terça-feira, 22 de abril de 2014

Matéria e Forma

Nos meus sonhos, é como nunca tivesses deixado ser matéria e forma.
Pouco ou nada dizes, limitas-te a estar sentado algures mas é o quanto me basta. Vejo as rugas do teu rosto, os matizes verdes e cinza dos teus olhos, o teu bigode - sempre o bigode! - e os teus braços que tanta vezes me embalaram quando eu era um ser tão pequenino e frágil. 
Tento dizer qualquer coisa, há tanta coisa para dizer, tanta coisa que eu nunca te consegui dizer, mas não me sai nada. Não preciso dizer nada. Bastou sempre apenas estar ao teu lado. E é o quanto me basta para que o meu coração cale um dos seus maiores tormentos, nem que seja neste mundo paralelo.  

Quatro anos? Quatro segundos? Quatro dias? O que é o tempo desde que deixaste de fazer parte deste mundo? Contigo, uma parte de mim também deixou de existir, todos aqueles que te amaram sentiram um pouco da alma a ser decepada. Mas temos de continuar. O que há mais a fazer, senão continuar? Sim, a vida é injusta como o caraças, os loucos julgam-se sãos, os sãos sentem-se tocados pela loucura, os mentirosos convencem-se que dizem a verdade, as mulheres bonitas vasculham em si fealdades, merdas acontecem a quem não as merece e os sacanas escapam-se airosamente por entre clareiras de sorte imerecida. Mas é assim a vida e a vida é tudo o que nos foi deixado.

Onde quer que estejas, saberás que continuamos com alguns dos nossos calvários, libertando-nos de alguns e adquirindo outros? Do livro que eu publiquei e que te dediquei? Dos sonhos que nos levaram a locais inesperados e das desilusões que nos fizeram cair das nuvens e acabar estendidos no chão? Do país mergulhado nas brumas de crise, desespero e incerteza como há muito não se via, a quem já adivinhavas essa sentença?   

Terás perdoado todas as vezes em que te faltei ao respeito? Ter-te-ás arrependido de alguma vez em que foste mais duro comigo do que devias? Saberás agora tudo aquilo que sempre te quis dizer e os segredos que nunca te ousei confessar? 

E de repente, não há perguntas, palavras, sons. Nestes sonhos estás comigo, consigo sentir mais uma vez o teu amor por mim. E é tudo o que eu preciso. 
Mas eu trocava todos esses sonhos por apenas mais um pouco da tua existência.    

quinta-feira, 27 de março de 2014

Voos Sensitivos

Francisco:

Tanto tempo a imaginar como seria ter a Cláudia nos meus braços e na minha cama e agora que finalmente não é só a minha imaginação, mal consigo acreditar. Eu estava cheio de medo que, de tanto idealizar esses momentos, eu acabaria por me decepcionar. Mas não foi o caso, longe disso. Foi ainda melhor. Nem sei como nem sequer me senti nervoso e consegui fazer tudo bem, a rendição dela inspirou-me. A Cláudia não disse muito, mas deu para ver que ela ficou impressionada e surpreendida.
Até eu próprio me surpreendi. Como é sabido, não tenho muita experiência. Ela foi apenas a terceira mulher com quem eu tive relações. Além dela, só houve a Mónica, os únicos momentos minimamente nítidos numa relação que foi tão obscura para os dois e que terminou tão abruptamente, antes de poder ter sido algo mais luminoso. Depois a Nuria, a espanhola que estava em Erasmus no terceiro ano do meu curso, que numa noite mais regada, deitou-me a mão e eu deixei-me ir. Ainda não sei o que um mulherão daqueles viu em mim, mas seja o que for, só lhe agradeço a clarividência.

Como sabes, quando lhe contei que gostava dela, a reacção da Cláudia não foi a melhor e ainda andei uns dias aflitos e só me apetecia danar-me por ter seguido o teu conselho. Felizmente que pouco depois ela decidiu dar-me uma oportunidade. Nesse aspecto, ela é igualzinha ao Pedro. Quando algo ou alguém lhes troca as voltas aos seus planos ou às suas convicções, ficam em pânico e só depois é que ajustam as agulhas. Por isso é que volta e meia eles andam às turras e a Cláudia se compraz em contrariá-lo. 
Qual não foi o meu espanto quando recebi o convite dela para regressarmos ao Bar Cáspio. Pensei bem, tu és porreiro, acho que te posso dar uma oportunidade, vamos com calma. Farto de ir com calma estava eu, mas não calei as ansiedades. Conforme os teus conselhos, fui elaborando o plano para que ela gradualmente deixasse de ver em mim apenas o Tomás amigalhaço/tipo porreiro/colega do irmão/quietinho-e-bem-comportado para lhe revelar um Tomás deus-do-charme-e-da-sedução. Um Tomás que até eu próprio não tinha certeza que existia mas que também habita em mim e que também a deseja. Um heterónimo cujo escrutínio foi essencial para que ela deixasse as dúvidas e percebesse tudo aquilo que estava disposto a lhe entregar. Essa metamorfose apanhou-a de surpresa e quando demos por nós já não havia nenhum escrúpulo possível e só havia nós, os nossos corpos e o nosso prazer, além das coisas visíveis e invisíveis.

Mais uma vez, a Cláudia vê-se de novo em terreno desconhecido, de voltas trocadas e procurando uma bússola para os seus afectos. Eu próprio não tenho a certeza se o próximo passo não seja em falso e também preciso pensar. Mas não me importo, pois pelo menos ela não quer fugir, intrigada em descobrir o que mais lhe posso oferecer. E tanto que eu tenho, mais até do que aquilo que sonho em receber dela. Tantas palavras, tantos gestos, tantos voos sensitivos. Mas por agora vamos calma. E eu sempre ganhei mais em manter a calma do que em perdê-la.       

Tomás
    

quinta-feira, 20 de março de 2014

Ao Ponto de Querer

Quero-te,
ao ponto de não conseguir lembrar-me se já quis alguém assim.
Ao ponto de não ter a certeza se já quis outras mulheres.
Ao ponto de me baralhares os sentidos, de me sentir capaz de ouvir cores e tactear cheiros.

Apetece-me ser meigo contigo e derreter-me em doçuras.
Apetece-me ser bruto contigo e de te ver entregue à minha barbárie.
Ser indecente e sentir que tu gostas disso.
Ser terno e dócil e sentir que tu precisas disso.

Conduzir os meus dedos por cada milímetro da tua pele
e deixar nela um rasto de brasas,
que derretem qualquer reserva que ainda possas sentir.
Ouvir da tua boca palavras sujas que de outra forma nunca ousarias verbalizar.
Dizer-te indecências que de outra forma eu nunca diria a ninguém.

Apetece-me ser homem, carne, músculo, carrasco, servo.
Apetece-me ter-te mulher, cetim, açúcar, presa, deusa.
E entre o que eu puder ser e o que tu ousares ser,
Sermos coração, paixão, pecado e amor.

Perder conta aos toques e beijos,
ao suores e aos cansaços, a todas as fusões e osmoses.
Romper com os riscos dos limites
e descobrir que não havia nenhum risco a pisar.
Acreditar de que todo o mundo cabe em poucos metros quadrados
e os corpos são vícios insuperáveis e alavancas imprescindíveis.

Quero-te,
ao ponto de um querer que me mata e que me alimenta.
Ao ponto de sentir que só por este querer é que eu vivo.
Ao ponto de sentir que só vivo por me quereres também.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Tiro ao Melro

Sei muito bem aquilo que dizem de mim, mas quero lá saber. De facto, tenho pena de não saber dissimular melhor de que não nasci em nenhum berço de ouro e é certo que por vezes ponho o pé na argola. Mas que se lixe, já que sou mesmo assim semi-pindérica, ou não me chamasse Carla Andreia, mais vale sê-lo abertamente do que me armar em sonsa como tantas que eu conheço e que têm pergaminhos tão ou mais duvidosos. O João também não é lá muito bem nascido, mas para os homens, ser bem endinheirado é quase a mesma coisa. É mais às mulheres que se fazem esse tipo de cobranças.

Quem nunca quis subir na vida que me dê o primeiro tiro antes de me chamar pistoleira. Cada um joga com os trunfos que tem, e a mim calhou-me um belo palmo de cara e corpo e algum talento para o jogo de anca. Deitei as minhas cartas e por imensa sorte calhou-me o João, ainda jovem, bem bonito e em franca ascensão. Como disse, o João também não nasceu endinheirado e se é todo um gentleman foi por puro auto-didactismo, e se eu atino minimamente com as etiquetas e com os salamaleques, devo-o sobretudo a ele. Ainda hoje não sei bem como é que ele conseguiu ver em mim um diamante em bruto e assim promover-me de secretária a esposa, mas só tenho a agradecê-lo por isso. 

Sim, admito que tomei o João como alvo e abri-lhe às pernas à primeira oportunidade. Mas isso por si só não é nenhuma garantia de sucesso e ele podia facilmente despachar-me. Só que não o fez. Também não tenho a ilusão de que o João ficou logo caidinho para mim, porque ele é esperto demais para isso e não me admiraria que ao princípio um dos motivos dele para me ter pedido em casamento era para ter uma mulher-troféu toda boazona para exibir aos amigos, rivais e afins. Por isso, e já que me posso permitir a isso, esfalfo-me no ginásio, faço todos os tratamentos de beleza que posso e estou atenta às modas e já ganhei um bom olho em reparar naquilo que me fica a matar. Coisa que já fazia antes, dentro do que me era possível. E ao menos não sou dessas que não fazem a ponta de um chifre em casa. Posso não saber cozinhar grande coisa mas safo-me minimamente e não tenho alergia a aspiradores e esfregonas. 
No entanto, e mesmo que ninguém acredite, não é mentira nenhuma quando afirmo que amo o João e só espero que ele tenha metade do afecto que eu tenho por ele. Sim, começou com um interesse mas será assim tão inacreditável que algo mais tenha surgido depois? 

Creio até que casaria com ele mesmo que fôssemos uns pobretanas como os meus pais. Mas é algo em que não me detenho muito a pensar, até porque não vale a pena. No fundo, até admiro bastante os meus pais e tenho alguma pena de não ter herdado mais da sua bondade e honestidade. Mas também sei muito bem como tantas e tantas vezes como foram espezinhados ao longo da vida por serem demasiados honestos e cedo percebi que não era isso que eu queria para mim. Já dizia a Marilyn Monroe que infeliz por infeliz, antes numa limusina do que num autocarro.

Por isso, estou infinitamente grata por ter chegado aonde cheguei, mesmo que por caminhos não muito cristãos e faço o que posso para assim me manter, porque nunca se sabe para o que uma pessoa está guardada. E quero lá saber se me chamam interesseira, se afirmam à boca cheia que subi na horizontal, se troçam sem disfarçar muito das minhas argoladas e do meu nome Carla Andreia. Se nasci com jeito para o tiro ao melro, o melhor é exibir com orgulho a minha espingarda.        

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Reencontros Imediatos do Terceiro Grau

Miguel:

A vida tem destas piadas. Não é que na semana do Dia dos Namorados, tanto eu como a Rita recebemos como prenda dois reencontros imediatos do terceiro grau com os nossos ex?
Primeiro foi no shopping, tínhamos ido ver o "Golpada Americana" e à saída cruzámo-nos de caras com o Nuno, o ex da Rita, que trazia atrelada uma bimba com ar de futura concorrente da "Casa dos Segredos". Como não era impossível simular uma miopia temporária, lá tivemos que nos cumprimentar e ele viu-se obrigado a apresentar-nos a tal Tatiana. Claro que eu fui bastante cordato mas durante os breves minutos que durou essa cerimónia forçada, mas na minha mente só imaginava o meu punho a aterrar na cara de parvo dele. E tu sabes que são muito poucas as pessoas que me despertam uma vontade urgente de lhes ir à cara. Nem consigo compreender o que é a Rita viu naquele estafermo, todo pipi e convencido e como é que ela aguentou tanto tempo até lhe mandar ao bilhar grande, sabendo que ele andava a traí-la a torto e a direito. Aliás consigo, porque me lembro bem da Rita que eu conheci, tão insegura e tão pouco ciente dos seus encantos de mulher. E infelizmente existem muitos homens que se alimentam de mulheres inseguras, levam-nas com palavras bonitas e fazem delas o que querem. Não custa a crer que tenha sido isso que se passou com eles. Mas felizmente que a Rita teve a capacidade de dizer basta quando as patifarias dele tornaram-se óbvias demais para serem ignoradas. E a perda dele foi o meu ganho, e sobretudo o da Rita que não mostrou nenhum embaraço e no fim até me disse:
- Nem acredito que eu gostei daquele gajo. Eu era cá uma tótó!

Depois no próprio dia 14, fomos jantar fora e não é que de todos os restaurantes desta cidade, não me entra a Mariana? Eu que a julgava para sempre remetida lá para o Porto, entre a Torre dos Clérigos e o Estádio do Dragão. Vinha acompanhada da irmã e de mais uma meia-dúzia de amigas, ao que parece era a primeira paragem da noite de despedida de solteira de uma prima dela. Como ela se mudou para o Porto pouco depois de termos acabado, foi fácil para mim arrumá-la numa recôndita prateleira emocional mas agora revê-la de novo ao fim de cinco anos chateou-me mais do que gostaria.
Bolas, ninguém está imune de ser corno mas apanhá-la em pleno acto no carro dela com o parvalhão do Eduardo foi péssimo demais, algo assim que ataca sempre como um murro num gajo. Tenho ainda bem presente a cara do cabrão, que sempre teve inveja de mim, com um sorriso nojento. E no entanto tudo o que fiz foi dar meia volta e deixar no dia seguinte à porta da casa dela um caixote com todas as suas coisas que estavam no meu apartamento. Se era para arrancar o penso, mais valia ser logo.
A Mariana acabou por ir ter com a gente, escudada pela irmã, trocámos algumas perguntas de circunstância, apresentei-lhe a Rita. Continua lá no Porto, gosta de lá estar, não anda com ninguém de momento. A Rita tirou-lhe as medidas, percebeu que a presença da Mariana estava a incomodar-me mais do que eu queria, mas nada disse do que olá e boa noite e também não disse nada quando chegámos a casa. Ela já sabe que quando me acontece algo assim, o melhor é eu digerir bem. Além de que a mulher que ela hoje é já não se põe com receios infundados e outras ninharias emocionalmente patológicas a que muitas mulheres se dedicam quando confrontadas com o passado dos seus companheiros.  

É claro que a Rita vale mais do que dez Marianas. É claro que nunca gostei da Mariana como eu gosto da Rita. É claro que a minha relação com a Mariana não tinha muitas pernas para andar, por imensos motivos. Mas tu bem sabes como foram muito poucas as mulheres a quem me entreguei mais do que eu estou disposto a permitir e a Mariana foi uma delas. Por isso doeu o que ela me fez e ainda dói recordar-me disso tudo, e só não dói ainda mais porque ela felizmente está longe e não tenho muitas hipóteses de a reencontrar, ao contrário da Rita com o Nuno. Por isso demorei tanto tempo a admitir que estava apaixonado pela Rita e a perceber que ela era alguém a quem me podia entregar sem reservas nem receios. 

Apesar de tudo, foi bom descobrir o quanto nós dois percorremos desde que estamos juntos. Para trás não é caminho e por isso estas ricas prendas inesperadas não foram nenhuns presentes envenenados mas sim uma revisão de lições aprendidas. Estou certo que quando tu e a Sandra passarem pelo mesmo, também o irão descobrir.

Francisco 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No Sítio Certo

Amanhã é Dia dos Namorados e tu vais olhar para o dia 14 de Fevereiro no calendário com a mesma indiferença que olharias um 27 de Outubro. Sei que não me vais oferecer flores, bombons ou cartões. Não me vais dizer outra vez o quanto me amas, não me vais surpreender com um jantar romântico à luz das velas, nem sequer com uma brincadeira sensual na cama. Mas não me importa.

Eu sei que és um homem de poucas palavras e de gestos discretos. Não desperdiças discursos nem perdes tempo com ninharias. Para ti, as grandes declarações de amor, os beijos à chuva e as cenas de amor sob a lua azul só ficam bem no cinema. Nunca te deixaste tentar pela ilusão de que viver um amor é um misto de comédia romântica e filme pornográfico. Mesmo quando te afoitas a dizer-me palavras ternas, fazes com uma aparente apatia ou o discurso sai-te atabalhoado. Mas não me importa.

Se eu fosse mais nova e não soubesse o que eu sei hoje, essa tua aparente indiferença iria perturbar-me. Pensaria que o pouco que tu exprimes só poderia significar que tu pouco sentes. Exigiria ouvir tudo reafirmado e reforçado, a viva voz e papel timbrado. Frustrar-me-ia essa tua maneira de ser, estátua de gelo e rapaz de bronze. Mas agora não me importo.   

Porque tens as tuas maneiras de me dizeres que eu sou aquela que tu amas. Que é em mim que tu pensas nos teus momentos mais solitários. Que os teus piores dias são menos negros porque eu estou contigo. E aí não são necessárias palavras.
Porque me demonstras subtilmente o teu amor nos momentos mais inesperados e nos mais difíceis. Porque estás ao meu lado nas minhas melhores horas e ainda mais próximo nas piores. Porque o teu abraço é o meu abrigo e o meu repouso. 
Porque as nuvens metem-se volta e meia a tapar o Sol e a vida mete-se sempre por entre as nossas doces ilusões, as merdas acontecem, e nós somos humanos, feitos de carne e osso, imperfeitos e desregulados, somos à vez impacientes, ridículos, caprichosos, egocêntricos, imaturos, preguiçosos e irritantes, por vezes nem nos aturámos a nós próprios quanto mais outra pessoa. E depois de passar por tudo isso, contra todas as expectativas, continuamos lado a lado e o que sentimos não mudou, esteve apenas escondido, quando muito fechado para balanço.

Tu não és daqueles que, como diz a expressão inglesa, leva o coração na manga. Mas não me importa, porque o teu está no sítio certo. Seja 14 de Fevereiro ou 27 de Outubro.

Feliz Dia dos Namorados.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Medição de Palavras

Tomás

Ainda me lembro no primeiro dia em que entraste na clínica para o teu estágio. Tinhas uma ar tão acanhado, tão cheio de reverência para mim e para o João, a tratar-nos por você mesmo quando eu te disse logo que me podias tratar por tu. Confesso que eu tinha as minhas dúvidas sobre se irias entrosar-te bem com as actividades da clínica. Porém, qualquer timidez que tinhas para com os teus superiores, mal se notava quando atendias os clientes. Eras atento e bastante educado para com os pacientes e sem seres muito conversador, sabias dialogar com eles e fazer com que eles se sentissem à vontade. Foi aí que percebi o teu enorme potencial como fisioterapeuta e como o negócio já justificava contratar mais alguém, não hesitei em te contratar assim que terminasses o curso.

Assim que passámos de uma simples relação de chefe e empregado a uma amizade cada vez mais sólida, pude-me aperceber como eras de verdade, e deitar por terra algumas ideias pré-concebidas das pessoas introvertidas. Afinal não eras tímido e pouco sociável, apenas preferes não socializar mais do que o necessário e guardar uma dose dose de tempo para dedicares-te aos teus pensamentos. Isto para além de todas as dificuldades que atravessaste, por seres tido como uma carta fora do baralho por tanta gente. No círculo de amigos que não tardámos a formar com o Miguel e o Francisco, não te rias nem falavas menos do que qualquer um de nós. Mas acabei por perceber que escutavas mais do que nós os três e não demoraste a captar o coração generoso do Francisco sob aquela imagem de macho-alfa, as mágoas e as conquistas interiores do Miguel e os minhas inquietações e queixumes, aparentemente invisíveis atrás do meu sorriso confiante. Quando eu era mais novo, eu era a definição da extroversão: eu vivia para socializar, para falar com as pessoas às vezes mesmo em modo de palraria, para motivar os mais acanhados, para expressar tudo o que me vinha na alma. Só agora é que consigo encontrar algum conforto no silêncio, cada vez mais precioso neste mundo que não pára de fazer ruído, e em grande parte devo isso a ti. Aliás, desde que sou pai e agora ainda mais depois do AVC, cada vez tenho menos vontade de falar só por falar. As palavras são de prata e os silêncios de ouro e não é bom esbanjá-los. E cada vez gosto mais de ser aquele que ouve do que aquele que fala. Eu posso ter-te ensinado imensas coisas, mas isto foi algo que aprendi contigo.

Apesar da nossa amizade, eu sei que tens imenso respeito por mim e por vezes esse respeito ganha forma de ultra-reverência e até de algum temor. Por isso é que ainda não me disseste que tu andas com a Cláudia. Eu sei que sou muito melindroso quando o assunto são as três mulheres da minha vida: a minha filha, a minha Mãe e a minha irmã, mas de mim não tens nada a recear. Tu não és um qualquer, conheço o teu carácter e o teu coração e sei que, dê no que der, a vossa relação será algo muito positivo para a Cláudia. Tal como me ensinaste a arte do silêncio e da medição de palavras,  talvez ela aprenda contigo a tua outra arte de medir as emoções. Não é à toa que diz que as águas mais paradas correm mais fundo. 

Pedro