Se até a mim pareceu uma cena surreal, imagina para o nosso Pai. Vistas bem as coisas, não devem ter sido muitos homens que passaram uma semana de férias na Manta Rota com o filho e o namorado deste. Claro que o Pai foi sempre muito cordial com o Filipe e a maior parte do tempo até conseguiu abstrair-se do cenário insólito. Eu e o Filipe também concordámos em dormir em quartos separados e em não trocar manifestações de afecto diante dele, aliás em público somos sempre bastante discretos, preferimos sempre deixar isso para quando estamos os dois a sós.
No entanto, havia momentos em que o semblante do nosso Pai dizia tudo. Olhava para mim e para o Filipe, e era notório o desconforto. Estaria ele a imaginar com desagrado o filho dele agarrado aos beijos com outro tipo? Ou a desejar que a Mãe ainda fosse viva para lhe dizer como falar e agir diante desta situação inédita?
Sei que para ele é difícil. Ele cresceu a pensar que homossexualidade era algo simplesmente inconcebível e imagino que deve ter sido muito duro saber que um filho dele gostava de homens e que foi preciso muito esforço para compreender. Claro que ele e a Mãe sempre souberam, por isso posso dizer que nunca saí do armário porque nunca cheguei a entrar. Se calhar já sabiam antes de ti, que reparaste quando víamos as "Marés Vivas" e enquanto te babavas com a Pamela Anderson, eu entusiasmava-me tanto com o David Charvet que notaste o alto nos meus calções. Por isso, já significa bastante para mim que o Pai me aceite e me compreende, mesmo que não goste mas a isso não é obrigado.
Já achei extraordinário o Pai ter aceitado em vir. Quando lhe propus ir connosco foi naquela da brincadeira, imaginando que ele iria dizer que não. Não sei bem porque terá dito sim, mas acho que foi porque já não ia Algarve desde que a nossa Mãe morreu. Eles tinham retomado a ideia de ir fazer férias no Algarve nos dois Verões antes da morte dela, agora que os três filhos estavam foram de casa, e que tinham redescoberto a nova dinâmica de serem só eles os dois. Pensavam que passariam o resto dos seus dias serenamente os dois lado-a-lado, gozando a reforma, acolhendo as visitas dos filhos, ansiando a chegada dos netos por ainda uns bons anos. Foi um sonho que foi muito duro de abdicar para o Pai, ainda mais do que o seu desejo secreto de que eu estivesse só "numa fase". Mas que ele tinha de abdicar para continuar a viver em paz.
Partimos a meio da noite, como fazíamos quando íamos para o Algarve em putos, lembras-te? Para mim essa a melhor noite do ano, quando os pais nos acordavam, vestíamo-nos à pressa, descíamos as escadas com as nossas mochilas prontas a serem engolidas pelo porta-bagagens do carro. Depois sentávamo-nos no banco de trás e como sempre eu ia ao meio. De um lado, sentavas-te tu, que não tardavas em adormecer, e do outro, a Mónica, que a Mãe levava sempre com mil cuidados para não acordar, sempre a dormir imperturbável na cadeirinha dela. Também era costume a Mãe adormecer passado um bocado. Mas eu ficava acordado e olhava fascinado para a estrada a ver a noite transformar-se em dia. Primeiro o escuro da noite apenas iludido pela luz dos faróis, depois um rasgo vermelho do sol nascente, depois a metamorfose num céu azul e chegávamos a meio da manhã, com o cheiro a mar a insuflar-nos os pulmões. Como se a nossa cidade fosse o país da noite e o Algarve o país da manhã e o carro tivesse cruzado clandestinamente a fronteira entre os dois.
Na noite da partida, o Pai falou-me desse tempo, em que olhava pelo retrovisor e via-me de olhos bem abertos, fixos no horizonte da estrada enquanto os outros dormiam. E nessa madrugada, enquanto o Filipe dormia a sono solto no banco do passageiro, pareceu que os papéis tinham-se invertido. Eu é que estava a conduzir, atento à estrada, mas ao ver o Pai pelo retrovisor, vi que ele olhava fixamente em frente para o longo do céu e da estrada. Gostei de imaginar que era agora ele que se deixava maravilhar pelo encanto do nascer do sol, como se tivesse cruzado a fronteira do dia da noite com um prazer transgressor e que à chegada havia um horizonte de mar e de sal para o acolher. E que algures na aurora, a Mãe estaria lá.
Com um abraço,
Ricardo
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