sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Momento mais Ansiado

Mesmo atarefada na cozinha como é hábito a cada véspera de Natal, a Mãe observa os dois filhos na sala, o mais velho de oito, o mais novo de seis. Aparentemente, parecem entretidos com o filme que passa na televisão, mas ela sabe que existe algo que não lhes sai da cabeça. Os grandes embrulhos de papel garrido que repousam debaixo da árvore de Natal e a hora em que eles lhes deitarão a mão e rasgarão avidamente os papéis e as caixas que contêm os brinquedos que eles pediram aos pais. 
Ela fingiu que não dava por nada mas tem reparado nos últimos dias que os dois têm volta e meia cirandado à volta da árvore, esticaram várias vezes os braços como que a quererem pegar nos embrulhos mas recuando no último seguinte, calcularam inúmeras vezes diante do calendário quantos dias é que faltam, abufaram as bochechas de impaciência várias vezes por dia, remoeram numa espera que parece cada vez mais longa. 
Nem o facto de já saberem perfeitamente o que se esconde por detrás do embrulho não lhes atenua a ansiedade. De certo modo, os dois sempre souberam que o Pai Natal é tão real como o Homem Aranha. Além disso, o mais velho até acompanhou os pais durante a aquisição, aproveitando a promoção do hipermercado no início de Dezembro.
Felizmente que apesar de tudo, bastou apenas um aviso em voz alta por parte cada um dos pais para eles não tentarem mexer nas prendas, muito menos barafustar ou entrar em modo birra e limitaram-se a um jogo de espera impaciente e silenciosa ainda que mal contida. Também ficaram avisados que só abririam na manhã do dia do Natal, para a véspera já bem bastam as prendas do resto da família que vão abrir em casa dos avós.

Eles só parecem finalmente ter esquecido a ansiedade uma vez chegados à casa dos avós, entretidos entre as brincadeiras com os primos, os bonecos na televisão e os assaltos à travessa de sonhos e coscorões da Avó. É com um certo alívio que o Pai os conduz para a cama quando regressam a casa, cansados demais para se importar com outra coisa senão deitarem-se e deixarem-se vencer pelo sono. No dia seguinte, revigorados pelas horas dormidas, os dois entram pelo quarto dos pais a dentro saltitando de euforia e gritando "Feliz Natal!". Contudo, ao contrário do que a Mãe esperaria, eles não trazem nas mãos os brinquedos que lhes eram destinados, já desembrulhados. Em vez disso, trazem outros embrulhos. O mais novo traz uma caixa embrulhada num sóbrio papel verde e exclama:
- Feliz Natal, Pai, isto é para ti.
O mais velho carrega um grande embrulho num papel às riscas e um elaborado laço em forma de roseta branca e diz:
- Feliz Natal, Mãe. Este presente é para ti.
Os dois pais sorriem, desembrulham as prendas, que também sabem perfeitamente o que contêm. Uma nova cafeteira eléctrica para a Mãe, visto que a actual está quase a dar o berro. Um elegante conjunto de after-shave, perfume e desodorizante para o Pai.
- Muito obrigada, queridos. E vocês já abriram as vossas prendas?
- Ainda não. Já lá vamos. - responde o mais velho. - O que eu e o Martim queríamos mesmo era dar-vos as vossas prendas.
Os pais entreolham-se com um sorriso. Por muito que uns pais conheçam os truques e as manhas dos seus filhos, de vez em quando estes ainda têm a capacidade de os surpreender. E de lhes oferecer mais doces memórias de Natal.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cobranças Difíceis

Ontem chorei a caminho de casa. Felizmente que chovia bastante e podia fingir que as lágrimas eram gotas oblíquas de chuva a desabarem na minha cara.
Não sei porque me deu para chorar. É certo que um dia chuvoso de Novembro nunca será bom para levantar a moral alguém, mas não me sentia triste. De momento a vida corre-me bem e até tenho alguém que de vez em quando chega para trancar a porta ao Inverno e dar-me um pouco do seu calor.
E depois, nunca fui pessoa de chorar. Não por ter vergonha de o fazer, simplesmente fui sempre muito parco em lágrimas, por muito magoado que eu estivesse. Se calhar foi isso que me aconteceu ontem: todos os meus desgostos passados vieram cobrar-me as dívidas, quais agentes de cobranças difíceis, e não tive outro remédio senão expulsá-los pelas fossas lacrimais, sem hipótese de estancar a corrente.

Não conseguia encontrar um motivo definido por isso fui desfiando pelos fios da memória. Os trambolhões que eu dei em miúdo, deixando-me ferido e esfolado, mas que aguentei mordendo o lábio pois desde cedo tinha martelado na minha mente a velha máxima que um homem não chora. As pessoas que me decepcionaram e a quem não dei a satisfação de me verem exteriorizar o desgosto. Os arrependimentos por ter falhado com outras pessoas, faltando-me coragem para assumir os meus erros. As perdas que eu tive e as rédeas que coloquei a essa dor, com medo que se não a conseguisse travar, a dor paralisar-me-ia por completo.
Por entre este cemitério de sofrimentos passados, acabei por me lembrar de ti. Prefiro sempre lembrar-me de ti com ternura, em nome dos breves momentos luminosos que partilhámos, dos beijos que trocámos, daquela noite em que nos demos. Nunca te vi chorar e até sorrias bastante, mas agora sei que apesar disso, nunca te sentiste verdadeiramente feliz. Se calhar, estar comigo naquilo que não tivemos tempo nem vontade para chamar um namoro, foi o mais próximo que tiveste da felicidade. Mas o que podia a ténue luz do amor incipiente de um puto egoísta como eu contra a densa escuridão em que vivias? Só depois de te teres atirado da ponte é que descobri a dimensão dessa escuridão. Tinhas passado por coisas que nenhuma criança deveria passar e que para sempre roubaram a luz e a vida em ti. Se eu na altura tivesse a perspicácia e a maturidade devida, talvez tivesse visto tudo isso por detrás do teu frágil sorriso. Mas eu era miúdo demais para ser quem tu precisavas, ainda tinha tão pouco para oferecer. Agora sei que esse pouco, embora não o suficiente, ainda conseguiu ser tanto para ti. Na altura, o amor e a morte eram conceitos demasiado abstractos para eu conseguir ter uma ideia do que sentia. Só sabia que doeu perder-te assim de repente mas tudo o resto era mais do que eu conseguia alcançar. Por isso, deixei-te ficar assim, iluminada pelas recordações que o tempo deixou a adocicar. 

Porém, agora sei que tive imensa pena de não ter feito mais, de não ter sido motivo suficiente para fazeres marcha atrás na tua caminhada à escuridão. Mas eu só sabia o que sabia e como tal não podia fazer melhor do que fiz. E sei que não vale a pena a viver a lamentar aquilo que nunca fizemos.
Por isso, sempre que a vida me dá as suas pancadas proverbiais, prefiro morder o lábio, fazer-me  de forte e pagar as lágrimas em dívida quando elas me assaltam em chuvosos dias de Novembro.              

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Homem de confiança

Saído do hospital, sentado no banco de passageiro enquanto a esposa conduzia o carro rumo a casa, ele pôs-se a pensar na sorte que teve. Felizmente que ele caíra de um rés de chão pelo que o seu voo pela janela do escritório não resultou nada além de umas nódoas negras e um enorme susto.
Ele era um homem discreto com um rosto vulgaríssimo daqueles que se perdiam facilmente na multidão. Ao longo da vida aprendeu a tirar partido dessa invisibilidade, transformando-se num homem confiável junto de quem os segredos estavam mais seguros que dentro de um cofre. 
Foi assim que prosperou profissionalmente, tornado-se um apetecível wingman, o ideal número dois para todos os números uns que encontrara na carreira. A ele foram confiados sigilos, confidências, pecadilhos profissionais, vícios privados que ele soube armazenar da melhor forma, colhendo os frutos e sabendo afastar-se dos podres. E aos poucos, à custa dessas qualidades, construíra uma vida próspera para a sua família, em especial para os seus dois filhos.  
O seu novo chefe não foi excepção. Recém-quarentão, com aspecto de galã de telenovelas, era solteirão inveterado e entusiasta mulherengo, ainda que profissionalmente irrepreensível. Não lhe tardou em lhe confidenciar todas as suas aventuras e conquistas horizontais, não se subtraindo aos pormenores mais picantes. A todos estes relatos, ele ouvia com um misto de diversão e - tinha que admitir - uma pontinha de inveja.
Não era incomum que as suas conquistas fossem bastante jovens, pelo que não estranhou que o chefe lhe passasse a contar sobre a sua mais recente história, com uma jovem de 28 anos, estudante de mestrado, dona de uma beleza subtil mas inebriante. Nem se deteve muito a reflectir quando a filha de 23 anos admitiu que andava a sair ocasionalmente com um homem "um pouco mais velho". 
Só se apercebeu das coincidências quando o chefe referiu o nome Catarina e depois descaiu-se a dizer que ela afinal tinha 23, quando antes mantinha que ela tinha 28. Depois, ele mencionou que ela tinha uma tatuagem de uma libélula na omoplata, um dos pouco actos de semi-rebeldia de Catarina, feita após terminar o liceu. Por fim, tomou nota de que as saídas da filha para ir ter com o namorado misterioso e os relatos que os seu chefe lhe descrevia. E quando deu por si, já sabia dos detalhes mais descritivos dos tórridos encontros entre ambos, coisas que nenhum pai devia ouvir sobre a sua rica filha. É claro que já não fazia nenhum sentido agarrar-se à ideia de que a filha era ainda imaculada, imune aos desejos sexuais. No entanto, como daria tudo para que lhe esvaziassem a memória sempre que o chefe lhe contava em que posições, as vezes que ela atingia o clímax, as obscenidades que apenas ela se atrevia a dizer quando estava com ele. Era muito mais do que um pai podia aguentar ouvir e cada vez que o chefe lhe chamava de parte para lhe contar as últimas novidades escaldantes envolvendo Catarina, a sua vontade era que o chão lhe engolisse.
Porém não foi isso que transbordou o copo e o fez voar pela janela do escritório num momento de insanidade há muito anunciado. Foi quando o chefe lhe disse que ela era diferente de todas as mulheres com quem estivera, que estava realmente apaixonado por Catarina e já começava mesmo a pensar em pedi-la em casamento. Palavras não eram ditas, já ele estava em voo picado até ao chão do passeio em frente ao edifício. Mais tarde, explicaria o inusitado ao chefe como uma reacção alérgica ao caril de lulas que comeu ao almoço. 

domingo, 5 de outubro de 2014

De um ano para outro

Pedro

Agora mais de um ano depois, até parece fácil. Como se tivéssemos cruzado a meta depois de uma corrida exasperante e agora fosse tempo de receber o descanso e a glória. Banhar num tépido mar de sorrisos e felicidade e sentir que a próxima cruzada está longe demais para nos tirar o sono.
Parece fácil que estejas aqui de novo a respirar vida por todos os poros, tal como fazias até que há um ano atrás o AVC deixou-te atravessado na última linha e retirou o chão a mim, ao Francisco e ao Miguel que assistimos a esse fatídico instante. Como se a incrível sorte com que foste bafejado ao recuperares sem problemas de maior estivesse sempre prevista na ordem dos acontecimentos, bem como a relação que vives sem pressas (mas com promissores avanços) com a hot nurse Raquel.
Parece fácil ver o Francisco pronto a assumir o papel de pai em breve, a passar a mão pela barriga de quatro meses da Rita (embora ainda se note pouco), a sorrir de orelha a orelha enquanto fala em tudo aquilo que há de fazer e ensinar ao Pedro Miguel. E no entanto, esta nova fase da sua vida tem lhe causado um colapso de dúvidas e um redemoinho de receios que ele, ao seu bom estilo, habilmente disfarça, mas que não passaram despercebidos a nós que o conhecemos tão bem.
Parece fácil o Miguel de braço à volta dos ombros da Sandra, transformado num viril rochedo de afectos, como se tivesse trazido em si toda a alquimia que lhe permite ser o homem, amigo e amante que ela precisava. Só nós é que sabemos o tremendo desafio que foi para ele estar à altura da relação, sobretudo quando lhe demorou tanto tempo a combater os fantasmas do excesso do peso e das relações frustradas. 
Parece fácil olhar nos olhos da Cláudia e ler neles aquilo que sempre sonhei que eles me dissessem, buscar neles a luz e o calor para o meu coração desnorteado e perceber que ela encontra o mesmo em mim. E no entanto, só eu sei o martírio que foi dar o passo em frente, arriscar e rezar para que uma rejeição - por parte dela mas também de certo modo da tua parte também...- não me vergasse a alma. 
Parece fácil nós os quatro, juntos como sempre, um círculo amigos de arcos ilógicos porém inquebráveis, onde os gestos falaram mais alto que as palavras e as maneiras de ser. Ainda mais agora que nenhum de nós está temporariamente só. 
Mas nada na vida é fácil, pelo menos aquilo que vale a pena alcançar. De um ano para o outro, uma pessoas vai vivendo e muitas vezes resvala entre a alegria e o desgosto à velocidade de um batimento cardíaco, quando não mesmo por entre a vida e a morte, como tu bem sabes. Por tudo isto, é bom conservar estes momentos perfeitos, plenos de felicidade em que tudo parece fácil. Mas que são perfeitos precisamente porque não o foram.
Por isso, só posso estar grato que por entre as dificuldades e as arritmias, tenho-te a ti, ao Miguel e ao Francisco para que tudo fique um pouco mais fácil e por saber que comigo por perto, tudo se torna um pouco menos difícil.

Tomás.
 
   
        

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Q4

Não me fales do Verão tímido nem do princípio de Outono descarado.
Não me fales de política nem de futebol.
Não me contes dos horrores por esse mundo fora nem das comédias românticas impressas nas revistas.
Não me digas quantos segredos têm a casa nem quantas letras tem o factor.
Não me fales do cansaços perenes nem das azias do tempo, dos engarrafamentos e das greves dos transporte.
Não me lembres que o ano está no seu último trimestre e tanto ficou por fazer.

Senta-te apenas comigo, sem pressas e pega-me na mão.
E aí podes falar das árvores a despirem-se de folhas,
de como vai ser bom tentar enganar o frio com fofas camisolas de lã,
ou podermos dormir uma hora a mais na noite da mudança para  hora de Inverno.
E que vem aí o Natal, o Ano Novo e tantos feriados que deixaram de o ser.

Numa era em que as estações do ano pareceram entrar em esquizofrenia,
nada como confiar na arrumação dos calendários,  a repartição entre dias, semanas, meses e trimestres.
Cada tem quatro trimestres, quatro quartos e estamos agora à porta do último,
o Q4.
É certo e sabido  que o tempo que o tempo nunca para
e nos rouba tantas horas que gostaríamos de recuperar
e nos faz lembrar de tanta coisa que podíamos ter feito e não fomos capazes.
Por isso, fala-me de fins e recomeços.
De portas que se fecham e janelas que se abrem.
De lareiras para espantar o frio e de gelados para combater o calor.
Porque o Q é uma letra que se lê
e a vida não foi feita para ser passada em silêncio.


 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cicatrizes de Guerra

A vida tem destas coisas. Por muitas voltas que se dê, por vezes regressamos aos mesmos sítios e às mesmas pessoas. E eis-nos aqui na fase em que de partilhar ocasionalmente uma cama, já falamos em partilhar algo mais. 
A verdade é que sempre uma atracção, uma química entre nós desde os tempos do liceu, quando nos conhecemos através de amigos mútuos num concerto dos Silence 4 no auge dos loucos anos 90 portugueses quando não havia crise e o futuro ousava oferecer a promessa de luminosidade aos jovens de então. No caminho de regresso, no teu estilo folgazão resolveste pegar em mim e puseste-me a dançar agarrada a ti sem música e já aí senti o corpo a fervilhar nessa proximidade como raramente ou nunca o sentira até então. Éramos ambos jovens demais para agir de acordo com essa sensação, mas ela foi persistindo em mim como prenúncio de uma promessa que não tinha pressa em fazer-se cumprir. 

Nos anos que se seguiram, as nossas vidas cruzavam-se de forma intermitente mas algo pendular e sempre agradável. Fomos descobrindo essa grande mentira em que todos nós acreditámos ao achar que, tal como na escola, bastariam somente mérito, esforço e disciplina para vencer na vida. Em vez disso, um tortuoso caminho traçado com cabeçadas na parede e abre-olhos. E no amor, a descoberta que a vida amorosa tem mais momentos de novela mexicana do que de comédia romântica de Hollywood. Os anseios e as desilusões, as expectativas ciclicamente renovadas e goradas, as frustrações e as recaídas na tentação. Os casos que eram para significar pouco mas afinal valeram muito, as relações que pareciam tão valiosas para duas pessoas e afinal valiam bem menos pelo menos para um delas. Com o tempo, fomos construindo uma carapaça de cinismo e discernimento só para sobrevivermos a tanta batalha, tanto na vida como no amor.

Porém, sempre que te encontrava, ficava feliz em constatar que mesmo não sendo quem tu eras, continuavas igual a ti próprio e era fácil adivinhar naquele adulto tão responsável e astuto, o adolescente brincalhão de sorriso fácil. E aí, eu descobria que o mesmo se aplicava a mim, que apesar de tudo, não me tinha tornado amarga nem pardacenta. E que a nossa química ainda estava presente, subtil mas marcante, deixando no ar um talvez que fomos deixando por concretizar, pelos mais diversos motivos. 

E se calhar foi porque esta foi a melhor altura para deixar tudo acontecer. Na casa dos trinta, já com tanto vivido mas ainda muito por viver, exibindo sem pudor as nossas cicatrizes de guerra que a vida nos deixou, os erros de navegação e as atribulações de uma corrida sem meta. E quando aconteceu, atirei-me de cabeça. Receei que fosse complicar tudo mas até agora tem sido tudo relativamente simples e descomplexado, como sempre foi a nossa amizade. Talvez porque connosco a fase do encantamento que se sente quando se inicia uma paixão, nunca existiu. Já conhecíamos as manias e os ardis um do outro. Já sabias que podes ser tão exasperadamente básico e desconcertante como todos os homens, já sabias que eu tenho momentos de tirar a paciência a um santo como todas as mulheres. E que nem por isso gostamos menos um do outro. Aliás, até parece que eu gosto cada vez mais de ti.

Não sei bem onde isto vai dar, sei lá eu se o que hoje parece certo, simples e promissor poderá não ser assim a longo prazo. Mas ambos que sabemos que é algo que vale a pena arriscar, venha o que vier, dure o tempo que durar. Por isso, vamos com calma, pois já pagámos um bom preço para perceber que aquilo vale a pena da vida não tem pressa de se fazer alcançar. E temos as cicatrizes para o provar.   
               

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Céu é o Limite

Mesmo com o boicote dos Estados Unidos e de mais de uma sessentena de países, Moscovo está vestida de festa para receber os Jogos Olímpicos e decidida a ser palco de grandes acontecimentos desportivos.
Como os que estão para acontecer na ginástica feminina, onde as soviéticas não se poupam as esforços para prolongar o seu domínio, sob os olhares expectantes e atentos do público local. Nelli Kim, cujo sangue coreano confere a sua elegância um toque de exotismo, cujo perfume já espalhara há quatro anos no Canadá, é a capitã da equipa soviética onde também pontificam Shaposhnikova, Zakharova, Davydova, Filatova e Naimushina. Porém, não é soviética aquela em que todos os olhares mais se demoram.

Olhares que tentam ver nela aquela menina de rabo de cavalo e sorriso maroto que há quatro anos espantou o mundo quando alegremente transpôs a barreira da perfeição estampada no número 10, num misto de etérea leveza, audácia desarmante e nervos de aço, como se tivesse apenas ganho uma brincadeira de criança. Mas a menina de Montreal cresceu, está agora uma jovem mulher de 18 anos, mais alta, mais pesada. Em vez do rabo de cavalo, o cabelo curto em franja. Em vez do sorriso, seriedade melancólica estampada no rosto. Serão a mesma pessoa? Assim que ela entra em prova e o seu nome é anunciado, esclarecem-se as dúvidas, aumenta a curiosidade. 

Entre Montreal e Moscovo, a vida seguiu como de costume. Quaisquer deslumbres após ter os olhares de mundo sobre si foram rapidamente sacudidos. De volta a Bucareste, é igual às outras: continuar a treinar duro, a procurar a superação, a cumprir a exigência que todos, incluindo ela, lhe impõem, submeter-se à disciplina e até mesmo a um ou outra mão pesada dos treinadores. Além disso sobre ela pairam os olhares atentos dos Ceausescu, que há tanto tempo estrangulam a Roménia com a sua crueldade caprichosa, e que ela pressente não serem acompanhados de boas intenções. O seu único escape é continuar a voar nas asas do sonho, fazendo dos aparelhos de ginástica um céu onde se poderá perder e enganar a gravidade.

Apesar do finca-pé da juíza principal, romena como ela, a ginasta sabe que desta vez só deu para a prata. O ouro foi para Davydova, para gáudio do público moscovita. Mas ela não se importa, sabe que a vida é feita de fins e recomeços e que o seu reinado na ginástica está no ocaso. Além disso, ainda terá o seu nome escrito a ouro em mais duas provas antes que acabem estes Jogos de Moscovo. E algo lhe diz que dali a mais de trinta anos, o nome Nadia Comaneci ainda causará admiração, respeito e reverência.  

Assim que um vento de coragem soprar, será de novo aquela menina feita pluma ao vento, que desafiou gravidade e reduziu a perfeição a um simples número. Nas asas de sonho, reencontrará de novo o firmamento e uma vida em liberdade, que também sonha para a Roménia. Mesmo nascida numa nação onde se pregam os sonhos ao chão, para seres como ela o céu é o único limite.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tentativa e Erro

Pedro

Eu culpo os meus pais. E os do Miguel, que sempre foram para mim quase uns segundos pais. E já agora, uma vez que não costumo jogar ao blamegame e é para aproveitar quando se tem a posse da bola, os teus pais também têm culpa no cartório e os pais da Rita só não levam também porque eu não cresci com eles e a mãe do Tomás idem aspas (infelizmente não cheguei conhecer o pai dele).

Pronto, basicamente culpo todos os adultos que conheço desde miúdo. A culpa é deles por me fazerem acreditar que a idade adulta é um posto que, uma vez lá chegado, nos confere uma sabedoria, por obra e graça divina. Por muito que me desagradassem as descompusturas ou os exercícios de autoridade mais acesos - e eu não-raro exprimia o meu desagrado de forma bem audível - a verdade é que bem no fundo, mantinha a ideia de que os adultos eram eles e por isso sabiam melhor que eu como são as coisas. Para o melhor e para o pior na tarefa de me educarem, os meus pais sempre foram uma frente unida impossível de vergar. Não me lembro de nenhum passo em falso, nenhum risco no verniz, nenhuma palavra mal atonada. Claro que na altura eu não podia achar tudo isso menos frustrante, mas agora que cresci apercebo-me que mais do que intimidação, eles incutiram-me o respeito - por eles e pelas pessoas em geral- além de muitos outros valores que fazem parte daquilo que eu sou e pelos quais nunca poderei agradecer o suficiente. E claro está, amor e carinho foi algo que felizmente nunca faltou na minha infância. Recebi tudo na medida certa. E é por os meus pais terem sido tão bons pais que a culpa é deles. Por me fazerem acreditar que era assim com todas as famílias e que todos os adultos possuíam toda essa sagacidade.

Já tinha nove anos quando eu percebi que não era bem assim. Primeiro, uma vez por acaso, perguntei à minha mãe se os adultos dizem sempre a verdade. Pensava que ela ia dizer sim, mas ela soltou um "Ai, filho, os adultos mentem mais que as crianças", abrindo uma caixa de Pandora que me fez ficar mais atento às inverdades, piedosas ou não, que os adultos me diziam. E depois por que fui descobrindo entre os meus colegas e outros garotos que eu conheci, casos de maus tratos, omissões e negligências parentais e acabei por concluir que eu até era dos mais sortudos, pois há crianças que são obrigadas a crescer por entre os erros mais básicos, alguns até por entre os escolhos mais inenarráveis.

À medida que eu ia crescendo e me ia apercebendo que a idade não traz sabedoria e maturidade, pelo menos não tanto como eu esperava, e que uma pessoa vai andando por tentativa e erro, esperando não se espalhar forte e feio, acabei por compreender que os meus pais tinham aprendido a ser pais comigo como eu a ser filho através deles. E que toda a sua destreza educativa tinham muito de improviso e por acaso, tiveram a sorte do método resultar comigo. Se calhar se tivessem tido mais filhos, outro galo cantaria. Como aconteceu com os teus pais que caíram na armadilha de pensar que o que resultara contigo, resultaria também com a tua irmã - e enganaram-se redondamente.

Tudo isto para dizer que a Rita já foi atingida pelo relógio biológico, decidiu deixar de tomar a pílula e convenceu-me que já é tempo de propagar o sangue dos Nogueira e dos Bessa. Por isso não te admires se não tarda nada ela surgir com uma barrigona. Por isso é que tenho andado a pensar em tudo isto, pois a hipótese de vir a ser pai em breve deixa-me tão entusiasmado como aterrado. Por um lado, admito que lá bem no fundo, já conseguia imaginar a minha vida com um rebento, já te via a lidar com a Joana e pensava como é que seria comigo, já consigo pensar em fraldas e biberões sem ter vontade de comprar um bilhete só de ida para Kiribati. 
Por outro lado, além do óbvio pensamento "a tua vida como a conheces vai acabar para sempre", o que me assusta mesmo é saber se estarei à altura. E a culpa é dos meus pais, por terem sido tão eficientes comigo ou pelo menos a me convencerem que o eram. Talvez se por entre essa eficiência toda eu tivesse descrutinado a mais pequenina pedra na engrenagem, não me sentisse com tão medo de errar. Mas ao que parece, ser pai é mesmo assim, esperar que o que se fizer dê certo e rezar para que, quando houver erros, dê para os remediar o melhor possível. É estranho como as tarefas mais importantes da vida nunca vêm com livro de instruções. 

O que vale é que pelo menos tive a sorte de aprender com tantos e bons exemplos e não através de exemplos a evitar, como é o caso de tanta gente. E se tu, que és tu, não te tens saído nada mal com a Joaninha, tenho motivos para pensar que sou capaz de dar conta do recado. Certo?...Certo? Deixa lá, se te conheço bem, já só deves imaginar a tua filha com um novo parceiro de brincadeiras e já te marimbaste para o que estou a dizer. 

Francisco

P.S. Se for rapaz, já decidimos que vai ser um Pedro Miguel.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Homem Temporariamente Só

Francisco

Espero que estejas sentado, senão vais cair de cú. Lembras-te da enfermeira dos cuidados intensivos quando estive internado que tu e os outros apelidaram de Hot Nurse? Na altura, eu não liguei nada pois estava ocupado com coisas mais importantes como lutar pela minha própria vida e a penar no pós-operatório, pelo que o aspecto de quem me assistia não podia ter menos importância. Desde que fosse competente, até podia ser uma enfermeira sósia da Conchita Wurst, que me era igual ao litro.

Pois bem, eu ontem saí com a Hot Nurse, de seu nome Raquel. Ao contrário do que já te puseste a pensar, foi apenas um jantar, tudo muito civilizado e platónico, sem nada mais que um beijinho na cara de cumprimento e despedida, e um percurso até à porta dela de mão dada. Se houver algo mais, só o tempo dirá, isto é para ir com calma por isso guarda os foguetes para mais tarde. Até porque, mesmo sem sequelas como felizmente foi o meu caso, o corpo não recupera logo após de um AVC; preciso de ter o corpo, a mente e o espírito nos sítios certos e ainda sinto que há algumas arrumações a fazer.

Pois bem, a Raquel apareceu no outro dia na clínica, para marcar uma consulta para a mãe dela. Por acaso, estava na recepção e ela reconheceu-me, confessando que tinha ficado impressionada com o meu caso, ela nunca tinha visto alguém tão jovem e saudável sofrer um AVC. Tal como deu para ver como ela ficou impressionada ao ver-me recuperado e com algum do meu esplendor restabelecido. Captando algum interesse da parte dela, anotei o contacto dela, e depois de verificar no Facebook que ela não estava comprometida, convidei-a para um jantar. Ficou marcado o encontro para ontem, que era a sua próxima folga.

Como já disse, foi tudo muito educado, uma conversa agradável para nos conhecermos melhor sobre um bom bife no Entre Meadas e outra um pouco mais pessoal sobre um gin no Bar Cáspio. Ficou assente um próximo encontro em breve e que um bom entendimento e uma atracção mútua existem. Mas nós os dois vamos com calma. Pelo menos, este encontro valeu por nos devolver uma sensação de normalidade que nos foge mais frequentemente do que gostaríamos. Para a Raquel, que deu para ver que é bastante dedicada ao seu trabalho e não recua perante as exigências de um sector tão delicado como o dos cuidados intensivos, foi um respirar de alívio num mundo para além dos bancos do hospital, que são difíceis de deixar para trás após a saída com a facilidade de um interruptor. Para mim, foi mais um sopro de vida, a prova que continuo aqui neste mundo e que tive o milagre de poder continuar a viver a minha vida e redescobrir pequenos prazeres como estes. Quanto aos grandes prazeres, logo se vê, acontecerão quando tiverem de acontecer.

Ainda é muito cedo para saber se isto com a Raquel vai dar em alguma coisa. Até porque entre as exigências do trabalho dela e a minha bagagem pessoal, para não falar que quem quer que seja que queira partir para algo sério, não poderá fazê-lo apenas comigo mas sim também imperativamente com a minha filha. Mas por agora, eu e a Raquel gostamos da companhia um do outro é o que basta de momento. 

Eu não tenho medo da solidão. A bem-dizer, nunca tive, mas agora muito menos. Já tenho tantas bênçãos na minha vida: uma filha, bons amigos, um trabalho que eu gosto, o conforto da minha casa e sobretudo, a capacidade de respirar, de sorrir e de viver. E nós sabemos muito bem que eu estive muito perto de perder isso tudo. Por isso, não me assusta ser um homem só. Mas confesso que eu espero, se não for pedir muito, que seja apenas temporariamente.               



 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fortes são os Trapos

Tomás

Sei que entre gajos como nós, não se conversam sobre sentimentos e lamechices, dizemos tudo nas entrelinhas. Mas assim como assim, eu já tenho fama de lamechas e sei que tu não levas a mal, por isso deixa-me dizer-te que te admiro imenso. Custa um bocado acreditar que um tipo como tu, que ainda tem ar de rapazola, com a tua atitude discreta que parece quase de mosca morta (mas quem te conhecer de verdade sabe que não é nada assim), tenha uma força imensa. Aquele tipo de força que é quase imperceptível, porque não se impõe, limita-se a surgir nas horas do aperto. Como quando o Pedro teve o AVC à nossa frente e tu mantiveste a calma, tentando-o reanimar e pedindo a nossa ajuda, quando eu estava prestes a correr em círculos feito barata tonta e o Francisco a ponto de cair para o lado. Sim, porque nós sabemos que o Francisco tem a mania que é bom e duro, mas se algo lhe atinge bem no âmago, ele é o mais vulnerável de nós os quatro.
Não sei se essa força que tu tens é algo inato ou foi algo que te foi incrustado para poderes aguentar todas as merdas que te aconteceram. Tu dirás que foi a segunda, mas não sei se é algo que sempre tiveste, apenas não sabias o poder que possuías. Seja como for, quem me dera ser assim. Infelizmente, muita gente continua a acreditar teimosamente que a verdadeira força está na capacidade de intimidar os outros. Mas eu creio que os verdadeiros heróis são aqueles que valorizam mais o respeito daqueles que protegem do que o temor daqueles a quem se insurgem. O Pedro é assim, e quanto mais te conheço, convenço-me que tu também. Mas talvez ainda não tenhas plena consciência disso.

A Beatriz Costa dizia que era uma cara de boneca de loiça num corpo de boneca de trapos. Talvez por isso, ela foi tão histórica tanto na pele da tímida Alice costureirinha que cantava "A Agulha e o Dedal" enquanto suspirava de amores pelo Vasquinho, como na da saloia Gracinda (cuja esperteza de saloia não tinha nada) a chilrear pelo meio da roupa branca. Já eu sou mais como o Vasco Santana, e não apenas porque já fui tão gordo como ele. Ele bem que podia ter sido um boneco de louça concebido pelo Rafael Bordalo Pinheiro, todo sorridente e de bochechas coradas, talvez até dando ideia que nada o perturba. Mas como é de loiça, estava sempre a um passo em falso de cair e quebrar-se em mil cacos. 

Durante muito tempo me senti assim e só a muito custo fui descobrindo a minha própria força. Tanto tempo a desejar que alguém me apoiasse mas só quando descobri que ao apoiar os outros, estava também a apoiar-me a mim, a fortalecer-me é que não olhei mais para trás e fui conquistando estas doces vitórias que me sabem tão bem depois de provar tanta amargura. E sinto-me honrado em agora poder ser o rochedo de alguém, como eu sou para a Sandra, ainda para mais agora que ela anda tão em baixo com problemas lá no trabalho dela. Quando ela me tenta explicar o que se passa não percebo metade das palavras que ela diz, mas faço por ouvi-la e é o que basta para ela. Ou simplesmente tomá-la nos braços e dar-lhe o conforto que eu gostaria que alguém me desse quando eu preciso. E é aí que me apercebo que posso ser um boneco de loiça, mas já não é qualquer gesto brusco que me vai fazer quebrar. 
Mesmo assim, continuo com inveja dos bonecos de trapos como tu, que podem não ficar bonitos na prateleira, mas que podem ser atirados das escadas abaixo que nada lhes acontece e continuam com um sorriso cosido a linha tosca. Fortes são os trapos e espero que por esta altura, a Cláudia também já saiba disso. E já agora, tu também.

Mas isto sou só eu a falar, que sou um Pierrot lamechas de louça.

Miguel
 

terça-feira, 22 de abril de 2014

Matéria e Forma

Nos meus sonhos, é como nunca tivesses deixado ser matéria e forma.
Pouco ou nada dizes, limitas-te a estar sentado algures mas é o quanto me basta. Vejo as rugas do teu rosto, os matizes verdes e cinza dos teus olhos, o teu bigode - sempre o bigode! - e os teus braços que tanta vezes me embalaram quando eu era um ser tão pequenino e frágil. 
Tento dizer qualquer coisa, há tanta coisa para dizer, tanta coisa que eu nunca te consegui dizer, mas não me sai nada. Não preciso dizer nada. Bastou sempre apenas estar ao teu lado. E é o quanto me basta para que o meu coração cale um dos seus maiores tormentos, nem que seja neste mundo paralelo.  

Quatro anos? Quatro segundos? Quatro dias? O que é o tempo desde que deixaste de fazer parte deste mundo? Contigo, uma parte de mim também deixou de existir, todos aqueles que te amaram sentiram um pouco da alma a ser decepada. Mas temos de continuar. O que há mais a fazer, senão continuar? Sim, a vida é injusta como o caraças, os loucos julgam-se sãos, os sãos sentem-se tocados pela loucura, os mentirosos convencem-se que dizem a verdade, as mulheres bonitas vasculham em si fealdades, merdas acontecem a quem não as merece e os sacanas escapam-se airosamente por entre clareiras de sorte imerecida. Mas é assim a vida e a vida é tudo o que nos foi deixado.

Onde quer que estejas, saberás que continuamos com alguns dos nossos calvários, libertando-nos de alguns e adquirindo outros? Do livro que eu publiquei e que te dediquei? Dos sonhos que nos levaram a locais inesperados e das desilusões que nos fizeram cair das nuvens e acabar estendidos no chão? Do país mergulhado nas brumas de crise, desespero e incerteza como há muito não se via, a quem já adivinhavas essa sentença?   

Terás perdoado todas as vezes em que te faltei ao respeito? Ter-te-ás arrependido de alguma vez em que foste mais duro comigo do que devias? Saberás agora tudo aquilo que sempre te quis dizer e os segredos que nunca te ousei confessar? 

E de repente, não há perguntas, palavras, sons. Nestes sonhos estás comigo, consigo sentir mais uma vez o teu amor por mim. E é tudo o que eu preciso. 
Mas eu trocava todos esses sonhos por apenas mais um pouco da tua existência.    

quinta-feira, 27 de março de 2014

Voos Sensitivos

Francisco:

Tanto tempo a imaginar como seria ter a Cláudia nos meus braços e na minha cama e agora que finalmente não é só a minha imaginação, mal consigo acreditar. Eu estava cheio de medo que, de tanto idealizar esses momentos, eu acabaria por me decepcionar. Mas não foi o caso, longe disso. Foi ainda melhor. Nem sei como nem sequer me senti nervoso e consegui fazer tudo bem, a rendição dela inspirou-me. A Cláudia não disse muito, mas deu para ver que ela ficou impressionada e surpreendida.
Até eu próprio me surpreendi. Como é sabido, não tenho muita experiência. Ela foi apenas a terceira mulher com quem eu tive relações. Além dela, só houve a Mónica, os únicos momentos minimamente nítidos numa relação que foi tão obscura para os dois e que terminou tão abruptamente, antes de poder ter sido algo mais luminoso. Depois a Nuria, a espanhola que estava em Erasmus no terceiro ano do meu curso, que numa noite mais regada, deitou-me a mão e eu deixei-me ir. Ainda não sei o que um mulherão daqueles viu em mim, mas seja o que for, só lhe agradeço a clarividência.

Como sabes, quando lhe contei que gostava dela, a reacção da Cláudia não foi a melhor e ainda andei uns dias aflitos e só me apetecia danar-me por ter seguido o teu conselho. Felizmente que pouco depois ela decidiu dar-me uma oportunidade. Nesse aspecto, ela é igualzinha ao Pedro. Quando algo ou alguém lhes troca as voltas aos seus planos ou às suas convicções, ficam em pânico e só depois é que ajustam as agulhas. Por isso é que volta e meia eles andam às turras e a Cláudia se compraz em contrariá-lo. 
Qual não foi o meu espanto quando recebi o convite dela para regressarmos ao Bar Cáspio. Pensei bem, tu és porreiro, acho que te posso dar uma oportunidade, vamos com calma. Farto de ir com calma estava eu, mas não calei as ansiedades. Conforme os teus conselhos, fui elaborando o plano para que ela gradualmente deixasse de ver em mim apenas o Tomás amigalhaço/tipo porreiro/colega do irmão/quietinho-e-bem-comportado para lhe revelar um Tomás deus-do-charme-e-da-sedução. Um Tomás que até eu próprio não tinha certeza que existia mas que também habita em mim e que também a deseja. Um heterónimo cujo escrutínio foi essencial para que ela deixasse as dúvidas e percebesse tudo aquilo que estava disposto a lhe entregar. Essa metamorfose apanhou-a de surpresa e quando demos por nós já não havia nenhum escrúpulo possível e só havia nós, os nossos corpos e o nosso prazer, além das coisas visíveis e invisíveis.

Mais uma vez, a Cláudia vê-se de novo em terreno desconhecido, de voltas trocadas e procurando uma bússola para os seus afectos. Eu próprio não tenho a certeza se o próximo passo não seja em falso e também preciso pensar. Mas não me importo, pois pelo menos ela não quer fugir, intrigada em descobrir o que mais lhe posso oferecer. E tanto que eu tenho, mais até do que aquilo que sonho em receber dela. Tantas palavras, tantos gestos, tantos voos sensitivos. Mas por agora vamos calma. E eu sempre ganhei mais em manter a calma do que em perdê-la.       

Tomás
    

quinta-feira, 20 de março de 2014

Ao Ponto de Querer

Quero-te,
ao ponto de não conseguir lembrar-me se já quis alguém assim.
Ao ponto de não ter a certeza se já quis outras mulheres.
Ao ponto de me baralhares os sentidos, de me sentir capaz de ouvir cores e tactear cheiros.

Apetece-me ser meigo contigo e derreter-me em doçuras.
Apetece-me ser bruto contigo e de te ver entregue à minha barbárie.
Ser indecente e sentir que tu gostas disso.
Ser terno e dócil e sentir que tu precisas disso.

Conduzir os meus dedos por cada milímetro da tua pele
e deixar nela um rasto de brasas,
que derretem qualquer reserva que ainda possas sentir.
Ouvir da tua boca palavras sujas que de outra forma nunca ousarias verbalizar.
Dizer-te indecências que de outra forma eu nunca diria a ninguém.

Apetece-me ser homem, carne, músculo, carrasco, servo.
Apetece-me ter-te mulher, cetim, açúcar, presa, deusa.
E entre o que eu puder ser e o que tu ousares ser,
Sermos coração, paixão, pecado e amor.

Perder conta aos toques e beijos,
ao suores e aos cansaços, a todas as fusões e osmoses.
Romper com os riscos dos limites
e descobrir que não havia nenhum risco a pisar.
Acreditar de que todo o mundo cabe em poucos metros quadrados
e os corpos são vícios insuperáveis e alavancas imprescindíveis.

Quero-te,
ao ponto de um querer que me mata e que me alimenta.
Ao ponto de sentir que só por este querer é que eu vivo.
Ao ponto de sentir que só vivo por me quereres também.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Tiro ao Melro

Sei muito bem aquilo que dizem de mim, mas quero lá saber. De facto, tenho pena de não saber dissimular melhor de que não nasci em nenhum berço de ouro e é certo que por vezes ponho o pé na argola. Mas que se lixe, já que sou mesmo assim semi-pindérica, ou não me chamasse Carla Andreia, mais vale sê-lo abertamente do que me armar em sonsa como tantas que eu conheço e que têm pergaminhos tão ou mais duvidosos. O João também não é lá muito bem nascido, mas para os homens, ser bem endinheirado é quase a mesma coisa. É mais às mulheres que se fazem esse tipo de cobranças.

Quem nunca quis subir na vida que me dê o primeiro tiro antes de me chamar pistoleira. Cada um joga com os trunfos que tem, e a mim calhou-me um belo palmo de cara e corpo e algum talento para o jogo de anca. Deitei as minhas cartas e por imensa sorte calhou-me o João, ainda jovem, bem bonito e em franca ascensão. Como disse, o João também não nasceu endinheirado e se é todo um gentleman foi por puro auto-didactismo, e se eu atino minimamente com as etiquetas e com os salamaleques, devo-o sobretudo a ele. Ainda hoje não sei bem como é que ele conseguiu ver em mim um diamante em bruto e assim promover-me de secretária a esposa, mas só tenho a agradecê-lo por isso. 

Sim, admito que tomei o João como alvo e abri-lhe às pernas à primeira oportunidade. Mas isso por si só não é nenhuma garantia de sucesso e ele podia facilmente despachar-me. Só que não o fez. Também não tenho a ilusão de que o João ficou logo caidinho para mim, porque ele é esperto demais para isso e não me admiraria que ao princípio um dos motivos dele para me ter pedido em casamento era para ter uma mulher-troféu toda boazona para exibir aos amigos, rivais e afins. Por isso, e já que me posso permitir a isso, esfalfo-me no ginásio, faço todos os tratamentos de beleza que posso e estou atenta às modas e já ganhei um bom olho em reparar naquilo que me fica a matar. Coisa que já fazia antes, dentro do que me era possível. E ao menos não sou dessas que não fazem a ponta de um chifre em casa. Posso não saber cozinhar grande coisa mas safo-me minimamente e não tenho alergia a aspiradores e esfregonas. 
No entanto, e mesmo que ninguém acredite, não é mentira nenhuma quando afirmo que amo o João e só espero que ele tenha metade do afecto que eu tenho por ele. Sim, começou com um interesse mas será assim tão inacreditável que algo mais tenha surgido depois? 

Creio até que casaria com ele mesmo que fôssemos uns pobretanas como os meus pais. Mas é algo em que não me detenho muito a pensar, até porque não vale a pena. No fundo, até admiro bastante os meus pais e tenho alguma pena de não ter herdado mais da sua bondade e honestidade. Mas também sei muito bem como tantas e tantas vezes como foram espezinhados ao longo da vida por serem demasiados honestos e cedo percebi que não era isso que eu queria para mim. Já dizia a Marilyn Monroe que infeliz por infeliz, antes numa limusina do que num autocarro.

Por isso, estou infinitamente grata por ter chegado aonde cheguei, mesmo que por caminhos não muito cristãos e faço o que posso para assim me manter, porque nunca se sabe para o que uma pessoa está guardada. E quero lá saber se me chamam interesseira, se afirmam à boca cheia que subi na horizontal, se troçam sem disfarçar muito das minhas argoladas e do meu nome Carla Andreia. Se nasci com jeito para o tiro ao melro, o melhor é exibir com orgulho a minha espingarda.        

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Reencontros Imediatos do Terceiro Grau

Miguel:

A vida tem destas piadas. Não é que na semana do Dia dos Namorados, tanto eu como a Rita recebemos como prenda dois reencontros imediatos do terceiro grau com os nossos ex?
Primeiro foi no shopping, tínhamos ido ver o "Golpada Americana" e à saída cruzámo-nos de caras com o Nuno, o ex da Rita, que trazia atrelada uma bimba com ar de futura concorrente da "Casa dos Segredos". Como não era impossível simular uma miopia temporária, lá tivemos que nos cumprimentar e ele viu-se obrigado a apresentar-nos a tal Tatiana. Claro que eu fui bastante cordato mas durante os breves minutos que durou essa cerimónia forçada, mas na minha mente só imaginava o meu punho a aterrar na cara de parvo dele. E tu sabes que são muito poucas as pessoas que me despertam uma vontade urgente de lhes ir à cara. Nem consigo compreender o que é a Rita viu naquele estafermo, todo pipi e convencido e como é que ela aguentou tanto tempo até lhe mandar ao bilhar grande, sabendo que ele andava a traí-la a torto e a direito. Aliás consigo, porque me lembro bem da Rita que eu conheci, tão insegura e tão pouco ciente dos seus encantos de mulher. E infelizmente existem muitos homens que se alimentam de mulheres inseguras, levam-nas com palavras bonitas e fazem delas o que querem. Não custa a crer que tenha sido isso que se passou com o Nuno e a Rita. Mas felizmente que a Rita teve a capacidade de dizer basta quando as patifarias dele tornaram-se óbvias demais para serem ignoradas. E a perda dele foi o meu ganho, e sobretudo o da Rita que não mostrou nenhum embaraço e no fim até me disse:
- Nem acredito que eu gostei daquele gajo. Eu era cá uma tótó!

Depois no próprio dia 14, fomos jantar fora e não é que de todos os restaurantes desta cidade, não me entra a Mariana? Eu que a julgava para sempre remetida lá para o Porto, entre a Torre dos Clérigos e o Estádio do Dragão. Vinha acompanhada da irmã e de mais uma meia-dúzia de amigas, ao que parece era a primeira paragem da noite de despedida de solteira de uma prima dela. Como ela se mudou para o Porto pouco depois de termos acabado, foi fácil para mim arrumá-la numa recôndita prateleira emocional mas agora revê-la de novo ao fim de cinco anos chateou-me mais do que gostaria.
Bolas, ninguém está imune de ser corno mas apanhá-la em pleno acto no carro dela com o parvalhão do Eduardo foi péssimo demais, algo assim que ataca sempre como um murro num gajo. Tenho ainda bem presente a cara do cabrão, que sempre teve inveja de mim, com um sorriso nojento. E no entanto tudo o que fiz foi dar meia volta e deixar no dia seguinte à porta da casa dela um caixote com todas as suas coisas que estavam no meu apartamento. Se era para arrancar o penso, mais valia ser logo.
A Mariana acabou por ir ter com a gente, escudada pela irmã, trocámos algumas perguntas de circunstância, apresentei-lhe a Rita. Continua lá no Porto, gosta de lá estar, não anda com ninguém de momento. A Rita tirou-lhe as medidas, percebeu que a presença da Mariana estava a incomodar-me mais do que eu queria, mas nada disse do que olá e boa noite e também não disse nada quando chegámos a casa. Ela já sabe que quando me acontece algo assim, o melhor é eu digerir bem. Além de que a mulher que ela hoje é já não se põe com receios infundados e outras ninharias emocionalmente patológicas a que muitas mulheres se dedicam quando confrontadas com o passado dos seus companheiros.  

É claro que a Rita vale mais do que dez Marianas. É claro que nunca gostei da Mariana como eu gosto da Rita. É claro que a minha relação com a Mariana não tinha muitas pernas para andar, por imensos motivos. Mas tu bem sabes como foram muito poucas as mulheres a quem me entreguei mais do que eu estou disposto a permitir e a Mariana foi uma delas. Por isso doeu o que ela me fez e ainda dói recordar-me disso tudo, e só não dói ainda mais porque ela felizmente está longe e não tenho muitas hipóteses de a reencontrar, ao contrário da Rita com o Nuno. Por isso demorei tanto tempo a admitir que estava apaixonado pela Rita e a perceber que ela era alguém a quem me podia entregar sem reservas nem receios. 

Apesar de tudo, foi bom descobrir o quanto nós dois percorremos desde que estamos juntos. Para trás não é caminho e por isso estas ricas prendas inesperadas não foram nenhuns presentes envenenados mas sim uma revisão de lições aprendidas. Estou certo que quando tu e a Sandra passarem pelo mesmo, também o irão descobrir.

Francisco 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No Sítio Certo

Amanhã é Dia dos Namorados e tu vais olhar para o dia 14 de Fevereiro no calendário com a mesma indiferença que olharias um 27 de Outubro. Sei que não me vais oferecer flores, bombons ou cartões. Não me vais dizer outra vez o quanto me amas, não me vais surpreender com um jantar romântico à luz das velas, nem sequer com uma brincadeira sensual na cama. Mas não me importa.

Eu sei que és um homem de poucas palavras e de gestos discretos. Não desperdiças discursos nem perdes tempo com ninharias. Para ti, as grandes declarações de amor, os beijos à chuva e as cenas de amor sob a lua azul só ficam bem no cinema. Nunca te deixaste tentar pela ilusão de que viver um amor é um misto de comédia romântica e filme pornográfico. Mesmo quando te afoitas a dizer-me palavras ternas, fazes com uma aparente apatia ou o discurso sai-te atabalhoado. Mas não me importa.

Se eu fosse mais nova e não soubesse o que eu sei hoje, essa tua aparente indiferença iria perturbar-me. Pensaria que o pouco que tu exprimes só poderia significar que tu pouco sentes. Exigiria ouvir tudo reafirmado e reforçado, a viva voz e papel timbrado. Frustrar-me-ia essa tua maneira de ser, estátua de gelo e rapaz de bronze. Mas agora não me importo.   

Porque tens as tuas maneiras de me dizeres que eu sou aquela que tu amas. Que é em mim que tu pensas nos teus momentos mais solitários. Que os teus piores dias são menos negros porque eu estou contigo. E aí não são necessárias palavras.
Porque me demonstras subtilmente o teu amor nos momentos mais inesperados e nos mais difíceis. Porque estás ao meu lado nas minhas melhores horas e ainda mais próximo nas piores. Porque o teu abraço é o meu abrigo e o meu repouso. 
Porque as nuvens metem-se volta e meia a tapar o Sol e a vida mete-se sempre por entre as nossas doces ilusões, as merdas acontecem, e nós somos humanos, feitos de carne e osso, imperfeitos e desregulados, somos à vez impacientes, ridículos, caprichosos, egocêntricos, imaturos, preguiçosos e irritantes, por vezes nem nos aturámos a nós próprios quanto mais outra pessoa. E depois de passar por tudo isso, contra todas as expectativas, continuamos lado a lado e o que sentimos não mudou, esteve apenas escondido, quando muito fechado para balanço.

Tu não és daqueles que, como diz a expressão inglesa, leva o coração na manga. Mas não me importa, porque o teu está no sítio certo. Seja 14 de Fevereiro ou 27 de Outubro.

Feliz Dia dos Namorados.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Medição de Palavras

Tomás

Ainda me lembro no primeiro dia em que entraste na clínica para o teu estágio. Tinhas uma ar tão acanhado, tão cheio de reverência para mim e para o João, a tratar-nos por você mesmo quando eu te disse logo que me podias tratar por tu. Confesso que eu tinha as minhas dúvidas sobre se irias entrosar-te bem com as actividades da clínica. Porém, qualquer timidez que tinhas para com os teus superiores, mal se notava quando atendias os clientes. Eras atento e bastante educado para com os pacientes e sem seres muito conversador, sabias dialogar com eles e fazer com que eles se sentissem à vontade. Foi aí que percebi o teu enorme potencial como fisioterapeuta e como o negócio já justificava contratar mais alguém, não hesitei em te contratar assim que terminasses o curso.

Assim que passámos de uma simples relação de chefe e empregado a uma amizade cada vez mais sólida, pude-me aperceber como eras de verdade, e deitar por terra algumas ideias pré-concebidas das pessoas introvertidas. Afinal não eras tímido e pouco sociável, apenas preferes não socializar mais do que o necessário e guardar uma dose dose de tempo para dedicares-te aos teus pensamentos. Isto para além de todas as dificuldades que atravessaste, por seres tido como uma carta fora do baralho por tanta gente. No círculo de amigos que não tardámos a formar com o Miguel e o Francisco, não te rias nem falavas menos do que qualquer um de nós. Mas acabei por perceber que escutavas mais do que nós os três e não demoraste a captar o coração generoso do Francisco sob aquela imagem de macho-alfa, as mágoas e as conquistas interiores do Miguel e os minhas inquietações e queixumes, aparentemente invisíveis atrás do meu sorriso confiante. Quando eu era mais novo, eu era a definição da extroversão: eu vivia para socializar, para falar com as pessoas às vezes mesmo em modo de palraria, para motivar os mais acanhados, para expressar tudo o que me vinha na alma. Só agora é que consigo encontrar algum conforto no silêncio, cada vez mais precioso neste mundo que não pára de fazer ruído, e em grande parte devo isso a ti. Aliás, desde que sou pai e agora ainda mais depois do AVC, cada vez tenho menos vontade de falar só por falar. As palavras são de prata e os silêncios de ouro e não é bom esbanjá-los. E cada vez gosto mais de ser aquele que ouve do que aquele que fala. Eu posso ter-te ensinado imensas coisas, mas isto foi algo que aprendi contigo.

Apesar da nossa amizade, eu sei que tens imenso respeito por mim e por vezes esse respeito ganha forma de ultra-reverência e até de algum temor. Por isso é que ainda não me disseste que tu andas com a Cláudia. Eu sei que sou muito melindroso quando o assunto são as três mulheres da minha vida: a minha filha, a minha Mãe e a minha irmã, mas de mim não tens nada a recear. Tu não és um qualquer, conheço o teu carácter e o teu coração e sei que, dê no que der, a vossa relação será algo muito positivo para a Cláudia. Tal como me ensinaste a arte do silêncio e da medição de palavras,  talvez ela aprenda contigo a tua outra arte de medir as emoções. Não é à toa que diz que as águas mais paradas correm mais fundo. 

Pedro        

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Jogar na Raspadinha

Com que então a assobiar a "Mrs. Robinson"? Não é do teu tempo, mas na minha adolescência saiu uma versão dessa canção na versão dos Lemonheads, cujo vocalista Evan Dando não ficava nada a dever ao Kurt Cobain e ao Eddie Vedder na categoria "roqueiro podre de bom, embora desgrenhado e com ar que não toma banho há dias".

Mas não admira que andes todo inchado. Afinal, para um rapaz de 24 anos, encantar uma trintona jeitosa é subir a outro nível. E sentes-te todo orgulhoso disso e super macho, até porque eu tenho muito mais pedalada que as miúdas que já engataste. Sim, porque hoje em dia, as raparigas já são umas matulonas aos 16 anos (não sei que fermento andam a meter nas papas) e costumam desde cedo ter muito rodagem e engenho, mas a arte do amor só se alcança quase sempre com a sabedoria da idade. E eu fui-me encantando por ti, por seres bonito, por teres piada, por ainda teres a ilusão que tens o mundo na palma da mão, porque os teus genes e o teu berço abençoaram-te com uma vida relativamente despreocupada. E no entanto, tens sabido ser homenzinho quando é preciso, e não só na cama. Não sei se isto vai dar em algo mais do que aquilo que temos agora, nem quero saber. Além disso, desde há muitos anos que tenha a minha independência e gosto de viver só para mim. Não me consigo imaginar a dividir o meu território com qualquer macho, por isso em vez de jogar no Euromilhões para uma reduzida chance de encontrar aquele que um dia me fará mudar de ideias, jogo na raspadinha. É só raspar, ver se há prémio e toca a andar, senão paciência.

Se calhar sou eu que tive um azar e só conhecei três tipos de homens: os pelintras que até podem amar uma mulher mas que não conseguem manter-se fiel a nenhuma, os tiranos que só sabem lidar com as mulheres submetendo-as à violência das palavras e das pancadas, e os pantufas que não se importam de ser mandados pelas suas mulheres para não haver chatice. À minha irmã, saiu-lhe na rifa exemplares dos dois primeiros tipos: casou com um pelintra que a deixava sozinha em casa com um filho nos braços para ir para a borga e depois ainda sofreu nas mãos de um tirano. Felizmente que ela pulou fora ao primeiro tabefe que o estafermo lhe deu, mas este já tinha conseguido abrir-lhe algumas feridas na alma que demoraram a sarar. 
Já os pantufas não me incomodam, talvez por que o meu Pai tenha sido um deles. Ele pode ter sido todo um manda-chuva  top dog no seu trabalho, mas em casa a minha Mãe é que mandava, ele deixava e têm sido felizes assim. E não levas a mal se eu te disser que te imagino no futuro como ele, dada a tua pachorrice e a anuência quando eu tenho de me armar em mãezinha contigo (ao andar com um rapaz treze anos mais novo, sabia que não havia como evitar esse papel de vez em quando). Consigo imaginar-te a chegares a casa, a tirar a gravata, a calçares as pantufas e movimentares-te consoante as rédeas do lar guiadas pela tua esposa, que com um pouco de sorte talvez não seja uma chata.

Diz quem sabe que existe o quarto tipo, o do homem a sério. Pelo que vejo de certos maridos e namorados de algumas amigas e sobretudo pelo meu primo Jorge, que tem sido sempre o irmão que eu nunca tive, sei que não é um mito e com uma pouco de perspicácia, até pode ser que não existam tão poucos como isso. Se calhar nunca tive foi muita sorte na raspadinha. Seria óptimo que me saísse um dia um homem disfarçado de grande prémio, mas não posso viver a minha vida em função da esperança que isso aconteça, ainda mais com esta idade. Em vez disso, vou aproveitando os pequenos prémios. E tu, meu puto engraçado que assobia a "Mrs. Robinson", tens sido um prémio que tem valido a pena raspar. Pode parecer pouco, mas vindo de mim é um grande elogio.

    



  

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Aprender a Namorar

Pedro

Ainda não sei bem para onde vai isto que tenho com a Sandra. Mas pelo menos já sei que se pode chamar um namoro. Descobri na festa de Réveillon onde fomos com o Francisco e a Rita quando as doze badaladas foram a banda sonora de um longo beijo que trocámos. Não consigo imaginar uma melhor maneira de entrar num novo ano. Foram precisos trinta e dois anos de vida e vários acidentes de percurso para aprender o que é namorar. Se calhar por isso é que essas sensações fazem-me sentir como se tivesse dezasseis anos, pois só poder passear de mão dada com ela faz-me acelerar o pulso.
Só por isto, já valeu a pena estar com a Sandra. Descobrir a ternura de pequenos gestos, trocados sem marcação nem motivo. Sentir um doce conforto em ter o outro ao nosso lado, mesmo sem tocar ou cruzar olhares. Habituarmo-nos ao conforto de amar um corpo que se conhece mas que ainda oferece novas possibilidades e vários níveis de intensidade. Dizer o que nos vai na alma sem medo do ridículo. Depois de uma mulher que tinha um ninho de vespas em vez de coração e outra que tinha o seu fechado para obras, é reconfortante encontrar uma que ousa acolher-me no coração.

Mas não sou parvo e sei que nem tudo são rosas. Como todas as mulheres, a Sandra tem os seus caprichos, mistérios e momentos WTF, e já tive que aparar uns golpes e refogar alguns azeites. E sobretudo, ser um apoio para ela, ser um homem. Claro que nem sempre acerto, mas eu vou com calma. Melhor que ninguém, eu sei que ser feliz dá trabalho. Não foi por obra e graça do Espírito Santo que perdi todos aqueles quilos, mas sim com muitos sacrifícios, privações e forças a sítios onde nem sequer sabia que tinha de buscar. Aliás, nunca nada na vida me foi dado de mão beijada. Por isso, vai ser preciso muito para eu esmorecer. Mais do que estar a viver um romance (com o seu quê de escaldante) com uma mulher gira e fantástica, adoro sobretudo o facto de eu ser a pessoa que sempre quis ser quando vivesse algo assim e de eu não recear certas coisas que antigamente me encheriam de dúvidas e ansiedade. Mais do que me fazer apaixonar por ela, a Sandra conseguiu fazer-me apaixonar por mim. E não há nada melhor que isso. Por isso, não me preocupo se este namoro é para durar ou será um breve conto. 

Miguel

P.S.1: Já sei que sabes da Cláudia e do Tomás. Vá lá não sejas mauzinho para o puto, que ele anda cheio de medo. E olha que depois de tantos estroinas com que a tua irmã andou, já era tempo de ela se agarrar a um tipo decente.
P.S.2: Feliz Ano Novo. Outro dos motivos pelos quais este foi o meu melhor Réveillon foi por saber que estás de novo bem, vivo para ver chegar um novo ano.