quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Gosto do Natal

Gosto do Natal, até das pirosices.
Gosto de tudo que é previsível de acontecer Natal
e gosto de acreditar que mesmo assim vai acontecer alguma boa surpresa.

Gosto dos barretes de Pai Natal, das mesmas luzes de Natal a iluminar as ruas e das árvores de Natal, 
até das mais escanifobéticas e incipientes
e dos presépios em movimento.
Gosto dos postais e dos e-mails e as imagenzinhas de Boas Festas no Facebook.

Gosto dos Ferrero Rocher, Mon Cheri, Merci e After Eight
do cheiro a óleo na cozinha
do açúcar e da canela generosamente polvilhados nos doces fritos
dos sortidos de bolachas da Cuétara e da Triunfo
do azeite a embeber o bacalhau, as batatas e o ovo cozido.

Gosto do Last Christmas, Do They Know It's Christmas, All I Want For Christmas Is You,
do Shane McGowan a rosnar o Fairytale Of New York,
do A Todos Um Bom Natal e do Petersburger Schlittenfahrt.

Gosto do "Natal dos Hospitais", dos indultos da Presidência da República, das maratonas de filmes na TV.
Gosto dos "Sozinho em Casa" 1 e 2, da "Música No Coração" e "Do Céu Caíu Uma Estrela",
da mensagem do Cardeal Patriarca.

Gosto das lojas atafulhadas de gente, do papel colorido, das fitas douradas.
Gosto da Leopoldina e da Popota.
Gosto das colectâneas de música NOW, dos álbuns best of
dos novos tablets e smartphones,
dos perfumes Givenchy, Lancôme, Cacharel, Paco Rabanne
das caixas do Old Spice, dos jogos da Wii e das Playstations
das promoções "pague um DVD e leve dois"
dos livros best seller, das revistas de previsões astrológicas e das agendas novinhas em folha
dos gorros para os bebés, das luvas para as mães, dos cachecóis para os pais
dos packs de três cuecas e de cinco pares de peúgas.

Gosto de recordar os meus Natais de miúdo
a família reunida em casa da Avó
a roda de dentada de madeira para cortar a massa dos coscorões
as overdoses de anúncios a brinquedos aos sábados de manhã
os artistas pimba do Natal dos Hospitais que não eram tão pimba como os de hoje
as árvores com algodão a imitar foleiramente a neve
o alarve do avô a comer chocolates das Fantasias de Natal
o coelhinho que foi com o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo
do papel de embrulho feito em pedaços 
os Ministars e os Onda Choc a cantar na TV
as festas de Natal da escola

Gosto de saber que eu cresci
e que para mim o significado simbólico do Natal ultrapassa largamente o significado material
que a minha alegria está naquilo que dou
que me interessa quase nada aquilo que possa receber (quase...)

Gosto de pensar que todo os stresses e chatices desta quadra valem a pena.
Gosto de pensar que existe magia e boa vontade debaixo do cinismo.
Gosto de ainda gostar do Natal e de acreditar que gostarei sempre.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Silêncio é de Ouro

Ângelo, seu filho da mãe. Morreste assim de repente, logo tu que tinhas uma saúde de ferro, apesar de te queixares de dores que só existiam na tua cabeça e de teres "é tomar um comprimido" como resposta a todas as maleitas que tu e eu tínhamos. O certo é que nunca faltavas à hidroginástica e às caminhadas e estava certo que eu ia primeiro que tu. Mas o certo é que anteontem, acordei e o teu corpo na cama ao lado estava frio e sem vida.
E agora deixas-me aqui e estou sozinho outra vez. Já não me bastava perder há três anos a minha Adelina com quem estive casado quarenta e seis anos (mais sete de namoro) numa trombose e ter os meus três filhos longe, um na Alemanha, um na Suíça e outro em Lisboa, mas sempre tão ocupado entre o trabalho e a família dele que se vem cá acima uma vez por mês já é muito. Mas não reclamo, porque este lar é caríssimo e custa muito a cada um deles, já que a minha reforma pouco ajuda, e pelo menos sempre telefonam regularmente e tiveram a preocupação de procurar um sítio em condições em vez de me espetarem num pardieiro qualquer, como muita gente que eu conheço. Ainda assim, maldita a hora em que me atribuíram como teu colega de quarto. E sobretudo, maldita a hora em que te enfiaste na minha cama e me fizeste coisas que não são para se dizer. 

Nem sei bem porque é que eu deixei. Se calhar foi saudades da Adelina, quase cinquenta anos a partilhar uma cama, por entre tempos mais prósperos e outros em que tínhamos pouco mais do que um ao outro. Décadas em que nos amámos, primeiro com a ânsia de jovens, depois com a solenidade de adultos e por fim com a ternura de velhos. Creio que sozinho na nossa casa, com tudo o que me lembrava dela, eu ainda dava em doido. Por isso, assim que os meus filhos me falaram em ir para um lar, ao menos estava acompanhado e tratavam de mim, disse logo que sim, está bem. Mal sabia eu que iria partilhar um quarto contigo. E às vezes a cama e aquelas coisas que não são para se dizer.

Pelo que dizias, sempre foste assim. Se fosse hoje em dia, quando até já se pode casar homem com homem e mulher com mulher, talvez nunca tivesses guardado isso no silêncio e poderias fazer isso às claras com quem quisesses. Mas os tempos eram outros, essas coisas, feitas pela calada, não se diziam. Mas tal como vim a saber que toda a gente aqui sabe o que tu és embora nunca ninguém tenha dito nada, também a tua mulher sempre soube. Naquele tempo, para uma mulher, mais valia ter uma amostra de homem do que não ter homem nenhum, e por isso não exigiu mais de ti do que lhe dares filhos e cumprires as tuas responsabilidades de pai. Como vocês tiveram logo duas gémeas, ela não mais te procurou e entreteve-se entre os afazeres do trabalho e das miúdas e tu pudeste fazer o que querias fazer com quem calhasse, quando calhasse, sempre com toda discrição, claro. Só com ambos reformados e as filhas encaminhadas é que vocês se separaram: ela ficou com a casa e tu vieste para aqui.
Não vou ser hipócrita e dizer que não sou como tu. Afinal de contas, não me neguei a nada que me propuseste. Mas antes de ti, nunca sequer me ocorreu fazer isso que fizemos sem nada dizer. Os meus interesses foram só para mulheres e até confesso que até foram umas quantas que desejei, antes e depois da Adelina, embora tenha sido sempre fiel. Mas no fundo, contigo, a questão nunca foi seres homem como eu, a questão é que tinha alguém para abraçar, ter o que ainda podia ser mais parecido com amor no que me restava da vida. Sempre eras um conforto que eu tinha contra o espinho da minha solidão. Mas até me isso foi negado e partiste para o outro mundo primeiro que eu. Como é que me pudeste fazer isso?

Por isso, já decidi. Lembras-te quando o Virgolino, com uma Alzheimer tal que nem sabia a quantas andava, se enfiou no nosso quarto, revolveu tudo e até mijou no roupeiro, e assim ficámos a saber que ele era pai da Directora e que estava no lar à pato num dos melhores quartos? Quando a esse lhe der o badagaio - e isso está por dias - peço à Directora para ir ao quarto dele em troca de manter o meu bico calado. Já que estou fadado para passar o tempo que me resta sozinho, ao menos passo-o sossegado e bem arranjado no meu canto, a pensar na minha vida, na Adelina, nos meus filhos e netos e nas coisas que fiz contigo mas que nunca poderei dizer. Sempre ouvi dizer que o silêncio é de ouro.            

domingo, 8 de dezembro de 2013

Happy Ending

Que festa esta aqui na Cidade dos Anjos. Com tanta cor, tanta luz, talhada mesmo à moda de Hollywood. O Coliseu de Los Angeles ao rubro, o Lionel Richie a cantar. E eis que tudo estoira num turbilhão de aplausos quando entro no estádio, ladeado pelo Spedding e pelo Treacy. Pode ser que eu pareça ter um ar compenetrado enquanto caminho para o pódio, mas por dentro ainda não acredito que tenho um lugar de honra nesta festa olímpica ao estilo Hollywood. Logo eu, o Carlitos de Vildemoinhos!

Em apenas um segundo, vejo toda a minha vida desfilar: a minha infância em Vildemoinhos, a minha Mãe a fazer contas como ninguém apesar de não saber ler e escrever, o meu Pai que ganhou num jogo da malha ao meu professor da 1.ª Classe (e este, ressabiado, fez-me repetir o ano), o meu primeiro trabalho a dar serventia a pedreiro, outro a fazer recados ao ourives e a chegar antes que ele desse conta que tinha partido, os meus primeiros passos no atletismo, ver o mar pela primeira vez aos dezassete anos, o rumo a Lisboa e ao Sporting onde prosperei sob a sábia orientação do Prof. Moniz Pereira e onde conheci a Teresa, as minhas primeiras grandes vitórias, os despiques com o Mamede, a minha estreia olímpica em Munique, o finlandês Viren a ultrapassar-me em Montreal, o nascimento dos meus filhos, a travessia no deserto por entre cactos de lesões, a acupuntura do mestre Kobayashi, o atropelamento na Segunda Circular, a partida para a Califórnia, as medalhas de bronzes da Rosa e do Leitão, o meu ataque aos 37km deixando o irlandês e o inglês para trás só parando na linha de meta onde encontro o ouro olímpico, onde no meu coração coube a alegria de dez milhões de portugueses.

Nestes últimos dez anos, tanto que o meu país mudou depois de conhecer a liberdade. O futuro ainda é incerto, o presente ainda é duro, o passado ainda marca. Mas existe esperança, agora que a poeira da revolução assenta e o sabor da liberdade já está mais entranhado que estranhado. Foi esta esperança que carreguei comigo ao longo destes quarenta e dois quilómetros. Mesmo tão longe, senti o meu país a correr comigo, ouvi os corações dos portugueses a baterem ainda mais acelerados que o meu, bem como os gritos de júbilo quando cruzei a linha de meta. 

Recebo a medalha de ouro das mãos do Sr. Samaranch e de repente, pela primeira vez, soa o hino de Portugal em solo olímpico. E sinto-me como o Homem do Leme do Fernando Pessoa, cá no pódio sou mais que eu. Sou todo o Portugal a ecoar pelo mundo, debruado no verde e vermelho da bandeira.

Este filme teve drama, comédia, suspense, suor, lágrimas, sangue mas como qualquer filme de Hollywood que se preze, tem um final feliz com as palavras "THE END" a surgirem no ecrã ao som de uma música triunfante. Para mim e para o meu país, há vida para além dos filmes e ela segue dentro de momentos. Mas que já há muito que nós merecíamos um happy ending destes.    

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Base Sólida

Miguel

Raios partam o teu primo Francisco. Tive a feliz ideia de seguir o conselho dele e pôr as minhas cartas na mesa com a Cláudia. Levei-a a jantar ao restaurante japonês que ela gosta e depois fomos tomar um copo ao Bar Cáspio, tentando imprimir uma subtil matiz de romance para que não fosse apenas uma saída como amigos. O meu plano era fazer uma grande declaração, dizer-lhe tudo o que ela significa para mim, que já há muito que eu não a vejo apenas como amiga, que com ela sinto-me como nunca senti ao pé de outra rapariga. Na melhor das hipóteses ela se aperceberia que o tipo decente que ela procura, longe dos estroinas com quem ela andou no passado, esteve sempre debaixo do seu nariz, que aliás ela também já me andava a ver com os outros olhos, que já não era apenas o discípulo e amigo do seu irmão e terminaríamos num tórrido beijo com sabor ao Campari que ela estava a beber.
Na pior das hipóteses, ela ria-se de mim, dizia para não ser tonto, que só gosta de mim como amigo e algo mais estava completamente fora de hipótese, que aliás anda de olho num manfio qualquer, mas pelo menos as minhas dúvidas acabariam logo ali.

Mas não, estive sempre a adiar, os meus discursos soavam fabulosos na minha cabeça mas quando abria a boca para falar não me saía nada. Foi então à saída do Cáspio, ela olhou para mim, perguntou "Tomás, o que tens?" e sem saber como, beijei-a. Não pode ter sido exactamente como eu imaginava, nem sequer soube a Campari, mas também foi bom. Até porque ela não ofereceu resistência e também entregou-se ao momento e durante esses breves segundos, parecia que o universo iria ficar alinhado. Só que depois, ela ficou ainda mais confusa que eu e disse-me que era melhor ela ir sozinha para casa. Ainda lhe disse "Cláudia, sabes que eu gosto de ti, não sabes?" e ela ainda se virou para responder um "Sei, sim!". Por um lado fiquei a saber que não lhe era indiferente, mas por outro, o facto dela ter-se posto a milhas logo a seguir, deixou-me desolado. Pior que um não, só mesmo um nim.

O Pedro diz sempre que se um homem que não é feio nem parvo, tem as mulheres que quer, mas não é assim tão simples. Nem todos foram abençoados com a confiança de quem caminha numa corda bamba sem recear a queda, como ele ou o Francisco. Tu é que me podes compreender melhor: se hoje tens a capacidade de conquistar um mulherão como a Sandra, foi algo que conquistaste com muitos erros, second guessings e batalhas interiores. Já eu não só sou extremamente tímido e introvertido como o meu único relacionamento mais significativo acabou bruscamente, quando ainda nem se podia considerar oficialmente um namoro. Ainda hoje penso se podia ter feito alguma coisa para evitar que a Mónica se atirasse de uma ponte e entristece-me saber que aquilo que estava a nascer entre nós não foi suficiente para se agarrar à vida. Só mais tarde vim a saber que ela tinha sido vítima de abusos sexuais em criança que a remeteram para uma escuridão que nem as minhas ténues centelhas foram suficientes para ela poder iluminar uma fuga.

E agora temo que com a Cláudia, a história termine mesmo antes de começar. Resta-me a esperança de que ela dissipe as dúvidas e perceba que da nossa amizade possa surgir algo bem intenso e sólido. Se não o fizer, vai-me custar muito mas que diabo, eu não vou morrer por causa disso. Sobrevivi aos olhares incompreendidos, aos comentários em surdina de certos familiares, ao bullying no 3.º Ciclo, à morte do meu Pai e aos trambolhões e quedas que dei quando perdia o equilíbrio da corda bamba. Por isso, acredito que não há nada, por mais triste ou trágico, que me impeça de me erguer de novo.  Paguei um preço alto por aquela base sólida de amor-próprio que se mantém em pé quando os meus alicerces tremem e mais ninguém, nem mesmo aquela que eu amar, seja quem for, me poderá vender algo em troca.

Tomás 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Doces Subtilezas

Tomás

Sim, tem sido um bocado difícil deixar de fumar. Nos primeiros dias então, parecia-me uma missão impossível, os pensos de nicotina e as pastilhas que mastigava sempre que me apetecia pegar num cigarro eram fraco consolo. Dois meses depois, por vezes ainda tenho fortes desejos de fumar, mas estes vão se tornando cada vez mais fáceis de suportar. Tantas vezes, basta apenas esperar aí uns dois ou três minutos e já não tenho vontade. Mas tem valido a pena, já noto que me canso menos e já não oiço a Rita a queixar-se de que me beijar é como se estivesse a dar um linguado num cinzeiro. E se eu meti na cabeça que ia deixar de fumar, é o que eu vou fazer. Nunca se sabe para o que estamos guardados, se até a alguém como o Pedro pode lhe acontecer uma porra daquelas. 
E agora em retrospectiva, compreendo que o facto de eu fumar tanto era porque cedia rapidamente a esses desejos, que talvez conseguisse reprimir se eu fosse um pouco mais paciente. Todos nós somos um poço de contradições, e uma das minhas é ser tão impaciente e querer que as coisas aconteçam imediatamente mas ao tempo eu sei que é com calma e gradualmente que consigo fazer acontecer aquilo que eu quero.

E tu, quando é que fazes algo quanto à tua resolução? Ainda não vi nada. Claro, eu compreendo que é complicado quando a rapariga que tu gostas é a irmã do teu patrão,  ainda que este seja teu mentor e amigo. Também sei que o Pedro é todo boa onda e descontraído, mas fica melindrado quando o assunto são as três mulheres da vida dele - a mãe, a filha e a irmã. E que a única relação que mais tiveste parecido com um namoro deixou-te más recordações. Mas ainda assim, acho que devias tentar, dá para ver que a Cláudia engraça contigo e se ela se aperceber que podes ser mais que um amigo, não ficará desiludida. Por isso deixa de ter medo de errar, activa o modo romance e sai da friendzone, senão aí é que nunca passas de amigo e é outro que a apanha. Em várias coisas, tu e a Rita são muito parecidos. Quietos, reservados, introvertidos, não muito dados a socializar mas extraordinários assim que alguém vos conhece um pouco melhor. Bem mais extraordinários do que vocês pensam que são.

Sabias que mesmo quando andávamos naquela fase da amizade colorida e que pensávamos que o que havia entre nós não seria mais que tusa, a Rita não acreditava quando lhe dizia que ela era tão sensual? Apesar de não ser inexperiente sexualmente, ela nunca se tinha visto como alguém que pudesse deixar um homem em brasa e fazê-lo imaginar uma noite de tórrida paixão com ela. Acreditava que podia cativar pela simpatia, pela inteligência ou por ser "engraçada e fofinha", mas não por ser sensual. Mesmo quando lhe dizia o quanto ela me excitava e tendo como prova a minha tenda toda armada mal a abraçava contra mim. Ainda demorei a convencê-la que a sensualidade pode ser algo muito subtil e que só porque não seja explicitamente exibida não significa que não existe. Surpreendida pelos meus avanços e lisonjeada por haver alguém a olhá-la dessa forma, ela entregou-se a mim sem reservas e quem se surpreendeu fui eu, que a desejava cada vez mais. E a Rita percebeu até que eu não era o único a captar aquelas doces subtilezas que me deixavam tão louco por tê-la sob mim.  
É óbvio que ao princípio, nós os dois pensávamos que isto não ia durar, que era só sexo,  e que era só para tirar a barriga de misérias após as nossas últimas relações e que a chama iria eventualmente apagar-se tão depressa como se acendeu. De modo algum pensávamos que iríamos acabar por nos casar três anos mais tarde. Como estávamos enganados!

Por isso, não tenhas receio. Quem sabe se a Cláudia não vê em ti coisas que não consegues ver por ti próprio e perceba que é de alguém como ti que ela anda à procura. Pelo menos sabes que não vais saber a cinzeiro se a beijares.  

Fica bem!

Francisco                

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sopro de Vida

Miguel

Muito me alegro que essa tua resolução de não te negares à comida menos saudável caso te apeteça não te tenha impedido de continuares a deixar de lado do ginásio. Eu sei que não vais admitir nem morto, mas estou em crer que já não passas sem as sessões de tortura do Marcelo, o "nazi de Pernambuco" como tu tão afectuosamente lhe chamas, no ginásio e que o vício do exercício já há algum tempo se sobrepõe ao teu vício da comida. Ouso mesmo afirmar que o apelo que a comida exerce sobre ti já é bem menos irresistível e até já te causa alguma náusea a ideia de comeres, por exemplo, um prato cheio de molotofe. E se me permites ainda mais um atrevimento, acredito que essa tal de Sandra não é estranha a essa tua determinação em continuares a atacar o ginásio. Não vejo a hora de me juntar a vocês mas tenho que ir com calma pois só há duas semanas é que saí do hospital após o AVC, que felizmente não me deixou sequelas, e só anteontem é que fui trabalhar e só para fazer trabalho de escritório. Felizmente que a Vera, o João e o Tomás têm dado muito boa conta do recado na clínica. Por muita impaciência que eu sinta em voltar a minha vida de sempre, não me esqueço do que acabei de passar, de que eu cheguei a estar mais para o lado de lá do que o de cá e preciso de todo o repouso que puder.

Mas em relação ao que me perguntaste no outro dia. O AVC deixou-me com menos medo da morte? Sim e não. A morte continua-me a assustar imenso, até porque não me recordo de ter experimentado aquilo que foi alegadamente descrito por quem passou pelas experiências de quase-morte: túneis de luz, visões do entes queridos falecidos, fugas para fora do corpo onde uma pessoa assiste a tudo como se estivesse a flutuar. Quando recuperei a consciência foi como se tivesse acordado de um longo e profundo sono, sem interferência de consciência ou do subconsciente. E por isso, continuo a temer a morte porque temo que depois da vida, não exista Céu, Inferno, reencarnação, ou simplesmente algo mais uma eterna escuridão. Também receio a morte porque eu quero ser pai que a minha filha precisa, quero vê-la crescer, tornar-se mulher e acompanhá-la a par e passo na sua vida. Se eu próprio não consigo imaginar a minha vida sem os meus pais e se custou tanto ao Tomás perder o pai aos 22 anos, o que menos queria é que a Joana ficasse privada do pai tão cedo. Ou que os seus três anos de vida não lhe permitissem guardar uma memória nítida de mim.
Por outro lado, após as dores que senti antes de perder a consciência, a única sensação que me lembro de sentir foi a de uma estranha calma a sobrepor-se a todos os meus pensamentos, sobretudo os mais aflitivos. Se essa mesma calma for a última sensação que sentirmos quando chegar o nosso instante final, não é uma má maneira de deixar este mundo. Contudo, espero que esse momento ainda esta longe de chegar a mim ou a qualquer um daqueles que amo.

O facto também ter sido pai também me ajuda a recear menos a morte, ao menos sei que deixarei aqui algo que faz parte de mim, feito da minha matéria. Nem sei como é que a Marta me convenceu, quando há quase quatro anos foi atacada pelo relógio biológico e quis ter um filho à força toda. Como ela na altura não tinha com quem, virou-se para mim por eu ser um dos poucos ex que ficaram amigos dela e porque, segundo a Marta, ser aquele providenciaria os melhores genes. Nunca na vida pensei ter um filho com alguém com quem não tivesse junto, mas não me arrependo de ter aceitado o desafio da Marta. Criar a Joana a meias com ela tem tido a sua dose de trabalhos e de chatices, mas tem valido a pena.  Temos ambos feito o melhor que pudemos para lhe refrear as birras e os ânimos exaltados. Claro que tendo ela três anos, não dá para fazermos milagres, mas até que ela não nos dá mais água pela barba do que seria de esperar. E não é por a Joana não ter os pais juntos que tem sido menos amada e cuidada. Até porque, por ela, tenho sempre uma reserva inesgotável de amor. Um amor impossível de explicar e que só poderás entender quando fores pai. 

Tal como é tão difícil de explicar como é acordar da escuridão causada pelo AVC, voltar a abrir os olhos e respirar. Até as dores que sentia eram um novo sopro de vida. Depois de passar por isto tudo, tenho intenção de reduzir as correrias da minha vida ao mínimo possível. A vida é só esta, cada momento é precioso e no fim, o que interessa não é aquilo que alcançámos, mas aquilo que sentimos. Só espero que seja permitido continuar a sentir mais no que me resta da vida. Sobretudo o amor da Joana, da minha família, dos meus amigos e, com um pouco de sorte, de alguém que decida que a sua vida será melhor vivida comigo ao seu lado.

Pedro  




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Animal

Diante do espelho da casa de banho, ela retoca a maquilhagem. O sorriso malicioso que lhe devolve o reflexo evoca as memórias da noite passada, de sexo tórrido e espantoso, porque contendo a certeza de ter sido uma noite irrepetível. Em boa hora que a sua amiga Flore a convenceu a irem passar uma semana a Portugal, na belíssima Costa do Estoril. Como sabia bem trocar o Outono chuvoso e lúgubre da sua cidade do Norte de França por um sol português ainda luminoso e quente apesar de já ser Outubro. E sobretudo, deixar de carpir o fim da relação com Adrien, que tanto teve de abrupto como de decepcionante, com um travo ainda amargo após cinco meses. Mas nem nos seus melhores sonhos imaginaria que aquela semana teria como bónus um caso de uma noite com aquele grego atraente e sensual até dizer chega. Decidindo que ele seria perfeito para acalmar as suas feridas abertas deixadas pela desilusão com Adrien e - tinha que o admitir - saciar as saudades de ser possuída por alguém, chamou a si os seus poderes de sedução e o seu charme de francesa. Verificou alegremente que estes surtiam efeitos no belo grego e teve que se controlar para não saltitar de impaciência quando ele a convidou para irem para o quarto dele. Ela teria preferido que as coisas tivessem decorrido de forma rápida e despojada. Que aquele homem de ar imensamente viril e quase perigoso a dominasse e a usasse com impaciência e crueza animalesca. No entanto, ele foi inesperadamente terno, tão delicado ao tocá-la e tão paciente a possuí-la. Por um lado, o prazer foi maior assim mas por outro tornava a situação mais complicada. Porque lhe dava a vontade de mais, de saber mais sobre ele além do pouco que lhe dissera - que se chamava Apostolos ou Tolis, que era de Salónica, que tinha 31 anos, que estava de passagem por Portugal e que ia para o Brasil no dia seguinte. Sobretudo de o querer mais...Mas por muito que quisesse, o melhor é deixar as coisas como estavam e de o guardar numa doce recordação. 
Ela sai da casa de banho, pega na mala deixada ao pé do mini-bar e lança-lhe um último olhar enquanto ele dorme. Sim é melhor sair, antes de complicar tudo. Antes de sair do quarto, sussurra-lhe "obrigado" em três línguas. Thank you, Tolis. Merci. Efharisto.

Assim que ela sai do quarto, ele senta-se na cama. Foi melhor assim,  fingindo que dormia enquanto ela se recompunha para ir embora, sem despedidas, sem mais conversas. Apenas uma bonita francesinha que ele pernoitou. Certamente que ela não se chamava Marie e se escondeu por detrás desse comum nome francês, tal como ele se escondeu por detrás do nome do seu irmão mais velho, aniquilado pela droga há três anos. Gostava de lhe poder dito isso, e muito mais sobre ele. Mas a vida dele não o permite. Desde que há dois anos foi admitido naquela empresa de segurança privada que actua nos lugares mais perigosos e mais exclusivos do mundo, ele quase que nem se pode dar ao luxo de ser humano. Apenas uma sombra a velar por alguém, um animal pronto a reagir a qualquer sobressalto. O gosto de exercer a profissão, o seu empenho por excelência em tudo aquilo que se metia e especialmente a considerável compensação financeira que lhe permitia que a sua família fosse relativamente poupada ao calvário económico que assola o povo grego eram as suas motivações nos momentos mais árduos. Mas a sua última missão no Iraque tinha sido particularmente difícil e ele tinha acusado o cansaço de se mover constantemente como um cão de guarda, esforçando-se para trancar as emoções para que estas não o traíssem. Não lhe podia ter agradado mais saber que a sua próxima missão seria de escoltar um figurão qualquer do COI durante uma visita ao Rio de Janeiro, para ver o avanço das obras dos próximos Jogos Olímpicos. Aproveitou para passar três dias em Portugal para descansar antes de seguir para o Brasil e renovar energias para estar à altura do que lhe era competido. Nunca teria imaginado que parte dessa descontracção envolvia uma cena de sedução mútua com Marie, mas a oportunidade que ela lhe estendera era tentadora demais para recusar. Apesar da sua atitude atiradiça, pressentiu-lhe algumas dúvidas na auto-estima, a necessidade de confirmar que ela era bonita e desejável. Também reparou que ela andava em busca de uma satisfação sem entrega. Mas isso não lhe concedeu. Pelo menos naquela noite, ele não seria um animal nem um objecto funcional. Ele seria um homem, um amante. E reclamou que a rendição dela fosse igual à sua. O que resultou num profundo êxtase que teve o inconveniente de o deixar a querer mais. Mas isso era um luxo que ele não podia ter. 
Na casa de banho, enquanto lavava a cara, o espelho devolvia-lhe o rosto de um homem reconfortado, apaziguado. Onde o animal cedeu o seu lugar ao ser humano. Ao menos isso. Thank you, Marie. Merci. Efharisto.