segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Reencontros Imediatos do Terceiro Grau

Miguel:

A vida tem destas piadas. Não é que na semana do Dia dos Namorados, tanto eu como a Rita recebemos como prenda dois reencontros imediatos do terceiro grau com os nossos ex?
Primeiro foi no shopping, tínhamos ido ver o "Golpada Americana" e à saída cruzámo-nos de caras com o Nuno, o ex da Rita, que trazia atrelada uma bimba com ar de futura concorrente da "Casa dos Segredos". Como não era impossível simular uma miopia temporária, lá tivemos que nos cumprimentar e ele viu-se obrigado a apresentar-nos a tal Tatiana. Claro que eu fui bastante cordato mas durante os breves minutos que durou essa cerimónia forçada, mas na minha mente só imaginava o meu punho a aterrar na cara de parvo dele. E tu sabes que são muito poucas as pessoas que me despertam uma vontade urgente de lhes ir à cara. Nem consigo compreender o que é a Rita viu naquele estafermo, todo pipi e convencido e como é que ela aguentou tanto tempo até lhe mandar ao bilhar grande, sabendo que ele andava a traí-la a torto e a direito. Aliás consigo, porque me lembro bem da Rita que eu conheci, tão insegura e tão pouco ciente dos seus encantos de mulher. E infelizmente existem muitos homens que se alimentam de mulheres inseguras, levam-nas com palavras bonitas e fazem delas o que querem. Não custa a crer que tenha sido isso que se passou com o Nuno e a Rita. Mas felizmente que a Rita teve a capacidade de dizer basta quando as patifarias dele tornaram-se óbvias demais para serem ignoradas. E a perda dele foi o meu ganho, e sobretudo o da Rita que não mostrou nenhum embaraço e no fim até me disse:
- Nem acredito que eu gostei daquele gajo. Eu era cá uma tótó!

Depois no próprio dia 14, fomos jantar fora e não é que de todos os restaurantes desta cidade, não me entra a Mariana? Eu que a julgava para sempre remetida lá para o Porto, entre a Torre dos Clérigos e o Estádio do Dragão. Vinha acompanhada da irmã e de mais uma meia-dúzia de amigas, ao que parece era a primeira paragem da noite de despedida de solteira de uma prima dela. Como ela se mudou para o Porto pouco depois de termos acabado, foi fácil para mim arrumá-la numa recôndita prateleira emocional mas agora revê-la de novo ao fim de cinco anos chateou-me mais do que gostaria.
Bolas, ninguém está imune de ser corno mas apanhá-la em pleno acto no carro dela com o parvalhão do Eduardo foi péssimo demais, algo assim que ataca sempre como um murro num gajo. Tenho ainda bem presente a cara do cabrão, que sempre teve inveja de mim, com um sorriso nojento. E no entanto tudo o que fiz foi dar meia volta e deixar no dia seguinte à porta da casa dela um caixote com todas as suas coisas que estavam no meu apartamento. Se era para arrancar o penso, mais valia ser logo.
A Mariana acabou por ir ter com a gente, escudada pela irmã, trocámos algumas perguntas de circunstância, apresentei-lhe a Rita. Continua lá no Porto, gosta de lá estar, não anda com ninguém de momento. A Rita tirou-lhe as medidas, percebeu que a presença da Mariana estava a incomodar-me mais do que eu queria, mas nada disse do que olá e boa noite e também não disse nada quando chegámos a casa. Ela já sabe que quando me acontece algo assim, o melhor é eu digerir bem. Além de que a mulher que ela hoje é já não se põe com receios infundados e outras ninharias emocionalmente patológicas a que muitas mulheres se dedicam quando confrontadas com o passado dos seus companheiros.  

É claro que a Rita vale mais do que dez Marianas. É claro que nunca gostei da Mariana como eu gosto da Rita. É claro que a minha relação com a Mariana não tinha muitas pernas para andar, por imensos motivos. Mas tu bem sabes como foram muito poucas as mulheres a quem me entreguei mais do que eu estou disposto a permitir e a Mariana foi uma delas. Por isso doeu o que ela me fez e ainda dói recordar-me disso tudo, e só não dói ainda mais porque ela felizmente está longe e não tenho muitas hipóteses de a reencontrar, ao contrário da Rita com o Nuno. Por isso demorei tanto tempo a admitir que estava apaixonado pela Rita e a perceber que ela era alguém a quem me podia entregar sem reservas nem receios. 

Apesar de tudo, foi bom descobrir o quanto nós dois percorremos desde que estamos juntos. Para trás não é caminho e por isso estas ricas prendas inesperadas não foram nenhuns presentes envenenados mas sim uma revisão de lições aprendidas. Estou certo que quando tu e a Sandra passarem pelo mesmo, também o irão descobrir.

Francisco 

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