quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Q4

Não me fales do Verão tímido nem do princípio de Outono descarado.
Não me fales de política nem de futebol.
Não me contes dos horrores por esse mundo fora nem das comédias românticas impressas nas revistas.
Não me digas quantos segredos têm a casa nem quantas letras tem o factor.
Não me fales do cansaços perenes nem das azias do tempo, dos engarrafamentos e das greves dos transporte.
Não me lembres que o ano está no seu último trimestre e tanto ficou por fazer.

Senta-te apenas comigo, sem pressas e pega-me na mão.
E aí podes falar das árvores a despirem-se de folhas,
de como vai ser bom tentar enganar o frio com fofas camisolas de lã,
ou podermos dormir uma hora a mais na noite da mudança para  hora de Inverno.
E que vem aí o Natal, o Ano Novo e tantos feriados que deixaram de o ser.

Numa era em que as estações do ano pareceram entrar em esquizofrenia,
nada como confiar na arrumação dos calendários,  a repartição entre dias, semanas, meses e trimestres.
Cada tem quatro trimestres, quatro quartos e estamos agora à porta do último,
o Q4.
É certo e sabido  que o tempo que o tempo nunca para
e nos rouba tantas horas que gostaríamos de recuperar
e nos faz lembrar de tanta coisa que podíamos ter feito e não fomos capazes.
Por isso, fala-me de fins e recomeços.
De portas que se fecham e janelas que se abrem.
De lareiras para espantar o frio e de gelados para combater o calor.
Porque o Q é uma letra que se lê
e a vida não foi feita para ser passada em silêncio.


 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cicatrizes de Guerra

A vida tem destas coisas. Por muitas voltas que se dê, por vezes regressamos aos mesmos sítios e às mesmas pessoas. E eis-nos aqui na fase em que de partilhar ocasionalmente uma cama, já falamos em partilhar algo mais. 
A verdade é que sempre uma atracção, uma química entre nós desde os tempos do liceu, quando nos conhecemos através de amigos mútuos num concerto dos Silence 4 no auge dos loucos anos 90 portugueses quando não havia crise e o futuro ousava oferecer a promessa de luminosidade aos jovens de então. No caminho de regresso, no teu estilo folgazão resolveste pegar em mim e puseste-me a dançar agarrada a ti sem música e já aí senti o corpo a fervilhar nessa proximidade como raramente ou nunca o sentira até então. Éramos ambos jovens demais para agir de acordo com essa sensação, mas ela foi persistindo em mim como prenúncio de uma promessa que não tinha pressa em fazer-se cumprir. 

Nos anos que se seguiram, as nossas vidas cruzavam-se de forma intermitente mas algo pendular e sempre agradável. Fomos descobrindo essa grande mentira em que todos nós acreditámos ao achar que, tal como na escola, bastariam somente mérito, esforço e disciplina para vencer na vida. Em vez disso, um tortuoso caminho traçado com cabeçadas na parede e abre-olhos. E no amor, a descoberta que a vida amorosa tem mais momentos de novela mexicana do que de comédia romântica de Hollywood. Os anseios e as desilusões, as expectativas ciclicamente renovadas e goradas, as frustrações e as recaídas na tentação. Os casos que eram para significar pouco mas afinal valeram muito, as relações que pareciam tão valiosas para duas pessoas e afinal valiam bem menos pelo menos para um delas. Com o tempo, fomos construindo uma carapaça de cinismo e discernimento só para sobrevivermos a tanta batalha, tanto na vida como no amor.

Porém, sempre que te encontrava, ficava feliz em constatar que mesmo não sendo quem tu eras, continuavas igual a ti próprio e era fácil adivinhar naquele adulto tão responsável e astuto, o adolescente brincalhão de sorriso fácil. E aí, eu descobria que o mesmo se aplicava a mim, que apesar de tudo, não me tinha tornado amarga nem pardacenta. E que a nossa química ainda estava presente, subtil mas marcante, deixando no ar um talvez que fomos deixando por concretizar, pelos mais diversos motivos. 

E se calhar foi porque esta foi a melhor altura para deixar tudo acontecer. Na casa dos trinta, já com tanto vivido mas ainda muito por viver, exibindo sem pudor as nossas cicatrizes de guerra que a vida nos deixou, os erros de navegação e as atribulações de uma corrida sem meta. E quando aconteceu, atirei-me de cabeça. Receei que fosse complicar tudo mas até agora tem sido tudo relativamente simples e descomplexado, como sempre foi a nossa amizade. Talvez porque connosco a fase do encantamento que se sente quando se inicia uma paixão, nunca existiu. Já conhecíamos as manias e os ardis um do outro. Já sabias que podes ser tão exasperadamente básico e desconcertante como todos os homens, já sabias que eu tenho momentos de tirar a paciência a um santo como todas as mulheres. E que nem por isso gostamos menos um do outro. Aliás, até parece que eu gosto cada vez mais de ti.

Não sei bem onde isto vai dar, sei lá eu se o que hoje parece certo, simples e promissor poderá não ser assim a longo prazo. Mas ambos que sabemos que é algo que vale a pena arriscar, venha o que vier, dure o tempo que durar. Por isso, vamos com calma, pois já pagámos um bom preço para perceber que aquilo vale a pena da vida não tem pressa de se fazer alcançar. E temos as cicatrizes para o provar.   
               

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Céu é o Limite

Mesmo com o boicote dos Estados Unidos e de mais de uma sessentena de países, Moscovo está vestida de festa para receber os Jogos Olímpicos e decidida a ser palco de grandes acontecimentos desportivos.
Como os que estão para acontecer na ginástica feminina, onde as soviéticas não se poupam as esforços para prolongar o seu domínio, sob os olhares expectantes e atentos do público local. Nelli Kim, cujo sangue coreano confere a sua elegância um toque de exotismo, cujo perfume já espalhara há quatro anos no Canadá, é a capitã da equipa soviética onde também pontificam Shaposhnikova, Zakharova, Davydova, Filatova e Naimushina. Porém, não é soviética aquela em que todos os olhares mais se demoram.

Olhares que tentam ver nela aquela menina de rabo de cavalo e sorriso maroto que há quatro anos espantou o mundo quando alegremente transpôs a barreira da perfeição estampada no número 10, num misto de etérea leveza, audácia desarmante e nervos de aço, como se tivesse apenas ganho uma brincadeira de criança. Mas a menina de Montreal cresceu, está agora uma jovem mulher de 18 anos, mais alta, mais pesada. Em vez do rabo de cavalo, o cabelo curto em franja. Em vez do sorriso, seriedade melancólica estampada no rosto. Serão a mesma pessoa? Assim que ela entra em prova e o seu nome é anunciado, esclarecem-se as dúvidas, aumenta a curiosidade. 

Entre Montreal e Moscovo, a vida seguiu como de costume. Quaisquer deslumbres após ter os olhares de mundo sobre si foram rapidamente sacudidos. De volta a Bucareste, é igual às outras: continuar a treinar duro, a procurar a superação, a cumprir a exigência que todos, incluindo ela, lhe impõem, submeter-se à disciplina e até mesmo a um ou outra mão pesada dos treinadores. Além disso sobre ela pairam os olhares atentos dos Ceausescu, que há tanto tempo estrangulam a Roménia com a sua crueldade caprichosa, e que ela pressente não serem acompanhados de boas intenções. O seu único escape é continuar a voar nas asas do sonho, fazendo dos aparelhos de ginástica um céu onde se poderá perder e enganar a gravidade.

Apesar do finca-pé da juíza principal, romena como ela, a ginasta sabe que desta vez só deu para a prata. O ouro foi para Davydova, para gáudio do público moscovita. Mas ela não se importa, sabe que a vida é feita de fins e recomeços e que o seu reinado na ginástica está no ocaso. Além disso, ainda terá o seu nome escrito a ouro em mais duas provas antes que acabem estes Jogos de Moscovo. E algo lhe diz que dali a mais de trinta anos, o nome Nadia Comaneci ainda causará admiração, respeito e reverência.  

Assim que um vento de coragem soprar, será de novo aquela menina feita pluma ao vento, que desafiou gravidade e reduziu a perfeição a um simples número. Nas asas de sonho, reencontrará de novo o firmamento e uma vida em liberdade, que também sonha para a Roménia. Mesmo nascida numa nação onde se pregam os sonhos ao chão, para seres como ela o céu é o único limite.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tentativa e Erro

Pedro

Eu culpo os meus pais. E os do Miguel, que sempre foram para mim quase uns segundos pais. E já agora, uma vez que não costumo jogar ao blamegame e é para aproveitar quando se tem a posse da bola, os teus pais também têm culpa no cartório e os pais da Rita só não levam também porque eu não cresci com eles e a mãe do Tomás idem aspas (infelizmente não cheguei conhecer o pai dele).

Pronto, basicamente culpo todos os adultos que conheço desde miúdo. A culpa é deles por me fazerem acreditar que a idade adulta é um posto que, uma vez lá chegado, nos confere uma sabedoria, por obra e graça divina. Por muito que me desagradassem as descompusturas ou os exercícios de autoridade mais acesos - e eu não-raro exprimia o meu desagrado de forma bem audível - a verdade é que bem no fundo, mantinha a ideia de que os adultos eram eles e por isso sabiam melhor que eu como são as coisas. Para o melhor e para o pior na tarefa de me educarem, os meus pais sempre foram uma frente unida impossível de vergar. Não me lembro de nenhum passo em falso, nenhum risco no verniz, nenhuma palavra mal atonada. Claro que na altura eu não podia achar tudo isso menos frustrante, mas agora que cresci apercebo-me que mais do que intimidação, eles incutiram-me o respeito - por eles e pelas pessoas em geral- além de muitos outros valores que fazem parte daquilo que eu sou e pelos quais nunca poderei agradecer o suficiente. E claro está, amor e carinho foi algo que felizmente nunca faltou na minha infância. Recebi tudo na medida certa. E é por os meus pais terem sido tão bons pais que a culpa é deles. Por me fazerem acreditar que era assim com todas as famílias e que todos os adultos possuíam toda essa sagacidade.

Já tinha nove anos quando eu percebi que não era bem assim. Primeiro, uma vez por acaso, perguntei à minha mãe se os adultos dizem sempre a verdade. Pensava que ela ia dizer sim, mas ela soltou um "Ai, filho, os adultos mentem mais que as crianças", abrindo uma caixa de Pandora que me fez ficar mais atento às inverdades, piedosas ou não, que os adultos me diziam. E depois por que fui descobrindo entre os meus colegas e outros garotos que eu conheci, casos de maus tratos, omissões e negligências parentais e acabei por concluir que eu até era dos mais sortudos, pois há crianças que são obrigadas a crescer por entre os erros parentais mais básicos, alguns até por entre os tormentos mais inenarráveis.

À medida que eu ia crescendo e me ia apercebendo que a idade não traz sabedoria e maturidade, pelo menos não tanto como eu esperava, e que uma pessoa vai andando por tentativa e erro, esperando não se espalhar forte e feio, acabei por compreender que os meus pais tinham aprendido a ser pais comigo como eu a ser filho através deles. E que toda a sua destreza educativa tinham muito de improviso e por acaso, tiveram a sorte do método resultar comigo. Se calhar se tivessem tido mais filhos, outro galo cantaria. Como aconteceu com os teus pais que caíram na armadilha de pensar que o que resultara contigo, resultaria também com a tua irmã - e enganaram-se redondamente.

Tudo isto para dizer que a Rita já foi atingida pelo relógio biológico, decidiu deixar de tomar a pílula e convenceu-me que já é tempo de propagar o sangue dos Nogueira e dos Bessa. Por isso não te admires se não tarda nada ela surgir com uma barrigona. Por isso é que tenho andado a pensar em tudo isto, pois a hipótese de vir a ser pai em breve deixa-me tão entusiasmado como aterrado. Por um lado, admito que lá bem no fundo, já conseguia imaginar a minha vida com um rebento, já te via a lidar com a Joana e pensava como é que seria comigo, já consigo pensar em fraldas e biberões sem ter vontade de comprar um bilhete só de ida para Kiribati. 
Por outro lado, além do óbvio pensamento "a tua vida como a conheces vai acabar para sempre", o que me assusta mesmo é saber se estarei à altura. E a culpa é dos meus pais, por terem sido tão eficientes comigo ou pelo menos a me convencerem que o eram. Talvez se por entre essa eficiência toda eu tivesse descrutinado a mais pequenina pedra na engrenagem, não me sentisse com tão medo de errar. Mas ao que parece, ser pai é mesmo assim, esperar que o que se fizer dê certo e rezar para que, quando houver erros, dê para os remediar o melhor possível. É estranho como as tarefas mais importantes da vida nunca vêm com livro de instruções. 

O que vale é que pelo menos tive a sorte de aprender com tantos e bons exemplos e não através de exemplos a evitar, como é o caso de tanta gente. E se tu, que és tu, não te tens saído nada mal com a Joaninha, tenho motivos para pensar que sou capaz de dar conta do recado. Certo?...Certo? Deixa lá, se te conheço bem, já só deves imaginar a tua filha em brincadeiras com o meu eventual descendente e já te marimbaste para o que estou a dizer. 

Francisco

P.S. Se for rapaz, já decidimos que vai ser um Pedro Miguel.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Homem Temporariamente Só

Francisco

Espero que estejas sentado, senão vais cair de cú. Lembras-te da enfermeira dos cuidados intensivos quando estive internado que tu e os outros apelidaram de Hot Nurse? Na altura, eu não liguei nada pois estava ocupado com coisas mais importantes como lutar pela minha própria vida e a penar no pós-operatório, pelo que o aspecto de quem me assistia não podia ter menos importância. Desde que fosse competente, até podia ser uma enfermeira sósia da Conchita Wurst, que me era igual ao litro.

Pois bem, eu ontem saí com a Hot Nurse, de seu nome Raquel. Ao contrário do que já te puseste a pensar, foi apenas um jantar, tudo muito civilizado e platónico, sem nada mais que um beijinho na cara de cumprimento e despedida, e um percurso até à porta dela de mão dada. Se houver algo mais, só o tempo dirá, isto é para ir com calma por isso guarda os foguetes para mais tarde. Até porque, mesmo sem sequelas como felizmente foi o meu caso, o corpo não recupera logo após de um AVC; preciso de ter o corpo, a mente e o espírito nos sítios certos e ainda sinto que há algumas arrumações a fazer.

Pois bem, a Raquel apareceu no outro dia na clínica, para marcar uma consulta para a mãe dela. Por acaso, estava na recepção e ela reconheceu-me, confessando que tinha ficado impressionada com o meu caso, ela nunca tinha visto alguém tão jovem e saudável sofrer um AVC. Tal como deu para ver como ela ficou impressionada ao ver-me recuperado e com algum do meu esplendor restabelecido. Captando algum interesse da parte dela, anotei o contacto dela, e depois de verificar no Facebook que ela não estava comprometida, convidei-a para um jantar. Ficou marcado o encontro para ontem, que era a sua próxima folga.

Como já disse, foi tudo muito educado, uma conversa agradável para nos conhecermos melhor sobre um bom bife no Entre Meadas e outra um pouco mais pessoal sobre um gin no Bar Cáspio. Ficou assente um próximo encontro em breve e que um bom entendimento e uma atracção mútua existem. Mas nós os dois vamos com calma. Pelo menos, este encontro valeu por nos devolver uma sensação de normalidade que nos foge mais frequentemente do que gostaríamos. Para a Raquel, que deu para ver que é bastante dedicada ao seu trabalho e não recua perante as exigências de um sector tão delicado como o dos cuidados intensivos, foi um respirar de alívio num mundo para além dos bancos do hospital, que são difíceis de deixar para trás após a saída com a facilidade de um interruptor. Para mim, foi mais um sopro de vida, a prova que continuo aqui neste mundo e que tive o milagre de poder continuar a viver a minha vida e redescobrir pequenos prazeres como estes. Quanto aos grandes prazeres, logo se vê, acontecerão quando tiverem de acontecer.

Ainda é muito cedo para saber se isto com a Raquel vai dar em alguma coisa. Até porque entre as exigências do trabalho dela e a minha bagagem pessoal, para não falar que quem quer que seja que queira partir para algo sério, não poderá fazê-lo apenas comigo mas sim também imperativamente com a minha filha. Mas por agora, eu e a Raquel gostamos da companhia um do outro é o que basta de momento. 

Eu não tenho medo da solidão. A bem-dizer, nunca tive, mas agora muito menos. Já tenho tantas bênçãos na minha vida: uma filha, bons amigos, um trabalho que eu gosto, o conforto da minha casa e sobretudo, a capacidade de respirar, de sorrir e de viver. E nós sabemos muito bem que eu estive muito perto de perder isso tudo. Por isso, não me assusta ser um homem só. Mas confesso que eu espero, se não for pedir muito, que seja apenas temporariamente.               



 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fortes são os Trapos

Tomás

Sei que entre gajos como nós, não se conversam sobre sentimentos e lamechices, dizemos tudo nas entrelinhas. Mas assim como assim, eu já tenho fama de lamechas e sei que tu não levas a mal, por isso deixa-me dizer-te que te admiro imenso. Custa um bocado acreditar que um tipo como tu, que ainda tem ar de rapazola, com a tua atitude discreta que parece quase de mosca morta (mas quem te conhecer de verdade sabe que não é nada assim), tenha uma força imensa. Aquele tipo de força que é quase imperceptível, porque não se impõe, limita-se a surgir nas horas do aperto. Como quando o Pedro teve o AVC à nossa frente e tu mantiveste a calma, tentando-o reanimar e pedindo a nossa ajuda, quando eu estava prestes a correr em círculos feito barata tonta e o Francisco a ponto de cair para o lado. Sim, porque nós sabemos que o Francisco tem a mania que é bom e duro, mas se algo lhe atinge bem no âmago, ele é o mais vulnerável de nós os quatro.
Não sei se essa força que tu tens é algo inato ou foi algo que te foi incrustado para poderes aguentar todas as merdas que te aconteceram. Tu dirás que foi a segunda, mas não sei se é algo que sempre tiveste, apenas não sabias o poder que possuías. Seja como for, quem me dera ser assim. Infelizmente, muita gente continua a acreditar teimosamente que a verdadeira força está na capacidade de intimidar os outros. Mas eu creio que os verdadeiros heróis são aqueles que valorizam mais o respeito daqueles que protegem do que o temor daqueles a quem se insurgem. O Pedro é assim, e quanto mais te conheço, convenço-me que tu também. Mas talvez ainda não tenhas plena consciência disso.

A Beatriz Costa dizia que era uma cara de boneca de loiça num corpo de boneca de trapos. Talvez por isso, ela foi tão histórica tanto na pele da tímida Alice costureirinha que cantava "A Agulha e o Dedal" enquanto suspirava de amores pelo Vasquinho, como na da saloia Gracinda (cuja esperteza de saloia não tinha nada) a chilrear pelo meio da roupa branca. Já eu sou mais como o Vasco Santana, e não apenas porque já fui tão gordo como ele. Ele bem que podia ter sido um boneco de louça concebido pelo Rafael Bordalo Pinheiro, todo sorridente e de bochechas coradas, talvez até dando ideia que nada o perturba. Mas como é de loiça, estava sempre a um passo em falso de cair e quebrar-se em mil cacos. 

Durante muito tempo me senti assim e só a muito custo fui descobrindo a minha própria força. Tanto tempo a desejar que alguém me apoiasse mas só quando descobri que ao apoiar os outros, estava também a apoiar-me a mim, a fortalecer-me é que não olhei mais para trás e fui conquistando estas doces vitórias que me sabem tão bem depois de provar tanta amargura. E sinto-me honrado em agora poder ser o rochedo de alguém, como eu sou para a Sandra, ainda para mais agora que ela anda tão em baixo com problemas lá no trabalho dela. Quando ela me tenta explicar o que se passa não percebo metade das palavras que ela diz, mas faço por ouvi-la e é o que basta para ela. Ou simplesmente tomá-la nos braços e dar-lhe o conforto que eu gostaria que alguém me desse quando eu preciso. E é aí que me apercebo que posso ser um boneco de loiça, mas já não é qualquer gesto brusco que me vai fazer quebrar. 
Mesmo assim, continuo com inveja dos bonecos de trapos como tu, que podem não ficar bonitos na prateleira, mas que podem ser atirados das escadas abaixo que nada lhes acontece e continuam com um sorriso cosido a linha tosca. Fortes são os trapos e espero que por esta altura, a Cláudia também já saiba disso. E já agora, tu também.

Mas isto sou só eu a falar, que sou um Pierrot lamechas de louça.

Miguel
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

Matéria e Forma

Nos meus sonhos, é como nunca tivesses deixado ser matéria e forma.
Pouco ou nada dizes, limitas-te a estar sentado algures mas é o quanto me basta. Vejo as rugas do teu rosto, os matizes verdes e cinza dos teus olhos, o teu bigode - sempre o bigode! - e os teus braços que tanta vezes me embalaram quando eu era um ser tão pequenino e frágil. 
Tento dizer qualquer coisa, há tanta coisa para dizer, tanta coisa que eu nunca te consegui dizer, mas não me sai nada. Não preciso dizer nada. Bastou sempre apenas estar ao teu lado. E é o quanto me basta para que o meu coração cale um dos seus maiores tormentos, nem que seja neste mundo paralelo.  

Quatro anos? Quatro segundos? Quatro dias? O que é o tempo desde que deixaste de fazer parte deste mundo? Contigo, uma parte de mim também deixou de existir, todos aqueles que te amaram sentiram um pouco da alma a ser decepada. Mas temos de continuar. O que há mais a fazer, senão continuar? Sim, a vida é injusta como o caraças, os loucos julgam-se sãos, os sãos sentem-se tocados pela loucura, os mentirosos convencem-se que dizem a verdade, as mulheres bonitas vasculham em si fealdades, merdas acontecem a quem não as merece e os sacanas escapam-se airosamente por entre clareiras de sorte imerecida. Mas é assim a vida e a vida é tudo o que nos foi deixado.

Onde quer que estejas, saberás que continuamos com alguns dos nossos calvários, libertando-nos de alguns e adquirindo outros? Do livro que eu publiquei e que te dediquei? Dos sonhos que nos levaram a locais inesperados e das desilusões que nos fizeram cair das nuvens e acabar estendidos no chão? Do país mergulhado nas brumas de crise, desespero e incerteza como há muito não se via, a quem já adivinhavas essa sentença?   

Terás perdoado todas as vezes em que te faltei ao respeito? Ter-te-ás arrependido de alguma vez em que foste mais duro comigo do que devias? Saberás agora tudo aquilo que sempre te quis dizer e os segredos que nunca te ousei confessar? 

E de repente, não há perguntas, palavras, sons. Nestes sonhos estás comigo, consigo sentir mais uma vez o teu amor por mim. E é tudo o que eu preciso. 
Mas eu trocava todos esses sonhos por apenas mais um pouco da tua existência.