quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Doces Subtilezas

Tomás

Sim, tem sido um bocado difícil deixar de fumar. Nos primeiros dias então, parecia-me uma missão impossível, os pensos de nicotina e as pastilhas que mastigava sempre que me apetecia pegar num cigarro eram fraco consolo. Dois meses depois, por vezes ainda tenho fortes desejos de fumar, mas estes vão se tornando cada vez mais fáceis de suportar. Tantas vezes, basta apenas esperar aí uns dois ou três minutos e já não tenho vontade. Mas tem valido a pena, já noto que me canso menos e já não oiço a Rita a queixar-se de que me beijar é como se estivesse a dar um linguado num cinzeiro. E se eu meti na cabeça que ia deixar de fumar, é o que eu vou fazer. Nunca se sabe para o que estamos guardados, se até a alguém como o Pedro pode lhe acontecer uma porra daquelas. 
E agora em retrospectiva, compreendo que o facto de eu fumar tanto era porque cedia rapidamente a esses desejos, que talvez conseguisse reprimir se eu fosse um pouco mais paciente. Todos nós somos um poço de contradições, e uma das minhas é ser tão impaciente e querer que as coisas aconteçam imediatamente mas ao tempo eu sei que é com calma e gradualmente que consigo fazer acontecer aquilo que eu quero.

E tu, quando é que fazes algo quanto à tua resolução? Ainda não vi nada. Claro, eu compreendo que é complicado quando a rapariga que tu gostas é a irmã do teu patrão,  ainda que este seja teu mentor e amigo. Também sei que o Pedro é todo boa onda e descontraído, mas fica melindrado quando o assunto são as três mulheres da vida dele - a mãe, a filha e a irmã. E que a única relação que mais tiveste parecido com um namoro deixou-te más recordações. Mas ainda assim, acho que devias tentar, dá para ver que a Cláudia engraça contigo e se ela se aperceber que podes ser mais que um amigo, não ficará desiludida. Por isso deixa de ter medo de errar, activa o modo romance e sai da friendzone, senão aí é que nunca passas de amigo e é outro que a apanha. Em várias coisas, tu e a Rita são muito parecidos. Quietos, reservados, introvertidos, não muito dados a socializar mas extraordinários assim que alguém vos conhece um pouco melhor. Bem mais extraordinários do que vocês pensam que são.

Sabias que mesmo quando andávamos naquela fase da amizade colorida e que pensávamos que o que havia entre nós não seria mais que tusa, a Rita não acreditava quando lhe dizia que ela era tão sensual? Apesar de não ser inexperiente sexualmente, ela nunca se tinha visto como alguém que pudesse deixar um homem em brasa e fazê-lo imaginar uma noite de tórrida paixão com ela. Acreditava que podia cativar pela simpatia, pela inteligência ou por ser "engraçada e fofinha", mas não por ser sensual. Mesmo quando lhe dizia o quanto ela me excitava e tendo como prova a minha tenda toda armada mal a abraçava contra mim. Ainda demorei a convencê-la que a sensualidade pode ser algo muito subtil e que só porque não seja explicitamente exibida não significa que não existe. Surpreendida pelos meus avanços e lisonjeada por haver alguém a olhá-la dessa forma, ela entregou-se a mim sem reservas e quem se surpreendeu fui eu, que a desejava cada vez mais. E a Rita percebeu até que eu não era o único a captar aquelas doces subtilezas que me deixavam tão louco por tê-la sob mim.  
É óbvio que ao princípio, nós os dois pensávamos que isto não ia durar, que era só sexo,  e que era só para tirar a barriga de misérias após as nossas últimas relações e que a chama iria eventualmente apagar-se tão depressa como se acendeu. De modo algum pensávamos que iríamos acabar por nos casar três anos mais tarde. Como estávamos enganados!

Por isso, não tenhas receio. Quem sabe se a Cláudia não vê em ti coisas que não consegues ver por ti próprio e perceba que é de alguém como ti que ela anda à procura. Pelo menos sabes que não vais saber a cinzeiro se a beijares.  

Fica bem!

Francisco                

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sopro de Vida

Miguel

Muito me alegro que essa tua resolução de não te negares à comida menos saudável caso te apeteça não te tenha impedido de continuares a deixar de lado do ginásio. Eu sei que não vais admitir nem morto, mas estou em crer que já não passas sem as sessões de tortura do Marcelo, o "nazi de Pernambuco" como tu tão afectuosamente lhe chamas, no ginásio e que o vício do exercício já há algum tempo se sobrepõe ao teu vício da comida. Ouso mesmo afirmar que o apelo que a comida exerce sobre ti já é bem menos irresistível e até já te causa alguma náusea a ideia de comeres, por exemplo, um prato cheio de molotofe. E se me permites ainda mais um atrevimento, acredito que essa tal de Sandra não é estranha a essa tua determinação em continuares a atacar o ginásio. Não vejo a hora de me juntar a vocês mas tenho que ir com calma pois só há duas semanas é que saí do hospital após o AVC, que felizmente não me deixou sequelas, e só anteontem é que fui trabalhar e só para fazer trabalho de escritório. Felizmente que a Vera, o João e o Tomás têm dado muito boa conta do recado na clínica. Por muita impaciência que eu sinta em voltar a minha vida de sempre, não me esqueço do que acabei de passar, de que eu cheguei a estar mais para o lado de lá do que o de cá e preciso de todo o repouso que puder.

Mas em relação ao que me perguntaste no outro dia. O AVC deixou-me com menos medo da morte? Sim e não. A morte continua-me a assustar imenso, até porque não me recordo de ter experimentado aquilo que foi alegadamente descrito por quem passou pelas experiências de quase-morte: túneis de luz, visões do entes queridos falecidos, fugas para fora do corpo onde uma pessoa assiste a tudo como se estivesse a flutuar. Quando recuperei a consciência foi como se tivesse acordado de um longo e profundo sono, sem interferência de consciência ou do subconsciente. E por isso, continuo a temer a morte porque temo que depois da vida, não exista Céu, Inferno, reencarnação, ou simplesmente algo mais uma eterna escuridão. Também receio a morte porque eu quero ser pai que a minha filha precisa, quero vê-la crescer, tornar-se mulher e acompanhá-la a par e passo na sua vida. Se eu próprio não consigo imaginar a minha vida sem os meus pais e se custou tanto ao Tomás perder o pai aos 22 anos, o que menos queria é que a Joana ficasse privada do pai tão cedo. Ou que os seus três anos de vida não lhe permitissem guardar uma memória nítida de mim.
Por outro lado, após as dores que senti antes de perder a consciência, a única sensação que me lembro de sentir foi a de uma estranha calma a sobrepor-se a todos os meus pensamentos, sobretudo os mais aflitivos. Se essa mesma calma for a última sensação que sentirmos quando chegar o nosso instante final, não é uma má maneira de deixar este mundo. Contudo, espero que esse momento ainda esta longe de chegar a mim ou a qualquer um daqueles que amo.

O facto também ter sido pai também me ajuda a recear menos a morte, ao menos sei que deixarei aqui algo que faz parte de mim, feito da minha matéria. Nem sei como é que a Marta me convenceu, quando há quase quatro anos foi atacada pelo relógio biológico e quis ter um filho à força toda. Como ela na altura não tinha com quem, virou-se para mim por eu ser um dos poucos ex que ficaram amigos dela e porque, segundo a Marta, ser aquele providenciaria os melhores genes. Nunca na vida pensei ter um filho com alguém com quem não tivesse junto, mas não me arrependo de ter aceitado o desafio da Marta. Criar a Joana a meias com ela tem tido a sua dose de trabalhos e de chatices, mas tem valido a pena.  Temos ambos feito o melhor que pudemos para lhe refrear as birras e os ânimos exaltados. Claro que tendo ela três anos, não dá para fazermos milagres, mas até que ela não nos dá mais água pela barba do que seria de esperar. E não é por a Joana não ter os pais juntos que tem sido menos amada e cuidada. Até porque, por ela, tenho sempre uma reserva inesgotável de amor. Um amor impossível de explicar e que só poderás entender quando fores pai. 

Tal como é tão difícil de explicar como é acordar da escuridão causada pelo AVC, voltar a abrir os olhos e respirar. Até as dores que sentia eram um novo sopro de vida. Depois de passar por isto tudo, tenho intenção de reduzir as correrias da minha vida ao mínimo possível. A vida é só esta, cada momento é precioso e no fim, o que interessa não é aquilo que alcançámos, mas aquilo que sentimos. Só espero que seja permitido continuar a sentir mais no que me resta da vida. Sobretudo o amor da Joana, da minha família, dos meus amigos e, com um pouco de sorte, de alguém que decida que a sua vida será melhor vivida comigo ao seu lado.

Pedro  




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Animal

Diante do espelho da casa de banho, ela retoca a maquilhagem. O sorriso malicioso que lhe devolve o reflexo evoca as memórias da noite passada, de sexo tórrido e espantoso, porque contendo a certeza de ter sido uma noite irrepetível. Em boa hora que a sua amiga Flore a convenceu a irem passar uma semana a Portugal, na belíssima Costa do Estoril. Como sabia bem trocar o Outono chuvoso e lúgubre da sua cidade do Norte de França por um sol português ainda luminoso e quente apesar de já ser Outubro. E sobretudo, deixar de carpir o fim da relação com Adrien, que tanto teve de abrupto como de decepcionante, com um travo ainda amargo após cinco meses. Mas nem nos seus melhores sonhos imaginaria que aquela semana teria como bónus um caso de uma noite com aquele grego atraente e sensual até dizer chega. Decidindo que ele seria perfeito para acalmar as suas feridas abertas deixadas pela desilusão com Adrien e - tinha que o admitir - saciar as saudades de ser possuída por alguém, chamou a si os seus poderes de sedução e o seu charme de francesa. Verificou alegremente que estes surtiam efeitos no belo grego e teve que se controlar para não saltitar de impaciência quando ele a convidou para irem para o quarto dele. Ela teria preferido que as coisas tivessem decorrido de forma rápida e despojada. Que aquele homem de ar imensamente viril e quase perigoso a dominasse e a usasse com impaciência e crueza animalesca. No entanto, ele foi inesperadamente terno, tão delicado ao tocá-la e tão paciente a possuí-la. Por um lado, o prazer foi maior assim mas por outro tornava a situação mais complicada. Porque lhe dava a vontade de mais, de saber mais sobre ele além do pouco que lhe dissera - que se chamava Apostolos ou Tolis, que era de Salónica, que tinha 31 anos, que estava de passagem por Portugal e que ia para o Brasil no dia seguinte. Sobretudo de o querer mais...Mas por muito que quisesse, o melhor é deixar as coisas como estavam e de o guardar numa doce recordação. 
Ela sai da casa de banho, pega na mala deixada ao pé do mini-bar e lança-lhe um último olhar enquanto ele dorme. Sim é melhor sair, antes de complicar tudo. Antes de sair do quarto, sussurra-lhe "obrigado" em três línguas. Thank you, Tolis. Merci. Efharisto.

Assim que ela sai do quarto, ele senta-se na cama. Foi melhor assim,  fingindo que dormia enquanto ela se recompunha para ir embora, sem despedidas, sem mais conversas. Apenas uma bonita francesinha que ele pernoitou. Certamente que ela não se chamava Marie e se escondeu por detrás desse comum nome francês, tal como ele se escondeu por detrás do nome do seu irmão mais velho, aniquilado pela droga há três anos. Gostava de lhe poder dito isso, e muito mais sobre ele. Mas a vida dele não o permite. Desde que há dois anos foi admitido naquela empresa de segurança privada que actua nos lugares mais perigosos e mais exclusivos do mundo, ele quase que nem se pode dar ao luxo de ser humano. Apenas uma sombra a velar por alguém, um animal pronto a reagir a qualquer sobressalto. O gosto de exercer a profissão, o seu empenho por excelência em tudo aquilo que se metia e especialmente a considerável compensação financeira que lhe permitia que a sua família fosse relativamente poupada ao calvário económico que assola o povo grego eram as suas motivações nos momentos mais árduos. Mas a sua última missão no Iraque tinha sido particularmente difícil e ele tinha acusado o cansaço de se mover constantemente como um cão de guarda, esforçando-se para trancar as emoções para que estas não o traíssem. Não lhe podia ter agradado mais saber que a sua próxima missão seria de escoltar um figurão qualquer do COI durante uma visita ao Rio de Janeiro, para ver o avanço das obras dos próximos Jogos Olímpicos. Aproveitou para passar três dias em Portugal para descansar antes de seguir para o Brasil e renovar energias para estar à altura do que lhe era competido. Nunca teria imaginado que parte dessa descontracção envolvia uma cena de sedução mútua com Marie, mas a oportunidade que ela lhe estendera era tentadora demais para recusar. Apesar da sua atitude atiradiça, pressentiu-lhe algumas dúvidas na auto-estima, a necessidade de confirmar que ela era bonita e desejável. Também reparou que ela andava em busca de uma satisfação sem entrega. Mas isso não lhe concedeu. Pelo menos naquela noite, ele não seria um animal nem um objecto funcional. Ele seria um homem, um amante. E reclamou que a rendição dela fosse igual à sua. O que resultou num profundo êxtase que teve o inconveniente de o deixar a querer mais. Mas isso era um luxo que ele não podia ter. 
Na casa de banho, enquanto lavava a cara, o espelho devolvia-lhe o rosto de um homem reconfortado, apaziguado. Onde o animal cedeu o seu lugar ao ser humano. Ao menos isso. Thank you, Marie. Merci. Efharisto.          
       
  

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Jogo de Tabuleiro

Francisco:

Sabes o que invejo na tua relação com a Rita? Não é o facto de vocês os dois já serem pessoas espetaculares isoladamente e de juntos parecerem ainda melhor, cientes da noção do que amar não é encaixar peças de puzzle mas sim ser o mesmo peão no percurso neste jogo de tabuleiro que é a vida, mesmo quando os dados não estão favoráveis. Nem sequer a aura de tranquilidade que vocês transmitem a quem vos rodeia, dando a ideia que a vossa relação é quase perfeita e sem esforço. O que mais invejo é como a vossa relação é algo de bastante sincero e adulto sem deixar de ser intenso e emotivo e há quatro anos que tem sido assim, tirando obviamente o período em que vocês andaram a brincar aos amigos coloridos sem admitir que já eram bem mais que isso durante mais tempo do que deviam.

Infelizmente as duas relações mais importantes que eu tive falharam por falta de sinceridade e por eu me ter deixado iludir durante demasiado tempo. Quando conheci a Ana, o meu corpo tinha perdido vinte e quatro quilos mas a minha mente não. Vampira como ela era, apercebeu-se disso e alimentava-se das minhas inseguranças. Quando olho para trás, até tenho estas imagens de eu sentindo-me miserável e ela com um discreto sorriso no canto da boca, como uma sanguessuga reabastecida. Perdido entre os conflitos do que eu era por fora e de como me sentia por dentro, e extasiado por finalmente me sentir desejado, fui a sua dose diária durante quase dois anos. Acreditei piamente que era somente porque tinha emagrecido que as coisas tinham mudado e finalmente havia alguém interessado em mim. Mas como continuava com os mesmos 24 quilos por dentro, acreditava sempre que a Ana me fazia sentir que ela era o melhor que eu iria arranjar, que ela poderia facilmente arranjar alguém melhor mas que queria ficar melhor, que não obteria amor e sexo de (o facto de ela ser muito boa na cama só piorava as coisas) de mais ninguém. Foi preciso ter dado comigo no chão da casa de banho após mais uma discussão cheia de drama que ela armou, sem forças para me levantar, com a moral na merda e um vómito a querer subir pelo estômago para finalmente ser sincero comigo mesmo. Assim que comecei a sê-lo, passei a ver a Ana pelo aquilo que era realmente era e o poder que ela tinha sobre mim foi-se dissipando.

Já com a Lígia, o engano foi só meu. Depois do que eu passei com a Ana, foi reconfortante entregar-me à atenção com que ela me rodeou, sentir-me desejado por uma mulher mais velha. A Lígia era totalmente diferente da Ana: madura, culta, apaziguadora, reconhecendo o meu valor mas chamando-me à razão se eu estivesse a ser menos correcto. Mas acabei por me envolver mais do que devia, porque era mais certo que isto era uma relação a prazo, pois eu nunca poderia ser aquele que ela precisava: alguém que a ajudasse a reconstruir a vida e ser um pai para o filho dela, apesar de eu também ter-me afeiçoado bastante ao miúdo. A Lígia ainda deixou-se ir, refugiada no conforto de ter alguém a seu lado, mas acabou por abrir os olhos e abrir os meus também. E lá acabou por seguir cada um com a sua vida, de forma civilizada. 

Tudo isto para dizer que fui para a cama com a Sandra, aquela rapariga que tu e a Rita com quem eu estava quando nos viram à saída do cinema. Temos andado de sair em termos amigáveis, apesar de desde cedo haver uma atracção mútua. Mas com o AVC do Pedro e tanta coisa que ando a questionar na minha vida, a Sandra apanhou-me num momento mais vulnerável e entreguei-me ao momento. Se não tivesse sido bom, tudo seria mais fácil, bastava voltar à casa de partida (sem receber 2000 escudos, não sei quantos euros são no Monopólio actual). Mas o problema é que foi bastante bom. Talvez ainda melhor do que com a Ana ou a Lígia. Foi por ter sido tão bom com elas as duas é que me deixei iludir. Por isso, agora tenho que manter a minha game face, e para onde rolem os dados, vou tentar sincero desde o princípio, mesmo que alguém saia magoado. Se não tivesse um instinto tão avariado no jogo afectivo, até podia dizer que isto com a Sandra pode ser algo promissor. Mas agora tudo o que posso fazer é lançar os dados.

Miguel          


domingo, 22 de setembro de 2013

Cortar o Fôlego

Pedro:

Acabaste de nos pregar o maior susto das nossas vidas. Mas ainda bem que estávamos todos juntos quando te deu aquele maldito AVC. Nem deves imaginar a agonia enorme que foi ver-te cair inanimado assim de repente, como um boneco que ficou sem pilhas. Felizmente que o meu treino dos bombeiros, a rapidez do Miguel em chamar o 112 e a lucidez inquebrável do Francisco quando toda a gente estava no limite da histeria, aliada ao profissionalismo dos médicos que te operaram, ajudaram a que tudo isto não tivesse passado de um negro mas breve pesadelo. As coisas teriam sido certamente muito diferentes se isso te tivesse acontecido quando estivesses sozinho.
Porém o pesadelo ainda se arrastou por dias, e além de nós os três, toda a gente que te ama passou esta longa e negra sucessão de horas: os teus pais, a tua irmã, a mãe da tua filha. E até mesmo a Joaninha, sem que ninguém tivesse tido a coragem de lhe contar a gravidade de situação, pressentiu que esteve perto de ficar sem pai. Todas estas pessoas andaram todos estes dias como se o chão lhes fugisse debaixo dos pés a qualquer momento, ora com o peito apertado de tanta agonia e ansiedade, ora em estado de zombie sonâmbulo.

Na manhã do dia em que acordámos do pesadelo, ainda sem saber que horas deixarias os cuidados intensivos e voltarias a abrir os olhos, o Francisco, o Miguel e eu fomos tomar o pequeno almoço a uma pastelaria perto do hospital. Qual é o nosso espanto quando o Miguel, que não tocava em qualquer coisa doce há quase um ano, decide pedir uma enorme bola-de-berlim a transbordar de creme. Mesmo sem que eu ou o Francisco disséssemos algo, as nossas caras de espantados eram tão transparentes que ele declarou:

"Sejamos sinceros. Se nós imaginássemos que isto iria acontecer a um de nós os quatro, o mais provável era que fosse eu. E o Pedro o mais improvável. Ele praticou todos os desportos possíveis, levanta pesos desde antes da puberdade, é ultra-cuidadoso com aquilo que come, se deu mais de cinco passas de cigarro na vida já foi muito. E no entanto, é ele que está todo entubado nos cuidados intensivos e sabe-se lá como vai sair desta. Por mim, está decidido, não me vou privar nada. Sim, vou continuar a ter cuidado com a alimentação, vou continuar com as sessões de tortura no ginásio, mas se me apetecer o bolo mais calórico, podem ter a certeza que vou comer. A vida é curta e dela só levamos os prazeres que soubemos tirar dela."

Foi então o Francisco tomou logo ali a resolução de deixar de fumar. Sim, estamos a falar do Francisco, que fuma cigarros como quem come tremoços. Mas ele foi categórico em afirmar que quando merdas destas acontecem, se já é suficientemente complicado quando se tem pulmões saudáveis, com pulmões forrados a alcatrão torna-se impossível. O certo é que ao fim de três dias, ainda não pegou em nenhum cigarro. Claro que por vezes revela os sintomas da privação de fumar, mas sendo obstinado como é, será difícil o Francisco ceder. 
Eu também tomei naquele momento e naquele sítio uma resolução, mas não disse a ninguém senão a mim próprio. Ainda não sei bem como hei de fazer, ainda tenho medo do que vão pensar quando o revelar - incluindo tu. Mas sinto que é um risco que tenho de correr e que me irei arrepender amargamente senão o tomar. Já bem basta as outras tantas vezes que não segui um rumo por medo de arriscar...

Porém, agora o importante é que tu despertaste do nosso pesadelo colectivo, como luz a invadir a noite escura e aqueles que te amam recuperaram a respiração sustida. A operação não deixou sequelas e em breve estarás de novo em casa. Não tarda nada, todo este drama não passará de um obstáculo no teu caminho que soubeste transpôr e continuarás a ser o mesmo Pedro de sempre. Irás a ser de novo o óptimo pai que és para a Joaninha, o irmão protector da Cláudia, o filho atencioso para os teus pais, e o companheiro ideal para aquela que procuras e um dia encontrarás. E nós continuaremos a aborrecermo-nos com a tua mania de exercício, da comida saudável, de nos chamares molengões e a adorar-te por isso e muito, muito mais. Tal como a saúde, a amizade é um bem precioso e ter-vos como amigos é algo inestimável, sobretudo para quem viveu uma infância e adolescência solitária como eu. 

Por isso, recupera a tua saúde e respira a vida que quase te escapou (e que a nós três também pareceu cortar-nos o fôlego). E já sabes que nós os três estamos aqui para o que der e vier. 

Tomás 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Olimpismo está em nós


O Olimpismo é algo que me apaixona desde que me conheço. No entanto, dada a minha ausência de talento para o desporto e de meios para deslocar-me às cidades que organizavam os demais Jogos Olímpicos, sentia que seria esta uma paixão confinada aos meus sonhos mais utópicos. A minha experiência como voluntário nos Jogos da Lusofonia 2009 em Lisboa e nos Jogos Desportivos da CPLP 2012 em Mafra ajudou porém a fazer com que esses sonhos não fossem tão distantes, até porque, sem o saber concretamente, pude assistir nesses eventos a várias manifestações dos valores olímpicos: a excelência, o respeito e a amizade.

Esse sonhos ficaram ainda mais próximos quando assisti a uma sessão da Academia Olímpica de Portugal em Almada e me vi rodeado de pessoas dos mais diversos quadrantes que partilhavam a minha paixão pelo Olimpismo. Quando eu soube do concurso de bolseiros para Sessão de Jovens Participantes da Academia Olímpica Internacional de 2013, que oferecia a oportunidade de ir a Olímpia, o berço dos Jogos Olímpicos, e conviver com jovens do mundo inteiro, não hesitei em participar. Quando recebi a carta a dizer-me que eu seria um dos dois representantes portugueses na Sessão, mal podia acreditar, tive que reler a carta mais vezes. Foi uma espera ansiosa até ao dia 11 de Junho, quando embarquei rumo à Grécia.

Quaisquer adjectivos que possam descrever as duas semanas que vivi em Atenas, Delfi e Olímpia parecem tão insignificantes diante tudo o que me foi permitido sentir e experimentar. Éramos mais de 160 jovens de 81 países, de diferentes realidades e percursos de vida, de atletas olímpicos e paralímpicos a académicos, treinadores e gestores. Porém, aquilo que nos diferenciava perdia importância diante daquilo que nos unia, ao ponto de nos parecer estranho que a Humanidade tenho sempre erguido muros ao longo dos tempos a diferenciar as pessoas - nações, religiões, raças, géneros - quando basta apenas uma palavra, ou até um sorriso, para os derrubar.

No ano do 150.º aniversário do nascimento de Pierre de Coubertin, o tema da Sessão foi o Legado Olímpico e como ele pode influenciar e fortalecer a juventude atual. Imersos na herança cultural da Grécia Antiga, atentos aos conhecimento adquiridos nas palestras, contagiados pelo entusiasmo dos nossos coordenadores, dedicados às diversas actividades desportivas, artísticas e lúdicas, inquisitivos na reflexão dos temas que surgiam nos grupos de discussão, acabámos por descobrir que o legado olímpico está em nós. Os valores olímpicos da excelência, do respeito e da amizade, que vivemos nestas duas semanas de forma tão palpável que até parecia bastar respirar o ar de Olímpia, estavam em nós. Ao vivermos segundo estes valores pelos meandros das nossas vidas, estaremos a promover o Movimento Olímpico e a transmitir o seu legado para o futuro.

Ao longo da sua história, os Jogos Olímpicos deixaram inúmeros legados, positivos e negativos, materiais e imateriais, sendo cada qual uma lição que as gerações vindouras devem aprender. Mas mais do que o impacto organizativo positivo de uns Jogos Olímpicos, as proezas incríveis dos atletas ou mesmo a promoção do desporto, da saúde e do meio ambiente, o verdadeiro sucesso do Movimento Olímpico será inspirar cada geração a lutar por um mundo melhor, dando o melhor de si e deitando abaixo as barreiras que teimam sempre em separar as pessoas. Tal como o fizemos em Olímpia.

Na hora da despedida, não evitámos as lágrimas. Ao fim daquelas duas semanas, passámos de estranhos a amigos. Agora éramos todos portugueses, gregos, sírios, guatemaltecos, japoneses, chilenos, australianos suazis. Todos cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, ateus. Todos desportistas, poetas, professores e bailarinos. Todos humanos, pois os valores olímpicos são os valores da Humanidade. Mesmo se as nossas vidas nunca mais se voltarem a cruzar, pelo menos guardaremos as memórias de Olímpia, que perdurarão para o resto da vida. Tal como a vontade de viver a vida pelos valores do Olimpismo e fazer com que o seu legado seja cada vez mais forte. Viemos de tão longe, para perceber que o Olimpismo sempre esteve em nós.  

domingo, 25 de agosto de 2013

Antologia Poética 1999-2002 (Volume 2)

ÍRIS

Quando tudo parece irreal,
Respiramos e votamos a viver.
Tudo tão belo que custa a crer.

Foste um sonho tornado real
Quando vieste no sol da manhã
Fresca e doce como rubra romã.

Agora o real parece ilusão
Juntos, outro mundo começou
Soltamos alegria numa canção
Foste rio que em meu mar desaguou

Mesmo se for de curta duração
Valeu por aquilo que em mim mudou
No espelho - olhar uma revelação
Descobri aquele que eu sou

O OUTRO

Que tem o Outro que não tenho eu?
Como é que ele te fará feliz?
Queria saber, mas ninguém me diz.

Porque é que teu coração não é meu?
Porque te entregas a esse alguém,
Em vez de mim, que te amo como ninguém?

O outro é mais belo, mais forte?
Ele ama-te com a mesma paixão
Como a que trago no meu coração?
Quem me dera ter a sua sorte!

Ele jurou amar-te até à morte?
Também será teu o seu coração?
Só sei que ele tem a tua devoção
E eu tenho um amor sem norte.

INVEJA 

Sou o que tem voz e não deixam falar.
Sou o que tem luz e não pode alumiar.
Sou o que amo sem poder ser amado.

Sou um sonho que foram acordar.
Sou uma ave impedida de voar.
Sou o que não é perdido nem achado.

Não sei porque calam este meu grito!
Talvez por inveja, má conselheira...
Pois eu hei de ir além da cegueira
E encontrar a imagem do Infinito!

Vossas ameaças não me deixam aflito.
Deixem a inveja, gente traiçoeira!
Passem a ser gente verdadeira
E cantem comigo num longo grito.

DEDOS FLUTUANTES

Dedos flutuantes na minha pele...
No meu torso, lábios ardentes...
Uma mão nas minhas costas quentes

Fitam-me uns olhos cor de mel
Que brilham pela noite escura,
Cheios de amor e doce ternura

Vem ao refúgio dos meus braços
Mostra-me teu encanto de mulher
Sente o calor dos meus abraços
Sedentos de abraçar e de viver.

Ofereço-te um amor puro e louco
Como aquele que sonhaste ter.
Tudo o que te disser, ainda é pouco
Só me amando poderás saber...

A TUA MENTIRA

Dói-me o coração, consome-me a ira...
Na minha boca, o sabor do agro fel...
Porque acreditei na tua mentira.

Prendido em tua garras, vampira
Sem coração, violenta e cruel,
Porque acreditei na tua mentira.

Fui tão cego por querer amar
E por me dar a quem não devia.
Amaldiçoada para sempre vais ficar
Por não teres senão uma alma vazia.

Mentirosa - é o que te irão chamar!
Será como a minha, a tua agonia.
O teu castigo será sempre errar
Por entre uma vida incolor e fria.

AMIGOS

Quantas noites passámos acordados
Debaixo de estórias, risos e segredos,
Contando as nossas esperanças e medos.

Quantos momentos vivemos apaixonados
Pela vida que estava à nossa frente,
Pela nossa amizade sempre presente.

E as canções que sabíamos de cor?
E o chocolate quente a fumegar?
E as conversas sobre a vida e o amor,
Sobre o mundo que queríamos abraçar?

Amigos! Que saudades do calor
Do abraço que só amigos sabem dar!
Crescemos e separámo-nos, mas com fervor
A nossa amizade iremos sempre acalentar!