segunda-feira, 7 de março de 2016

Estava A Pedi-las

Olá a todos. Venho por este meio responder a todos os comentários que tenho ouvido em surdina quando estou na rua, que tenho lido nas redes sociais e que a minha família e amigos têm escutado por vários meios. Em breve, vou depôr em julgamento contra aquele que me violou há uns meses atrás. Mas eu sou obrigada a concordar com o que têm dito: sim, a culpa é toda minha. Posso não ser julgada em tribunal, mas eu sou a verdadeira julgada em praça pública - e com toda a razão. Eu estava a pedi-las.

Eu bem que podia argumentar que fui agarrada, completamente desprevenida, por ele à saída do bar, que debati-me com todas as forças para que ele me soltasse (esforço inútil já que ele é era bem maior do que eu, conseguindo facilmente dominar-me, mas ainda assim lutando até ao fim), que lhe implorei que parasse e disse repetidamente "Não", que durante todo este incidente fui brutalmente agredida e que no fim, atirou-me para fora do carro como lixo, que além das marcas da agressão sexual fiquei toda cheia de hematomas dos murros e estaladas que ele me deu. Mas isso são desculpas de mau pagador. Tal como dizem por aí, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que se uma mulher sai à noite é para se exibir, para que os machos a rodeiem e que pelo menos um deles lhe salte em cima. Então, se ela veste uma saia curta, como eu vestia nessa noite, mais vale também andar com um cartaz a dizer "COMAM-ME!". Isso de uma mulher querer, com essa saída, apenas uma noite de diversão e descontraída com as amigas, ou de querer usar saia curta simplesmente para se sentir bonita, é tudo conversa fiada. E quando uma mulher diz não, na verdade ela está a dizer sim, a fazer-se difícil e a adiar o óbvio. Logo, como eu estava de saia curta e ainda por cima um decote que apesar de não muito grande, não subia até ao queixo, eu estava a pedi-las. 

Toda a gente sabe que os homens são uns coitados, têm a carne fraca, não se controlam. Pelos vistos aquilo que eu li sobre a teoria da evolução são umas balelas. É que não podem ver uma mulher a mostrar um pouco de carne, que ficam doidos, incapazes de controlar os seus impulsos, cegos a tudo mais. Mas a culpa não é deles, coitadinhos. É de quem lhes acena com tanta carne pronta a ser devorada e depois faz-lhes negaças. E se eles apanham uma a jeito, que mais pode uma mulher fazer senão ceder e deixar que eles saciem as vontades? Quando ele olhou por mim, tão provocante e lasciva, que podia ele fazer senão fazer-se a mim à bruta? Eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uns bons pais não deixam as filhas fazer essas figuras. Ao deixarem-me vestir aquilo que bem me apetecer, sair para onde eu quiser e já agora, pensar por mim própria, está visto que os meus pais não souberam educar-me. Ou então não sabiam a filha desnaturada que tinham em casa. Com uma educação tão defeituosa, eu estava a pedi-las.

Toda a gente sabe que uma boa rapariga não gosta de sexo. Mantém-se pura e casta até ao casamento, é imune a pensamentos lascivos. As outras, as más raparigas, oferecem-se a cada um sempre que podem. Seduzem os coitadinhos dos homens com a sua armadilha inescapável de luxúria. Desviam bons rapazes, são poços de infecções e sarilhos. São umas desvairadas e só servem de receptáculos para as satisfações momentâneas dos machos. Não há meio-termo entre umas e outras. Não foi por amor ou por desejo de intimidade e afecto que tive sexo ao longo da minha vida, foi porque sou uma tarada ninfomaníaca que não se dá ao respeito. Bem que podia dizer que foi só durante as três relações de namoro, todas elas relativamente longas e apenas quando a relação já estava minimamente sólida, mas toda a gente, que sabe mais da minha vida do que eu própria, afirma que foram mais que isso, que sempre me viram agarrada a este e aqueloutro. Logo, eu estava a pedi-las.    

Toda a gente sabe que eu afinal queria e como não foi como pretendia, estou agora a fazer-me de vítima. Aliás, ele até nem fez nada, eu é que me fiz a ele. Toda a gente o conhece, é tão bom rapaz, de boas famílias, seria lá ele capaz de uma barbaridade dessas. Só posso ser eu que estou ressabiada por ele não me ter dado trela e agora resolvi estragar a vida ao rapaz, coitado. Se a minha vida já está estragada, se vou ter de carregar as marcas exteriores e interiores daquilo que sofri, se eu vou passar o resto da vida com medo de tudo e de todos, pouco importa. Eu estava a pedi-las.  

Dadas as provas das minhas marcas e do ADN dele, as testemunhas que o viram a arrastar-me à força ou a ser cuspida para fora do carro dele mais morta que viva e as fracas justificações dele, em princípio ele será condenado pela justiça. Mas mesmo que se faça justiça em tribunal, não consigo sentir que a verdadeira justiça será feita. Não enquanto eu me sentir como a verdadeira condenada e culpada. Não enquanto pensarem que, mesmo contra as evidências mais evidentes, eu estava a pedi-las.