sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Silêncio é de Ouro

Ângelo, seu filho da mãe. Morreste assim de repente, logo tu que tinhas uma saúde de ferro, apesar de te queixares de dores que só existiam na tua cabeça e de teres "é tomar um comprimido" como resposta a todas as maleitas que tu e eu tínhamos. O certo é que nunca faltavas à hidroginástica e às caminhadas e estava certo que eu ia primeiro que tu. Mas o certo é que anteontem, acordei e o teu corpo na cama ao lado estava frio e sem vida.
E agora deixas-me aqui e estou sozinho outra vez. Já não me bastava perder há três anos a minha Adelina com quem estive casado quarenta e seis anos (mais sete de namoro) numa trombose e ter os meus três filhos longe, um na Alemanha, um na Suíça e outro em Lisboa, mas sempre tão ocupado entre o trabalho e a família dele que se vem cá acima uma vez por mês já é muito. Mas não reclamo, porque este lar é caríssimo e custa muito a cada um deles, já que a minha reforma pouco ajuda, e pelo menos sempre telefonam regularmente e tiveram a preocupação de procurar um sítio em condições em vez de me espetarem num pardieiro qualquer, como muita gente que eu conheço. Ainda assim, maldita a hora em que me atribuíram como teu colega de quarto. E sobretudo, maldita a hora em que te enfiaste na minha cama e me fizeste coisas que não são para se dizer. 

Nem sei bem porque é que eu deixei. Se calhar foi saudades da Adelina, quase cinquenta anos a partilhar uma cama, por entre tempos mais prósperos e outros em que tínhamos pouco mais do que um ao outro. Décadas em que nos amámos, primeiro com a ânsia de jovens, depois com a solenidade de adultos e por fim com a ternura de velhos. Creio que sozinho na nossa casa, com tudo o que me lembrava dela, eu ainda dava em doido. Por isso, assim que os meus filhos me falaram em ir para um lar, ao menos estava acompanhado e tratavam de mim, disse logo que sim, está bem. Mal sabia eu que iria partilhar um quarto contigo. E às vezes a cama e aquelas coisas que não são para se dizer.

Pelo que dizias, sempre foste assim. Se fosse hoje em dia, quando até já se pode casar homem com homem e mulher com mulher, talvez nunca tivesses guardado isso no silêncio e poderias fazer isso às claras com quem quisesses. Mas os tempos eram outros, essas coisas, embora feitas na calada, não se diziam. Mas tal como vim a saber que toda a gente aqui sabe o que tu és embora nunca ninguém tenha dito nada, também a tua mulher sempre soube. Naquele tempo, para uma mulher, mais valia ter uma amostra de homem do que não ter homem nenhum, e por isso não exigiu mais de ti do que lhe dares filhos e cumprires as tuas responsabilidades de pai. Como vocês tiveram logo duas gémeas, ela não mais te procurou e entreteve-se entre os afazeres do trabalho e da família e tu pudeste fazer o que querias fazer com quem calhasse, quando calhasse, sempre com toda discrição, claro. Só com ambos reformados e as filhas encaminhadas é que vocês se separaram: ela ficou com a casa e tu vieste para aqui.
Não vou ser hipócrita e dizer que não sou como tu. Afinal de contas, não me neguei a nada que me propuseste. Mas antes de ti, nunca sequer me ocorreu fazer isso que fizemos sem nada dizer. Os meus interesses foram só para mulheres e até confesso que até foram umas quantas que desejei, antes e depois da Adelina, embora tenha sido sempre fiel. Mas no fundo, contigo, a questão nunca foi seres homem como eu, a questão é que tinha alguém para abraçar, ter o que ainda podia ser mais parecido com amor no que me restava da vida. Sempre eras um conforto que eu tinha contra o espinho da minha solidão. Mas até me isso foi negado e partiste para o outro mundo primeiro que eu. Como é que me pudeste fazer isso?

Por isso, já decidi. Lembras-te quando o Virgolino, com uma Alzheimer tal que nem sabia a quantas andava, se enfiou no nosso quarto, revolveu tudo e até mijou no roupeiro, e assim ficámos a saber que ele era pai da Directora e que estava no lar à pato num dos melhores quartos? Quando a esse lhe der o badagaio - e isso está por dias - peço à Directora para ir ao quarto dele em troca de manter o meu bico calado. Já que estou fadado para passar o tempo que me resta sozinho, ao menos passo-o sossegado e bem arranjado no meu canto, a pensar na minha vida, na Adelina, nos meus filhos e netos e nas coisas que fiz contigo mas que nunca poderei dizer. Sempre ouvi dizer que o silêncio é de ouro.            

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