrei a chorar no sofá. Quando me sentei ao lado dele, ele pegou-me na mão e disse que queria casar comigo. Fui-lhe amparando os golpes de insistência, dizendo que estava a ser motivado pela emoção, que estava de cabeça quente, que nós já temos um compromisso sério e não é um papel passado que o torna mais válido e lá consegui demovê-lo.

Mas só aqui para nós, não foi nada que eu próprio não me tivesse ocorrido. Pode ser verdade que um papel passado não valida mais o nosso compromisso de partilharmos as nossas vidas, também é verdade que se cumprimos os mesmos deveres também devemos beneficiar dos mesmos direitos, já que no nosso país a legislação está felizmente mais avançada que a mentalidade. Mas sobretudo porque nunca sabemos o que nos espera a  cada curva do percurso e se algo nos acontecer a um de nós, o outro merece não ter de percorrer desamparado o sinuoso labirinto do luto.

Um abraço,

Ricardo         
  

domingo, 18 de novembro de 2012

Pearl Jam é trampa

Parabéns pelo nascimento do teu filho. Sim, apesar de tudo e mais alguma coisa, ser pai é a melhor coisa do mundo e ainda bem que finalmente podes experimentar essa sensação. Quero dizer-te que não foi tarde demais ter sido pai pela primeira vez aos quarenta anos, ainda hás-de ter certamente muito para viver e o que te faltar em energia durante o crescimento do teu filho, podes compensar com experiência de vida. Até porque hoje em dia, casar aos vinte e quatro anos e ser pai aos vinte e cinco, como eu, é considerado como ainda "muito cedo". Compreendo as tuas hesitações, mas conhecendo-te como eu te conheço, tenho a certeza que vais ser um óptimo pai, talvez até melhor que eu.
Agora, se eu te puder prevenir de alguma coisa, digo-te que por muito aberto, compreensivo, presente e razoável que tu julgues ser no teu exercício de paternidade, o mais provável é que o teu filho acabe por achar que és tudo menos isso. Olha a minha mais velha, a Bárbara.
No alto dos seus quinze anos, eu sou o pai mais careta que há. Para a minha filha, ter crescido num mundo sem internet e TV por cabo é o mesmo que ter crescido na Idade da Pedra e os Pearl Jam são tão arcaicos como os Pink Floyd. Para a minha filha, eu não faço ideia do que é actual e fixe e tudo o que eu lhe digo parece vindo de uma realidade virtual. Para a minha filha, sou um chato que está  sempre a dar-lhe sermões sobre os perigos da droga, do álcool e do sexo desprotegido porque eu acredito que ela é uma tótó que à mínima pressão, irá fumar ganza ou beber desalmadamente ou deitar-se com qualquer chico-esperto que lhe fizer falinhas mansas. Para a minha filha, as minhas objecções àquilo que ela veste são um atentado à sua individualidade e uma tentativa opressora de a formatar ao autómato acéfalo e obediente que eu alegadamente quero que ela seja. Para a minha filha, eu implico com ela apenas por inveja de eu já não ser jovem e despreocupado e não lhe deixo aproveitar o imenso tempo livre de que ela dispõe agora (bem basta mais tarde!). Para a minha filha, tudo o que ela faz nunca é suficientemente bom, nunca lhe dou elogios correspondentes aos esforços dela na escola, em casa, no voleibol e em tudo o mais. 
E na verdade, ela tem razão. Aos quinze anos, também eu era um adolescente respondão, insubordinado e incompreendido e tinha a certeza que o meu pai não fazia a mínima ideia do que eu estava a passar e só estava a ser um chato de primeira só porque sim. Mas o que sabia eu aos quinze anos? Não tinha nenhuma geração seguinte para poder comparar, não sabia ainda que os sermões martelados na minha cabeça contribuíram para que as minhas maluquices não resvalassem por caminhos pouco saudáveis, não fazia ideia que assim que te tornas adulto e entras no mercado de trabalho, não tens elogios pelos teus esforços, se é que tens algum elogio pelo quer que seja! Só agora eu sei disso e posso dar valor ao meu pai. Por isso não me importo que a Bárbara me ache um pai careta. Provavelmente, assim que ela crescer um pouco mais, há de perceber que foi tudo para o bem dela.
Mas enquanto a Bárbara não sai desta fase tão adorável, vou tentando aproveitar os últimos momentos da Sofia antes que seja a vez dela de passar por esse rito de passagem que é abominar os nossos pais aos quinze anos. Não tarda ela vai deixar de ter bonecos de peluche no quarto e de sonhar em casar com um membro de alguma boysband da moda e vai dizer-me também a viva voz que "Pearl Jam é trampa!". Das cólicas, insónias, xixis e cocós dos primeiros anos às respostas enxofradas de insensatez dos 15 anos, faz parte da vida estes cadilhos dos nossos filhos. A nós pais resta fazer o melhor que sabemos, mesmo que para isso tenhamos de ser o menos fixes possível.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vertigem Azul

Lembras-te de como é apaixonarmos pela primeira vez? De nos entregarmos com toda a força e insensatez da idade, de nos embrulharmos nessa onda e de experimentar aquelas sensações fortes e inéditas. Mas depois, quase sempre, mesmo quando tudo termina o mais pacificamente possível, vem a desilusão e a mágoa. E a segunda vez já é diferente, já hesitamos antes de perdermos o pé, já nem todo o optimismo pode remover aquela pequena sombra de dúvida. 
Para alguns, não há sombra que enevoe a vontade de amar. Para outros, as sombras tornam-se um nevoeiro que embacia a visão e por isso, não avançam. Ou pelo menos não arriscam e só jogam pelo seguro.

Por isso é que tens vontade de voltar para ele. A bem ou a mal, tu já o conheces e sabes o que esperar dele. A vossa ruptura veio mais do tédio e do impasse em que a vossa relação estava imersa e, como tal, foi muito civilizada e cordial, e não foi difícil vocês continuarem amigos. Claro que ficaste desolada, mas não o suficiente para poderes deixar de confiar nele. E como, passado todo este tempo, ele ainda não encontrou alguém que lhe fizesse esquecer tudo o que poderia ter sido se ainda estivesse contigo, eis que o tens de novo rendido a ti, desejoso de começar de novo. Afinal, vocês já não são os mesmos que eram há uns tempos atrás.
Não o censuro que tenhas vontade de ceder aos seus encantos renovados. Aliás compreendo perfeitamente. E embora é que por mais que tenha vontade do contrário, a verdade é que até gosto do teu ex, acho-o um tipo impecável. É o sonho de qualquer mulher: atencioso, sólido, cavalheiro, protector. Seguro. Mas permite-me afirmar que talvez não seja impecável nem seguro que tu queres. E é por esse talvez que não te quero deixar.

Concedo-te a dúvida. Sei que a minha reputação amorosa não é a mais recomendável e não me orgulho dela, mas orgulho-me da sinceridade com que a abordo, contigo e com todas as outras. Se alguma foi ao engano, não foi por engano meu. Posso ser bandido mas não sou de cantigas. Para ser sincero, cantei-te a cantiga de que não me importava, mas acabaste por descobrir os acordes. Como é que sabes se podes confiar em mim? Não sabes, ou confias e não confias. Eu também não sei se posso confiar em ti, mas confio, bem mais do que estava disposto a me permitir. Claro que, inteligente como és, já sabes qual é o meu jogo de cartas e por isso, nem preciso de te dizer que tu és diferente das outras. 

Não te quero pressionar a nada, não te quero encostar à parede. Leva o tempo que precisares, reflecte e pesa os prós e os contras. Ou então, não penses e atreve-te a mergulhar. Enquanto ainda adivinhar em ti um desejo contido de pegares na minha mão e te deixares levar na onda, eu não vou a lado nenhum. Se queres segurança, fica com ele. Se queres sentir uma nova onda, vem ter comigo. Eu também gosto de jogar seguro, também eu tenho medo de me afogar, mas desde que te conheço que me apetece como nunca perder-me na vertigem azul do mergulho.

sábado, 27 de outubro de 2012

Código Civil

A luz de um novo dia resgata-me do sono. Na pequenez do meu quarto da residência universitária, estamos os dois nus sob os lençóis. A cama é tão estreita que mal cabemos os dois. Virado para a parede, sinto as costas dela nas minhas e só esse contacto é suficiente para recordar as memórias da última noite.
É a primeira vez que acordo com uma rapariga na minha cama. Há uma eternidade atrás, Imaculada tinha partido antes de eu encontrar.

Eu só sabia algumas coisas dele. Que se chamava Manuel, que tinha entrado para o curso de Direito no mesmo ano que ele e que tinha nascido em São Tomé mas que veio com os pais para Portugal quando tinha menos de um ano.

E agora Beatriz, pele de puro marfim grudada ao meu ébano. Mas na noite passada, eu não fui preto, ela não foi branca. Fui apenas homem povoado por mulher.

Sabia que ele tinha um forte sotaque são-tomense mas vim a saber que a sua vontade de exprimir era bem mais forte. Por isso, mesmo que rendilhada de arestas africanas, ele sabe bem usar a língua portuguesa e as palavras percorrem a distância. E ele gosta de argumentar e contra-argumentar.

Nem Beatriz nem Imaculada faziam parte dos meus planos. Mas fui aprendendo que quando uma mulher deseja um homem, ela trilha um caminho guiando-o até ao refúgio dos seus ardores.

Agora sei que ele foi avançando no caminho que quis traçar para a sua vida. Buscar nas palavras, nos livros, nas leis, a ponte para outro futuro, longe da dureza em que foi obrigado a crescer.

Imaculada era tão moça quanto eu, quando ela pegou em mim e tirou-me os três. Nessa altura, já era fogo em vez de sangue nas veias.

Mergulhava nos livros com os olhos no futuro e não deixou que nada o distraísse. O apelo das ruas, as intimidações, os insultos, os cantos pessimistas. Para exercitar igualmente o físico, praticou andebol e foi essa a única indulgência a que se permitiu.

Ainda andei um pouco desnorteado, o feitiço de Imaculada ainda demorou a sair-me do sistema. Foi então que percebi que, embora ninguém esteja acima da lei, existem pessoas para além do bem e do mal.

Com notas excelentes e uma bolsa de estudo por mérito, realizou o sonho de entrar em Direito e forjar um futuro no dom da palavra e no rigor das leis.

A dolorosa vertigem que ela deixou deu lugar uma terna memória e eu segui em frente. E agora sei que por vezes é preciso perder a cabeça para preservar a sanidade.

Sabia tão pouco dele e agora sei mais. Sei como cheira a sua pele, como sabe a sua boca, como soam os seus murmúrios. E pensar que tudo começou quando eu tropecei no corredor da Faculdade, deixando cair uma pilha de livros. Manuel apressou-se a ajudar-me, pegando no meu exemplar do Código Civil.

Eis-me agora convidando outra mulher a surpreender os meus desejos. Desta vez ela acordou comigo. E dou por mim a pensar que se com Imaculada foi loucura, com Beatriz poderá ser algo bem lúcido. Mas por agora, sabe bem adiar a lucidez e sentir as suas costas nas minhas.   

    

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Vamos com calma

Caro José Américo Pereira Salvador:

Os teus esforços por fim deram frutos. Já não és um homem-mistério nem uma inicial obscura. És o Salvador, o meu namorado.
A prova final foi teres sido apresentado à família Lima. Eu já sabia que irias passar a prova com distinção, mas não deixa de ser um marco importante. Para o meu pai bastou chamares-te José como ele e trabalhares na auditoria onde trabalham ou trabalharam vários amigos dele. Para o Nelson bastou tu compreenderes as piadas e as conversas dele. Para o Filipe, bastou tu seres "muito giro". Para todos, sobretudo o Ricardo, bastou ver como eu estava tão bem a teu lado. Só ficaram espantados quando te descobriram que te chamas José Américo (uma homenagem ao teu avô paterno, que morreu três meses antes de nasceres), pois pensavam que Salvador era o primeiro nome e não o apelido, pelo qual insististe desde muito novo que todos teus amigos te tratassem. (Porque, de facto, quem é que com menos de trinta anos se chama José Américo?)
Já há muito que não eras apenas alguém para enganar a solidão, que me inspirava somente desejos carnais. Agora és o homem que me assalta os sonhos e me faz sonhar acordada. Agora não coloco rédeas ao coração e digo que te amo. Conquistaste-me. Missão cumprida. E agora? Vamos com calma.

Como sabes, só me apaixonei e amei a sério uma vez antes. No calor da descoberta do amor, entreguei-me sem reservas, voei a três metros acima do céu e rasando o solo, pensando que voava de mãos dadas. Claro que ele também se entregou, talvez a mim mais do que ninguém. Disse-me que eu abri portas que ele julgava que estariam sempre fechadas e que ter-se apaixonado por mim foi das melhores coisas que lhe aconteceram na vida. Só que o problema era mesmo esse: eu amava-o e ele estava só apaixonado por mim. E quando o fulgor da paixão amainou e era preciso voltar a ter os pés no chão, o meu amor, por si só, não foi suficiente para dar os passos em frente. Claro que continuei a tentar e por isso, amei-o ainda mais e ele, ainda apaixonado, não dizia que não. Mas a verdade é que o meu amor não era suficiente para o fazer mudar e caminhar comigo. Ele continuou a preferir o conforto da imobilidade emocional a que sempre estivera habituado e por isso, não íamos a lado nenhum, nem num sentido certo nem  por uma direcção errada. Por fim, percebi que para seguir em frente, tinha que continuar sozinha.
Sofri bastante mas não me arrependo de nada. Mesmo breve, foi uma paixão que foi boa de viver e de sentir, e no fundo é isso que importa. Com o tempo, acabei por ver todo essa fase como uma lição de vida e ajudou-me, por exemplo e como te disse uma vez, a ser mais arrumada de cabeça e de coração, o que se revelou bastante útil quando embarquei nesta minha profissão.

E eis que contigo, vi-me na posição inversa. Não foi difícil apaixonar-me por ti e descobri nos teus braços, com renovado prazer, um novo tipo de paixão: serena mas intensa, divertida mas constante, despretensiosa mas viciante. Mas fui percebendo que por subterfúgios subtis que me amavas: nunca dizias nada por palavras, mas dizias tanto quando me recebias junto de ti. E isso assustava-me, pois não tinha certeza se eu poderia corresponder-te como tu merecias. Teria ficado igual àquele que amei antes de ti e era agora eu que não queria mover-me em nenhum sentido? E assustava-me sobretudo saber que eu já tinha estado no teu lugar e como isso poderia ser tão doloroso, e odiava-me por ter de fazer alguém passar por isso. Claro que nunca te queixavas, mas eu sei que as minhas hesitações magoavam-te. Felizmente que a minha indecisão acabou por se resolver, sem eu sequer dar por isso. Bastou um momento de confidências com o Ricardo e o Filipe, para de repente eu ter a epifania de te referir como "aquele que amo".

Agora acabaram-se os mistérios. És aquele que está na minha vida, que me invade o coração, em quem penso nos momentos solitários. O primeiro passo está dado. Ainda tenho bastantes incertezas, não faço ideia para onde vamos, ainda estou bastante assustada em relação a basicamente tudo. Por isso, recorre de novo à tua calma incansável com que soubeste levar a água ao moinho e vamos lá, devagarinho, um dia de cada vez, como sempre fizemos até agora. Pelo menos agora, voando ou palmilhando o solo, vamos em frente.         

With my love,

Mónica
   

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Faz Tanto Tempo

Não quero saber se o teu interesse é sincero ou se é fruto de um capricho perverso.
Não quero saber se para ti sou um recurso e não uma prioridade.
Não quero saber se as mãos que agora me estendes vão ser capazes de me ferir.
Faz tanto tempo que não sinto qualquer olhar de desejo,
por mais remoto, na minha direcção,
que basta teres tido vontade de cruzar o teu olhar no meu
para eu não dizer que não.

Não quero saber se vou sofrer por ti.
Não quero saber se depois irás remeter-me à tua indiferença.
Não quero saber dos arrependimentos ou das desilusões que poderão estar para vir.
Faz tanto tempo em que não entrava num lapso de tempo e espaço
onde não tenho de me preocupar com o que vou sentir depois
e somente apenas preocupar-me em
sentir o agora.

Por isso, faz o que quiseres fazer.
Não tenho medo de me magoar, não tenho medo de sofrer.
E se tiver de ser, sofrerei depois quando for tempo de cicatrizar.
A tempestade que venha depois,
agora só quero sentir o vento que me arrasta para ti,
sentir-te, sentir alguém, 
sentir apenas.

Faz tanto tempo...


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Números Negativos

Quase que não reconhecia a Patrícia, quando a reencontrei no restaurante. A longa trança de cabelo preto tinha dado lugar a um penteado requintado. Envergava um simples mas vistoso vestido lilás e outrora era raro vê-la sem calças de ganga. E em vez de umas simples argolas, uns caríssimos brincos com brilhantes nas orelhas. O almoço foi preenchido com conversas triviais, como vais, o que é que tens feito, o que tem chovido hoje. E eu pensava que já a tinha esquecido a Patrícia, que ela já não significava nada para mim. Até que no instante da despedida, beijei-a e quando dei por mim, tinha-a levado para minha cama e possuído como nunca o fizera.

Quando imaginava o nosso reencontro, tinha-me imaginado indiferente, moderadamente alegre ou até irado. Imaginei tudo menos do que tê-la aqui, deitada na minha cama, depois de termos voltado a fazer amor com a mesma voracidade de quando éramos mais novos mas com a arte que a nossa idade foi adquirindo. A idade fez-lhe bem, amadurecendo-lhe graciosamente a beleza e perfumando-a com uma feminilidade sensual que não conhecia. Agora que a tenha rodeada nos meus braços, não consigo sentir nada. Nem raiva, nem rancor, nem sequer desejo. Só consigo demorar-me no prazer de ter redescoberto uma sensação há muito perdida.
- Fala-me do teu ex-marido.
- Que raio de altura para eu te falar nele.
- Estou interessado. Quem foi o homem que te conquistou.
- Estás muito enganado. Não demorei a perceber que não iria ser nenhuma actriz famosa e que não ia lado nenhum. Mas já era tarde demais e tinha vergonha para voltar. Entretanto conheci o Jorge e ele apaixonou-se por mim. Sim, casei por interesse. Ele tinha dinheiro e estabilidade, e eu não. Eu gostei dele, mas nunca o amei. Mas ele sim, e achava que era suficiente. Para compensá-lo fui a esposa que ele esperava que eu fosse. Foi o papel da minha vida, representar essa mulher que não era eu. Uma mulher que parecia feliz e apaixonada pelo marido maravilhoso. Uma mulher bem vestida, sofisticada e educada, tão radiosa como as jóias que usava.

Ela senta-se na cama, os braços cruzados sobre os seios e continua:
- Eu tentei amar o Jorge. Mas não conseguia. Sobretudo na cama, era um suplício. O pobre percebia muito pouco disso, e se não o tivesse experimentado antes contigo, nunca saberia como poderia ser maravilhoso. Ainda assim, tentei o máximo que pude. Quando engravidei, pensei que um filho melhorasse as coisas. Mas o nascimento do Henrique só veio confirmar que estava a viver uma mentira. Ao ponto de também o Jorge ter deixado de comprar a ilusão. Ainda assim foi generoso comigo no divórcio. Vai-me dando dinheiro que dá para eu viver mais ou menos até conseguir um emprego e ganhar para mim, e eu fico com o Henrique durante a semana.

Levanto-me também e beijo-lhe as costas mas ela continua imóvel. De repente, desata a chorar:
- Patrícia, o que se passa?
- Tu odeias-me.
- Antes de voltar a ver-te, talvez. Mas agora, podes ter a certeza que não.
- Mesmo assim, é tarde demais. Estás bem na vida, vais-te casar e eu vim atrapalhar-te.
- Não sei se me importo de teres vindo atrapalhar-me.
- Mas vais-te importar.
Ela sai da cama e começa a vestir as cuecas e o soutien.
- Mas afinal porque é que me ligaste? 
- Porque tinha a ilusão que eu podia voltar atrás, voltar para ti, ficar contigo. Seres um pai para o Henrique.
- E se eu te disser que tudo isso é possível? Que vou deixar a Laura e que fico contigo, que eu ainda te amo.

Nestes doze anos, extingui o máximo que pude a Patrícia da minha memória e o que sentia por ela do meu coração. Mas uns resquícios, bem escassos, perduravam.
- Não me interessa mais o passado. Agora estás aqui. Podemos começar do zero.
- Mesmo que fosse possível começar do zero, ainda há antes dele os números negativos.
- Eu bem queria que fosse possível, mas agora sei que não serias feliz comigo.
- Talvez prefira ser infeliz contigo do que feliz com outra.
- Eu conheço-te, Paulo. Não há nada que queiras mais do que a felicidade. Até mais do que me queres a mim.
- Já que falaste em números negativos, eu lembro-me que em Matemática nos ensinaram que menos por menos dá mais?
- Nós não somos uma multiplicação. Somos uma adição e isso só daria um número mais negativo.

Eu próprio começo-me a vestir. Ainda estou a abotoar a camisa quando ela, já toda composta, vem-me dizer adeus e dirige-se para a porta.
- Patrícia, espera!
- Paulo, por favor, não insistas.
- Tudo bem, suponho que tens razão. É melhor eu seguir de novo o meu caminho e tu o meu. Só queria saber se tens algum plano para o resto da tarde?
- Não, nada de especial.
- Então, fica só para mais uma explicação de Matemática.
Ela vê a chuva de Outubro a bater na janela, depois olha-me nos olhos e murmura:
- Tu nunca foste muito bom de números, pois não? O teu jeito foi sempre com as letras.