sexta-feira, 15 de junho de 2012

Criaturas terrestres

Vá lá, arrisca que uma miúda como a Sara vale a pena. Ela diz que não está chateada, afinal de contas ainda não eram oficialmente namorados, mas claro que ficou magoada por saber que tu andaste a fazer revisão da matéria dada com a Telma, uma dessas mulheres-andorinhas que andam sempre de pouso em pouso e volta e meia regressam às paragens antigas, no meio de um belo chilreio para depois bateram as asinhas. Tantas dessas mulheres costumam ter-te como paragem no itinerário e nunca recusaste o albergue.
Não há mal nenhum nisso, desde que não tenhas na tua vida alguém que te pode dar a primavera no ano inteiro. Já dizia o Bukowski que um homem só precisa de muitas mulheres quando nenhuma delas é grande coisa. E até esse doido poeta do álcool, da indigência e dos low life, mesmo com trezentas ressacas por ano, teve cabeça suficiente para perceber que lhe tinha calhado uma rapariga decente no meio das mulheres que o circundaram, quando o sucesso finalmente o tornou sexualmente atraente e esforçou-se o melhor que pôde por Linda Lee Beighle. Curiosamente, em Mulheres, o romance onde compendiou as mulheres que agora se aproximavam dele aos enxames nessa fase da vida em que ele se viu quase um rockstar, cheia de sexo e com a eterna amiga garrafa em vez das drogas e do rock&roll, Bukowski deu a Beighle o pseudónimo de Sara.

Agora chegou a altura de descobrires se queres lutar pela tua Sara. Pensa com cuidado no que lhe vais dizer mas mantém o discurso simples e directo. Basta apenas dizer que gostas dela, que ela é diferente de todas as outras que vieram à tua rede, que és capaz de dar mais que aquilo que tens dado. É isso que ela quer ouvir-te dizer, e se reparares bem, vais ver que estas palavras estiveram sempre em ti.  Não te deixes enganar quando ela diz que está tudo bem e não precisas de justificações nem pela sua pose forte e orgulhosa. Sabes muito bem que um dos ardis das mulheres é dizer um coisa e querer dizer outra, esperando que nós não sejamos tão básicos e que saibamos captar a mensagem subliminar.

Não te rales com um boçal orgulho de macho, não tenhas medo de fazer figura parva, não receies que as palavras se enredem na garganta e saiam meio cacofónicas, ela é esperta o suficiente para perceber tudo e não levar a mal a tua atrapalhação. Ela saberá que tu estás a dar um passo que nunca deste antes. Fica mais bonito se lhe disseres olhos nos olhos, mais cinematográfico se te declarares publicamente mas basta pegares no telefone e dizeres tudo. A mensagem é que interessa, seja em acordes de guitarra ou em compassos telegráficos.

Deixa as migrações amorosas para as aves a sério, que têm asas e são livres de voar para onde bem entenderem. Nós somos criaturas terrestres, de pés assentes no chão. Mas mesmo assim, percorremos caminhos, visitamos países, vencemos distâncias. Dá-lhe uma oportunidade de te guiar. Quem sabe se ela não te dá a conhecer os rumos que te levam aonde sempre quiseste chegar, mas que não podias porque andavas às voltas nos mesmos lugares?

1 comentário:

Catarina disse...

deixei-te um selo em http://paginas-encadernadas.blogspot.pt/2012/06/selo-liebster-blog.html

espero que não te importes ^^